Acordei ofegante. Era apenas um sonho. Senti a frustração subir em minha consciência e meus olhos encherem de lágrimas. Era tão errado assim querer viver um sonho?
Me encolhi na cama abraçando o travesseiro, recordando os últimos fragmentos do sonho maravilhoso que estava tendo, antes de ser tragado pela consciência.
Não demorou muito tempo, o despertador no criado-mudo, ao lado da cama, apitou, anunciando que era hora de ir para a faculdade. Eu não tinha qualquer ânimo para me levantar, mas ainda assim, me arrastei para fora dos cobertores e em seguida, fui para o banheiro.
Tomei um banho um pouco mais demorado, tentando tirar quaisquer ilusões do meu campo de consciência. Era mais fácil se eu esquecesse o sonho de uma vez. Não foi nada fácil, mas eu conseguia.
Depois do banho, me troquei e pedi um Uber para ir à faculdade. O motorista chegaria em vinte minutos, e eu calculei que seria o tempo certo para tomar café, então caminhei para a cozinha. Minha mãe costumava acordar antes de mim, mas dessa vez pareceu estar na cama ainda. Seu descanso era merecido, ela trabalhara até tarde na noite anterior, então resolvi olhar a geladeira para encontrar algo que pudesse forrar meu estômago, pelo menos até que chegasse à faculdade.
Acabei tomando um copo de leite com chocolate gelado e algumas biscoitinhos de leite. Mexi no celular enquanto esperava o Uber chegar, sentado na calçada com os fones de ouvido plugados, mas sem nenhuma música tocando.
Mais alguns segundos e o HB20 sedan preto havia chego. Eu me levantei da calçada e bati a poeira da minha bunda antes de entrar no carro, no banco do carona. Primeiro, eu fiquei chocado ao notar que provavelmente, eu reconhecia o motorista, um dos alunos da mesma faculdade que eu. Segundo, ele era um ruivo muito gato e com certeza fazia o meu tipo.
O aplicativo dizia que o nome dele era João Eduardo, e foi assim que eu o chamei quando o cumprimentei.
– João Eduardo? Bom dia...
– Bom dia, senhor Marcelo. – não pude evitar arquear as sobrancelhas quando ele me chamou de senhor.
– Que isso, você acha mesmo que eu sou tão velho a ponto de ser um senhor? – eu brinquei e ele sorriu. "Porra, que sorriso lindo!"
– Vamos indo? Pode por o cinto, por favor? – ele pediu antes de dar a seta e sair pela rua, dirigindo para a faculdade.
Não pude evitar de ficar analisando o rapaz. Com o canto do olho, eu o avaliava dos pés ao peito, que era o meu campo de visão sem que ele notasse que eu o observava.
Ele estava com um tênis preto da _Vans_, a calça jeans tinha rasgos nos joelhos e a camisa preta de manga longa colada ao seu tórax deixava marcado seu peito amplo e sua barriguinha, que não era sarada, mas também não era grande.
– Você faz qual curso? – me surpreendi que ele estivesse puxando assunto. Olhei para seu rosto por alguns segundos antes de responder. João tinha uma barba não muito alta, ruiva como seus cabelos. As sardinhas manchavam suas bochechas e o deixava com um ar mais inocente, infantil, mas então haviam os olhos. Um par de esmeraldas brilhantes e donos de um verde incomum. Seus olhos pareciam ver através de mim, como se me lesse, como se com um único olhar, ele me rendesse e me aprisionasse. Foi assim que eu me senti, capturado pelo olhar do rapaz. Seus olhos verdes eram tão intensos e quentes, que pareciam duas bolas de fogo grego. – Marcelo?
– Ah, m-me desculpa, eu só... eu fiquei... – comecei a mexer as mãos, um pouco mais nervoso por ter sido pego olhando para ele. – O que você tinha perguntado mesmo?
O ruivo soltou uma risada que eu achei magnífica e autêntica. Eu o acompanhei no riso, muito sem jeito e sentindo o meu rosto corar.
– Eu perguntei qual o seu curso. – repetiu.
– Eu faço arquitetura no prédio 2... lembro de já ter te visto algumas vezes na faculdade... você estuda lá também? – perguntei de volta. João apenas sorriu e meneou a cabeça, concordando. – Que bacana... você faz qual curso?
– Eu faço administração, mas com certeza o curso não é pra mim. – ele me dirigiu uma piscadela, como se eu fosse seu cúmplice. – Então, eu estou migrando para Engenharia Elétrica.
– Engenheiro, hein? – ponderei enquanto parávamos em um dos faróis da avenida principal. O motorista virou um pouco de lado, olhando para mim. – Bem, você tem mesmo o jeito... – disse meio tímido.
– Você acha? – ele sorriu e eu devolvi o sorriso.
– Claro. Não sei explicar, apenas combina...
O farol abriu e o motorista arrancou, ainda sorrindo.
– Bem, obrigado, por que ninguém concorda com nada que eu decida. Sabe, família problemática... – assenti enquanto ele falava, mas logo negou com a cabeça e ficou calado. Ficamos naquele silêncio incômodo pelo resto do caminho.
Eu queria ter tido a coragem para continuar a conversar com ele, mesmo que sobre qualquer outro assunto. Mas nada vinha à minha cabeça. Definitivamente nada. E eu me senti completamente triste quando João passou pela entrada do estacionamento do campus e estacionou em uma das vagas.
– É isso ai. Chegamos! – ele sorriu e eu pude sentir todo o meu corpo derreter com aquele sorriso lindo. _Céus, como esse garoto é lindo, mano, isso não pode ser real!_ – Marcelo?
Sai de meus devaneios, notando que estava viajando com o garoto bem na minha frente. Eu só podia estar louco.
– Desculpa João eu só... – não consegui achar palavras que explicassem a situação e fiquei alguns segundos girando a mão, como se procurasse por alguma coisa rápida que solucionasse aquele problema. Mas nada veio e o Uber sorriu e negou com a cabeça.
– Tudo bem, sei como é. As palavras voam para fora da cabeça, né? – ele riu e abriu a porta do carro.
Eu sai do HB20 também. Depois de fechar a minha porta, ele deu um clique e o alarme se acionou, travando as portas do carro e subindo as janelas, que eu não notara estarem abertas.
– Já pagou a corrida pelo aplicativo né? – o rapaz perguntou e eu havia me esquecido completamente disso. Acenei que sim com a cabeça e ele riu. – Você é legal Celo... Ah, posso te chamar assim? – Ele esperou uma resposta, eu apenas assenti. – Você vai querer uma carona para voltar?
– Ir com você na volta? – o ruivo deu de ombros.
– Sabe, só se você quiser. Vão dois outros amigos comigo, sua casa é caminho pra mim...
– Parece legal... – comentei, mas depois neguei com a cabeça. – Acho que vou passar, vou ter que ficar até tarde para terminar uns projetos.
– Legal. Foi bom te conhecer então. Até qualquer dia. – ele acenou e saiu, caminhando para o outro prédio.
– Tchau... – sussurrei, mas provavelmente ele não tinha ouvido.
Coloquei a mochila no ombro e arrastei os pés até o meu prédio. Provavelmente seria um longo dia.
– Marcelo Rodrigo!!! Pelo amor de Deus, onde está sua cabeça hoje? – Kezia respirou fundo enquanto Fernanda e Marcelo apenas riram da minha distração.
Pisquei várias vezes, agora com os três me olhando. Estávamos na mesa de desenho com o projeto de uma planta. Fernanda e Kezia estavam discutindo sobre a planta enquanto eu estive fora do ar.
– Sinceramente, de uns dias pra cá você esta em desfoque total! – a loira constatou e olhando diretamente para mim disse: – Desembucha, o que tá pegando?
Esperei alguns segundos depois eu sorri e olhei para os três. Arqueei minha sobrancelha na melhor expressão _”Vocês estão falando sério!?”_ que eu pude. Realmente parecia ser sério. Eu dei de ombros como resposta. Claramente eles surtariam se soubessem que, toda a minha distração era derivada de um garoto que me trouxe para a faculdade, algumas semanas antes, e que eu nunca mais consegui ver novamente. Talvez por que o prédio dele era do outro lado do campus.
– Não é nada demais. Só uns problemas em casa... coisa besta. Pode continuar.
Com certa desconfiança eles continuaram a fazer o trabalho. Eu tentei manter o foco, mas era bem difícil pensar em outra coisa que não fosse o João Eduardo. Porém, a lembrança do rapaz ia desbotando na minha mente, já que não o via por dias, senti que o rapaz saía da minha cabeça, pouco a pouco a cada dia que passava. Era o certo a se fazer, já que eu tinha uma lista grande de trabalhos para entregar, se não me concentrasse nos trabalhos provavelmente eu não os faria, e não poderia, de maneira alguma falhar com os meninos.
Foi com esse pensamento que eu decidi, de vez, tirar o ruivo dos meus pensamentos.
O sinal tocou e eu fiquei um pouco mais de tempo na sala. Os meninos foram embora, cada um tinha um compromisso e eu só iria voltar para casa. Caminhei devagar pela faculdade até chegar na saída do prédio. Praguejei ao notar que uma chuva caía torrencial e que eu não estava com meu guarda-chuva. Coloquei meus fones de ouvido e conectei-os no celular, pondo pra tocar as músicas em aleatório.
A primeira música que começou foi _Meu Disfarce_, de Sandy, cantada com a dupla Chitãozinho e Xororó.
”Ótimo, nenhuma música combina mais com o momento do que essa...”, pensei com alguma ironia, mas no fundo, a música, que pregava um amor amistoso e mascarado, foi fazendo parte da minha mente. O que acabou levando meus pensamentos para um certo ruivo, com nome de João Eduardo. _”Vamos lá Marcelo Rodrigo, você é melhor que isso...”_, pensei, tentando, em vão, afastar o ruivo dos meus pensamentos.
Caminhei pela chuva, sentindo ela me molhar até que eu estivesse completamente encharcado. A música ainda tocava enquanto eu arrastava meus pés até a parada de ônibus. Me sentei em um dos bancos e esperei pelo transporte. Sondei a letra da música. Talvez fosse a minha solidão de estar tanto tempo sozinho, eu já estava começando a fantasiar. Encostei a cabeça no vidro da proteção na parada, suspirando.
”Seria tão clichê ele aparecer pra me salvar...”, pensei sorrindo.
Fui pego de surpreso pelo som da buzina. Não tinha reparado no HB20 parado bem a minha frente; a janela do passageiro estava semiaberta. João estava no banco do motorista e acenou para mim.
– Marcelo!? – ele chamou e abriu a porta do carro. Fiquei parado, ainda surpreso, apenas olhando para a porta aberta, bem a minha frente. – Marcelo, entra por favor!
Pulei para dentro e fechei a porta. Por algum motivo eu não conseguia olhar para ele, então encarei a portinhola do porta-luvas. Tirei os fones devagar e esbocei um sorriso pequeno.
– Que chuva... – ele comentou com um sorriso ainda maior. – E olha só pra você, está completamente ensopado, amigo!
– Pois é né... – eu ri de nervoso, mesmo sem olhar para o ruivo. Senti meu rosto esquentar consideravelmente. - E-eu esqueci o guarda-chuva... poxa... que burrice né? – e tornei a rir, dessa vez foi uma risada bem mais artificial.
– Está tudo bem? Você parece diferente...
– Sim, eu só... – senti borboletas revirarem em meu estômago e quando dei por mim, estava com os olhos cheios de lágrimas. – Eu não sei como lidar com meus sentimentos... é uma coisa besta, você nem tem nada a ver com isso...
– Sei... está apaixonado? – ele perguntou e eu olhei para ele.
”Quero ser o seu amado, não somente o seu amigo...”, o verso veio a minha mente tão rápido quanto pude pensar.
– O que você disse? – o ruivo questionou com as sobrancelhas unidas. Só assim, eu notei que o pensamento havia escapado como um sussurro pelos meus lábios.
– Desculpa, é uma música...
– “Cada vez, que eu sinto um beijo seu na minha face, eu luto pra manter o meu disfarce, e não deixar tão claro que te quero. Cada vez, se torna mais difícil o meu teatro. Não da mais pra fugir do seu contato, estou apaixonado por você!” – ele cantarolou. Eu apenas o olhei com um nó enorme travando a minha garganta. – Eu conheço a música. Muito boa por sinal.
Apenas abaixei a cabeça e depois assenti.
– É como você se sente? – ele perguntou enquanto ligava o carro. Eu fiquei calado por alguns segundos. O HB20 tremeu um pouco com a partida. João deu seta e saiu pela rua, dirigindo. Eu não conseguia confiar nas minhas palavras. – Okay, eu entendi. Sem conversar. Certo.
Senti um peso no meu peito e as lágrimas tornaram a marejar meus olhos. Abracei minha mochila e chorei baixo. João, na posição de amigo, acariciou os meus cabelos com suavidade.
– Vai ficar tudo bem, Celo... – ele me chamou pelo apelido e eu não suportava mais sufocar meus sentimentos. – Sabe, ela ou ele é bem sortudo, você é alguém muito legal e...
– É você! – eu o cortei, finalmente me declarando. – É por você que eu me apaixonei! – João ficou surpreso e mudou o foco para a estrada, tirando a mão lentamente do meu cabelo. Ficamos alguns minutos em silêncio, com o ruivo provavelmente processando a informação.
– Nossa... – ele deu uma risada. – Eu não esperava por essa... – ele tornou a rir. Eu o olhei por alguns segundos, sem entender. – Parece que é o meu dia de sorte.
Franzi o cenho e João apenas pareceu mais feliz. Me neguei criar alguma esperança, mas... e se...
O ruivo ligou a seta e encostou o carro. Fiquei com um pouco de receio. Apesar da boa impressão, João poderia ser uma pessoa homofóbica. Que me bateria e me deixaria em alguma vala na rodovia.
Mas claro, o medo era completamente infundado. João era uma boa pessoa. Era o homem por quem eu me apaixonei. O amor a primeira vista.
João havia encostado o carro apenas para virar para mim, com um sorriso grande e lindo, se aproximar lentamente e encostar seus lábios nos meus. Foi o beijo mais maravilhoso que eu senti em toda a minha vida.
Fim da parte 1.
Maurício Caires














