Don't. Run. | Waid & Jessica
Continuava a encarando enquanto ela olhava para o chão, mas a única reação do rapaz foi revirar os olhos enquanto a soltava e deixava os próprios braços caírem ao lado do corpo. Não sabia dizer se sempre Jess era uma má mentirosa, mas naquele momento em especial, havia sido uma péssima. "É, como se você acreditasse nisso", falou debochado, olhando para o lado. "Não é história", falou sério, e depois: "E mesmo que seja, isso vai ser tratado como se fosse real. Quer dizer, você sabe o que vai acontecer se você faltar. É isso mesmo que você quer?" Ele não conseguia imaginar ninguém querendo ser o não-existente. Seria bom se existisse algum voluntariado, mas esse ser não existe. Ninguém quer deixar de existir. Mesmo que você já não fale com ninguém, o problema é maior. Professores não falam com você também, ninguém fala. Era loucura Jess sequer pensar em entrar naquele lugar.
Ela não acreditava e tudo ficara pior quando a briga em sua casa ficou alta o bastante para fazê-la ir até as escadas e ouvir os gritos e as palavras dos pais. Contudo, ela queria ser como qualquer outra pessoa e acreditar que era apenas uma história contada para assustar as crianças, mas a prática não era assim tão simples. Não havia um botão que ela poderia apertar e então acreditar e desacreditar no que ela quisesse. A realidade era essa e não havia mudanças na mesma. A garota suspirou perante a verdade. Era ainda pior quando os outros a acusavam, pois era mais perceptível o quanto ela estava mentindo para si mesma. Em vários livros de psicologia que ela havia passado os olhos, o assunto principal era o “não minta para si mesmo”, pois mentir para si mesmo era sinal de baixa autoestima e início de compulsão em mentir, o que poderia levar alguém a mentir desesperadamente para os outros e perder a credibilidade e amigos. Jessica raramente mentia para si mesma ou para os outros, no entanto, aquele era um fato isolado, pois ou ela mentia, ou ela dizia a verdade e dizer a verdade era como aceitar a derrota e a condenação.
Ouvir a pergunta de Waid a fez negar rapidamente com a cabeça. Por anos ela havia sido ignorada por sua família tendo apenas a companhia de sua babá que havia se tornado praticamente uma mãe para ela, o que tornava a situação de abandono completamente inaceitável para ela. Poderia ser um pensamento egoísta e ela não queria tê-lo, porém, Jess não queria ser a escolhida da vez para ser ignorada por um ano inteiro por todos os seus amigos, como se de repente ela não fosse mais nada para eles e era isso que a fazia temer ainda mais estar naquela sala: como ela poderia ignorar alguém se era tão próxima ao sentimento de abandono? Ninguém sabia, é claro, de modo que ninguém entenderia se de repente Jessica sentisse pena daquele que nem deveria existir, mas ela realmente condenaria a todos? “Você não pode ter certeza do que está dizendo. Quer dizer... Eles podem escolher outra pessoa. E ser ignorada não vai ser tão ruim.” Sua voz tremeu um pouco ao final de sua frase, quebrando totalmente o seu blefe. “O que você sugere, então?” Interpelou ela finalmente cedendo.













