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Invejava as pessoas ao meu redor, hermeticamente fechadas em suas roupas e isoladas da tirania dos objetos. Viviam prisioneiras em seus sobretudos e casacos, nada do lado de fora era capaz de aterrorizá-las e vencê-las, nada penetrava em suas prisões maravilhosas. Entre mim e o mundo não havia separação. Tudo o que me rodeava me invadia da cabeça aos pés, como se minha pele tivesse sido metralhada. A atenção, aliás muito distraída, com que eu observava ao redor não era um simples ato de vontade. Todos os tentáculos do mundo se prolongavam, de maneira natural, dentro de mim; eu era atravessado pelos milhares de braços da hidra. Tinha de constatar ao exaspero que vivia no mundo que via. Nada a fazer quanto a isso.
BLECHER, Max. Acontecimentos na irrealidade imediata
Um martelo, três pregos, um tronco de árvore e uma trave de madeira. Quando foi que ocorreu a um sujeito habilidoso girar um prego entre os dedos, desviar os olhos do prego a fim de olhar o martelo que golpeava com força a cabeça do prego e não ver mais à frente o trabalho de carpintaria, e sim um de seus irmãos pregados em uma cruz? Quem terá sido o primeiro pescador a nutrir a ideia de que seria ótimo cravar anzóis, grandes ou pequenos, na carne humana? Quem terá sido o ferreiro que ergueu pinças incandescentes da forja e foi tomado pelo desejo de com ela esmagar os seios de suas irmãs? Qual seria o nome do domador de cavalos a quem ocorreu a ideia de usar o açoite nas costas do menino de recados ou emprestar animais selvagens para que as autoridades dilacerassem os braços e as pernas dos viventes? Que naturalista enxerga na água e no fogo instrumentos para afogar e chamuscar o próximo, vê no vento e nos frutos da terra meios para fazer uma pessoa perecer sedenta ou envenenada? A quem ocorreu aproveitar todas essas coisas úteis para atormentar o próximo até a morte? Por que essas coisas se convertem tão facilmente em instrumentos letais nas mãos do homem? Por que é que uma faca não pode ser apenas um instrumento para entalhar madeira, desossar ovelhas ou colher angélicas? Por que razão a lâmina afiada do cutelo tem que sempre abrir caminho até a jugular de nossos irmãos? E como é possível que esses instrumentos assassinos retornem ao mundo das utilidades práticas?
SJÓN. Pela boca da baleia
Para mim, a natureza é tudo menos inanimada. Hoje, quando passeava – eu não passeio – pela estradinha que contorna a floresta, senti a vida das coisas me invadindo por todo lado, me povoando, me acotovelando: numa palavra, me observando. Por que, ruminei com inquietação, há tanto dela? Por que há relva por toda parte, cobrindo tudo? – por que há tantas folhas? E isso para não levar em consideração o que acontece sob o solo, os besouros revolvendo a terra, as minhocas em suas incontáveis contorções, o ruído das raízes filamentosas penetrando o solo cada vez mais fundo à procura de água e calor. Fiquei estarrecido com a profusão de tudo, me senti esmagado sob seu peso e não demorei a girar nos calcanhares, voltar correndo e me refugiar em casa, com a mão trêmula pressionando o coração palpitante.
BANVILLE, John. O violão azul
Não há nenhuma prova de que indivíduos dotados de rosto sejam menos solitários que eu. Qualquer que seja o cartaz pendente da pele de um rosto, seu conteúdo não deve diferir em nada do de um náufrago à deriva. Além do mais, a solidão só é um inferno para aqueles que dela tentam escapar: para quem a procura, é a felicidade do ermitão.
ABE, Kobo. O rosto de um outro

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A partir de então, a lei foi esmagada pela violência, a primeira posição coube ao mais forte, as discórdias dos cidadãos, que, até então, costumavam ser sanadas através de acordos, passaram a ser decididas pela espada, e as guerras foram empreendidas sem outro motivo senão o lucro delas resultante. O que não é de admirar, pois nem aí, onde começaram, os exemplos se mantêm. Mas, por pouco que se lhes franqueie passagem, abrem logo um largo caminho e se propagam amplamente: e, uma vez fora da estrada, chega-se ao abismo: e ninguém considera torpe para si o que foi sucesso para outros.
Caio Veleio Patérculo, História romana. Trad. Raul José Sozim
Havia seis meses, eu passava longas horas do dia a “experimentar” pseudônimos. Eu os escrevia com tinta vermelha num caderno especial. Naquela mesma manhã, tinha decidido por “Hubert de la Vallée”, mas, meia hora depois, cedi ao charme nostálgico de “Romain de Roncevaux”. Meu nome verdadeiro, Romain, pareceu-me bastante satisfatório. Mas, infelizmente, já havia um Romain Rolland, e eu não estava disposto a dividir minha glória com ninguém. Aquilo tudo era muito complicado. O problema com os pseudônimos é que eles nunca conseguem exprimir tudo o que você sente. Eu quase cheguei a concluir que um pseudônimo não bastava, como meio de expressão literária, e que era preciso também escrever livros.
GARY, Romain. Promessa ao amanhecer
Acredito que um grande estilo, no fim das contas, é falar adotando a austera precisão imposta pelos seus últimos instantes de vida. Imagine as palavras pronunciadas por um homem que está morrendo. Aí está a genialidade do seu herói: descrever o mundo como se estivesse morrendo a todo instante, como se fosse obrigado a escolher as palavras poupando respiração. É um asceta.
DAOUD, Kamel. O caso Meursault
Essa era a sensação mais repetida da minha vida, tanto que era a minha própria vida, eu não tinha mais vida do que essa: ouvir uma voz, entender as ordens que essa voz me dava, querer obedecer, e não poder... Porque a realidade, que era o único campo em que poderia ter atuado, se separava de mim na velocidade do meu desejo de entrar nela...
AIRA, César. Como me tornei freira
O conhecimento dos mundos estrangeiros, seja no tempo ou no espaço, tem por resultado destruir a estreiteza do espírito e os preconceitos, mas também o entusiasmo ingênuo que nos faz acreditar na existência de Paraísos, e a ideia tola de que tínhamos alguma importância.
YOURCENAR, Marguerite. A volta da prisão

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Esperar. Ai, na vida da gente, há sentimentos vários, como o de se alegrar, o de se encolerizar, o de se entristecer, e todavia constituem esses sentimentos um por cento apenas de nossa vida. Não estaríamos, quanto aos restantes noventa e nove por cento, simplesmente a viver esperando? Esperando que os passos da felicidade se façam ouvir neste preciso instante, no corredor, com ansiedade tal que chega a estourar-nos o peito. E, no entanto, eis o vazio. Ai, como é deplorável a vida! Esta realidade, nua e crua, de a gente achar que era melhor não ter nascido. E, depois, ficar à espera de algo, debalde, todos os dias, de manhã à noite. É lastimável demais. "Foi bom ter nascido", ai, queria dizê-lo e alegrar-me da vida, dos homens, da sociedade. Não se poderia empurrar para um canto a moral obstruidora?
DAZAI, Osamu. Pôr do sol
A cada um o seu (Leonardo Sciascia, 1966)
— Nunca sai de casa?
— Nunca, há vários anos... A certa altura de minha vida, fiz cálculos exatos... se saio de casa para buscar a companhia de uma pessoa inteligente, uma pessoa honesta, acabo enfrentando, em média, o risco de encontrar doze ladrões e sete imbecis que estão ali, prontos para comunicar-me suas opiniões sobre a humanidade, sobre o governo, sobre o governo municipal, sobre Moravia... Acha que vale a pena?
— Não, efetivamente não.
— E, afinal, em casa me sinto muito bem; em especial aqui dentro — mexendo as mãos para indicar e acolher todos os livros ao redor.
— Bela biblioteca — constatou Laurana.
— Não é que não aconteça, também aqui dentro, de topar com ladrões, imbecis... Falo dos escritores, que fique claro, não das personagens... Mas me livro facilmente deles, devolvo ao livreiro ou então dou de presente ao primeiro cretino que me venha visitar.
Não era um mau homem, mas, sim, um homem bom pela metade, o que talvez seja pior; fraco, sem energia, sem força moral, embora julgando-se bom pai, bom filho, bom marido, bom homem, e sendo-o talvez, se para isso bastasse uma bondade fácil, que se enternece facilmente, e essa afeição animal que faz querer aos seus como a uma parte de si mesmo. Nem mesmo se podia dizer que fosse muito egoísta: não possuía bastante personalidade para sê-lo. Não era nada. Coisa terrível na vida, essas pessoas que não são nada! Como um peso inerte, que se solta no ar, elas tendem a cair e é preciso absolutamente que caiam; e, na queda, arrastam tudo o que está com elas.
ROLLAND, Romain. Jean-Christophe. “O alvorecer”
Tinha-me vindo o pensamento de que os meus romances nenhum interesse despertariam àqueles homens: são narrativas de um mundo morto, as minhas personagens comportam-se como duendes. Na sociedade nova ali patente, alegre, de confiança ilimitada em si mesma, lembrava-me da minha gente fusca, triste, e achava-me um anacronismo. Essa ideia, que iria assaltar-me com frequência, não me dava tristeza. Necessário conformar-me: não me havia sido possível trabalhar de maneira diferente: vivendo em sepulturas, ocupara-me em relatar cadáveres.
RAMOS, Graciliano. Viagem
A medida da beleza
Gjon Mili—Time Life Pictures/Getty Images
No final da década de 1950, ao visitar Munique, Carlo Levi (1902–1975) sentou-se a uma cadeira num restaurante de salsichas próximo à Pinacoteca e, após observar as freguesas do recinto, na maior parte mulheres de meia-idade devorando as iguarias locais e bebendo a cerveja alemã, sobreveio-lhe a seguinte consideração sobre o feitio do belo:
Talvez, eu pensava, enquanto contemplava minhas insaciáveis vizinhas, estas pessoas, mesmo hoje, se sentem assim livres de qualquer limite, sequer temem a feiura, a gordura, a deformidade e a velhice, e permitem a seus corpos serem exagerados e disformes, sem complexos, pudores e medos, porque seus pintores nunca criaram para elas, no início, um modelo de beleza, aquela forma absoluta que se torna em seguida, mesmo para quem não tenha consciência disso, um módulo, uma obrigação. A Madonna de Raffaello, numa pobre oleografia, pendurada na cabeceira da cama de uma camponesa italiana, a obriga, sem que ela o saiba, à medida da beleza. Os grandes pintores alemães não deram outro modelo ao qual se conformar senão a realidade nua, ou a violência deformadora dos sentimentos. A antiga liberdade anárquica da Alemanha ficou assim sem os vínculos da forma: o expressionismo era, desde as origens, interior, protestante violência individual. Essas mulheres desmedidas, ao manifestar sua paixão, se sentem certamente em paz e em harmonia, absolvidas, inocentes e, quem sabe, belíssimas.
Alguns dias depois de intentar esta síntese, Carlo Levi consegue construir, sem querer, postado em meio ao cenário do que fora o mais hediondo projeto da Alemanha, um novo conceito do belo: o da esperança que demole a megalomania.
Essas ruas escuras de escombros, onde chegamos às três da madrugada, rumo à porta de Brandemburgo, tinham sido o centro da opulência, da política, e da elegância de Berlim: dele não se reconhece sequer a forma. Para além de um arame farpado, na terra de ninguém, pretejam vagas as obras do bunker de Hitler. Este outro prédio, à esquerda, caindo em ruínas, com as paredes rachadas e descascadas, este amontoado de tijolos e de pó era, dizem-me, a esplêndida casa de Goering. Entro, curioso, por um buraco na parede, com o cuidado de não tropeçar nas vigas e nos detritos, e me encontro na sórdida obscuridade do que resta daquele ninho do poder e da grandeza vã. Os amigos e suas esposas ficaram fora, a esperar-me no carro. Tendo ficado finalmente sozinho, e as senhoras não podendo me ver, aproveito sem pensar do momentâneo isolamento e da escuridão para fazer xixi no muro. Era um gesto automático, e sem nenhuma intenção: mas logo, no mesmo instante, percebi que era o mesmo gesto que faria Charles Chaplin, deliberadamente, por inevitável intuição poética, nas vestes de Charlot. Não era eu, naquela sombra, mas Charlot que chegara, no fim do filme, ao fim da história, totalmente livre, no quarto do Ditador, do chefe da servidão, do chefe do outro mundo. Sim, havia portanto um fim, o de Brecht, o de Chaplin, e era esse que se mostrava por si só em meu gesto involuntário. E era um fim bom, pois era possível. Tudo estava acabado, mas naquele vazio, um novo tempo podia começar; e no mundo (no mundo que já é diferente) havia ainda a esperança.
Estas passagens foram extraídas de seu relato de viagem A dupla noite das tílias, de 1959 (tradução de Liliana Laganá, ed. Berlendis & Vertecchia, 2001), que, ao lado do romance Cristo parou em Eboli, de 1945 (tradução de Wilma Freitas R. de Carvalho, ed. Nova Fronteira, 1986), constitui toda a obra publicada no Brasil, até agora infelizmente ignorada, de uma das grandes vozes humanistas do pós-guerra.

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Sociedade. Sentia que talvez estivesse começando a entender o significado dessa palavra. É a luta entre um indivíduo e outro. Além disso, é a luta aqui e agora, a vitória naquele momento: só isso importa. Seres humanos jamais se submetem a outros seres humanos. Mesmo os escravos praticam suas vinganças vis. O ser humano pensa apenas em cada batalha, sem se preocupar em encontrar meios para viver mais. Fala-se em razão e justiça, quando a meta real de todo esforço é o indivíduo. E quando o indivíduo é superado, há outro indivíduo à sua frente. A dificuldade de compreender a sociedade é a dificuldade de compreender o indivíduo. Percebendo que o mar eram os indivíduos, não a sociedade, me libertei em parte do terror que sentia desse mar fantasmagórico chamado mundo.
DAZAI, Osamu. Declínio de um homem
Por aquilo que me diz respeito, entre todas as coisas que dependem de mim não há nenhuma que tenha para mim um preço mais elevado do que um elo de amizade estabelecido com homens que amam sinceramente a verdade. Creio, de fato, que entre os objetos que não estão em nosso poder, não há outro no mundo ao qual possamos nos prender com mais tranquilidade do que à amizade de tais homens; tanto quanto não se pode abandonar a verdade, uma vez que se a tenha percebido, também os homens não deixam de se amar uns aos outros quando a amizade que possuem se baseia na paixão comum de conhecer a verdade. Uma amizade dessa natureza não é, entre todas as coisas que não dependem de nós, o que há de mais alto e amável? E não é a verdade o que pode aproximar as opiniões e unir estreitamente as almas?
SPINOZA. Carta a Willem van Blyenbergh, 5 de janeiro de 1665