tinha dito aquilo de brincadeira , esperando , como sempre , um contra-ataque . mas valentín apenas concordou , o que o fez franzir as sobrancelhas . o desvio sutil de roteiro o deixou surpreendido , mas deveria imaginar que as pessoas ficavam mais emotivas em casamentos . e ok … era verdade . leonora estava magnífica . era a noiva , então era de se esperar que todos os olhos estivessem voltados para ela . menos os de vincent , que estavam focados demais no padrinho do casamento . só desviou na hora que ele citou bianca e o olhar do grimaldi seguiu até a filha mais velha , constatando que sim , ela também era bonita . ‘ eu fiquei com os dois . a beleza e o dinheiro . vantagens de ser filho único . ’ deu de ombros , despretensiosamente . ele tinha feito aquela piada mil vezes na vida — sobre ser bonito , rico , inegavelmente o centro do universo . porque , no fundo , era só isso que tinha . se fosse para ser sincero , não se importaria de dividir a herança se tivesse irmãs como as de valentín . porque era isso que via : uma família unida , um filho bem resolvido , duas irmãs maravilhosas e um casamento impecável . às vezes , era difícil competir com esse tipo de estabilidade . mas tudo bem . ele tinha ... bem , ele tinha um título da fórmula 1 e uma reputação instável . quase a mesma coisa . a gargalhada abafada veio logo depois , quando duas tias de valentín começaram a gritar pelo salão . vincent mordeu o lábio inferior para conter a risada . ‘ não exatamente escândalo , mas definitivamente um espetáculo . ’ murmurou , baixinho , tentando manter a compostura de convidado bem-comportado . mas por dentro , a comparação era inevitável . as vozes altas , as piadas , os abraços apertados entre os marqués contrastavam demais com os grimaldi . lembrou-se de marc grimaldi em sua poltrona , com o sorriso plastificado para a câmera e as palavras ensaiadas . o “meu filho é meu maior orgulho” que sempre parecia uma frase de assessoria de imprensa , e não um sentimento de verdade . se existisse uma câmera escondida , as aparências de “família perfeita italiana” desmoronariam em segundos . odiava quando essas memórias apareciam como se tivessem sido convidadas . foi salvo pela voz de valentín de novo . ‘ vou contratá-la para organizar o meu casamento . ela é boa . ’ era uma piada , claro . não gostava de pensar em casamento como algo possível . porque quando pensava , só se perguntava ‘’com quem?’’ e não tinha resposta para a própria pergunta .
o marqués estava nervoso . era perceptível até mesmo em seu olhar . quando a cerimonialista o mirou como uma águia pronta para atacar , vincent olhou de valentín para a mulher , e depois de volta para valentín . ‘ você não vai desmaiar . ’ esticou o braço e pousou a mão no ombro dele , firme , o polegar deslizando uma vez , como quem queria passar segurança . ‘ se ficar muito nervoso , imagina todo mundo pelado . ’ murmurou , com um sorriso enviesado nos lábios . ‘ metade dessas pessoas já está bêbada , e a outra metade vai estar quando você terminar . ninguém aqui vai lembrar de cada palavra . mas vão lembrar que você ama a sua irmã , e isso é o que importa . ’ a mão ainda estava no ombro dele , e por um instante , vincent pareceu esquecer de tirar . só lembrou quando os olhos se cruzaram de novo , e então afastou a mão devagar , com um pequeno pigarro e um movimento qualquer , como se estivesse ajustando a manga do próprio paletó . ‘ se você gaguejar ou tropeçar , eu juro que finjo um desmaio pra distrair . ’
a cadeira de vincent estava perfeitamente posicionada , mas ele se inclinava para frente como se , por instinto , quisesse estar mais próximo . o cotovelo estava apoiado na mesa , os dedos entrelaçados na frente da boca e o olhar fixo no espanhol . ele não sabia exatamente por quê , mas o simples fato de estar ali , naquele momento , ao lado dele , fazia o coração bater um pouco mais rápido . nada estranho , apenas a expectativa genuína de um amigo que quer apoiar o outro . valentín começou a falar e o salão , antes repleto de burburinhos e risadas abafadas , foi se acalmando até restar só a voz dele . as primeiras palavras eram aquilo que se esperava , mas não deixava de ser bonito como ele falava da irmã com tanta ternura . como valentín deixava o coração transparecer em cada frase , como a voz dele vacilava de leve no fim de algumas palavras , como o olhar ia até a mais velha como se ela fosse o sol . os olhos do italiano seguiram a direção do olhar de valentín quando ele falou das fotografias , e ele admirou a decoração de alguns momentos do casal . ele reconheceu o talento — não só de leonora , mas o talento em eternizar o amor . o amor como ideia , como memória . a risada escapou quando valentín falou do scrapbooking . uma risada leve , abafada , que ele tentou esconder atrás da taça . conseguiu visualizar a cena inteira : valentín com cara de atentado , o caderno flutuando na piscina , leonora gritando como se o mundo estivesse acabando . um sorriso lento surgiu em seus lábios e se manteve ali , mesmo quando as palavras foram ganhando mais peso . vincent achava que sabia o que era amor . já tinha sido amado , ou algo próximo disso . já tinha feito juras em carros esportivos e terminado relacionamentos em aeroportos . mas nada … nada se comparava ao que estava ouvindo agora . o mundo ao redor se tornou um ruído abafado , como se o salão , as risadas e até o tilintar dos copos se dissolvessem em segundo plano . tudo o que existia , naquele instante , era a voz de valentín . e pela primeira vez em muito tempo , ele deixou-se sentir aquilo sem cinismo . e então ele olhou para o marqués de novo . com os olhos brilhando demais pro seu próprio gosto . e sentiu algo incômodo . não era só admiração . ele sempre admirou valentín . mas nos últimos tempos … era diferente . sentiu um calor estranho nas têmporas , o que o fez desviar o olhar . que merda era aquela ? ele sabia bem , só não queria pensar naquilo . por isso fingiu olhar o quadro que a cerimonialista trazia . fingiu estar analisando a moldura , ou as fotos antigas que valentín havia colado . fingiu tudo , como sempre fazia . mas a verdade era que ele só estava tentando respirar . quando todos ergueram as taças , ele fez o mesmo . mas o gesto foi automático , como se seus músculos só obedecessem por reflexo . por dentro , ele estava em colapso .
tudo parecia em câmera lenta . vincent viu valentín se aproximar da mesa como se o tempo tivesse esticado . o som ambiente parecia abafado , como se alguém tivesse mergulhado a cabeça de vincent embaixo d’água . só havia aquele zumbido insistente , e uma sensação de que algo muito importante tinha acabado de acontecer , mas o italiano não sabia exatamente o quê . piscou algumas vezes , confuso , e se levantou quase por reflexo , como se as pernas soubessem o que fazer antes da cabeça . estava olhando para valentín . demorou alguns segundos para processar o que ele tinha dito . a pergunta chegou até ele como um eco , e pela primeira vez em muito tempo , vincent grimaldi não teve uma resposta pronta . nenhuma provocação , nenhuma piada ensaiada . só havia uma coisa que conseguia dizer , porque era a única verdade possível naquele momento . ‘ você foi incrível . ’ as palavras saíram baixas , mas honestas . e mesmo depois de dizer , não desviou o olhar . não sabia por quanto tempo exatamente , só sabia que seus olhos ainda brilhavam — o mesmo brilho que tivera durante o discurso . ele parecia querer dizer mais . abraçá-lo , talvez — o que era estranho , porque já tinha abraçado valentín tantas vezes antes . no paddock , nos pódios , em fotos promocionais , nas entrevistas . mas agora … agora parecia diferente . mais íntimo do que qualquer abraço jamais deveria ser . vincent pigarreou , tentando preencher o silêncio que havia entre eles . ou pelo menos o que ele achava que havia , porque talvez só existisse em sua cabeça . então , para resgatar sua versão mais funcional , ele forçou um sorriso , mas levou a unha até os lábios em claro sinal de nervosismo . ‘ então ... agora que você já cumpriu a sua obrigação e comoveu metade da festa … o que quer fazer ? ’