Chuck podia fazer uma extensa lista dos defeitos de Paul Foster, mas desconfiava que ninguém estaria interessado em ouvir. Para o restante da cidade, o pai era um homem de reputação ilibada, respeitável o suficiente por ser o símbolo da ordem, aquele que mantinha o perigo longe das pacatas ruas de Riverside. Qualquer coisa que Charles dissesse a seu respeito, quanto ao que acontecia dentro de casa, seria desconsiderada, bem como sobre os esquemas de corrupção envolvendo o prefeito no trabalho. Ninguém se importava. Por outro lado, tinha uma coisa com a qual se importariam: a que afetasse diretamente a moral e os “bons costumes”. Há tempos que Foster desconfiava que o mais velho não era o homem mais fiel do universo, não só pela forma como tratava a esposa, mas pelas saídas recorrentes, mascaradas como turnos de trabalho. Não que fosse costumeiro ir até a Delegacia para falar com Paul, mas recordava-se do dia em que precisou fazê-lo após o pai ter dito que estava indo para mais um plantão e, ao chegar no Departamento de Polícia, não o encontrou em parte alguma. E Charles podia ser muitas coisas, mas não era burro. Até então, aquilo nunca foi um problema para ele — havia, afinal, certa ‘solidariedade’ de classe, mesmo em se tratando de um homem que odiava. Ao ver que as surras na mãe se tornavam cada vez mais frequentes, contudo, ele tinha de encontrar um jeito de desmascarar o Chefe de Polícia diante da cidade inteira. Não tinha certeza sobre essa ser uma das noites em questão ou apenas mais um turno de trabalho, porém, não custava tentar. Esperou que o pai saísse na frente, permanecendo esparramado no sofá com uma cara de poucos amigos até que a garagem fosse trancada. Depois disso, Chuck não perdeu muito mais tempo, seguindo até os fundos, onde a Harley estava estacionada, e saindo em perseguição à viatura discreta. Ele sabia que tinha de ser cauteloso, considerando que Paul estaria atento a possíveis observadores, e manteve os faróis da moto apagados enquanto se esgueirava, andando a uma velocidade bem abaixo da costumeira. Não foi surpresa quando viu o pai estacionando o carro num terreno afastado, nos limites da cidade. O motel de beira de estrada não era distante dali e o homem seguiu a pé; depois de entrar, Chuck o perdeu de vista, vendo, no entanto, outro elemento conhecido. O Austin-Healey de Darcy não estava assim tão escondido quanto deveria, e o Foster teve vontade de rir ao imaginar que a garota estava frequentando lugar como aquele. Ao se aproximar da janela do caroneiro, porém, viu a cabeleira loira em cima do volante. “O que foi? Alguém te deu o cano?” — perguntou com um riso baixo, tentando chamar a atenção. A moto foi desligada e substituída pelo assento vago ao lado da Styles. “O pijama é sexy, mas eu não aconselho como o melhor a usar num encontro”
⧼ ✢ ❛ De olhos fechados, era incapaz de perceber os movimentos ao redor por alguns segundos. Tudo o que conseguia fazer era direcionar suas energias a tarefa de não vomitar, enquanto a respiração profunda tornava quente o ar ao seu redor. Sua mãe estava tendo um caso, o exemplo religioso da cidade estava se deitando com outro homem. O estômago embrulhou outra vez. Podia ser apenas um engano, afinal, motéis não eram exclusivamente para aquilo, no final de contas eram apenas uma versão mais barata de um hotel. Ela poderia estar encontrando um primo distante, estar ajudando alguém, ou simplesmente estar sozinha. A cabeça caçava rotas de fugas para algo que não era capaz de acreditar. Seu pai era um homem tão bom, ele não merecia aquele tipo de tratamento. Qualquer linha de raciocínio fora interrompida ao ouvir a voz masculina. Voltou a si, erguendo a cabeça e arregalando os olhos, um baque seco ao pender a cabeça na direção da janela. Antes que pudesse perceber de quem se tratava, ou tivesse a chance de comparar a voz com alguma conhecida, tinha deixado um gritinho escapar de seus lábios. Definitivamente não deveria ter se deixado tão exposta, àquela hora da noite, naquele lugar. Os olhos verdes, já acostumados com o breu, tornaram fácil a tarefa de reconhecer Chuck quando verdadeiramente o olhou. Chuck. Negou, mordendo o lábio inferior antes de ajeitar o cabelo, um sorriso discreto ao piscar, as covinhas se pronunciando minuciosamente. — Você não deveria assustar as pessoas assim! Qualquer dia posso achar que é um ladrão e acreditar que merece algumas chibatadas. — Comentou, observando com o arquear de uma das sobrancelhas, o garoto tomar o lugar ao seu lado. Se o Foster fosse realmente um ladrão, ou um tipo mais perigoso de marginal — visto que ela não o considerava perigoso para si daquela forma — ela com certeza estaria encrencada. Quem deixava as portas destrancadas naquele lugar? Ao se lembrar do pijama ante a menção, todavia, o transe no qual estava inserida parecia ter se dissipado, e a loira piscou uma, duas, três vezes antes de arregalar os olhos, a boca levemente aberta, sangue se acumulando nas bochechas assim que percebeu o que o loiro queria implicar com as palavras. No mesmo momento, entretanto, negou, arqueando uma das sobrancelhas sutilmente conforme ajeitava-se no banco, sem se preocupar em esconder a pele exposta. — Eu não estou arrumada por um encontro. E nem levei o cano de alguém, Foster. Eu não sou do tipo que aceita isso. — Apontou na direção do motel, desviando os olhos dos de Charles por um momento antes de voltar à prestar total atenção nele. Se antes o tom de humor e sarcasmo pintava a voz, agora a morena parecia mais pensativa do que o normal. O assunto que a levava até ali era sério, mas tinha suas dúvidas sobre desejar o compartilhar com o marginal ou não. — Mas você parece do tipo que aceita um motel à beira da estrada. Vai demorar muito para sua verdadeira companhia chegar e você sair do carro?