Jesus e a Logoterapia. O ministério interpretado à luz da psicoterapia de Viktor E. Frankl - Primeira tentação
A primeira tentação que assediou Jesus, e que importuna a todos nós, foi a de deixar prevalecer o princípio do prazer, a tentação de satisfazer os desejos sensuais imediatos sem levar em consideração objetivos de longo prazo. Para ver como essa tentação é comum, basta apenas lembrar como a fome extrema tende a anular todos os outros interesses, como uma dor aguda tende a dissipar todas as outras preocupações, como extremos inesperados de temperatura tendem a reduzir a eficiência humana. A tendência comum é satisfazer as solicitações urgentes do corpo para livrar-se da fome (física ou sexual), da dor ou do frio. No entanto, provas as mais diversas demonstram, de forma cristalina, que a lei da autopreservação não é a única que vigora entre os homens. Onde há compromisso com uma missão de vida, onde existe lealdade a um valor supremo, ali se revela falsa a perspectiva que insiste em sustentar que todos os valores superiores dependem da satisfação prévia dos impulsos mais primitivos.
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Quando Frankl afirma que nos campos havia “muitos exemplos – frequentemente heroicos – que provavam que mesmo nos campos os homens... não precisavam se submeter às leis internas aparentemente onipotentes da deformação psíquica”, ele está salientando o que Dorothy Thompson escreveu depois de visitar Dachau e de estudar os históricos de vida dos internos: “Os que continuavam sendo homens, em condições da mais desumana brutalidade, serviam a uma imagem e a um ideal muito superiores às realizações mais elevadas do homem”. Frankl descreve como a falta de vínculos como valores espirituais resultava na manifestação de características bestiais:
O responsável último pelo estado do eu interior do prisioneiro não eram tanto as causas psicofísicas enumeradas, e sim o resultado de uma decisão livre. Observações psicológicas dos prisioneiros mostram que apenas os que permitiam que sua lealdade interior ao seu eu moral e espiritual diminuísse acabavam caindo vítimas das influências aviltantes do campo. Conquanto a hipótese freudiana da onipresença do princípio do prazer apresente evidências óbvias que lhe dão sustentação em alguns casos, ela é apenas uma hipótese, e ainda uma hipótese baseada em evidências seletivas. O homem simplesmente não vive de pão apenas; nem sua necessidade de pão precisa ser satisfeita antes que ele atenda às necessidades de outros. Na verdade o preceito “Primeiro sobreviver, depois filosofar” perdeu sua validade nos campos. Frankl é muito claro ao dizer que “o que valia no campo era exatamente o contrário;... filosofar antes, morrer depois”. Quando o modo de viver do homem inclui invariavelmente a Deus, a expectativa futura assume maior importância do que o desejo imediato. Pág. 23.
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Assim, a primeira decisão que Jesus tomou foi a de renunciar à gratificação imediata em proveito de objetivos futuros mais valiosos. Ele definiria sua linha de ação não de acordo como o que parecia impor-se como o melhor para ele no momento, mas segundo o que os objetivos de longo prazo exigiam, conforme vistos à luz da vontade de Deus para ele. Nem sempre lhe era fácil ver a vontade de Deus, fato que fica muito claro na oração angustiante no Jardim do Getsêmani, cujas palavras finais são, “Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” (Lc 22,42).
















