Diário de Leitura #15 - Jane Austen #1
‘Yes or no?’. Edmund Blair Leighton (1890). Óleo sobre tela.
“Tornava-se agora absolutamente necessário interrompê-lo.
- O senhor está se precipitando - gritou Elizabeth. - Esquece que eu ainda não lhe dei uma resposta. É o que vou fazer, sem mais perda de tempo: aceite os meus agradecimentos pela honra que está me dando. Creia que eu o aprecio devidamente, mas é-me impossível fazer outra coisa senão recusar.
- Não é preciso que me ensine - replicou Mr. Collins, com um largo gesto da mão - que as moças costumam rejeitar as propostas do homem que secretamente tencionam a aceitar, da primeira vez em que são feitas; e que às vezes até esta recusa se repete duas ou três vezes. Portanto, não estou absolutamente desencorajado pelo que acabou de dizer e espero dentro em breve reconduzi-la ao altar.
- Digo-lhe sinceramente - exclamou Elizabeth - que a sua esperança me parece extraordinária depois da minha declaração. Asseguro-lhe que não sou dessas moças, se é que existem, que cometem a ousadia de arriscar a sua felicidade confiando nas possibilidades de um segundo pedido. Minha recusa é perfeitamente séria. O senhor não me poderia tornar feliz. E estou convencida de que sou a última mulher do mundo capaz de fazê-lo feliz. Creio até que se a sua amiga Lady Catherine me conhecesse, ela me acharia sob todos esses aspectos malqualificada para essa situação.
[...]
- Quando eu tiver a honra de lhe falar pela segunda vez neste assunto, espero receber uma resposta mais favorável. Longe de mim, no entanto, acusá-la de crueldade neste momento, pois sei que é um costume do seu sexo rejeitar as primeiras propostas de um homem. E penso que me deu agora todos os encorajamentos compatíveis com a verdadeira delicadeza do caráter feminino.
- Realmente, Mr. Collins - gritou Elizabeth, com vivacidade -, o senhor me surpreende. Se o que eu lhe disse até agora pode lhe parecer um encorajamento, não sei de que maneira lhe exprimir minha recusa de maneira a torná-la convincente.
- Peço licença, minha encantadora prima, para aceitar a sua recusa apenas como uma questão de palavras. Minhas razões para acreditar nisto, são em suma as seguintes: não me parece que a minha mão seja indigna da sua pessoa, nem tampouco a situação que posso oferecer-lhe. Minha posição na vida, minhas relações com a família de Bourgh e meu parentesco com a sua, são circunstâncias que falam altamente em meu favor. E além disso a minha prima devia tomar em consideração também que, apesar dos seus muitos atrativos, não é certo que outra proposta de casamento lhe seja feita. O seu dote é infelizmente tão pequeno, que provavelmente contrabalançaria os efeitos de sua beleza e das suas qualidades. Devo portanto concluir que, ao me rejeitar, não está falando seriamente e prefiro atribuir a sua recusa ao desejo de aumentar o meu amor, deixando-me na incerteza, de acordo com os costumes habituais das mulheres elegantes.
- Asseguro-lhe que não tenho quaisquer pretensões a esta espécie de elegância, que consiste em torturar e atormentar um homem respeitável. Prefiro que me dê a honra de acreditar na minha sinceridade. Repito os meus agradecimentos pela grande honra que me deu, mas é-me inteiramente impossível aceitá-lo. Todos os meus sentimentos o impedem. Posso falar mais claramente: não me considere uma mulher elegante, que tem a intenção de atormentá-lo, mas uma criatura racional, falando a verdade do coração.
- A minha prima é um encanto! - exclamou ele, com um ar de desajeitada galanteria. - Estou persuadido de que, depois de sancionadas pela autoridade expressa de seus excelentes pais, minhas propostas não poderão deixar de se tornar aceitáveis.
Contra uma tal perseverança na vontade de se iludir, Elizabeth nada poderia fazer. Imediatamente se levantou e saiu, determinada, caso ele persistisse em considerar as suas repetidas recusas como suaves encorajamentos, a apelar para o pai, cuja recusa podia ser decisiva e cuja atitude Mr. Collins não poderia tomar como afetação e artifício de mulher elegante.”
Orgulho e Preconceito. Nova Fronteira, 2018.
Este foi o ano em que finalmente pude ler uma obra de Jane Austen. Posso dizer que tinha até então um certo preconceito literário pelo tipo de romance escrito pela autora, mas confesso que me surpreendi com a maneira como uma jovem inglesa, em seus poucos mais de vinte anos, representava seu cotidiano e práticas sociais literariamente, somando a isso um tom de ironia e crítica sobretudo acerca do papel feminino. O trecho acima foi lido com uma certa perplexidade. Nada realmente mudou no comportamento masculino em resposta as negações femininas.
















