Carta aberta a dor:
Querida dor, essa carta eu dedico a vocĂȘ. Quanto tempo que nĂŁo nos vĂamos, ou pelo menos eu achei que nĂŁo, enquanto na verdade vocĂȘ sĂł estava escondida nas entrelinhas dos meus pensamentos, e eu estava apenas ignorando todas aquelas letrinhas pequenas como se nĂŁo houvessem estado lĂĄ. Nos Ășltimos dias acho que resolvi te ler, afinal era inevitĂĄvel. Uma hora ou outra eu teria que parar de fingir que vocĂȘ nĂŁo estava mais lĂĄ. Mas porque me visita de novo? Eu jĂĄ te disse, jĂĄ tentei fingir que vocĂȘ nĂŁo existe um milhĂŁo de vezes⊠mas talvez, me faltasse entender que vocĂȘ, faz parte desse livro da vida. Seria impossĂvel terminar as pĂĄginas sem te ler. Fingir que tudo que aconteceria, por pior que fosse passaria despercebido, sem que vocĂȘ chagasse novamente. VocĂȘ sabe, a um tempo atrĂĄs, vocĂȘ me fazia algumas visitas esporĂĄdicas e propriamente necessĂĄrias tambĂ©m, atĂ© que um dia vocĂȘ resolveu se instalar em mim, fez de mim sua morada sem data de ir embora. Mas eu jĂĄ te disse, a gente nĂŁo pode se ver a toda segundo, nem a todo minuto, nem todos os dias. E desde que vocĂȘ foi embora, eu tentei excluir vocĂȘ de mim, tentei evitar de todas as formas outra visita tua, porque caso eu abrisse a minha porta nem que fosse um milĂmetro a mais do que deveria, talvez vocĂȘ se sentisse confortĂĄvel pra se instalar em mim novamente. E desde entĂŁo, eu resolvi fechar essa porta, e nunca mais abri-la. Mas ontem, me dei conta de que vocĂȘ havia deixado tantas cargas na minha porta que de um jeito ou de outro, pelo bem ou pelo mal, alguma hora ela iria se abrir. E ela se abriu, e aqui estamos de novo, eu e vocĂȘ. Dor, eu tĂŽ com medo. Eu tĂŽ com medo de vocĂȘ resolver morar em mim de novo, sem nem me avisar quando vai embora. Agora o que me resta Ă© tentar esvaziar as cargas que vocĂȘ me deixou, pra que elas nĂŁo sejam tantas ao ponto de me invadir novamente. Eu tentei te evitar, de todas as formas que pude, mas Ă© impossĂvel. E daqui pra frente, vou tentar abrir a porta assim que vocĂȘ vier, acho que assim, a gente pode voltar a se ver como antes.















