(callum turner, homem cis, ele/dele) PREPARE TO GET STARSTRUCK! acabamos de ver 𝑉𝐴𝐿𝐸𝑁𝑇𝐼𝑁 𝐵𝑅𝑂𝑊𝑁𝐼𝑁𝐺 𝑀𝐴𝑅𝑄𝑈𝐸́𝑆 passando pelo tapete vermelho! com seus trinta anos, ele é um PILOTO DE FÓRMULA 1 conhecido pelos seus fãs por ser muito determinado e carismático, embora há quem diga que nos bastidores ele possa ser bastante impulsivo e teimoso. você ouviu o que os tabloides andam dizendo sobre ele? não? ah, eu te conto! estão dizendo que CONTRATOU UMA NAMORADA PARA O ACOMPANHAR EM EVENTOS! será que isso é verdade? hm… esperamos que não comprometa os seus futuros projetos porque realmente gostamos de vê-lo no topo!
✧ 𝘩𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑎 .
valentin marqués jr, piloto de formula 1 pela scuderia ferrari que segue os passos de seu pai. vale, como é chamado pelas irmãs, é provavelmente a pessoa mais dedicada que você vai conhecer. começou no kart com apenas três anos e desde então nunca mais quis sair de trás de um volante. tendo nascido em uma família tradicional e abastada da espanha, ele nunca passou trabalho quando o assunto era seguir o seu sonho. era apenas fazer tudo que seu pai lhe mandava e tudo daria certo.
valentin marqués sr apostou todas as suas moedas no filho mais novo. tendo duas filhas mais velhas que não queriam pilotar de jeito nenhum, sênior sabia que valentin era sua última esperança em vingar um de seus filhos na formula 1. apesar disso, ele sempre foi um pai amoroso e cuidadoso, nunca pedindo demais do filho e respeitando seus limites. valentin sabia que no momento em que disesse que não quer mais, seu pai respeitaria.
mas ele sempre quis mais, e com essa fome de vencer, ele subiu rápido pelas categorias de base. competiu na formula 3 e na formula renault 3.5, sendo campeão em ambas. foi membro da red bull junior team, subindo de categoria para a formula 1 pela então toro rosso. depois de várias temporadas conflitantes, passando pela renault e pela mclaren, valentin finalmente chegou na equipe dos seus sonhos: a ferrari.
desde de 2020, valentin marqués pilota pela ferrari e junto com a equipe construiu um bom histórico de pódios e vitórias, ajudando seu colega de equipe a ganhar o título mundial e o título de construtores. valentin sempre soube o seu lugar como segundo piloto, sempre respeitou o fato de que deveria ser um fiel escudeiro de seu colega e jamais pedir por algo a mais. mesmo assim, há uma semana foi anunciado que seu contrato na ferrari estava terminado e que ele precisava achar uma nova equipe para a temporada de 2026.
✧ 𝑝𝑢𝑏𝑙𝑖𝑐𝑖𝑑𝑎𝑑 .
sua maior e mais popular parceria é com o banco santender. foi uma das primeiras de sua carreira e já é uma marca registrada dele, sempre tendo a logo do santender nos seus capacetes.
ele é embaixador da loewe e da bulgari, mesclando as marcas em quase todos os tapetes vermelhos e eventos que participa.
tem parceria com a maserati, também do grupo fiat como a ferrari.
propagandas recentes para a TV incluem a marca de cafés lavazza e a linha área espanhola iberia airlines.
✧ 𝑟𝑒𝑑𝑒𝑠 𝑠𝑜𝑐𝑖𝑎𝑙𝑒𝑠 .
a rede social que mais usa é o instagram, acumulando mais de 11M de seguidores. ele não é muito ativo em outras redes sociais, mantendo uma equipe para administrar tudo por ele.
tem contas secretas no twitter e no tiktok, principalmente para poder ficar por dentro de tudo que os fãs comentam.
✧ 𝑝𝑟𝑜𝑦𝑒𝑐𝑡𝑜𝑠 𝑠𝑜𝑐𝑖𝑎𝑙𝑒𝑠 .
atualmente participa de um projeto social do governo espanhol para inovação e apoio a comunidades carentes espanholas, incentivando os esportes entre as crianças e jovens. ele patrocina esse projeto e construiu pistas de kart em dois bairros espanhóis. ele participa de perto do desenvolvimento dessas crianças e deseja que mais nomes espanhóis tenham destaque no esporte.
✧ 𝘩𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑎 𝑒𝑛 𝑙𝑎 𝑓𝑜𝑟𝑚𝑢𝑙𝑎 𝟷 𝑦 𝑣𝑖𝑐𝑡𝑜𝑟𝑖𝑎𝑠 .
histórico de equipes: toro rosso > renault > mclaren > ferrari.
seu número na formula 1 é o 14.
seu símbolo é o grifo, estando presente na sua logo e todos os seus capacetes.
vitórias com a ferrari: gp de monza e gp do bahrain (2020); gp da espanha e gp da bélgica (2021); gp da austrália, gp do brasil e gp da arábia saudita (2022); gp do canada, gp de singapura e gp do japão (2023); gp da arábia saudita, gp do méxico e gp da espanha (2024);
✧ 𝑐𝑢𝑟𝑖𝑜𝑠𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒𝑠 .
ele é bissexual.
tem três cachorros, castaña (uma border collie), chispa (um jack russell terrier) e torito (um vira lata).
nasceu e cresceu até os 12 anos em mallorca, se mudou para madrid e ficou lá até os 16 quando se mudou de vez para monte carlo e mora lá até hoje. tem casas em los angeles, nova york, milão e sydney.
é formado em engenharia mecânica e é um ótimo estrategista durante as corridas. escolheu o curso, pois queria saber tudo possível sobre os carros que dirige.
ama cozinhar e é o cozinheiro oficial das festas de família.
é fluente em espanhol, sua língua materna; inglês que aprendeu com a mãe britânica; francês, que aprendeu morando em monaco & italiano que aprendeu quando começou a pilotar pela ferrari.
seus ídolos na formula 1 são o fernando alonso e o ayrton senna.
família: valentin marqués sr (pai), emma browning (mãe), bianca e leonora (irmãs mais velhas).
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o bar continuou o mesmo depois que a chamada terminou. barulhento, abafado e cheio de gente falando alto sobre coisas que não importavam. o telefone ainda estava quente na mão, a tela apagada refletindo um pedaço torto do próprio rosto. ele sabia, mesmo bêbado, que tinha feito merda. largou o celular na mesa com força um pouco maior do que o necessário e passou a mão pelo rosto, esfregando os olhos. tinha sido interrompido antes de dizer o pior. e isso, ironicamente, era a única coisa que o fazia não se odiar completamente naquele momento. pelo menos não tinha dito em voz alta o quanto aquele beijo ainda estava preso na sua cabeça. a sensação da boca de valentín, o jeito cuidadoso que virou urgente em segundos, o choque de perceber que não só não odiou aquilo como queria de novo. era inadequado em todos os sentidos possíveis. valentín não era somente o seu colega de equipe, era seu amigo. e mesmo assim, o italiano tinha sido o pior tipo de covarde ao fugir da festa de casamento e de ignorar todas as mensagens do espanhol. se dependesse de valentín, eles já teriam conversado e resolvido aquela situação como adultos. tentou imaginar como seria essa conversa. eles fingiriam que nada aconteceu? ririam e seguiriam em frente até tudo voltar ao normal? vincent não conseguia. porque não tinha sido só um beijo. para valentín, talvez tivesse sido só um impulso ou a emoção do momento — casamentos eram emocionantes e deixava as pessoas sensíveis, ele entendia isso. mas não era o caso dele. para vincent, tinha sido um estalo tardio. ele tinha finalmente passado por cima desse desejo reprimido de ficar com outro homem… e tinha sido com a pior pessoa possível. não porque valentín fosse ruim, mas porque não era só uma experiência para o grimaldi. já existia sentimento antes, e agora não tinha como fingir que não. a ideia de valentín já ter beijado outros homens veio acompanhada de uma irritação súbita, desproporcional. não queria pensar nisso. pensar nisso o deixava com raiva, e ele nem sabia direito de quem. talvez de si mesmo. talvez do medo idiota de ter colocado tudo em risco por algo que poderia significar muito mais para ele do que para o outro. vincent fechou os olhos por um instante, apoiando a testa no balcão. ele tinha estragado tudo. ou talvez só tivesse adiado o inevitável. não sabia qual das duas opções era pior.
guardou o celular no bolso, aceitou o puxão de um dos conhecidos pelo braço e voltou para a roda como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse acabado de despejar metade da própria alma numa ligação idiota. alguém colocou mais um copo na mão dele. ele nem perguntou o que era. só virou. já tinha perdido a conta fazia tempo, mas sabia que o número era vergonhoso para alguém na posição dele, ainda mais num lugar público e com metade do paddock ali. tinha visto um ou dois pilotos de relance durante a noite, o que era normal. aquilo sempre acontecia depois das corridas. uns bebiam para comemorar, outros para relaxar, outros só para sair do quarto de hotel. vincent não estava ali por nada disso. ele bebia porque era um viciado de merda e porque o álcool ainda era a única coisa que conseguia desligar sua cabeça, nem que fosse por pouco tempo. e até funcionava. tinha conseguido esquecer da pressão absurda por mais um título, da negociação com a ferrari, da sombra constante do pai. mas não conseguia esquecer valentín. não importava o quanto bebesse, ele continuava ocupando espaço na sua cabeça. talvez fosse o álcool ou só o fato de estar pensando nele sem parar, mas quando desviou o olhar para a entrada do bar, podia jurar estar vendo o marqués ali. esfregou os olhos com força, xingando a si mesmo por estar tão fodido a ponto de começar a alucinar coisas. não adiantou. quando abriu os olhos de novo, ele ainda estava lá. entre dezenas de pessoas, os olhos dos dois se encontraram como se o resto simplesmente não existisse. vincent podia ter feito qualquer coisa. em vez disso, fez o que vinha fazendo a noite inteira. pegou outro copo, levou à boca e virou tudo de uma vez, como se o álcool fosse suficiente para apagar a presença de valentín. era o que esperava, mas o que recebeu foi o colega de equipe andando decidido até ele. o coração do grimaldi simplesmente falhou por um segundo conforme a distância entre eles diminuía.
quando ele finalmente parou à sua frente, vincent endireitou o corpo e ergueu o queixo em um reflexo defensivo. ‘ o que você tá fazendo aqui? ’ só então reparou no marqués de verdade e chegou a conclusão que ninguém deveria ficar tão bonito em um moletom. vincent desviou o olhar por meio segundo, xingando a si mesmo por pensar nisso naquele estado. o mesmo conhecido de antes surgiu do lado dele quase tropeçando, claramente já em outro planeta. o cara se jogou de lado, passando o braço pesado pelo pescoço de vincent num abraço torto. ‘ quem é esse aí? ’ apontou para valentín com a mão que segurava o copo de um jeito displicente, o líquido quase respingando na jaqueta alheia. não sabia se o outro estava sendo sarcástico, porque qualquer pessoa que conhecia vincent grimaldi conhecia valentín marqués. eles vinham em pacote fazia anos. ‘ ninguém. ’ não foi sua melhor resposta, mas era mais fácil do que explicar qualquer coisa. o conhecido franziu o rosto, deu de ombros como se aquilo não importasse e apertou ainda mais o braço em volta do pescoço de vincent. ‘ então deixa ele aí. acabei de arrumar uma gostosa pra você beijar. ’ ele riu, satisfeito consigo mesmo, puxando o italiano levemente para o lado, como se já tivesse decidido o próximo passo da noite. vincent sentiu o estômago revirar. estava bêbado, sim. mas não o suficiente para aquilo. no fim das contas, ele queria beijar alguém. e esse alguém estava ali, parado na sua frente.
se importar em níveis absurdos fazia parte da vida de valentín. era quem ele era. o problema que ele encarava ao chegar perto da boate não era esse. o problema era o alvo de toda aquela tormenta em seu peito. não deveria ser assim, é claro. alguém como vincent nunca deveria ocupar tamanho espaço em sua vida a ponto dele se deslocar de seu hotel, de moletom, sozinho, sem nem ao menos falar a língua local. transmitir seus objetivos na sua própria língua já seria um grande desafio, ele jamais ousaria tentar em outra. sua urgência eram reservadas apenas para si mesmo e para os olhos de vincent, porque essa foi a única coisa que conseguiu transmitir quando o viu. atravessou as poucas ruas que separavam o hotel da boate, (porque claro que mesmo num labirinto urbano como shanghai, os pilotos ficaram no centro da vida noturna), com um sentimento de desastre iminente. pensou em desculpas possíveis para ele estar fazendo o que estava fazendo. se fosse pelo caminho da amizade e dissesse que estava fazendo aquilo para poupar vincent de passar vergonha, iria acabar saindo como um chato controlador. todos que o conheciam sabiam que ele não era assim. se fosse pelo lado profissional e disesse que estava fazendo aquilo pelo bem da imagem da equipe, estaria sendo hipócrita. mesmo que fossem parte da mesma equipe, faziam parte de times diferentes. vincent criar um escândalo apenas ajudaria que os holofotes parassem de focar nele ao menos um pouco. não. na verdade, isso até poderia fazer sentido para alguém observando de fora, mas valentín estava sentindo a culpa o corroer. e isso era o maior ponto fraco de qualquer narrativa. ele não queria inventar uma desculpa. ele queria entrar naquele antro e arrancar vincent lá de dentro e o levar até o quarto de hotel que lhe pertencia por aquele final de semana. nada mais. queria que as pessoas o vissem e não soubessem nada. ele não devia nada aquelas pessoas, ele apenas devia a vincent a ajuda que gostaria de receber caso os papéis fossem trocados. então, assim que viu vincent, não hesitou nem por um segundo. seus passos foram firmes e rápidos, sem tempo de pensar muito ou mudar de ideia.
"eu vim te levar para o hotel. você já bebeu demais." foi firme, pois sabia que teria que escutar a manha do outro. ele iria reclamar e bater pé como uma criança. iria xingar valentín e dizer que ele não tem direito de fazer aquilo. e talvez ele não tivesse mesmo, mas ele o faria de qualquer jeito. o que o espanhol não esperava era que outros fossem interferir também. que fosse ter que aturar outras pessoas fazendo birra. bêbados idiotas. quando o outro cara colocou seu braço sobre os ombros de vincent, ele viu vermelho. não o rubro da ferrari ou o corar de bochechas ao escutar um elogio. não, aquilo era pura raiva. ele sabia que seu rosto entregava fácil o que estava sentindo e deu graças a deus pela luz da boate encobrir o calor subindo pelo seu pescoço. ele sabia muito bem que sentir ciúmes naquele nível não era um bom indicativo. e não era nem algo lógico. ele não queria ser o cara tocando em vincent daquele jeito, ele simplesmente não queria vincent naquela situação. queria estar fazendo outra coisa em outro lugar. queria estar num restaurante com o outro, onde ambos bebessem apenas uma taça de vinho. ou nem isso. queria estar no mesmo quarto de hotel, passando seu braço sobre o pescoço dele enquanto eles assistem algum filme para ajudar a distrair a mente depois de uma corrida caótica como aquela. não aqui, com vincent naquele estado deplorável. com o outro destruindo seu fígado e sua mente. o outro não era fraco, mas para ser forte você precisa que as pessoas ao seu redor lhe ajudem. não lhe puxem mais ainda para o buraco. e aquilo o fazia ver vermelho. "eu sou quem vai levar ele embora. eu sou um amigo dele. de verdade." não você com essa porra de atitude. não você com essa porra de braço sobre ele. antes mesmo que fosse possível impedir seus próprios atos, valentín estava tirando o braço daquele cara de cima de vincent. não puxando vincent, pois mesmo nessa situação ele não estava com coragem o suficiente para tocar nele. não, ele arrancou o braço do outro homem como se fosse um verme preso nos ombros do italiano. era isso que eram. todas aquelas pessoas. ele olhou ao redor por um segundo e não viu nenhum rosto conhecido ou amigável. todos queriam apenas estar ao redor de um campeão. ele sentiu uma dor tomar seu corpo ao escutar a resposta de vincent, mas sabia que isso era o lado irracional do outro falando. ele queria afastar valentín. queria correr com o espanhol dali, mas ele era mais teimoso do que isso. valentín engoliu seu orgulho e chegou perto de vincent, como se fosse sussurrar, mesmo aquilo sendo impossível devido a música e conversa. "vem comigo, vince. você já bebeu demais. vamos embora. agora." seu tom passou de uma súplica para uma demanda, porque nem ele sabia como agir naquela situação. ele queria arrastar o outro embora. queria colocá-lo nos ombros e sair daquela boate com um sequestro para a ficha. algo o impediu.
a voz do verme fez-se ouvida novamente e valentín partiu para cima dele assim que assimilou o que havia sido dito. ele iria olhar para trás para esse momento com um certo arrependimento, mas não pelos motivos os quais se imagina. ele se arrependeria de não ter socado o tal 'amigo' de vincent. de não ter descontado sua raiva bem ali. "ele não vai beijar ninguém, caralho! vai tomar no cu! vaza daqui! agora!" a cada palavra ele empurrava mais o homem para longe, que havia perdido o equilíbrio há muito e só não caía no chão com tudo pela concentração de pessoas ali. ótimo. quem estava fazendo uma cena era ele. e valentín não se importava mais. precisava daquelas pessoas longe. todas elas. ele demorou alguns segundos para encarar seu colega de equipe novamente. seu colega de equipe. como poderia estar fazendo aquilo? como poderia estar tornando aquilo tão difícil para os dois? vincent estava certo em tentar seguir em frente. estava certo em ignorá-lo, mas hoje não. "vem comigo. eu vou te levar de volta pro hotel. só... vem comigo." aos poucos, como lidando com um animal acuado, valentín levou a mão até a cerveja que vincent segurava. ele sabia que estava errado, mas ele não podia desapontar o outro. ele ainda era alguém que ele podia confiar. sempre seria. precisava ser. isso valia mais do que qualquer coisa e do que qualquer sentimento bobo que pudesse estar nutrindo. ele não queria aquela amizade como queria poder beijar vincent de novo, mas ele também queria aquela amizade mais do que queria ou aguentava o silêncio.
o começo da temporada tinha sido péssimo, pelo menos na cabeça de vincent. no papel, um pódio em duas corridas com um carro novo eram resultados sólidos, até impressionantes para alguém ainda se adaptando. ele sabia disso. qualquer um saberia. ainda assim, não conseguia se convencer. não era o carro que o incomodava. o problema tinha nome, rosto e sotaque espanhol, e vinha ocupando espaço demais na sua cabeça desde o casamento da irmã de valentín. desde então, vincent simplesmente não conseguia se concentrar como antes. pensava em valentín no briefing, no simulador, no carro, nos momentos em que deveria estar analisando dados ou estratégias. não tinha como provar, mas tinha quase certeza de que valentín tinha percebido. talvez por isso ele tivesse o ajudado naquela corrida, segurado posição, interferido no ritmo de propósito. em qualquer outra circunstância, vincent teria agradecido. aquilo era trabalho em equipe, era exatamente o que se esperava de dois pilotos da ferrari. mas não daquela vez. o media day tinha sido um desastre. valentín ainda tentou manter alguma normalidade, mas vincent não colaborou com suas respostas atravessadas. mal se olhavam fora do estritamente necessário, e mesmo nas reuniões de equipe as palavras eram poucas. então como ele ousava ajudá-lo na pista? como se nada tivesse acontecido entre eles, como se aquele beijo não tivesse mudado absolutamente tudo. vincent tinha ficado puto. foi por isso que acabou naquele bar no centro de shanghai. ele sabia que tinha um problema com bebida, mas também sabia seus limites. nunca antes de corrida, nunca comprometendo o esporte. sempre depois. só que daquela vez tinha passado do ponto. estava ali havia pelo menos duas horas, tinha virado doses demais e, embora ainda conseguisse se manter em pé, não enganava ninguém. estava bêbado. estava acompanhado de algumas pessoas conhecidas, gente com quem dividia noites assim, mas que não chamaria de amigos.
bastou se afastar por alguns minutos para cometer o primeiro erro. pegou o celular, rolou o feed sem pensar, até a publicação de valentín surgir na tela e ele ficar encarando a foto por alguns segundos. o segundo erro veio logo em seguida. abriu o facetime e ligou para o espanhol. nem chegou a pensar no que diria. e nem teve tempo já que valentín atendeu logo em seguida. ‘ o que você tá fazendo acordado? ’ vincent franziu o cenho, aproximando o telefone do rosto e tentando focar na imagem escura. não esperou resposta do outro lado da chamada. ‘ eu só liguei pra te dizer que você é um idiota. o maior dos idiotas, na verdade. o que você achou que estava fazendo hoje na pista? eu já disse que não preciso da sua ajuda. ’ fez um gesto vago com a mão livre, quase perdendo o equilíbrio. ‘ eu sou um grande piloto. eu conseguiria segurar aquela porra de mclaren enfiada no meu rabo por… ’ levantou os dedos, tentou contar mas desistiu. ‘ sei lá, por várias voltas. você não precisa bancar o bom samaritano. todo mundo já sabe que você é um excelente segundo piloto. certinho, rápido, confiável. é claro que qualquer equipe vai querer você ano que vem. então não faz isso de novo. porque vão achar que eu sou fraco. ’ ele bateu o dedo no próprio peito. ‘ e eu... eu não sou fraco! eu tô sendo forte pra caralho, na verdade. forte o suficiente pra entrar todo dia naquela maldita sala de reunião e fingir que nada aconteceu depois que você me… beijou. ’ virou um pouco o rosto, murmurando o final. a palavra saiu quase soletrada, baixa demais para saber se valentín tinha ouvido. vincent mal conseguia enxergar a tela naquele ponto, mas continuou falando, sem saber se estava sendo escutado ou ignorado. ‘ eu sou forte mesmo quando não consigo parar de… ’ foi interrompido por um grito ao fundo. certamente dava para ouvir na ligação um dos conhecidos falando ‘’vincent! sai desse telefone, cara! vamos tomar mais uma rodada!’’ ele olhou para o celular mais uma vez. os olhos estavam derrotados. por um segundo, pareceu que ia dizer mais alguma coisa. não disse. apenas desligou a chamada, rápido, como se aquilo fosse apagar tudo o que tinha acabado de fazer.
sua última temporada com a ferrari. mesmo que isso já fosse o que estava mais do que certo, ainda doía. ele jamais admitiria isso em voz alta ou demonstraria qualquer coisa similar nas entrevistas, ou reuniões. mas doía. o carro era ótimo, seu time era preparado, a equipe era a mais importante de todos os tempos e vincent... vincent tornava tudo mais difícil. sempre foi assim, mesmo que agora por motivos diferentes. valentín sabia que precisava se provar a cada segundo que se passava. ele precisava, mais do que nunca, deixar a sua marca naquela temporada. e as coisas na fórmula 1 nem sempre vinham conforme o manual. às vezes deixar a sua marca na temporada era encerrar a quali de melbourne destruindo a volta do seu colega de equipe, e, às vezes, deixar a sua marca na temporada era ajudar o seu colega de equipe a conseguir um pódio, mesmo que isso signifique que você vai ficar fora dele. nenhuma dessas duas atitudes tinha sido premeditada pelo espanhol. nas duas situações ele tinha feito o que pareceu correto no calor do momento e, incrivelmente, as duas coisas geraram briga. australia foi um fracasso e depois do incidente na quali valentín precisou dar suas respostas prontas da maneira mais educada possível. achou desculpas plausíveis e fez o que podia para não virar manchete de maneira negativa. virou de qualquer jeito, mas do jeito que queria: furioso, quente, espanhol. controlado, diplomático, inglês. era a mistura perfeita de seus pais até na pista. quando shanghai chegou, valentín não mudou nem ao menos uma gota de suas intenções. era a mesma mentalidade de sempre buscar o melhor para si e para equipe. e nesse caso a melhor atitude no momento foi ajudar vincent. não porque sentia que ainda devia algo para a ferrari. querer explodir maranello pouco tinha a ver com aquilo. seus sentimentos precisavam ficar guardados, porque quando as férias de inverno chegassem, a ferrari precisava estar no top 3 e todas as equipes com spots abertos deveriam querer ele. existiam as que já eram obviamente descartadas, mas existiam outras que ainda podiam lhe servir de algo. e ele precisava desse algo. ele nunca seria campeão mundial, ele nunca iria chegar a grande topo daquele esporte, mas ele ainda queria correr. pilotos como vincent existiam aos montes. predestinados ao sucesso e aos títulos, cegos por vitórias. esse não era valentín.
ele voltou para o hotel assim que pode. não subiu no pódio, então não tinha muito para comemorar. mesmo depois de todos esses anos pilotando, a sensação de um pódio ainda era perfeita e inigualável. podia ter vários, mas eles sempre seriam motivo de felicidade. e isso seria tirado dele. por mais que fosse um bom piloto, o melhor carro ainda costumava vencer. ou chegar muito perto disso. ele sentiria falta disso. então ele não iria comemorar cada corrida terminada mais. não. ele precisava ter preso em sua mente o sabor de um pódio, o sabor de uma vitória. para dar valor. para saber o que era aquilo e se arrepender todos os dias por perder. tal qual vincent. ele ainda não sabia como pensar naquilo sem surtar. era uma reação fisiológica. tinha tido vincent em seus braços, desfrutado do seu beijo e agora... nada. depois de poder saber o que é isso, ele jamais imaginou que a próxima interação dos dois seria quase sair no soco na austrália, mas foi o que foi. mesmo com as mensagens que valentín havia enviado, pedindo para conversarem, vincent não viu problema nenhum em ignorá-las. mas na pista... na pista era impossível. e agora valentín se encontrava deitado no seu quarto de hotel, com a vida noturna pulsando do lado de fora e a sensação de que estava perdendo tudo. ele queria beijar vincent de novo, mas acima de tudo ele queria seu colega de equipe de volta. seu amigo. não queria que ambos agissem como entidades separadas de algo maior. as coisas que aconteciam na pista precisavam fluir. e eles não podiam ir de uma briga pública em uma corrida para se ajudarem em outra. isso não iria funcionar.
seu telefone começou a vibrar em algum lugar do edredom amassado ao seu redor, e ele buscou por ele com certa preguiça. ele estava deitado cercado por coisas que não estava usando. seu kindle, seu notebook, um bowl de açaí com granola e banana comido pela metade, uma garrafa de dois litros de água e um hidratante. era como se ele tivesse disposto aquelas coisas ali na expectativa de fazer algo da sua vida, mas seu kindle estava desligado, seu notebook fechado, o açaí derretido, a água quente e o hidratante intocado. já seu celular quase voou quando ele puxou as cobertas com força. seus olhos leram o nome de vincent, mas aquilo não fazia sentido. não fazia nem um pouco de sentido. valentín buscou seus óculos de leitura no meio da sua bagunça, atendendo depois de criar um pouco de coragem. "vincent? porque você...?" mas ele não conseguiu terminar sua pergunta, porque vincent já estava falando antes mesmo de valentín ter uma chance. "eu estou... lendo." mentiu, vendo seu kindle desligado. vincent não precisava saber disso. e, então, valentín escutou. porque o italiano não parava mais e ele sabia que era isso que ele precisava. desabafar. a cada palavra o coração dele se quebrava um pouco mais. era claro o que o outro pensava sobre si mesmo. aquela necessidade doida de se provar. você não precisa se provar para mim, eu sei disso tudo. eu acredito nisso tudo mais do que você. deus, como podia sentir tanta dor ao escutar alguém falando assim de si mesmo? ele não deveria ligar. ele deveria estar feliz que seu colega de equipe e maior adversário está podre de bêbado, causando uma cena e destruindo seu fígado. mas não. ele não estava. ele sentia a cada segundo que passava uma preocupação crescendo em seu peito. "onde você está?" porque ele não iria discutir com vincent. o outro podia falar o que quisesse, mas ele não iria discutir. e de repente ele percebeu que perderia vincent logo. "onde você está? me responde, vincent!" já estava saltando da cama, enfiando seus tênis de uma maneira desajeitada, mas tão rápido quando o desabafo foi feito, vincent desligou. "merda, merda, merda!" ele tinha uma ideia vaga de onde os pilotos. existiam entre duas e três opções de bares do nível deles naquele lugar e o espanhol tinha escutado conversa sobre um específico e ele iria confiar no seu deus de que seria esse. valentín enfiou uma jaqueta por cima do conjunto de moletom e saiu quase que correndo do seu quarto. ele precisava achar vincent. ele não podia... ele não podia beber. ele precisava parar com aquele vício e valentín sabia que era possível. ele não conseguiria viver consigo mesmo sabendo que foi o motivo pelo qual vincent se perdeu novamente. não conseguiria.
no fundo, vincent sabia que conseguia dançar. não era nenhum talento digno de aplausos mas também não era um enorme desastre na pista de dança. sabia que poderia muito bem encarar algumas tias do marqués sem derrubar ninguém. e, com a quantidade absurda de champanhe servida naquele casamento, elas provavelmente nem notariam se ele pisasse no pé de alguém. mas não tinha dito “sim” por causa disso. tinha dito sim porque era valentín. e talvez porque queria prolongar aquela proximidade o máximo que pudesse sem admitir o que estava sentindo. o que ele não sabia era em que momento tinha deixado de prestar atenção na música e começado a ouvir apenas o som da própria respiração. podia ouvir seu próprio coração batendo como se quisesse denunciar tudo o que ele tentava esconder. quando a mão de valentín pousou na sua cintura, vincent sentiu o corpo inteiro reagir como se tivesse levado um choque. a respiração ficou curta, a garganta secou, e ele precisou de força de vontade pra não dar um passo atrás. se aquilo fosse só uma brincadeira entre companheiros de equipe, ele não estaria com o coração batendo desse jeito, descompassado e idiota. valentín avançou um passo, e o grimaldi demorou um segundo para processar e outro para reagir. um segundo ridículo. mas seguiu. deixou o corpo se ajustar ao ritmo dele, os olhos descerem para os pés — porque olhar nos olhos do espanhol era um risco que ele não estava preparado para correr naquele momento. mas foi inevitável. quando ergueu a cabeça de novo, estavam perto demais. e, com a altura quase igual, a distância entre o olhar dele e a boca de valentín era inexistente. não era a primeira vez que pensava em beijar um homem. só que das outras vezes, enterrar a ideia tinha sido fácil. era só lembrar do que tinha a perder. a carreira, a imagem, a ordem perfeita que ele tinha criado pra si mesmo. enterrar desejos sempre tinha funcionado. até valentín. valentín, que foi o primeiro a quebrar o silêncio entre eles. vincent franziu levemente o cenho, sem saber o que fazer com aquilo. claro que ele sabia. mas ouvir aquilo, daquele jeito, enquanto ele estava ali, com as mãos dele na cintura e a respiração deles se misturando… era outra coisa. ele assentiu, comprimindo os lábios, principalmente porque não sabia muito bem o que dizer.
‘ até mais que langdon? ’ foi o que acabou saindo. era o momento mais intenso que os dois já tiveram e ele sempre dizia as coisas erradas na hora errada. a risada escapou antes que conseguisse segurar, mas era claro que era uma risada nervosa. valentín estava ali. dançando com ele. fingindo dançar, na verdade. não com langdon, nem com ninguém mais. com ele. isso dizia alguma coisa, não dizia? vincent escolheu acreditar que sim. ‘ eu também me preocupo com você. mais do que eu achei que fosse possível se preocupar com um companheiro de equipe. ’ disse isso num tom que ficou mais baixo do que pretendia. mais honesto também. e foi aí que se deu conta do tamanho da confusão em que estava se metendo. porque ultimamente, pensar em valentín tinha virado rotina. pensava nele antes de dormir, quando acordava, quando estava no carro, quando fingia que não estava. e não tinha nada de profissional nisso. a próxima fala do espanhol fez o grimaldi suspirar e abaixar o olhar. um suspiro pesado, como se estivesse exalando anos de resistência inútil. então ele ergueu a cabeça novamente e, num movimento quase instintivo, a mão que estava apoiada no ombro de valentín deslizou para a nuca dele. os dedos se acomodaram ali, o polegar traçando movimentos lentos e curtos, como se já tivesse feito aquilo outras vezes. não tinha. mas parecia que sim. ‘ eu sei. estou… tentando mudar isso. ’ não era só sobre aceitar ajuda. era sobre tudo. sobre parar de fingir que não sente nada. sobre admitir, pelo menos pra si mesmo, que estava em guerra contra algo que já estava acontecendo fazia tempo.
a menção de langdon quase fez valentín parar o que estava fazendo. quase. ele não julgou a pergunta de vincent absurda. na verdade ela fazia todo sentido, ele precisava admitir. o que tirou o seu eixo foi o fato de perceber, apenas nesse momento, o quão óbvio aquilo tudo era. ele nunca havia pensado em langdon daquele jeito. por mais que o ame e o aprecie, nunca houve sombra de dúvida sobre a natureza da relação dos dois. era sempre e inegavelmente uma amizade. nada além disso. "eu me preocupo com langdon de uma maneira diferente." valentín desviou o olhar, buscando no chão e em seus próprios pés a coragem para dizer o que queria. ele precisava de um pouco de coragem para ser honesto por pelo menos alguns minutos. era tudo que precisava, alguns minutos de coragem. "eu quero ver ele feliz e seguro. sei que tem em algum lugar do mundo uma pessoa que vai proporcionar isso para ele." sentiu um aperto no peito ao dizer essas palavras, pois era a sua maneira indireta de dizer que queria estar perto para ver vincent feliz e seguro. queria ser a pessoa que proporcionaria esses momentos. essa era a diferença. não estava nem se referindo a algo romântico. talvez agora ficasse claro que era o que sentia, mas, além disso, ele queria vincent em sua vida. queria vincent perto. precisava disso, na verdade. aos poucos, mas certamente, tinha se acostumado com o outro em sua vida. era algo bom, uma rotina boa. ele nem podia acreditar que isso tudo iria acabar logo, logo. "a diferença é que eu não dou motivos para você se preocupar comigo, não é?" brincou, abrindo um sorriso discreto. ele nem percebeu, mas só de ter a oportunidade de sorrir para vincent numa brincadeira confortável, ele já se sentiu mais leve, sua mão direita puxando o tronco de vincent para se juntar ao seu. o movimento da mão do outro fez com que valentín gelasse. ele podia jurar que algo iria acontecer. sentiu o nervosismo formar borboletas no seu estômago, da maneira mais clichê possível. suas mãos formigaram com antecipação e então... nada. não aconteceu nada, além da voz de vincent. não era isso que ele queria, mas ele precisou aceitar. ele precisou, em poucos segundos, entender que o outro não mudaria aquela situação.
"eu acredito em você. peço que acredite em mim também. acredite que eu posso ser bom o suficiente para te ajudar nisso." para te segurar quando o universo quiser te colocar para baixo. valentín percebeu querer tanto isso a ponto de doer. ele queria ver vincent nos seus pontos mais baixos e não tinha nada a ver com competitividade. "me deixe ficar. não ignore meus toques. não me espante para longe. por favor, não me espante para longe." a última parte havia sido nada mais do que um sussurro, regado de súplica. ele havia odiado ter tido seu toque renegado por vincent e não foi muito difícil perceber que nunca mais queria que algo assim se repetisse. valentín juntou sua coragem, percebendo que ela não duraria muito, e deixou seu rosto se aproximar ainda mais do rosto de vincent. do seu colega de equipe, do seu amigo. seu nariz pressionava contra a bochecha do outro e seus olhos já não estavam mais abertos há um bom tempo. não podia olhar para vincent e arriscar ver o medo em seus olhos. valentín estava tremendo de medo. medo de arriscar tudo para que no final o outro volte a escolher a solidão. ele não iria permitir. ele não iria se permitir desistir. não tinha como. era tarde demais para os dois. poderia ser o pior erro da sua vida, mas valentín o fez. tomou os lábios de vincent num movimento rápido, mas ainda assim cuidadoso. não poderia ser diferente, qualquer passo em falso podia assustá-lo, e ele não queria estragar aquilo. ele queria ficar. com vincent, com a equipe, com aquela vida. a mão esquerda, antes segurando a dele, subiu quase sem pensar até o rosto de vincent, procurando o calor da pele e trazendo-o um pouco mais perto enquanto o beijo se assentava, simples e direto. havia tanto carinho em seu toque que seu beijo poderia ser confundido com uma reverência. estava beijando vincent grimaldi e não tinha intenção alguma de parar. a amizade dos dois estava para sempre arruinada e valentín sentia um suspiro de alívio crescendo em seu peito.
vincent sentia o estômago revirar desde o instante em que rejeitou o toque de valentín. era automático, um reflexo estúpido que nem fazia sentido, e ainda assim ele havia feito. quando o espanhol mandou um “ah, vai se foder!”, vincent não conseguiu se segurar. um sorriso ladino lhe escapou, traindo sua máscara de seriedade. era tão ridículo, tão característico deles. ainda eram os mesmos idiotas que brigavam por qualquer besteira. ainda eram vincent e valentín. e aquilo, ironicamente, lhe trouxe alívio. ‘ vai se foder você. ’ retrucou, empurrando o peito do espanhol com a palma da mão. não havia força no gesto, era apenas por puro costume. por um breve instante, quase se sentiu leve de novo, mas valentín não permitiu que isso fosse possível. ele engoliu em seco com a pergunta, os olhos desviando rápido demais, como se pudesse se esconder atrás da própria arrogância. ‘ o que… o que? ’ repetiu, forçando uma careta indiferente que não convencia ninguém. quase abriu a boca para dizer a verdade — mas o que sairia dali? “o que me incomoda é que agora eu penso em você de um jeito que não devia”? era ridículo. ‘ só não foi em um bom momento. ’ esperava que fosse uma mentira vaga o suficiente para encerrar o assunto. o problema não era o toque. o problema era o que esse maldito toque causava nele agora. antes era normal, agora qualquer aproximação parecia acender um alarme dentro dele, lembrando-o do que não deveria sentir. do que não poderia sequer cogitar. e havia tantas barreiras. a primeira delas: ele nem sabia se valentín sentia o mesmo. não havia sinais claros, nada que entregasse algo além da intimidade de dois colegas de equipe. mesmo que fosse recíproco, que diferença faria? a fórmula 1 não era lugar para isso. ele não seria o pioneiro a estampar esse tipo de manchete. o nome grimaldi já era pesado demais sem precisar carregar mais um fardo. quando o espanhol disse que voltaria para o salão, vincent apenas assentiu. a boca até se entreabriu, a vontade de pedir “fica” quase escapando. mas não escapou. ficou ali, assistindo-o caminhar até a porta, e se sentiu um covarde.
vincent estava com a cabeça baixa, os olhos fixos em qualquer ponto morto no chão, fingindo que não se importava com a ausência que logo viria. seria ridículo demais se permitir ficar ali, encenando um abandono, quando em poucos minutos teria que voltar para dentro do salão como se nada tivesse acontecido. e foi justamente nesse instante que a voz de valentín se fez presente novamente. ficou alguns segundos parado, em silêncio, tentando racionalizar. covarde, se agarrou à saída mais confortável. ‘ eu consigo sozinho. ’ e quando viu a mão de valentín avançar para a maçaneta, se arrependeu instantaneamente. vincent deixou escapar um “porra” baixinho e, num impulso que não conseguiu controlar, a voz dele saiu mais alta do que o necessário. ‘ eu quero! ’ num pulo, se desprendeu da parede e caminhou até ele sem pensar, só movido por um impulso que não quis conter. por que ele teria oferecido isso? e se houvesse algo ali? se estivesse dando a ele um sinal? vincent não sabia, mas ia descobrir. chegando à frente de valentín, levou uma mão até o ombro dele, a outra buscou a mão do espanhol com uma naturalidade que, sinceramente, o assustou. era como se o corpo tivesse se acostumado à ideia antes mesmo de sua mente aceitar. ‘ pode conduzir. você é melhor do que eu nisso. ’
as coisas na vida de vincent pareciam ser extremamente baseadas nisso. 'eu consigo fazer sozinho'. desde que eles viraram colegas de equipe, valentín percebeu que ele achava que isso era uma competição ou então que seria julgado caso fosse o contrário. saber que vincent conseguia fazer algo sozinho não significa que ele precisava fazê-lo. tinham sido longos anos tentando provar o contrário para ele e agora valentín estava partindo e percebeu que não tinha dado certo. ele ainda era o mesmo vincent de sempre, a mesma pessoa teimosa e solitária. o som vindo do lado de dentro daquela porta era uma lembrança de que valentín nunca seria essa pessoa. e, num sentimento novo e confuso, ele percebeu que queria compartilhar o calor de uma vida acompanhado, com vincent. queria que ele soubesse como é esse sentimento também. quando ele levantou num pulo, valentín já girava a maçaneta. não adiantaria de nada insistir, ele apenas sairia como um insistente que não consegue entender sinais. era uma derrota dolorosa, mas não era o fim da guerra. querer beijar vincent era nada menos do que uma longa e dolorosa batalha. não pelo o que viria, mas pelo o que já havia passado. por quanto tempo ele vinha pensando nisso sem ter se permitido pensar fundo demais? quando tinha percebido pela primeira vez o quanto os olhos de vincent eram lindos? como sua sede de vencer era estonteante? valentín precisava pensar nisso com calma, mas o problema era que ele não queria pensar. ele só queria agir. ele deixou que vincent pegasse em sua mão esquerda e levou sua direita para a cintura do outro. ele não iria reclamar de conduzir, por mais que sua parte racional dissesse que o outro não iria ter muito treino se valentín conduzisse. era a lógica, não? que se eles fossem ajudar vincent a relembrar passos, o conduzido deveria ser o espanhol? então aquilo só podia ser um sinal. precisava ser um sinal. valentín escutou as notas da música que tocava, uma lenta e romântica, do jeito que sua família gostava. era uma mistura de tango com violinos e valentín precisou improvisar. ele não iria dançar tango com vincent. era intenso demais e ele duvidava que o outro fosse conseguir. ele avançou com o pé direito, num passo pequeno, para que o italiano entendesse como iriam começar e partissem daí. eles não dariam passos grandes, não girariam pela sacada e nem nada do tipo. aquilo não era uma dança propriamente dita, era uma maneira do espanhol comprar tempo e encontrar as palavras e os sinais certos. "eu me preocupo com você… você sabe disso, não é?" a pergunta não foi bem o que ele queria, mas sentiu que precisava começar com isso. "mais do que como eu me preocupo com outros colegas de grid. bem mais." foi sincero. mesmo se não tivesse a percepção renovada de seus sentimentos, ele ainda falaria isso. "você não precisa fazer as coisas sozinho só porque consegue. não quando eu estou aqui."
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fugir só deixava as coisas mais suspeitas, ele sabia. mas como ele podia continuar ali, com valentín sentado ao lado, depois do que tinha acabado de sair da boca dele? a frase ainda martelava na cabeça, repetida em eco, como se fosse possível desfazê-la se ele pensasse o bastante. como será que o espanhol tinha interpretado? será que tinha mais de uma interpretação? esperava que sim. agora estava ali, sozinho, com o coração batendo na garganta e a mente gritando mais alto do que a música que vinha de dentro do salão. era um casamento, caralho. as pessoas estavam rindo, dançando, celebrando. e ele, idiota, parecia um garoto de dezesseis anos descobrindo o que era gostar de alguém pela primeira vez. fechou os olhos, regulando a respiração como se fosse antes de entrar no carro numa largada. inspira, expira, mantém o controle. só que não era um grid de largada. era valentín. e ele não fazia ideia de como lidar com isso. a tentação de pedir uma garrafa inteira de bebida era forte. o corpo pedia, as mãos chegavam a formigar só de pensar em álcool descendo queimando a garganta, dando aquele alívio rápido. o problema é que sabia onde isso o levaria. já tinha aprendido da pior forma que usar álcool como escape só piorava tudo. não queria estragar a festa. não podia. afundou o rosto nas mãos, frustrado. não tinha direito de sentir o que estava sentindo. valentín era o seu colega de equipe, era… era valentín, porra.
precisava se recompor, voltar pro salão e fingir que nada tinha acontecido. estava pronto para isso quando ouviu a porta abrir. o corpo reagiu no mesmo segundo, endireitou a postura quase automaticamente, mas quando viu quem era, qualquer esforço foi inútil. olhou rápido, desviou mais rápido ainda. não tinha coragem de sustentar aquele olhar. céus, que tipo de maldição era essa? vincent assentiu com a cabeça, incerto, forçando um gesto casual enquanto levava a mão ao cabelo. ‘ está tudo bem, não foi nada. ’ negaria até a morte se fosse preciso. como poderia admitir a verdade? como poderia dizer “eu estou nervoso porque você existe e eu não sei lidar com isso”? não dava. ele mal conseguia formular esse pensamento para si mesmo. foi quando valentín encostou no joelho dele que tudo desmoronou outra vez. o mesmo arrepio atravessou o corpo, a mesma descarga que não fazia sentido nenhum. e quando vincent não sabia o que fazer, só existiam três caminhos possíveis: sarcasmo, provocação ou ser um imbecil. dessa vez, ele foi direto para a terceira opção. recuou rápido, quase brusco demais, e deixou as palavras escaparem. ‘ cara... você não precisa ficar me tocando o tempo todo. eu já disse que estou bem. ’ no mesmo segundo em que as palavras escaparam, ele soube que tinha soado como um idiota. nunca teve problema em ser tocado por valentín — pelo contrário. ele já havia passado o braço pelo seu ombro mil vezes, viviam se empurrando em entrevistas, sempre se abraçavam quando ganhavam corridas. nunca tinha sido estranho como era agora. não era justo… valentín não tinha feito absolutamente nada de errado. era ele, vincent, o problema. era ele quem estava vendo coisas onde não devia e sentindo demais por causa de um simples toque. tentou ajeitar o tom, suavizar, mas era como tentar domar um carro já descontrolado. a voz não saía natural, não saía simpática. ‘ você devia voltar, suas tias devem estar te procurando. eu já vou lá te ajudar como prometi. só preciso... lembrar alguns passos na minha cabeça. ’
a realização de que ele não via vincent apenas como um amigo o atingiu como um caminhão. sentia que eles tinham passado por todas as possíveis etapas de um relacionamento no último mês e se ele fosse ser racional talvez pudesse colocar a culpa nisso. talvez o ato de achar uma culpa seja uma covardia, mas ele não estava se sentindo muito corajoso no momento. era vincent. de todas as pessoas, vincent. ele não podia se dar ao luxo de jogar anos de parceria fora. aquilo seria um tiro no pé, seria colocar todas as pessoas que ele amava num fogo cruzado. as mesmas pessoas que estavam do lado de dentro daquele salão, festejando um casamento que tinha tudo para ser próximo, e ele só conseguia pensar em beijar seu colega de equipe e implodir tudo aquilo. ele escutou a resposta de seu colega, mas não lhe satisfez. eram anos demais conhecendo as entonações de vincent para saber que ele estava mentindo. se não isso, sua expressão entregava tudo. não entregava absolutamente tudo, mas sim que ele não estava bem. provavelmente valentín estava igual. não está tudo bem e ambos sabem disso. a última cartada de alguém receoso foi demonstrada com maestria por vincent. a resposta ríspida ao toque pareceu para valentín a reação de um gato arisco, desacostumado com carinho. o problema era que vincent não era desacostumado com o toque do espanhol. ele sempre tinha sido assim. desde toques pequenos até abraços. ele nunca teve esse pudor e vincent também nunca pareceu se importar. sua única reação foi rir e bufar intercaladamente, procurando uma resposta entre a sua indignação. porque aquilo não era justo. não com ele, não com a relação dos dois. "ah, vai se fuder!" foi o que escapou de seus lábios, uma expressão de desdém estampando seu rosto numa contorção exagerada. não havia raiva em sua voz, mas apenas indignação. de que outra maneira ele poderia reagir aquela completa idiotice de vincent? "eu sei que você não tem problema com o meu toque. nunca teve... então o que?" seu queixo apontou para o outro, como um desafio. diga agora o que lhe incomoda, se tiver coragem. mas não era isso. não era assim que ele queria lidar com as coisas. se suas suspeitas estivessem certas e vincent estivesse passando pelo mesmo que ele, a última coisa que ele deveria fazer era instigar uma briga. tornar aquilo numa competição. vincent e seu espírito competitivo não ajudariam, caso valentín não tornasse as coisas mais fáceis, não ao contrário. "você está certo. eu preciso voltar." valentín se levantou, apertando com força o punho que tinha tocado no joelho de vincent. ele se perguntava como seria a sensação de tocar diretamente na pele do outro. não através de uma cala de alfaiataria ou de um macacão de corrida. era uma causa perdida. fingir que não tinha nada ali era não apenas falso, como também ridículo. era ridículo, não era? querer tanto assim alguém de tanta confiança e tentar fingir que não. ele precisava ao menos tentar. dar algum sinal e esperar um mísero suspiro de resposta. antes que ele pudesse tocar na maçaneta e voltar à sua família, as notas de uma valsa chegaram até eles. eu posso fazer isso. não precisa significar nada. se ele não quiser, eu ainda posso contornar isso. ele repetiu essas palavras e similares a estas na sua mente por um bom tempo, quase um minuto. vincent provavelmente achava que ele estava ficando maluco, e provavelmente estava, porque sua voz saiu firme. isso não podia significar algo bom. ele estava completamente certo do que estava fazendo. "você quer dançar comigo? rever os passos... comigo?" valentín olhou sobre o ombro, o corpo ainda virado para a porta, pronto para sumir caso receba uma negativa.
estava sentado ao lado dele, e parecia que a maldita mesa tinha diminuído de tamanho desde a última vez que os dois tinham se acomodado ali. o espaço era o mesmo, mas sua percepção estava toda distorcida — porque agora ele sabia. sentimentos. só de nomear isso mentalmente, vincent se arrepiou inteiro. era irritante o quanto sua cabeça estava desobedecendo. antes, o máximo de nervosismo que sentia era uma ansiedade besta em ver valentín falando em público, só isso. normal, razoável até. mas agora? agora parecia que uma pedra tinha se alojado em sua garganta, e tudo que fazia era empurrar para baixo o que estava crescendo dentro dele. não era algo palpável, concreto, nem um sentimento inteiro que pudesse ser nomeado, era só… um incômodo abstrato. ele se inclinou um pouco para trás na cadeira, como se buscasse distância, e mesmo assim, a proximidade era sufocante. quando valentín falou sobre as tias e as primas, vincent deixou escapar um sorriso de canto, quase automático. um sorriso do tipo que ele usava em entrevistas quando precisava fugir de uma pergunta desconfortável. a ironia era que estava aplicando suas técnicas de sobrevivência de mídia com valentín, como se o outro fosse um repórter inconveniente. ‘ não sei se você vai conseguir fugir delas por muito tempo. ’ seus olhos rodaram pelo salão, fixando-se nas tais tias que já se agitavam para abrir a pista de dança. o italiano quase desejava que todas viessem correndo de uma vez só, arrastando valentín para longe, para qualquer lugar onde ele não tivesse que continuar sentindo o que estava sentindo. no fundo, o que mais queria era ter valentín por perto. mas ao mesmo tempo sabia que não aguentaria sustentar aquela farsa por muito mais tempo. ‘ eu posso tentar, se isso for te ajudar. mas você sabe como é minha habilidade de dança. ’ deu um leve movimento de ombros, imitando de propósito algo nada parecido com uma valsa. ele sabia dançar, claro que sabia. crescer em meio a compromissos sociais ensinava essas coisas. só não era excelente. mas era mais fácil ser o cara que faz graça com a própria falta de jeito do que admitir que estava desconfortável por outros motivos.
o toque de valentín deixou vincent estático. não foi a repreensão, e sim o carinho do gesto. o aperto de mão era íntimo demais para duas figuras que deveriam ser apenas colegas de equipe, rivais ocasionais e, na melhor das hipóteses, amigos. o italiano olhou para baixo, esquecendo como respirar. aquilo não era nada, não tinha porque significar nada. então por que estava tão nervoso? lentamente, ele ergueu os olhos e encontrou o rosto do espanhol. e foi aí que vacilou. ‘ não, não é. às vezes, eu queria que fosse. ’ no instante em que a frase atravessou o ar, vincent já se arrependeu. a garganta secou de vez, o corpo inteiro entrou em alerta. puxou a mão de volta, o movimento sendo rápido demais para parecer natural, mas ele não se importou. já estava de pé antes mesmo de elaborar uma desculpa. ‘ eu… eu preciso tomar um ar. ’ não olhou para valentín de novo. não tinha a menor condição de encarar o que quer que estivesse estampado naquele rosto. no meio do caminho, agarrou a primeira taça que um garçom ofereceu. nem perguntou o que era, nem ligou para o gosto. virou tudo de uma vez, sentindo a bebida queimar descendo pela garganta. não resolveu nada. quando finalmente empurrou as portas do salão e o ar frio bateu contra o rosto, teve a sensação de estar respirando de verdade pela primeira vez em minutos. encostou-se à parede, apoiou a nuca contra ela e fechou os olhos, tentando organizar a própria cabeça. ele era um idiota.
valentín gostava de pensar que ele conhecia o outro bem o suficiente. gostava, também, de dizer que conseguia observar padrões nas atitudes das outras pessoas. isso foi por água abaixo por causa de Vincent. nem em um milhão de anos ele poderia adivinhar que o outro iria levantar e sair em debandada. o espanhol ficou para trás com uma expressão incrédula no rosto. ele podia, sim, assumir que a conversa entre os dois não estava das mais animadas. o maior problema disso tudo não era qualquer falta de interesse em vincent, mas não foi isso. seu cérebro estava pensando tão rápido e em tantas coisas, que não conseguiu observar a pequena mudança de comportamento do outro. mesmo convivendo há anos, valentín não conseguiu ver o que precedeu aquilo. quando a frase atingiu seus ouvidos, foi como se o mundo inteiro tivesse ficado em silêncio. eu queria que fosse. o que isso poderia significar? era apenas um sinal de amizade? ou poderia ser algo a mais? poderia estar vincent passando pelo mesmo problema que ele? estariam aquelas duvidas no cérebro de vincent tal qual estavam nos seus? o espanhol nem pode pensar muito nisso, pois tão rápido quanto pode, vincent estava de pé. estava de pé e estava fugindo. havia uma parte visceral de valentín que quis se agarrar no outro. que quis puxar ele para perto e não soltar mais. queria respostas, acima de tudo. mesmo com essa vontade, ele se viu plantado. estático. observando enquanto vincent fugia. era a coisa lógica a se fazer. aquilo era perigoso demais. o ambiente certamente não ajudava, mas se eles cometessem um erro, ele poderia assombrar eles pelo resto da vida. se alguém descobrisse ou ao menos desconfiasse de algo… valentín bebeu um gole da sua água saborizada. ele estava pensando rápido demais. nem tinha acontecido nada além de uma estranheza e ele já estava pensando nos efeitos colaterais daquilo. não, ele não podia. ao mesmo tempo que ele queria pensar no que dizer, ele não tinha coragem. falar algo era admitir e admitir era se colocar na linha de frente. e se estivesse errado? e se estivesse lido tudo aquilo errado? não, ele não podia montar um discurso. ele precisava apenas tornar as coisas a tranquilidade. tudo como era antes. e isso ele sabia dazer, e sabia fazer muito bem. valentín se levantou e caminhou da maneira mais firme pela pista de dança, não sem antes ser obrigado a dançar uma valsa com uma de suas tias. depois disso, sim, ele chegou ao outro lado da pista de dança e até a porta que separava o salão do resto da propriedade. entre os corredores, valentín achou a janela que dava acesso à uma sacada com um banco e alguns vasos grandes de flores. tecnicamente ainda pertencia ao aluguel, então ele não estava de jeito nenhum abandonando a festa da irmã para se resolver com o seu colega de equipe. ele abriu as portas e aceitou de bom grado o ar que o refrescava. não tinha percebido o quão quente estava até aquele momento. se aproximou de vincent com passos cuidados, agora sim pensando no que dizer. "vince... está tudo bem? eu estranhei o seu jeito. você não disse nada de errado." sua mão tocou o joelho dele e apertou o local, reconfortando. ele não negaria que gostava de tocar em vincent e ser colegas de equipe permitia certas intimidades. ele nunca sentiu aquela eletricidade que havia entre os dois com outros colegas de equipe, mas isso ele não falaria. não tão cedo.
tinha dito aquilo de brincadeira , esperando , como sempre , um contra-ataque . mas valentín apenas concordou , o que o fez franzir as sobrancelhas . o desvio sutil de roteiro o deixou surpreendido , mas deveria imaginar que as pessoas ficavam mais emotivas em casamentos . e ok … era verdade . leonora estava magnífica . era a noiva , então era de se esperar que todos os olhos estivessem voltados para ela . menos os de vincent , que estavam focados demais no padrinho do casamento . só desviou na hora que ele citou bianca e o olhar do grimaldi seguiu até a filha mais velha , constatando que sim , ela também era bonita . ‘ eu fiquei com os dois . a beleza e o dinheiro . vantagens de ser filho único . ’ deu de ombros , despretensiosamente . ele tinha feito aquela piada mil vezes na vida — sobre ser bonito , rico , inegavelmente o centro do universo . porque , no fundo , era só isso que tinha . se fosse para ser sincero , não se importaria de dividir a herança se tivesse irmãs como as de valentín . porque era isso que via : uma família unida , um filho bem resolvido , duas irmãs maravilhosas e um casamento impecável . às vezes , era difícil competir com esse tipo de estabilidade . mas tudo bem . ele tinha ... bem , ele tinha um título da fórmula 1 e uma reputação instável . quase a mesma coisa . a gargalhada abafada veio logo depois , quando duas tias de valentín começaram a gritar pelo salão . vincent mordeu o lábio inferior para conter a risada . ‘ não exatamente escândalo , mas definitivamente um espetáculo . ’ murmurou , baixinho , tentando manter a compostura de convidado bem-comportado . mas por dentro , a comparação era inevitável . as vozes altas , as piadas , os abraços apertados entre os marqués contrastavam demais com os grimaldi . lembrou-se de marc grimaldi em sua poltrona , com o sorriso plastificado para a câmera e as palavras ensaiadas . o “meu filho é meu maior orgulho” que sempre parecia uma frase de assessoria de imprensa , e não um sentimento de verdade . se existisse uma câmera escondida , as aparências de “família perfeita italiana” desmoronariam em segundos . odiava quando essas memórias apareciam como se tivessem sido convidadas . foi salvo pela voz de valentín de novo . ‘ vou contratá-la para organizar o meu casamento . ela é boa . ’ era uma piada , claro . não gostava de pensar em casamento como algo possível . porque quando pensava , só se perguntava ‘’com quem?’’ e não tinha resposta para a própria pergunta .
o marqués estava nervoso . era perceptível até mesmo em seu olhar . quando a cerimonialista o mirou como uma águia pronta para atacar , vincent olhou de valentín para a mulher , e depois de volta para valentín . ‘ você não vai desmaiar . ’ esticou o braço e pousou a mão no ombro dele , firme , o polegar deslizando uma vez , como quem queria passar segurança . ‘ se ficar muito nervoso , imagina todo mundo pelado . ’ murmurou , com um sorriso enviesado nos lábios . ‘ metade dessas pessoas já está bêbada , e a outra metade vai estar quando você terminar . ninguém aqui vai lembrar de cada palavra . mas vão lembrar que você ama a sua irmã , e isso é o que importa . ’ a mão ainda estava no ombro dele , e por um instante , vincent pareceu esquecer de tirar . só lembrou quando os olhos se cruzaram de novo , e então afastou a mão devagar , com um pequeno pigarro e um movimento qualquer , como se estivesse ajustando a manga do próprio paletó . ‘ se você gaguejar ou tropeçar , eu juro que finjo um desmaio pra distrair . ’
a cadeira de vincent estava perfeitamente posicionada , mas ele se inclinava para frente como se , por instinto , quisesse estar mais próximo . o cotovelo estava apoiado na mesa , os dedos entrelaçados na frente da boca e o olhar fixo no espanhol . ele não sabia exatamente por quê , mas o simples fato de estar ali , naquele momento , ao lado dele , fazia o coração bater um pouco mais rápido . nada estranho , apenas a expectativa genuína de um amigo que quer apoiar o outro . valentín começou a falar e o salão , antes repleto de burburinhos e risadas abafadas , foi se acalmando até restar só a voz dele . as primeiras palavras eram aquilo que se esperava , mas não deixava de ser bonito como ele falava da irmã com tanta ternura . como valentín deixava o coração transparecer em cada frase , como a voz dele vacilava de leve no fim de algumas palavras , como o olhar ia até a mais velha como se ela fosse o sol . os olhos do italiano seguiram a direção do olhar de valentín quando ele falou das fotografias , e ele admirou a decoração de alguns momentos do casal . ele reconheceu o talento — não só de leonora , mas o talento em eternizar o amor . o amor como ideia , como memória . a risada escapou quando valentín falou do scrapbooking . uma risada leve , abafada , que ele tentou esconder atrás da taça . conseguiu visualizar a cena inteira : valentín com cara de atentado , o caderno flutuando na piscina , leonora gritando como se o mundo estivesse acabando . um sorriso lento surgiu em seus lábios e se manteve ali , mesmo quando as palavras foram ganhando mais peso . vincent achava que sabia o que era amor . já tinha sido amado , ou algo próximo disso . já tinha feito juras em carros esportivos e terminado relacionamentos em aeroportos . mas nada … nada se comparava ao que estava ouvindo agora . o mundo ao redor se tornou um ruído abafado , como se o salão , as risadas e até o tilintar dos copos se dissolvessem em segundo plano . tudo o que existia , naquele instante , era a voz de valentín . e pela primeira vez em muito tempo , ele deixou-se sentir aquilo sem cinismo . e então ele olhou para o marqués de novo . com os olhos brilhando demais pro seu próprio gosto . e sentiu algo incômodo . não era só admiração . ele sempre admirou valentín . mas nos últimos tempos … era diferente . sentiu um calor estranho nas têmporas , o que o fez desviar o olhar . que merda era aquela ? ele sabia bem , só não queria pensar naquilo . por isso fingiu olhar o quadro que a cerimonialista trazia . fingiu estar analisando a moldura , ou as fotos antigas que valentín havia colado . fingiu tudo , como sempre fazia . mas a verdade era que ele só estava tentando respirar . quando todos ergueram as taças , ele fez o mesmo . mas o gesto foi automático , como se seus músculos só obedecessem por reflexo . por dentro , ele estava em colapso .
tudo parecia em câmera lenta . vincent viu valentín se aproximar da mesa como se o tempo tivesse esticado . o som ambiente parecia abafado , como se alguém tivesse mergulhado a cabeça de vincent embaixo d’água . só havia aquele zumbido insistente , e uma sensação de que algo muito importante tinha acabado de acontecer , mas o italiano não sabia exatamente o quê . piscou algumas vezes , confuso , e se levantou quase por reflexo , como se as pernas soubessem o que fazer antes da cabeça . estava olhando para valentín . demorou alguns segundos para processar o que ele tinha dito . a pergunta chegou até ele como um eco , e pela primeira vez em muito tempo , vincent grimaldi não teve uma resposta pronta . nenhuma provocação , nenhuma piada ensaiada . só havia uma coisa que conseguia dizer , porque era a única verdade possível naquele momento . ‘ você foi incrível . ’ as palavras saíram baixas , mas honestas . e mesmo depois de dizer , não desviou o olhar . não sabia por quanto tempo exatamente , só sabia que seus olhos ainda brilhavam — o mesmo brilho que tivera durante o discurso . ele parecia querer dizer mais . abraçá-lo , talvez — o que era estranho , porque já tinha abraçado valentín tantas vezes antes . no paddock , nos pódios , em fotos promocionais , nas entrevistas . mas agora … agora parecia diferente . mais íntimo do que qualquer abraço jamais deveria ser . vincent pigarreou , tentando preencher o silêncio que havia entre eles . ou pelo menos o que ele achava que havia , porque talvez só existisse em sua cabeça . então , para resgatar sua versão mais funcional , ele forçou um sorriso , mas levou a unha até os lábios em claro sinal de nervosismo . ‘ então ... agora que você já cumpriu a sua obrigação e comoveu metade da festa … o que quer fazer ? ’
era inegável que as coisas estavam estranhas entre eles. isso apenas ficou mais claro quando valentín teve a súbita vontade de fazer uma piada dizendo que era claro que vincent tinha ficado com os dois, por que ele claramente não estava acostumado a dividir as coisas. esse era o tipo de piada que sempre veio natural para valentín, considerando o contexto da relação dos dois. principalmente ao considerar a relação dos dois é que valentín estranhou simplesmente não querer dizer aquilo. por mais que sua mente tivesse conjurado a ideia, ele não conseguiu se trazer a dizer. ele já não queria mais machucar vincent. e, mesmo assim, ele sabia que isso eventualmente acabaria acontecendo quando a temporada voltasse. eles iriam se machucar e seria o fim de tudo aquilo. algo se quebrava em seu peito ao pensar naquilo. queria poder pausar o tempo, queria que eles ficassem presos para sempre ali. onde tudo estava bem, onde eles ainda eram colegas de equipe, onde nada tinha mudado. aquilo era loucura. ele estava ficando louco. era a única explicação. o espanhol engoliu seco, sua expressão distante demais enquanto escutava o outro falar. era injusto com o amigo, mas ele não conseguia pensar em mais nada. vincent aos poucos se plantava em sua mente como uma erva daninha. aquela sensação perdurou. era a mesma sensação de quando as luzes vermelhas se ascendiam. a adrenalina em seu corpo estava no máximo e ele estava esperando pelo mísero segundo onde ele piscaria e elas teriam se apagado. ele estava esperando por algo. ele queria que algo acontecesse, só não sabia o que. não podia dizer o que. mas quando, depois do brinde, ele percebeu que queria segurar na mão de vincent depois de sentar, ele teve uma breve realização. ele queria segurar na mão do outro e dar um leve aperto. queria depositar seu corpo o mais perto do outro enquanto humanamente possível. isso não era justo. talvez fosse toda a energia que um casamento trazia. querendo ou não, um lugar onde o clássico de 'o amor está no ar' se aplica é em uma festa de casamento. mas não era aquilo. nunca foi. era injusto, não podia achar outra palavra. vincent não era assim. vincent não era como ele.
vincent era o tipo de homem que jogava a palavra 'incrível' daquele jeitinho como se não fosse nada demais. como se aquilo não pudesse afetar valentín e seus sentimentos recentemente descobertos. só de assumir que existiam ali 'sentimentos' era o suficiente para arrepiar valentín. ele queria beber. ele precisava beber. seus olhos vasculharam em busca da garçonete, mas quando estava prestes a chamar ela para que lhe trouxesse uma taça dos vinhos que estavam sendo ofertados, seus olhos encontraram vincent rapidamente. num mísero segundo, sua vontade de encher a cara sumiu. é claro que ele sabia sobre os problemas que vincent tinha com álcool, mas ele nunca deu muita importância para isso. ele jamais empurraria o outro do precipício, mas sempre achou que o outro estava fazendo o certo e sempre saberia pedir ajuda. aquele dia no hotel mudou as coisas para ele. de repente, ele já não sentia mais vontade de ser indulgente com aquilo. ele recolheu seu corpo que tinha se empertigado e resolveu seguir com a conversa. "eu não faço ideia o que devo fazer pelo resto da noite além de dançar com minhas primas e tias. daqui a pouco elas vão estar aqui me pedindo para dançar uma valsa." valentín franziu o cenho, com uma expressão de dor ou desgosto. ou ambos. não que ele não gostasse de dançar em si, mas o problema é que se ele dizia sim para uma, ele teria que dizer para todas. isso significava uma longa noite e calos nos pés. ele ia completar seu pensamento quando viu vincent levando uma unha até os lábios, num claro sinal de nervosismo. sem pensar, ergueu a mão até a do italiano e puxou ela para baixo. deu um aperto carinhoso enquanto depositava a mão dele sobre a perna do mesmo. "não fique nervoso. é só nós dois aqui." e era verdade. por mais que estivessem num salão cheio de pessoas começando a dançar em uma pista de dança, ainda eram só os dois naquela situação. como sempre. "e prepare os seus pés, pois você vai ter que me ajudar nessa empreitada das parentes. tenho certeza que você vai fazer um sucesso e elas vão fazer uma fila para dançar com você."
vincent tinha uma teoria : se o inferno fosse quente e lotado , o paraíso devia ter cheiro de lavanda , vinho e flores frescas — como aquela vinícola onde os marqués decidiram celebrar o casamento de leonora . já tinha ido a dezenas de casamentos , mas poucos com aquele nível de esmero . era quase ofensivo o quão bonito tudo estava . e sim , ele amava casamentos . fingiria até a morte que não , mas era um entusiasta do amor alheio . vincent estava sentado sozinho , é claro . valentín era um dos padrinhos , o que significava que estava ocupado demais para ele . daria um desconto dessa vez . a noiva surgiu e todo mundo se virou com aquela comoção coletiva , aquele suspiro social que só acontecia em cerimônias . vincent sorriu . não teve como evitar . leonora estava deslumbrante . havia algo fascinante no jeito como ela olhava para o noivo — e no jeito como o noivo olhava de volta . era bonito . e era o tipo de coisa que ele achava que nunca teria . os votos começaram e foi quando vincent percebeu que o lenço no bolso do paletó não estava ali para estética . ridículo , pensou , limpando os olhos rápido , antes que qualquer gota escapasse . foi quando os noivos começaram a falar de “envelhecer juntos” , de “escolher amar um ao outro todos os dias” que os olhos do grimaldi desviaram e encontraram valentín . não sabia explicar o motivo . talvez fosse o terno bem ajustado . talvez fosse o brilho do sol no cabelo dele . talvez fosse o fato de que valentín estava rindo e os olhos brilhando com aquele carinho pela irmã , e vincent simplesmente quis guardar aquela imagem em algum lugar da memória . quando se deu conta de que estava olhando demais , piscou e fingiu entender o fim dos votos como se tivesse escutado cada palavra . beijos . aplausos . arremesso de pétalas . felizes para sempre .
a festa tinha começado , e vincent já tinha decorado os nomes das três únicas pessoas com quem tinha conversado até agora : a senhora espanhola que elogiou sua gravata , o garçom , e a garrafa de vinho branco que ele estava namorando à distância . vincent seguia valentín como uma sombra , como se não soubesse bem o que fazer com o próprio corpo . ainda não tinha bebido o suficiente para socializar com os primos espanhóis que falavam rápido demais ou as tias que o confundiam com um ator da televisão . por isso , ao sentar , apenas soltou um suspiro longo e ajeitou o paletó . a mesa ainda não estava completa , algumas pessoas vinham chegando aos poucos , mas ele parecia não ligar . toda a sua atenção — mesmo quando desviava o olhar — estava voltada para valentín . ‘ leonora está deslumbrante . tipo , muito mais bonita que você . ’ provocou , antes de sorrir de canto , o cotovelo apoiado no encosto da cadeira vizinha . ‘ admito que eu esperava um pouco mais de drama latino , talvez uma ex invadindo o altar , ou o noivo desmaiando , mas … ’ fez um gesto genérico com a mão . ‘ está impecável . vocês sabem como dar uma festa . ’ esticou o braço até alcançar uma azeitona gourmet de uma tábua de antepastos e jogou na boca . depois , se recostou na cadeira , cruzando uma perna sobre a outra . ‘ está nervoso para o discurso ? ’
bianca era um furacão. foi a primeira voz que ele escutou quando acordou e ela continuou ao longo do dia. ela não era a cerimonialista, mas era alguém muito mais perigosamente importante: a única pessoa acima da cerimonialista quando o assunto era a organização daquele dia. mesmo assim, quando o relógio marcou a hora do início do dia de noiva de leonora, ela desligou. por ora ela seria apenas uma irmã muito amável. já valentín, ele teria que ser um padrinho. estar no quarto com olivier e os outros padrinhos era um pouco estranho. não porque tinha algo contra o casamento de leonora e olivier, pelo contrário. os dois se completavam perfeitamente, eles dois e o gato dali, que agora estava vestido com um terno e uma gravata borboleta, deitado em uma das camas. eram a família perfeita. olivier era completamente aceito e ainda assim… valentín não queria estar ali. entre conversas e goles de uísque, ele se pegava olhando pela janela. lá embaixo, as pessoas já se encontravam em conversas animadas e ele só tinha olhos para uma pessoa. vincent estava lá. fingindo. e valentín estava também, fingindo não querer estar lá embaixo conversando com o seu colega de equipe. quando finalmente foram chamados, os padrinhos foram para seus postos. valentín não sabe se foi o efeito do álcool, mas até o segundo em que sua irmã pisou para fora daquela mansão, ele ainda não conseguia parar de buscar o olhar de vincent. entre as parreiras e a linda decoração com milhares de flores lilás, leonora emergiu e valentín sentiu seu olhos encherem de lágrimas com pura felicidade transbordando seu peito. um sorriso brincalhão surgiu em seus lábios ao ver que olivier estava chorando inconsolavelmente. era impossível não pensar que um dia queria amar alguém assim.
a festa começou com incrível animação. a família marqués era volumosa e barulhenta, enquanto a família desplantes era mais calma e recolhida. valentín fazia questão de tentar interagir com todos que podia, mas ele mal podia esperar para se sentar e só se levantar para dar o seu discurso de brinde. por enquanto o papel de valentín foi apenas de posar para fotos, o que ele estava bem treinado para fazer, mas conforme cada minuto passava ele tinha a péssima constatação de que teria que falar na frente de todas aquelas pessoas. na teoria era fácil. ele teria que falar sobre o amor que ele sentia pela irmã, sobre como sempre desejou que ela fosse imensamente feliz, mas não era só isso. no seu quarto, em seu vazio apartamento, valentín escreveu também sobre o amor que ela dividia com olivier. sobre como era algo incrível de se encontrar, mas algo fúnebre pairava sobre ele, algo que lhe deixava com o pensamento de dúvida. foi interrompido pelo comentário de vincent, que fez com que ele sorrisse e olhasse para sua irmã na mesa principal. "ela sempre foi. ela e bianca." sua outra irmã estava numa mesa paralela a deles, com um vestido bordô e um coque alto, dividida entre conversar com as pessoas de sua mesa e alimentar martín que tinha insistido em comer assim que chegou. ele não era mimado por bianca, mas sim por leonora, que abriu exceção na regra sobre não ter crianças no casamento só para ele. valentín sabia que logo ele iria terminar seus quiches super saudáveis e viria correndo pedir colo para ele. "eu fiquei com o dinheiro do papai." brincou, bebendo um gole da sua taça de água com gás. ele já tinha bebido o suficiente junto com o noivo. vincent saberia do que valentín estava falando. sendo de famílias ricas, era comum que os filhos tivessem interesses baratos, mas poucos se comparavam ao automobilismo. talvez só a égua de um milhão de leonora, mas isso durou pouco. "minha família não é de escândalos." nesse exato momento, duas tias de valentín começaram a gritar sobre como não sei quem estava crescido e bonito e saudável e todos os adjetivos possíveis. "bem, não desse tipo que você está se referindo." mesmo com minutos de festa, a música já estava alta e as pessoas também. o primeiro discurso foi de seu pai, assim que as pessoas estavam acomodadas. no bom e velho estilo valentín marqués sênior, ele apenas desejou felicidades e fez alguma piada sobre olivier precisar fazer leonora feliz e esse tipo de coisa. ele não era um homem de muitas palavras. "tudo está correndo bem por causa da bianca. leonora é tranquila, só disse o que queria e o que não queria. bianca foi quem deixou a cerimonialista de cabelos em pé." valentín indicou com o queixo a mulher de roupa preta e cabelos literalmente em pé, num coque bagunçado. ela estava olhando alguma coisa em sua pranchete e logo encontrou os olhos de valentín e ele sabia que seria a sua hora. "estou… muito. acho que vou desmaiar, sendo bem sincero. acho que é bom que não tenho muito tempo para pensar."
valentín olhou para bianca, que agora segurava martín em seu colo, ele com seus dedos brincando com um livro de bolso daqueles que tem animais em alto-relevo, ela olhou para ele com olhos tranquilos e lhe lançou um sorriso encorajador. valentín levantou meio incerto, o papel do seu discurso enfiado no seu bolso, pois ele já não precisaria mais dele. o que saísse, seria do coração acima de tudo. chamou a atenção de todos, ao mesmo tempo em que a música cessou para dar espaço para ele. "boa noite a todos. é uma honra imensa estar aqui celebrando o amor de leonora, minha querida irmã, e de olivier. minha irmã… desde que eu nasci, leonora sempre foi uma pessoa extremamente brilhante e encantadora. ela falava com animais, pintava as paredes e cantava com sua voz angelical. era o tipo de pessoa que sabia fazer tudo na primeira tentativa. ela andava para cima e para baixo com sua câmera, fotografando todos que amava, tudo que achava tão cativante como ela." valentín segurava sua taça, e olhou em volta para a decoração, repleta de fotografias que sua irmã havia tirado de momentos do seu relacionamento com olivier. "eu sou um irmão mais novo, mas sou extremamente protetor. eu jamais achei que existir alguém tão incrível quanto ela. e isso me dava medo, eu confesso." seu tom era levemente bem-humorado, mesmo que tivesse uma emoção profunda em sua voz. qualquer um podia ver o quão ele era devoto as duas irmãs. "e se permitem uma anedota de nossa infância… leonora além de amar fotografias, ela amava scrapbooking. ela tinha pilhas de revistas de moda que usava como inspiração para suas fotos, mas que também usava para fazer suas colagens. ela tinha esse caderno que ela amava, onde ela tinha juntado fotos de vestidos de noiva por anos e anos e em todas as fotos ela colava uma foto do rosto dela por cima. ela fazia rankings com possíveis vestidos que ela usaria em seus casamentos. e eu escutava tudo. tudo mesmo. quais que ela usaria no casamento na praia, no casamento na grécia, e no casamento em uma vinícola assim como essa." leonora e bianca gargalhavam, uma por vergonha e a outra por ter essa lembrança desenterrada. "mas um dia… leonora e eu brigamos e eu fiz algo terrível. antes que pensem que eu fui um péssimo irmão, eu tinha só dez anos e me arrependi profundamente. mas, é verdade… eu joguei esse livro dentro da nossa piscina. isso acabou passando e essa memória se perdeu com o tempo." ele olhou de novo para leonora, que concordou com a cabeça num sorriso doce.
"mas enquanto eu escrevia esse discurso, eu lembrei de como isso resume a minha irmã. ela é uma sonhadora, uma idealizadora. no dia em que ela contou sobre olivier para nossa família, eu soube que a leonora de dez anos tinha encontrado alguém que iria apoiar ela nos seus mais profundos desejos. acho que todos aqui sabem do que estou falando. então… eu tenho certeza de que o que vocês dois têm não é sorte. é o mais perfeito amor. é parceria verdadeira. é a beleza rara de encontrar, no outro, não só um amor, mas um lar. um lugar seguro, cheio de afeto, paciência e cumplicidade. é saber que a vida pode ser caótica, imprevisível, cansativa… mas que o abraço que espera no fim do dia, depois de toda a curva do caminho, é o de alguém que te conhece como ninguém. que te ouviu nas horas mais difíceis e riu contigo nas mais leves. é a escolha mais difícil do mundo e eu sei que minha irmã fez a certa." valentín tinha a certeza de que aquelas últimas frases foram mudadas de último segundo pelo seu cérebro, mas ele não podia focar nisso, pois ele precisava terminar aquele discurso. ele soltou um último suspiro, piscando algumas vezes. ele tinha a leve noção da presença de vincent sentado ao seu lado, mas ele não podia olhar para baixo agora, mesmo que seu corpo quisesse. "por fim, antes de propor um brinde aos noivos eu gostaria de entregar um presente para leonora e olivier." a cerimonialista se materializou ao lado dele com o quadro que queria presentar leonora, com um laço lilás no canto. valentín caminhou em passos rápidos até a mesa da irmã, vendo o rosto dela se iluminar num sorriso incrédulo ao ver o que ele trazia. era uma das fotos do ensaio do casamento. por cima de leonora ele colou uma foto do vestido que ela usava. por cima de olivier ele colocou uma gravata lilás como a que ele usava. e por cima do rosto deles, fotos de infância, assim como no livro de leonora que ele havia arruinado. leonora começou com uma chuva de agradecimentos pelo presente emocionante, mas valentín sabia muito bem que ela não queria chorar, então apenas seguiu. "um brinde aos noivos!" ergueu sua taça ao alto, vendo todos fazendo o mesmo. bebeu um gole de sua água com gás e seus olhos encontraram os de vincent. não tinha como negar o que seu peito sentia. uma ânsia que ele conhecia, mas que também era nova. era o medo de estragar o que ele tinha de mais precioso. sua carreira, sua relação com sua família, a amizade com vincent. ele voltou a mesa em passos precisos, sua taça agora vazia. as pessoas tinham voltado a conversar, a música a tocar, e o mundo a girar. por um leve momento tudo tinha parado e só tinha ele e vincent no mundo. uma pena que não era assim. "como me saí?" sua pergunta saiu em um sussurro, mesmo que o som das pessoas já fosse alto o suficiente para abafar qualquer coisa em sua voz que indicasse o que passava em sua cabeça.
ficou em silêncio quando valentín começou a falar sobre os boatos , sobre o que se falava dele , sobre a impossibilidade de vencer diante do público . era um daqueles momentos em que a resposta não vinha de imediato — não porque ele não tivesse nada a dizer , mas porque talvez não existisse uma resposta certa . ‘ é , eu sei . é uma merda . ’ murmurou , por fim , e a simplicidade das palavras carregava um peso que não costumava deixar escapar . ‘ parece que tudo que a gente faz é errado . ficar em silêncio é errado . falar é pior ainda . e , no fim , você nunca tem controle de nada . ’ fez uma pausa , encarando o chão . ‘ eu entendo por que você quer se calar . ’ ele entendia exatamente o que aquilo significava . porque , pra ele , não era que não quisesse se envolver com alguém . era que ... não confiava em si mesmo o suficiente pra tentar . a verdade é que a ideia de ter alguém por perto , alguém que enxergasse tudo — os altos e os baixos , os dias bons e os dias em que ele queria desaparecer — era insuportável . ele se sentia como uma bomba-relógio em contagem regressiva , e colocar alguém ao alcance da explosão seria simplesmente ... cruel . vincent não estava bem . nem estável . e se mal conseguia se manter funcional com ele mesmo , que tipo de merda causaria na vida de alguém ? o silêncio que seguiu não foi desconfortável , foi apenas ... denso . como tudo entre eles . e então , claro , langdon foi citado . e aí sim , vincent revirou os olhos , com um bufo impaciente . ‘ por que esse cara sempre entra na conversa ? ’ murmurou no automático . ‘ ele nem é tão legal assim . ’ era . ele sabia que era . mas isso não o impedia de odiar o fato de que langdon ocupava espaço demais nos pensamentos de valentín . porque , por mais que fingisse , havia uma pontada de incômodo . o que era ridículo . mas inegável .
vincent estava com uma das mãos apoiadas no quadril e a outra esfregando a lateral do rosto quando valentín decidiu começar a se vestir devagar . ridiculamente devagar . a princípio , ele só soltou um suspiro . depois , cruzou os braços . e , finalmente , o encarou com os olhos semicerrados , mandíbula tensa , e uma vontade súbita de estrangulá-lo . mas claro que não fez nada disso . em vez disso , falou com o tom entredente de alguém que estava prestes a perder a paciência , mas com um sorriso cínico nos lábios . ‘ você é tão irritante . ’ vincent ergueu os olhos na direção dele . o tom provocativo era evidente . e o olhar também . um que o italiano fingia não perceber . ‘ porque você não cala a boca . ’ respondeu , finalmente , com um sorriso enviesado , tentando tirar o peso da tensão que começava a prender o ar entre os dois . ou talvez fosse apenas o grimaldi que estivesse com aquela sensação , o que era pior ainda . ele se afastou meio a contragosto , cruzando os braços e observando enquanto o espanhol se olhava no espelho . e ele estava ótimo , mesmo . que bom que ele reconhecia o trabalho árduo que vincent fez . qualquer sorriso que tinha no rosto desapareceu com a rejeição do marqués . era uma rejeição quase imperceptível , mas estava ali . e ele não era bom em lidar com isso . no fundo , achava que talvez ... talvez valentín fosse querer ele lá . talvez ele já se sentisse parte de algo . talvez tivesse esperado ouvir : “ vem comigo . ” mas não ouviu . forçou um sorriso , aquele típico que colocava em toda entrevista quando a pergunta era invasiva . ‘ claro . faz sentido . ’ fez menção de ir até o outro lado do quarto , como se fosse procurar alguma coisa qualquer , mas estava , na verdade , se afastando um pouco . ‘ eu nunca fico confortável , valentín . ’ acabou que parou em frente da cama novamente , organizando as roupas dentro da mala . queria que valentín fosse embora . queria pegar aquela maldita garrafa de bebida e virar inteira na sua boca . ‘ mas , sei lá ... com você eu consigo fingir bem . ’ era o mais próximo de um “sim” que ele conseguia dar naquele momento .
era bom que vincent entendia. era bom que vincent ainda entendia. valentín nunca soube (e provavelmente nem vai saber) até onde a cumplicidade dos dois podia chegar. depois daquela briga feia, e em público, era impossível prever o que seria deles. o que valentín sabia, com absoluta certeza, era que queria tentar. queria ser, para vincent, um amigo. ele não sabia se conseguiria amar alguém tão cedo, nem se ainda era capaz de amar na situação em que se encontrava. na sua cabeça, ele não seria um bom namorado agora. então… de que adiantava correr atrás de alguém? o comentário de vincent sobre langdon tirou uma gargalhada de valentín. era cômico, como o outro sentia ciúmes dele. porque só podia ser isso, não é? mas valentín podia muito bem ser amigo dos dois. um bom amigo dos dois. langdon sempre seria o ex-colega de equipe que marcou uma mudança na sua carreira. os dois foram inseparáveis, não era fácil de esquecer. ele não queria, na verdade. “ele é meu amigo! assim como você é… tem valentín para os dois, isso eu te garanto, cariño.” valentín abriu um sorriso, fazendo um carinho rápido no queixo de vincent.
o espanhol não sabia bem, mas o seu plano ao se vestir devagar não era irritar o outro. não sabia explicar o porquê, mas aquilo pareceu uma derrota. apesar disso, era sempre engraçado ver o outro brabo. com as mãos na cintura e um xingamento na ponta da língua. “é por isso que somos amigos. sou tão irritante quanto você.” valentín deu de ombros, suas mãos procurando imperfeições no look escolhido por vincent, mas não tinha nenhum. era ótimo, perfeito para o jantar. perfeito até para o casamento, mas para esse, quem escolheria sua roupa seriam suas duas irmãs. a reclamação de vincent era tão sem razão quanto poderia ser. desde quando o loiro reclamava do espanhol simplesmente… falar? valentín não sabia o que tinha dado nele, mas considerando a personalidade dele, até que fazia sentido. “voy a soltar lo que pienso, te guste o no, ¿okey? puedes quejarte todo lo que quieras, pero sé que te flipa escucharme.” se vincent queria reclamar, agora teria um motivo. valentín desligava as outras línguas de seu cérebro quando estava indignado. não era nem bravo, só querendo dar motivo para o outro. ele sabia o que aquilo era. se fosse buscar no fundo do seu peito, saberia exatamente o que era. vincent estava agindo como garotos que puxam a trança de uma garota no parquinho. tale as old as time, como dizem. “tira de tu italiano para entender lo que te acabo de decir.” ele sabia que não podia ser muito bruto, pois poderia começar uma briga indesejada. e ele nunca queria brigar com vincent. nunca. as coisas que aconteceram, aconteceram por um descontrole da parte dele. ele viu o rostinho mimado e bêbado de vincent e de repente se esqueceu de como as coisas funcionavam com o italiano.
valentín soube que tinha cometido um erro assim que viu a reação de vincent e ouviu o que ele disse. não imaginava que o outro tivesse tanto impacto sobre ele, mas tinha. porque, no momento em que vincent falou, ele juraria que sentiu uma dor no peito, como se o coração tivesse se partido um pouco. como pôde ser tão insensível? vincent confiava nele, gostava dele e da sua família. e sua família também gostava de vincent. mas havia um problema. sua família estranharia vincent lá. era um jantar de família, um ensaio intimista para o que aconteceria dali alguns dias. os outros membros da família marqués iriam levar seus namorados, companheiros… e ele? levaria seu colega de equipe. o seu colega de trabalho. seu amigo, sim, mas alguém que não tem conexão direta com família. e é claro que ele levaria. como poderia não levar? no momento em que escutou o tom de voz dele, sabia que tinha decidido que sim. “a minha família gosta muito de você.” quis deixar bem claro antes de mais nada. mesmo que seu pai não fosse o maior fã de vincent, o consenso geral da família era que ele era um bom amigo para valentín. colega de equipe, nem sempre, mas os problemas de pista ficavam na pista. “então você vai ser bem-vindo se quiser ir.” ele se aproximou para onde vincent tinha fugido, com ambas as mãos no bolso. “então vem comigo, finge comigo.” sorriu, tentando tornar o ar da conversa leve de novo. a última coisa que ele queria era imaginar vincent naquele apartamento enorme afogando sua solidão num copo de uísque.
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era bom ser conhecido por alguém , de verdade , e não pelo que aparecia nas câmeras . estranhamente confortável . não precisava ficar provando nada para valentín , e isso era um alívio . ‘ todo mundo precisa de um orgasmo , valentín . ’ respondeu , rolando os olhos de maneira exagerada . ‘ não se faz de inocente . você tá precisando de uns três , na real . ’ deixou a frase no ar com aquela malícia ocasional , o tipo de provocação que usava como mecanismo de defesa sempre que a conversa se aproximava demais de algo que ele não sabia lidar . talvez vincent estivesse precisando de mais orgasmos que o espanhol . mas o que realmente o desarmou foi o comentário sobre o seu cabelo . vincent não respondeu de imediato . só ficou olhando , meio sem expressão , meio surpreso por valentín lembrar de um penteado de um dos quinhentos eventos que eles iam . aquilo era desconcertante . e mais desconcertante ainda era o quanto ele gostava de ser notado , principalmente por alguém que , supostamente , só deveria se importar com as voltas na pista . mas , claro , a única reação visível que entregou foi um levantar sutil da sobrancelha , antes de rir curto . ‘ viu ? um orgasmo há menos . não foi tão difícil . ’ deu de ombros , decidindo focar no boato de valentín . deveria ter dito que o cabelo dele também estava bonito no gala do ano passado ? agora já era tarde demais . quando o outro começou a explicar sobre as especulações , vincent se apoiou nos cotovelos , ainda deitado na cama , observando-o com uma atenção mais sóbria . ‘ isso é uma merda . ’ não disse só por dizer . aquela era uma das piores partes de ser uma figura pública . ‘ mas , vai , olha pra você . você precisa pagar alguém pra namorar você ? por favor , tem uma fila . essas pessoas só falam merda porque não aguentam te ver bem sozinho . ’ aquilo estava mais para uma afirmação do que para um conselho . ‘ bem ... estavam mentindo . ’ não sabia se queria descobrir se era mentira ou verdade , mas o pensamento estava ali , flutuando , irritantemente presente . quando a camisa voou no rosto dele , vincent arrancou o tecido da cara com um rolar de olhos . depois pegou as opções , ignorando solenemente o discurso sobre o sentimentalismo da gravata do avô . ‘ esse aqui , ’ disse , levantando o smoking preto . ‘ com o sapato italiano e a gravata borboleta . ’ ele se virou para levantar e estender a peça na direção de valentín , mas então viu os tênis jogados e , logo depois , a calça caindo no chão . e , merda , ele demorou um segundo a mais do que deveria para desviar o olhar . já tinha o visto de cueca antes . por que parecia novidade agora ? desviou rápido , fingindo mexer em outra peça de roupa como se estivesse muito interessado no tecido de uma gravata qualquer . ‘ vai logo , valentín , porra . não tenho o dia todo pra te ver desfilando de cueca . ’
‘ coloca isso . ’ se afastou um pouco , sentando de volta na cama e apoiando as mãos nos joelhos , como se estivesse pronto para avaliar suas escolhas . mas bastaram alguns segundos para ele se levantar de novo , impaciente , como se algo o incomodasse . ‘ você é muito lento . vai , vira . ’ foi até valentín e , sem pedir permissão , pegou a lapela do smoking para ajustar nos ombros dele , como se fosse um stylist de verdade , mas claramente não precisava estar tão perto para fazer aquilo . as mãos firmes passavam pelo tecido , alisando , ajeitando o caimento como se estivesse perfeitamente concentrado na roupa . ‘ sabe , você não é um cliente fácil . já comecei a me arrepender de ter aceitado esse trabalho . ’ o tom era ácido , mas o canto da boca dele insistia em puxar um sorriso . quando se afastou para avaliar o todo , cruzou os braços , a cabeça levemente inclinada . ‘ ficou ótimo . o que você acha ? ’ indicou com a cabeça para ele se olhasse no espelho , e depois apoiou o ombro na parede , esperando o veredito . ‘ depois de todo o meu trabalho aqui como seu stylist , o mínimo era um convite para esse jantar de casamento . sempre quis ir no yacht da sua família . ’
valentín não prosseguiu no assunto de orgasmos. não parecia produtivo e também não parecia confortável. não que valentín fosse um puritano, e Vincent sabia muito bem disso. ele foi criado numa família moderna, por irmãs mais velhas festeiras que levavam valentín para festas inapropriadas com quinze anos. existiam coisas que eram naturais, mas algo que definitivamente não era normal era sentir um calor tomar conta de seu corpo ao pensar sobre o de Vincent. isso não era normal e ele precisava impedir a todo custo. poderia se tornar um desastre muito rápido. "eu acho que não é questão de eu pagar para namorar e apenas isso." deu de ombros. claro, ele não tinha dificuldade eu achar pessoas para beijar, namorar por algumas semanas e depois terminar. ultimamente era assim, mas esse não seria o ponto de uma relação de pr com valentín. era sobre benefício mútuo, imagem pública. o detalhe que as pessoas não percebiam era que valentín não queria isso no momento. sua imagem pública era impecável. ele já teve relacionamentos do tipo. já namorou modelos para fazer o papel de casal perfeito, instagramável, perfeito para brand deals. esse não era o caso dele no momento. ele não queria mais relacionamentos para posar para fotos. se ele fosse fazer isso de novo, seria para valer. "estar bem sozinho abre algumas questões extras. mesmo sem rumores como os de agora, as pessoas querem saber da minha vida. supõem que eu sou estou por aí quebrando corações e que não tenho mentalidade para assumir um relacionamento sério de novo. é impossível vencer com essas pessoas." então ele não tentava, então ele não falava sobre e se mantinha calado para o público. sem manifestações, sem stories ou tweets. "langdon vive sofrendo hate, por dizer ou não dizer algo. depois que essas coisas começaram a acontecer conosco… eu aprendi que é melhor se manter calado. fingir que nada aconteceu." as pessoas iriam reclamar, mas pelo menos não podia distorcer suas palavras se não houvesse nenhuma para manipular.
aceitou as escolhas de vincent sem muita reclamação, pois por mais que gostasse de ir contra o outro, aquele foi o ponto da sua ida até ali. foi quando a crítica a sua 'demora' veio que valentín sentiu algo mudando no ar entre os dois. ele não estava demorando para tirar a roupa. nem um pouco, para ser exato. então o que…? sua mente travou por alguns segundos, agora sim demorando para responder vincent. o olhar dele sobre si parecia receoso, ansioso ao mesmo tempo, por algo que o espanhol não podia decifrar. porque é claro que não podia ser o que normalmente aquele olhar indicava. então, o que?
"não vou ir mais rápido só porque você quer." franziu o cenho, pegando as coisas que vincent tinha indicado e começou a se vestir, propositalmente da maneira mais lenta que podia sem que suas intenções fossem óbvias. mas qual eram mesmo? ele não sabia dizer ao certo. quando vincent já estava o ajudando a se ajeitar, valentín não negou; lá estava vincent, ajudando a ajustar o smoking nos ombros, ajustando de todas as maneiras possíveis, alisando seu smoking e seu corpo. aquilo não era necessário. valentín não podia esconder-se da estranheza daquilo tudo.
"se arrepende por quê?" não conteve a pergunta, seu tom provocativo. o de alguém que sabe que esta certo em suas próximas palavras. "eu estou ótimo, então não precisa se arrepender, pois fez um bom trabalho." valentín caminhou até um espelho de corpo inteiro que ficava em um dos cantos do quarto de vincent. era uma casa bem vivida, apesar da bagunça típica do grimaldi. valentín se olhou, de frente, de lado, avaliou a combinação do sapato com a gravata, apenas concordando mais vezes com a cabeça. satisfeito. "é um jantar só para a família." a resposta saiu mais rápido do que o esperado e valentín sentiu uma vergonha tomar conta de si. não queria rejeitar vincent assim, pois ele era seu amigo e ele era querido por sua família. até. "você acha que se sentiria confortável?"
‘ porra , que ódio de você . nem precisei abrir a boca . você já fez o diagnóstico completo . ’ ele bufou com uma indignação fingida , como se ouvir uma análise tão precisa sobre o próprio estado mental fosse um ultraje . ‘ tô completamente obcecado pela temporada , sim . parabéns . você é um gênio com habilidades psíquicas . ’ e ainda assim ... ele não estava bravo . se fosse outra pessoa apontando aquilo , talvez estivesse . mas com valentín era diferente . era aquela a merda da intimidade — quando alguém sabia o suficiente pra colocar o dedo bem onde latejava . e o pior era que ele tinha razão : vincent precisava mesmo daquela distração . precisava falar de qualquer coisa que não fosse sua equipe , seu carro , sua performance , seu nome . então quando o outro fez aquele comentário sobre dar opinião ser um orgasmo para ele , vincent abriu um sorriso diabólico , daquele tipo que sempre precedia alguma resposta que deveria ser censurada . ‘ orgasmo é pouco . é uma experiência transcendental . um êxtase dos sentidos . deveria tentar , valentín . acho que você está precisando . vai , opine sobre o meu cabelo . ’ passou os dedos entre os fios loiros como se estivesse se exibindo — talvez estivesse . observava valentín de rabo de olho , só pra ver a reação . estava se divertindo com aquilo mais do que admitiria . mas quando valentín se recusou a falar sobre o rumor ... vincent se remexeu na cama . a expressão mudou por um segundo . aquela leve empolgação escorregou para algo mais incômodo . porque ele tinha visto o que saiu . todo mundo tinha visto . mas ele queria ouvir de valentín . ‘ tá . ’ disse , sem esconder o incômodo . a voz saiu um pouco mais seca , mesmo que tentasse amenizar . ‘ achei que a gente comentava esse tipo de coisa . mas beleza . mistério . ’ ficou em silêncio por um momento , os olhos fixos no teto de novo , mas claramente mais atento do que queria parecer . a perna balançava impaciente , como se tivesse mais coisa que queria dizer . ‘ o aquecedor estourou ontem e agora parece uma sauna do inferno . ’ deu de ombros , o sorriso já voltando aos poucos , ressuscitado pela cena do espanhol fingindo sensualidade e cantando careless whisper . vincent levou a mão à testa , descrente do que estava vendo . ‘ você tem zero talento para striptease , alguém já te disse isso ? ’ o comentário foi um jeito desesperado de não dizer outra coisa . de não pensar o porquê de aquilo ter causado alguma reação nele . era ridículo ! era só um ombro exposto , uau . ‘ enfim , fica à vontade , já te vi de cueca mesmo . ’ se sentou na cama com um movimento rápido , esticando o pescoço na direção da cadeira . ‘ vai , me mostra a porra dessa mala . ’ disse , já puxando o zíper sem esperar autorização . começou a puxar as roupas de dentro — analisava os tecidos , a modelagem , torcia o nariz , arqueava a sobrancelha . ‘ essa gravata é horrorosa . joga fora . ah — isso aqui , talvez . mas com aquele sapato de verniz italiano que você usa quando quer fingir que é santo . cadê ele ? ’
"apesar do que as pessoas pensam, não são preciso habilidades sobre-humanas para conhecer você." talvez essa fosse a habilidade sobre-humana que ele adquiriu ao longo desses anos vestindo vermelho. ele não podia pensar muito sobre isso, ou iria sentir seu peito arder num fulgor incontrolável. mas ele se via feliz, sim, em conhecer vincent. sabia que sua cabeça era muitas vezes o seu maior inimigo e que a ansiedade lhe consumia. valentín também tinha a ansiedade e a incerteza, ainda mais agora, pela primeira vez em muito tempo ele precisava se sair melhor do que nunca. melhor do que vincent. ele sabia o que a temporada reservava para os dois e mesmo assim ele não estava preparado. preparado para fazer a escolha certa para si mesmo. "o que você sabe sobre o que eu estou precisando ou não?" seu tom não era sério, mas carregava o desdém de quem estava precisando de algo que não sabia nomear. não sabia que tipo de terapia vincent estava planejando impor para ele, mas não iria funcionar. "falar do seu cabelo? eu..." algo o impediu de continuar, a incerteza nas palavras fazendo sua voz falhar em meio a uma frase que já parecia estar pronta e deveria ser óbvia. uma crítica, é claro, mas a sinceridade falou mais alto. "eu gosto do seu cabelo assim. gosto quando está com a cabeça raspada, também. gostei daquele penteado que você usou no gala ano passado." como ele lembrava daquilo? se perguntassem qual penteado langdon havia usado naquela noite específica, ele não saberia dizer com certeza. "o que é ridículo, se quer saber. eu só tenho um penteado." não que ele se importasse muito com aquilo, mas só de pensar que existe alguém como vincent que fica bem de maneiras estupidamente infinitas, em comparação a alguém como ele que está preso à mesma cor, corte e estilo desde que o mundo é mundo... é suficiente para ele julgar injusto. "a gente comenta. é só que... não tem muito o que dizer. as pessoas gostam de especular sobre a nossa vida amorosa." revirou os olhos. sabia que o outro iria entender o que ele estava passando, mas não sabia se ele iria entender o fato dele querer não falar sobre aquilo. era um nível de intimidade conturbado. "acham que eu estou pagando por um relacionamento de PR. a última coisa que eu quero agora é um relacionamento. a última coisa que eu preciso é um relacionamento." era como se estivesse no corredor da morte, esperando que todas as equipes fechem seus contratos sem ele. se ele se distrair, tudo pode ir por água abaixo. seria tolice da parte dele esperar construir algo agora, com tudo ao seu redor ruindo. "na verdade já me disseram o contrário, se quer saber." provocou, rindo. não deveria se importar tanto com a opinião de vincent, mas algo dentro de si levou aquilo quase como um desafio. por um segundo, quis provar o contrário para o outro, mas logo lembrou-se de que não estava falando com um número de seu telefone ou uma pessoa em uma balada. era só vincent. tirou a própria camisa e jogou na direção do rosto dele, com certa força, como quem manda a outra pessoa calar a boca. "ei, calma aí!" pegou no ombro de vincent, mas não o puxando, apenas olhando suas coisas por cima do ombro dele. "eu separei por opções, não enfiei qualquer coisa aí dentro — essa gravata foi o meu avô que me deu, é de família! ela fica. são dois ternos, um smoking, a gravata do meu avô, essa gravata vermelha, a gravata borboleta. o sapato italiano está aqui," puxou o par de sapatos que estava dentro de um saco com a outra opção, que era em um tom de couro mais claro. "escolhe a opção que você acha que vai ficar melhor, vai ser a primeira que eu vou colocar. e de preferência, a que eu vou ficar." já que era assim que vincent queria fazer as coisas, valentín deu uns passos para trás e começou a tirar a própria calça, depois de tirar os tênis de qualquer jeito.
valentín franziu o rosto com a ideia de ir para a suiça novamente. nada contra o país, só não lhe agradava muito, porém considerando o contexto em que foi citado, ele não podia reclamar. por mais que gostasse de fazer, principalmente para irritar vincent, sentiu que precisava ficar calado e aceitar de bom grado. o que era estranho era o fato de vincent preferir oferecer uma casa sua na suiça, mandando valentín para outro país, do que ceder um quarto do seu apartamento caso um dia viesse a ser necessário. valentín quis perguntar sobre aquilo, talvez fazer uma piada, mas algo dentro de seu peito fez ele segurar o comentário. o outro claramente tinha uma lista quase que infinita de problemas. não era da sua conta, ele não devia tentar interferir. "por que eu iria perguntar como você está se eu já sei a resposta? você, sendo do jeito que é, está obcecando de maneira doentia sobre a temporada que está para começar. ou algo nessas linhas, não é?" valentín esperava que o tom de piada fosse o suficiente para fazer com que o outro não se ofendesse com a sua sinceridade. 'ao ponto' até demais. "e sabendo disso, eu, muito caridosamente, vim aqui te distrair dos seus problemas reais com os problemas fúteis da minha família." ele sabia que ter problemas fúteis às vezes era um privilégio, então seu ponto não era provocar vincent. algo estranho tornava sua mente embaçada com a ideia. ele sabia o valor da domesticidade em relacionamentos, mas era óbvio que ele se recusava a pensar nisso agora, enquanto caminhava atrás de vincent pelo corredor desconhecido de sua casa. "eu ainda acho que a bianca está tramando algo e de último segundo eu vou ser informado que o jantar não vai mais ser no yacht. isso parece mais digno da minha irmã do que marcar um jantar black tie em alto mar." seu contato com a família estava limitado, então ele não podia reclamar tanto assim. o que era péssimo, se ele fosse pensar sobre isso. ter que ficar sem celular por causa da sua saúde mental é uma cláusula que ele não sabia antes de se tornar um piloto. ele sabe exatamente onde o aparelho está, no porta-luvas do seu carro, guardado quase que roboticamente após mandar mensagem para vincent. ele sabe que as mensagens de sua família incluíam somente 'você está bem? nos avise quando estiver melhor' e 'te vemos no jantar', pois ele leu todas pela aba de notificação, mas ainda era uma sensação estranha de estar por fora de tudo porque sua mente não aguentaria as especulações e as mensagens maldosas. ele sentia-se fraco e impotente perante pessoas que não sabiam nada sobre sua vida pessoal. "eu sabia que você diria sim, pois você adora dar opinião onde não é chamado, onde é chamado deve ser tipo... um orgasmo para você." disse em tom falso de desdém, colocando sua mala perto de uma cadeira que ficava perto da cama de vincent. realmente, o quarto estava bagunçado, mas ele não podia dizer que estava surpreso. ele era organizado porque estava na família dele ser assim, mas ele já teve seus maus momentos e também já teve que viver com outros homens. era apenas natural. "faz muito sentido você ser bagunçado. sabe, é você..." chutou um tênis para baixo da cama, mas ainda sem chegar muito perto. "eu não me importo, eu já vi a sua sala na hospitalidade." deu de ombros. agora seu tom já não era mais de brincadeira e sim de sinceridade, sério. "e se você não sabe o que aconteceu, eu prefiro que permaneça assim. não quero falar sobre isso." era como uma dor de cabeça que ele esperava que fosse ir embora, mas como uma dor de cabeça real, ele não poderia ficar estressando sobre ou ela não iria embora. esperou alguns segundos, sem olhar para ele, mas muito ciente de onde ele estava. deitado na cama, esparramado e confortável no seu espaço pessoal. era desconcertante, de certa maneira. "onde eu posso me trocar? a menos que queira que eu... sabe..." fez um movimento falsamente sexual, tirando um dos ombros da jaqueta que estava usando enquanto cantarolava as primeiras notas de careless whisper. acabou caindo na gargalhada, sem conseguir manter o ato por mais do que alguns segundos.
esperou um ou dois minutos da confirmação de vincent, ajeitando o boné que usava na cabeça numa tentativa de se esconder ainda mais, como se o vidro fumê do carro não fosse o suficiente para fazer o seu trabalho. quando deu um tempo considerável ligou o carro novamente e se dirigiu até o speaker do prédio, se identificando rapidamente e esperando a liberação do portão da garagem. se dirigiu às vagas indicadas para ele e esperou um pouco antes de sair do carro com sua pequena mala emergencial. enquanto esperava os números do elevador subirem, uma sensação de calor tomou conta de seu peito e subiu até sua garganta. ele sabia bem o que era aquilo, mas seu cérebro só conseguia chegar à conclusão lógica de que seu nervosismo era apenas um reflexo da recente evolução no almoço de sua família, no nervosismo de estar casando uma irmã. talvez, até, fosse o nervosismo de ser o assunto da semana nas f1redes, como os jovens chamavam. ele foi adolescente numa época bem diferente, então é claro que as novidades e a velocidade das notícias sempre iam assustar ele. era isso, claro. antes que pudesse pensar muito, já estava indo até o apartamento de vincent, o caminho novo e, ao mesmo tempo, não muito diferente do seu próprio prédio. é uma ideia ridícula, nossos estilos são diferentes. ele está provavelmente ocupado de qualquer jeito… mas eu sei que ele fica isolado e pensando demais na própria vida. eu ouço os rumores, eu vejo o jeito dele. e de que vai ajudar eu vir aqui e gastar o seu tempo com problemas fúteis sobre roupa? seus pensamentos foram tantos e tão rápidos, que valentín demorou para perceber que vincent já tinha aberto a porta e já estava falando. reclamando, é claro, mas dessa vez ele tinha razão. e, agora, de frente para vincent, aqueles pensamentos que ele tinha feito um trabalho tão bom em enfiar no fundo de sua mente vieram à tona. e de maneira desesperadora. eles dormiram juntos. agarrados. valentín nem se importou com isso. era estranho, isso era muito estranho. ele não se importar em dormir abraçado com outro homem. não só com outro homem, pois essa não era a novidade em questão, mas sim com vincent. eles não eram só dois homens, eles eram colegas de equipe. e o pior de tudo era que quando vincent foi embora e o perfume que ele havia deixado nos seus lençóis sumiu durante o dia, valentín lamentou. ele sabia que havia lamentado. mas era normal, era perfeitamente normal e nada além disso. o abraço aconteceu por acidente, movimentos naturais noturnos e qualquer outra coisa, foi um ato de carência. e é por isso que ele se manteve calmo quando começou a falar. “eu vim de golf.” não ajudou muito a sua causa, mas na sua cabeça fazia perfeito sentido ele responder a última mensagem de vincent. “menos chances de comoção.” ele empurrou a mala lateralmente até perto do outro, se permitindo dar um susto nele só por alguns segundos. “é meio que uma emergência.” o espanhol sorriu, um pouco envergonhado com o nível de emergências que se permitia ter. vincent provavelmente o julgaria, mas desejou que ele lembrasse que valentín tinha ‘emergências’ maiores as quais precisava ignorar. era uma atividade difícil. “mas não se preocupe, não estou vindo de mala para me mudar para sua casa ou algo do tipo.”
seu coração estava batendo mais rápido do que depois de uma volta de classificação em suzuka . e aquilo era tão estúpido que o fazia se sentir um idiota . porque não era como se fosse a primeira vez que veria valentín . quando a temporada começava , eles passavam dias grudados , em simulador , briefing , entrevistas , jantares , voos . via valentín mais do que via a própria família — o que , no caso dos grimaldi , talvez fosse até uma bênção . mas o ponto era : aquilo era normal . era rotina . então por que , diabos , ele estava com aquela inquietação insuportável agora ? ele ainda não tinha resposta . passou a mão pelo cabelo , irritado com a própria cabeça . estava ficando sensível . carente . seus últimos relacionamentos tinham sido um desastre . namorar uma cantora tinha sido a gota d’água . para o seu azar , as músicas eram eternas . por isso , aquele ano , ele tinha prometido para si mesmo : foco total . carreira , pódio , título . sem distrações . ou pelo menos tinha decidido até ouvir o interfone e liberar a entrada de valentín . vincent franziu o cenho assim que viu a mala , o desconforto subindo pela espinha . ele não era uma pessoa que dividia espaço . já passava tempo demais cercado de gente , ouvindo perguntas , dando respostas . o tempo que tinha sozinho era sagrado . por sorte , valentín se apressou em explicar . soltou o ar , relaxando os ombros , e riu com escárnio , enquanto abria espaço para o espanhol entrar no apartamento . ‘ menos mal . porque eu já 'tava inventando mentalmente uma desculpa pra te mandar embora amanhã . ’ fechou a porta com um leve empurrão do pé . ‘ caralho , nem deu tempo do contrato esfriar e você já tá penhorando os bens ? ’ ironizou , se virando para encarar o outro com um meio sorriso cínico . ele sabia que a piada era horrível . mas o timing era bom demais . e , no fundo , talvez fosse só a forma dele lidar com o fato de que , sim , valentín não estaria mais na ferrari na próxima temporada . vincent foi andando até a cozinha , ainda de olho na mala que ficou largada no meio do apartamento . ‘ tá , vai . o que você precisa ? está planejando fugir de alguém ? ’ pegou duas garrafas de água da geladeira — porque vinhos naquele momento podiam levar a lugares perigosos — e voltou para a sala , jogando uma para valentín . em seguida , se jogou no sofá como se estivesse exausto do mundo — e estava mesmo — , apoiando o tornozelo no joelho oposto . ‘ não que eu não adore ser o seu plano de fuga , viu . é uma honra . ’
"você me despejaria no meu momento de maior fraqueza?" ele fingiu estar ultrajado. mesmo que, se por algum motivo essa situação realmente acontecesse, e valentín ficaria ofendido caso acontecesse, a verdade é que vincent nunca seria uma opção viável para ele buscar apoio. ele já tinha seus próprios problemas, e valentín sempre escolheria recorrer às suas irmãs mais velhas. "bom saber que não posso contar com você caso minha vida exploda um dia." fez um biquinho e franziu o rosto rapidamente na direção dele, como quem faz birra. olhou ao redor, não contendo a curiosidade sobre a casa do outro. mesmo que fossem próximos, valentín ainda tinha certo receio com o outro loiro. era estranho ver um local tão pessoal quanto aquele. será que vincent era, de alguma maneira, diferente quando estava aqui, sozinho? "não tem nada de penhor, me poupe. você conhece a minha família?" era uma brincadeira. por mais que fosse verdade, os marqués eram muito humildes, mas valentín gostava de brincar com aquilo. para ele e para pessoas como ele fazer piada com a própria riqueza podia ser, se feitas de maneira correta, o auge do humor. "queria eu poder fugir, mas acho que não posso fugir do casamento da minha própria irmã. o que você acha?" aceitou a água de bom grado, mesmo sem estar com sede. iria ter que aceitar muitas coisas de vincent para poder não ser chutado daquela casa quando explicasse o que precisa. "o casamento da leonora é daqui alguns dias e amanhã vamos ter um jantar em família, últimos preparos e tudo. estava tudo certo quando de repente a bianca me enviou um e-mail dizendo que o dress code tinha mudado." ele revirou os olhos, puxando a sua mala cada vez mais perto para o corredor, mesmo que não soubesse exatamente qual das portas dali daria para o quarto de hóspedes, mas já chegaria lá. "e agora eu não sei o que eu vou vestir. a minha família é muito espalhafatosa, pode dizer, mas o fato é que eu preciso aparecer apresentável. vai ser no yacht da nossa família e vão ter fotógrafos e fãs na chegada, com certeza. sei lá, só quero parecer apresentável. você sabe as últimas notícias que saíram de mim." deu de ombros, bebendo um grande gole da garrafa e terminando com a água. "e é por isso que eu preciso que você sente e dê notas para as minhas opções de roupa. o dress code é black tie agora. quem escolhe black tie para um jantar num yacht?" ele gesticulou fervorosamente essa última parte. e se tiverem mudado o local do jantar? agora valentín estava preocupado. "onde é o quarto de hóspedes mesmo?"
o apartamento em mônaco estava absurdamente silencioso , o tipo de silêncio que amplificava cada pensamento inconveniente . mônaco , por mais luxuoso que fosse , não ajudava em nada . era uma vitrine constante — e agora , com a temporada quase começando , era uma jaula de vidro . as últimas semanas tinham sido um inferno : treinos privados , reuniões com engenheiros , ajustes de simulador , briefings intermináveis com os estrategistas da equipe e … marc grimaldi . seu pai tinha sido insuportável nos últimos dias . marc ligava praticamente todos os dias . queria saber tudo . a aerodinâmica nova , o comportamento dos pneus , se o carro perdia tração nas curvas de alta , o que o engenheiro chefe pensava da estratégia da red bull . mas acima de tudo : “ esse é o seu ano , vincent . você precisa trazer esse título . se o marqués foi chutado , o próximo pode ser você . ” e o pior — ou talvez o mais honesto — era que ele concordava . porque no fundo , mesmo odiando aquela pressão , vincent acreditava nela . talvez por orgulho , talvez porque a lavagem cerebral tivesse sido tão eficiente que agora era ele quem repetia o discurso nos espelhos pela manhã . esse é o seu ano . precisa ser . ele encarava o reflexo no vidro da cozinha , a garrafa de bourbon a meio caminho da boca e a sensação de que talvez — só talvez — estivesse perdendo a linha outra vez . olhou para a garrafa de novo . uísque . aquele mesmo que tinha bebido em milão . a última vez que tinha se permitido relaxar . a última vez que … vincent bufou e franziu a ponta do nariz .
a cama era grande , cabia metade da porra da equipe técnica da ferrari , então por que eles estavam daquele jeito ? não era aquele abraço desajeitado de quem dorme torto . era peito colado , braço envolto na cintura , perna por cima . e aí vinha o desconforto . valentín estava acordado ? ele percebeu ? por que vincent ficou ali parado por segundos que pareceram horas até criar coragem pra sair da cama ? a vergonha veio de novo só de lembrar da forma patética como fugiu naquela manhã . os pés descalços no chão frio , o corpo meio travado de medo de ter se mexido demais , e o rosto quente de algo que não conseguia nomear . e depois deu a desculpa mais idiota da semana só para não ter que olhar nos olhos de valentín . patético . pegou o copo vazio na pia , girando nos dedos . a mão quase foi até a garrafa . quase . mas aí o celular vibrou . valentín . ‘ ah , merda . ’ vincent congelou . o peito deu uma leve contraída — nervoso ? não . vincent grimaldi não ficava nervoso . ele só estava … surpreso . puto consigo mesmo por estar arrumado pela metade , com uma camisa de treino da ferrari e uma calça de moletom cara demais pra servir de pijama . depois de alguns segundos , pegou o celular e digitou com pressa :
pode subir .
vou liberar com a portaria agr .
tenta não causar um escândalo com os fãs do lado de fora , superstar .
ainda sabia ser engraçado , ótimo . respondeu ao porteiro autorizando a entrada . ao mesmo tempo , correu para o closet , tirou a camisa pela cabeça e pegou uma camiseta preta básica — porque parecer arrumado demais daria a entender que estava esperando por ele . e ele definitivamente não estava esperando por ele . deu dois passos , voltou , passou perfume . por via das dúvidas . escondeu a garrafa de uísque como se tivesse cometido um crime — porque , de certa forma , tinha . não hoje , grimaldi , pensou , fechando a porta do armário com força . ouviu o som do elevador , alisou a camiseta e cruzou os braços na frente do corpo . ‘ eu tinha imaginado uma visita mais planejada . é feio chegar de surpresa , sabia ? ’
esperou um ou dois minutos da confirmação de vincent, ajeitando o boné que usava na cabeça numa tentativa de se esconder ainda mais, como se o vidro fumê do carro não fosse o suficiente para fazer o seu trabalho. quando deu um tempo considerável ligou o carro novamente e se dirigiu até o speaker do prédio, se identificando rapidamente e esperando a liberação do portão da garagem. se dirigiu às vagas indicadas para ele e esperou um pouco antes de sair do carro com sua pequena mala emergencial. enquanto esperava os números do elevador subirem, uma sensação de calor tomou conta de seu peito e subiu até sua garganta. ele sabia bem o que era aquilo, mas seu cérebro só conseguia chegar à conclusão lógica de que seu nervosismo era apenas um reflexo da recente evolução no almoço de sua família, no nervosismo de estar casando uma irmã. talvez, até, fosse o nervosismo de ser o assunto da semana nas f1redes, como os jovens chamavam. ele foi adolescente numa época bem diferente, então é claro que as novidades e a velocidade das notícias sempre iam assustar ele. era isso, claro. antes que pudesse pensar muito, já estava indo até o apartamento de vincent, o caminho novo e, ao mesmo tempo, não muito diferente do seu próprio prédio. é uma ideia ridícula, nossos estilos são diferentes. ele está provavelmente ocupado de qualquer jeito… mas eu sei que ele fica isolado e pensando demais na própria vida. eu ouço os rumores, eu vejo o jeito dele. e de que vai ajudar eu vir aqui e gastar o seu tempo com problemas fúteis sobre roupa? seus pensamentos foram tantos e tão rápidos, que valentín demorou para perceber que vincent já tinha aberto a porta e já estava falando. reclamando, é claro, mas dessa vez ele tinha razão. e, agora, de frente para vincent, aqueles pensamentos que ele tinha feito um trabalho tão bom em enfiar no fundo de sua mente vieram à tona. e de maneira desesperadora. eles dormiram juntos. agarrados. valentín nem se importou com isso. era estranho, isso era muito estranho. ele não se importar em dormir abraçado com outro homem. não só com outro homem, pois essa não era a novidade em questão, mas sim com vincent. eles não eram só dois homens, eles eram colegas de equipe. e o pior de tudo era que quando vincent foi embora e o perfume que ele havia deixado nos seus lençóis sumiu durante o dia, valentín lamentou. ele sabia que havia lamentado. mas era normal, era perfeitamente normal e nada além disso. o abraço aconteceu por acidente, movimentos naturais noturnos e qualquer outra coisa, foi um ato de carência. e é por isso que ele se manteve calmo quando começou a falar. “eu vim de golf.” não ajudou muito a sua causa, mas na sua cabeça fazia perfeito sentido ele responder a última mensagem de vincent. “menos chances de comoção.” ele empurrou a mala lateralmente até perto do outro, se permitindo dar um susto nele só por alguns segundos. “é meio que uma emergência.” o espanhol sorriu, um pouco envergonhado com o nível de emergências que se permitia ter. vincent provavelmente o julgaria, mas desejou que ele lembrasse que valentín tinha ‘emergências’ maiores as quais precisava ignorar. era uma atividade difícil. “mas não se preocupe, não estou vindo de mala para me mudar para sua casa ou algo do tipo.”
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leonora era a menos metódica da família. a menos centrada, em certos pontos. então era claro que seu casamento com seu noivo perfeitamente indie e diretor de obras disruptivas francesas seria da maneira mais despojada possível. isso seria, se não fosse a intervenção de bianca, que teve como veredito primeiro proibir basicamente todas as escolhas de leonora. e bianca os conhece tão bem que mesmo assim ela acertou em tudo e conseguiu agradar à irmã do meio em todas as suas mais novas escolhas. era por isso, também, que ela estava ligando incessantemente para valentín um dia antes do almoço que ambas as famílias teriam em monaco. não que valentín não pudesse atender ao telefone. ele podia, mas deveria evitar se mostrar presente na internet de qualquer maneira que pudesse e isso incluía acesso limitado ao seu telefone. quanto menos tentação, melhor. as manchetes dos sites de fofoca estavam com o seu nome, rosto e histórico de namoros estampados após ele ter ido a woking visitar uma amiga. ela era, realmente, uma amiga, mas as manchetes não diziam isso. a traição era às fãs ou à ferrari e nenhuma dessas duas opções era muito boa. ele precisava ficar fora de radar isso havia deixado bem claro para a família que iria ficar um tempo fora, cheio de trabalho e todas as desculpas possíveis, mesmo que eles também acompanhassem os sites e tabloides. jornalistas de formula 1 eram ótimos alicerces ou seus maiores inimigos. não tinha meio termo. foi por causa disso tudo que ele demorou para abrir seus e-mails e ver uma quantidade enorme de e-mails de bianca, um atrás do outro. abriu o último com um pouco de preguiça do que quer que a irmã esteja preparando, apenas para ser surpreendido por uma última mudança. o almoço seria público, público o suficiente para pessoas tirarem fotos e ele precisava manter a imagem. infelizmente era como as coisas funcionavam na família marqués. ele precisou reformular tudo que havia planejado, suas possíveis escolhas da camisa ao relógio. tão rapidamente quanto possível, valentín estava encarando sua cama com quase todas as roupas que ele tinha e nenhuma parecia certa. black-tie optional, dizia no e-mail. de garden formal para black-tie optional. bianca iria pagar por isso.
depois de algum tempo, valentín fez um café e ficou encarando, pelo reflexo do espelho na sala, a porta do seu quarto escancarada e a quantidade de roupas ali. ele precisava de ajuda, mas ele não queria contatar ninguém. e ele sabia que se saísse daquele prédio agora, dezenas de pessoas iriam filmar seu rosto (derrotado pela vida, por sinal) e colocar na internet. ele precisava de um plano. então assim foi. esperou algumas horas até escurecer e enfiou as melhores opções de roupa dentro de uma mala pequena, saindo sem pensar duas vezes e trancando seu apartamento. na garagem, valentín tinha quatro carros e um deles era um golf 2014. não era um carro de um piloto de fórmula 1, mas era o seu primeiro carro da vida e ainda funcionava. e funcionaria para isso. por mais ridículo que parecesse, valentín usaria um carro para visitar vincent há meia quadra de seu apartamento. parou o carro do lado de fora, agradecendo aos deuses pelo vidro fumê e pegou seu celular. foi só então que percebeu que não podia simplesmente entrar no prédio de vincent, ele precisava avisar primeiro. pedir. e isso incluía falar com o outro, o que não seria estranho, porque nunca era, mas seria diferente. a noite que eles passaram em milão, e como soa estranho pensar assim, tinha sido diferente do normal. por mais que valentín tivesse dormido como uma pedra, ele podia jurar que, em certos momentos, fragmentos de memória o diziam que os dois estavam mais juntos do que o normal. abraçados, até. o que vincent pensou disso? o espanhol talvez jamais soubesse, pois quando ele acordou, eles já não estavam mais juntos. pelo menos é assim que ele lembra.
estou indo cobrar aquela visita.
chegando...
peça para que eles deixem eu entrar.
vincent esticou as pernas e deixou o corpo escorregar um pouco mais no sofá , como se estivesse pronto para se fundir com o estofado . a risada que ele soltou foi arrastada , quase incrédula , quando ouviu valentín defender a sua cultura . ‘ isso é seu trunfo ? ele não conta . picasso já tava pedindo cidadania francesa desde o segundo cubismo . ’ arqueou uma sobrancelha , o canto da boca se contorcendo num sorriso torto , quase piedoso . o álcool começava a se infiltrar pelas bordas do raciocínio , tornando tudo um pouco mais engraçado do que deveria . e por mais que estivesse zombando , era evidente o prazer que tirava da provocação . ‘ eu não faço ideia de quem ganha essa discussão . na verdade , não ligo . eu só gosto de te ver irritado . ’ seu tom caiu um pouco , quase num sussurro . quando valentín tentou mudar de assunto — e depois se calou , rindo , balançando a cabeça , vincent não forçou . mas o jeito que ele desviou , o tom da voz … vincent reconheceu aquele movimento . ele próprio fazia aquilo . não precisava dizer nada sobre suas ex-namoradas para valentín , nem para ninguém , já que a maioria dos seus relacionamentos públicos estavam eternizados em melodias . ele parecia ter uma queda por mulheres que transformavam dor em arte . e , bem , ele tinha sido a dor de pelo menos três delas . não precisava que colocassem o nome dele numa faixa . bastava uma letra com um " golden boy " , carros de corrida , as ruas de mônaco , falando de alguém que fugia no exato momento em que as coisas pareciam reais . as fãs eram rápidas . montavam teorias que , infelizmente , eram verdade . “ essa música claramente é sobre o grimaldi . ” nunca mais namoraria uma cantora . quando valentín tentou sair pela tangente com a brincadeira das propagandas de produto de cabelo , vincent agradeceu . ‘ eu vou dar skip em todas . ’
ficou quieto por um instante . quieto de verdade . e isso , no caso dele , era um evento raro . ele manteve os olhos em valentín , com a fala mais arrastada que o habitual e a cabeça pendendo sutilmente . era uma versão do espanhol que não surgia com frequência . uma versão de que vincent gostava — só porque era mais divertida . ‘ então eu sou só o bode expiatório emocional que torna sua decisão menos dolorosa . ’ um quase sorriso dançou nos lábios , mas não chegou a se formar . ‘ isso é fofo . ’ queria retrucar , mas não conseguiu . valentín tinha ganhado aquele round . ‘ mallorca vem com cláusulas complicadas , então . ’ ele inclinou o corpo , pegando o copo de valentín e colocando do lado , fora do alcance . com cuidado . como se não quisesse mais ver ele bebendo . como se estivesse entrando no modo “ cuido de você ” — mas sem admitir que estava fazendo isso . ‘ você entendeu tudo errado ! eu ofereci proximidade . você ofereceu uma lembrança de verão . você quer me embebedar em mallorca e me deixar lá . eu … queria você na minha órbita . ’ era mentira . ofereceu mônaco porque era o que ele podia oferecer . o silêncio ficou pesado por um instante . vincent desviou o olhar , desconfortável com o quanto havia dito . soou ainda mais ridículo e carente em voz alta . ‘ vinhos , claro . ’ ele riu , dessa vez de verdade , o som curto e incrédulo . ‘ dois pilotos da ferrari andando pelas vinícolas da toscana . isso é tão sexualmente carregado que acho que a FIA proibiria antes de qualquer jornalista saber . ’
‘ tem coisas que nem se você tentar , não dá para jogar fora . ’ ele sabia bem isso . ‘ então você admite que edits nossas te deixam triste ? ’ perguntou com um sorriso desdenhoso nos lábios . era errado querer tirar confissões de um bêbado ? provavelmente . mas queria apenas provar seu ponto inicial . vincent riu ao ouvir “ swiftie é muito forte ” vindo da boca mole de valentín , com aquele sotaque espanhol escorregando preguiçoso por entre os bocejos . ‘ aquela sua playlist no voo para silverstone não era só indie espanhol aleatório ... tinha um cruel summer escondido ali . eu vi . ’ ergueu as sobrancelhas de modo acusatório como se tivesse descoberto um segredo de estado . ‘ metade do álbum reputation ? você tá me chamando de vingativo , rancoroso e emocionalmente instável ? estou profundamente ofendido . ’ dessa vez estava altinho demais para ficar realmente ofendido . o bocejo seguinte foi tão violento que fez até ele bocejar por reflexo . ‘ você vai desmaiar no corredor antes de achar o interruptor do quarto . ’ levantou-se em seguida e deu alguns passos até alcançar valentín , a mão segurando de leve as costas dele como se quisesse verificar que não caísse duro no chão . ‘ eu fico . ’ disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo , enquanto caminhavam em direção ao quarto . ‘ não confio em você bêbado sozinho , ainda mais com acesso à internet . ’ ao entrarem , deixou valentín seguir à frente e usou esse tempo para fechar a porta com um pé e já ir se livrando dos próprios sapatos . depois , desabotoou a camisa branca e jogou casualmente em uma poltrona próxima . passou a mão no cabelo de novo , tirando o excesso de calor da nuca , e olhou em volta com uma expressão cínica . ‘ onde ficam suas roupas de dormir ? ’ se aproximou da cômoda , esperando a resposta . ‘ e o colchão extra ? eu não vou dormir no sofá igual um casal divorciado . ’
nada era suficiente para vincent com essas coisas. talvez com outras coisas também. valentín não podia deixar de se perguntar até que ponto isso era verdade. então, ele começou a citar outros exemplos, porque acima de tudo ele não queria dar a última palavra para vincent. não nesse caso. "dalí, goya, gaudí. miguel de cervantes, paco. pedro almodóvar!" ele não podia citar alguém que admirasse mais do que almodóvar no ramo artístico do seu país, então ele se deu por satisfeito. "e os motivos de picasso para morar na frança são justos. eu também não retornaria para um país com um ditador que iria me querer morto. você não acha? ter um artista exilado não é uma vergonha. pelo contrário." valentín estudou até o início do ensino médio na espanha e lembra de visitar guernica. botava em perspectiva os problemas da sua vida. "acho que não ganha." deu de ombros. se pessoas fossem entrar nessa discussão, ainda mais eles dois, jamais chegariam num acordo. "não precisa mentir, cariño. eu sei que você vai assistir todas e me apoiar. por que você é um bom amigo, sabe..." falava no tom de maior condescendência possível, como se explicasse para uma criança algo muito simples. na verdade ele queria que vincent o apoiasse após a separação deles. talvez tudo que lhe restassem publicamente eram as interações engraçadas na internet. valentín deixou que vincent fizesse sua piada e apenas riu. não deixava de ser verdade. 'bode expiatório' ou o que fosse. era sua maneira de lidar com aquilo. "falando assim parece que eu estou desejando algo ruim para você. te embebedar e acabar com a sua imagem pública. isso quando eu sei bem que você sabe fazer isso por conta própria." segurou a risada, dando com seu ombro no ombro de vince. eles estavam extremamente perto agora. "mas eu aceito sua proposta. vou amar sair do meu apartamento para passar uns dias no seu apartamento. dez minutos do meu. vou adorar ficar... na sua órbita." imaginou e achou a cena cômica. quase como quando ele era criança e fazia uma mala enorme para passar uns dias na casa de um amigo que morava alguns quilômetros ao sul da sua casa. "você acha vinhos sexualmente carregados? isso é bem revelador, grimaldi." valentín achava vinícolas românticas e agora que ele pensava sobre isso, talvez não fosse um bom assunto de se tocar.
"eu não disse que elas deixam, disse que não quero você me enviando na tentativa de. eu também não sou morto por dentro, por sinal." falou a parte final um pouco mais baixo, como um sussurro de algo que ele não queria admitir. até ele, que não era de edits, poderia ficar triste dependendo do quanto as fãs gostavam de serem dramáticas. já bastava o que ele tinha que escutar. e ele iria escutar. ele sabia o que todos iriam pensar. sua carreira tinha acabado e tudo, mas sempre iria ter pessoas lhe dizendo que sua amizade com vincent era linda. e ele nunca poderia discordar. "você sabe como silverstone é importante para mim." não era tanto como barcelona, mas ainda assim... era a terra natal de sua mãe. "eu precisava de um incentivo extra e cruel summer, bem... é cruel summer." silverstone é sempre no início do verão, então era mais do que justo na sua visão. "não, estou dizendo que você é o meu kanye west." seu tom era falsamente sério, mas sabia que vincent poderia notar a forma como seus lábios estavam querendo sorrir. ele esperava, pelo menos, que o outro percebesse esses pequenos detalhes. só não sabia o porquê. "você não confia em mim para chegar no meu quarto de maneira segura?" indagou logo após ligar o interruptor, mas seu argumento morreu ao bater o dedão do pé na quina do aparador do quarto. um quarto de hotel tão grande e valentín conseguia fazer algo assim. confiava plenamente em vincent, sentimento que fazia seu peito aquecer. era bom, mais do que isso. escutou o bater da porta, com a leve realização de que o outro iria dormir ali ali. cara de pau, mas isso não era novidade. sentiu seu corpo quase desligar quando deitou na cama, mas ainda mantinha certa consciência. apontou rapidamente para a cômoda, onde tinha tirado algumas de suas roupas de sua mala no dia anterior, para se organizar melhor. suas palavras estavam se esvaindo aos poucos, sem ele perceber. "colchão extra? não tem!" ele estava com seu tom incrédulo, mesmo que com os olhos já fechados. 'não é óbvio?' era o que o seu tom resmungão dizia. "o sofá. ou aqui. é bem grande." de barriga para baixo, como sempre dormia, ele esticou a perna esquerda até o outro lado da cama, onde seu pé mal tocava no lado oposto. antes que pudesse recolher a perna, ele pegou no sono.