O amor é como o café.
mas não diga isso alto,
porque ele se ofende fácil,
como se fosse maior do que qualquer comparação.
Ainda assim, eu digo
é como o café que esqueço na mesa
enquanto penso em você
sem saber que estou pensando.
Bebo um gole
e não sei se é amargo
ou se sou eu que ainda não aprendi
a ser doce o suficiente.
Há um silêncio entre um gole e outro,
e nele mora alguma coisa que não sei nomear.
Talvez seja o amor.
Talvez seja só o intervalo
em que a gente se percebe vivo.
O café esfria.
O amor também.
Mas há algo que permanece quente
mesmo quando tudo já parece ter ido
um resto de calor nos dedos,
uma memória que não se explica.
E então eu entendo, sem entender
amar é isso
beber devagar algo que nunca se termina,
mesmo quando a xícara já está vazia.
o amor não foi feito pra durar intacto,
nem pra ser sempre quente,
nem sempre suportável.
Ele foi feito pra ser vivido.
Mesmo quando esfria.
Mesmo quando amarga.
Mesmo quando acaba antes da última gota.
Porque, no fim,
o amor não é a xícara cheia.
É o que fica em você
depois que já não há mais nada.











