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Minha dramaticidade era sempre muito complexa e intensa e nada mais no mundo parecia comportar tamanha corrente de ideias maravilhosas que nĂŁo meu corpo e um palco bem iluminado, e jurava que isso era o que me cabia alĂ©m de relacionamentos frĂvolos com outras estrelas sem alma como eu. E entĂŁo, em uma loja de discos, como nos filmes dos anos 80, ela entrou em meu caminho e nunca mais saiu. E embora eu tenha cometido erros, como usĂĄ-la para vencer nas Regionais antes de partir para a UCLA, e estourado ovos em sua cabeça, falava a verdade sobre realmente tĂȘ-la amado. Em todas as oportunidades que a nossa vida se cruzaram, fosse como consultor do New Directions ou coach do Vocal Adrenaline, tentei me aproximar novamente dela, admitindo meus erros e torcendo para que ela me escolhesse ao invĂ©s de Finn Hudson. Sabia que ele era meu oponente forte, uma vez que foi seu primeiro amor, e que possivelmente apenas por ele Rachel me diria nĂŁo. PorĂ©m a vida tem modos trĂĄgicos de ser escrita em alguns capĂtulos e esse impasse acabou se resolvendo de uma forma muito dolorosa. Passou-se muito tempo atĂ© que novamente nos vissemos, e entĂŁo estava em Ohio, naquele auditĂłrio da escola que serviu como pano de fundo de nossa relação. Mesmo com sua recusa em participar da peça que eu estava como protagonista, sabia que precisava arriscar. Eu estaria em New York, ela estaria em New York. E pela primeira vez em anos, ela me disse sim novamente.
Obviamente que nem tudo foi flores, ainda estava lutando para conseguir meu lugar ao sol e a Broadway me passava grandes rasteiras como negar papĂ©is que eram claramente meus por desentendimentos com o resto do elenco. Mas para alguma coisa esses empecilhos me serviram e entĂŁo comecei a produzir meus prĂłprios shows e ser o protagonista deles. Foi assim que consegui meu primeiro Tony, em um monĂłlogo intenso em que narrava as desventuras que me levaram de uma pessoa insensĂvel a alguĂ©m que realmente se importava. Agora estava em uma nova empreitada, escrevendo sobre Jane Austen e a colocando em um pedestal, porque se Lin-Manuel Miranda conseguiu vencer o Tony com sua produção sobre Alexander Hamilton, eu tambĂ©m poderia vencer falando de outra celebridade histĂłrica. A escolha para o papel principal era bem Ăłbvia, Ă© claro; nĂŁo tinha mais ninguĂ©m que conseguisse atuar com todas as emoçÔes que eu precisava do que Rachel. Ela entendia meus direcionamentos e meu texto e enquanto estĂĄvamos ainda na Ă©poca de montagem do musical, foi minha parceira criativa e nĂŁo sabia o que seria de mim sem ela. De um modo geral, nĂŁo tinha nenhuma ĂĄrea de minha vida onde Rachel nĂŁo fosse minha parceira ideal.
Quando visitamos nossos pais em Ohio, deixei implĂcito para seu pai que iria pedi-la em casamento assim que tivesse uma condição de vida mais estĂĄvel, o que pretendia assim que abrisse o musical no Broadway. Apesar de ter diversos pontos que ele gostaria que eu me atentasse, como as experiĂȘncias traumĂĄticas de minha namorada sobre noivados anteriormente, ele me disse que acreditava em minhas mudanças e que eu poderia amĂĄ-la e respeitĂĄ-la por todos os dias de minha vida. Com sua benção, retornamos a New York City, sendo que eu tinha muitas coisas para preparar.
Todo musical tem diversas versĂ”es antes de chegar na sua versĂŁo final. Na primeira apresentação, para os patrocinadores, ele tem a versĂŁo bruta, com um nĂșmero x de mĂșsicas, que podem ser encurtadas, modificadas, alteradas de ordem ou atĂ© mesmo cortadas. A segunda versĂŁo, a que estreia, geralmente tem as suas modificaçÔes quanto Ă s notas e ao compasso, podendo ficar mais rĂĄpidas ou mais lentas. Essa versĂŁo Ă© a que se populariza e que faz o boca a boca acontecer, ganhando grandes proporçÔes. E bootlegs. Tudo bem que ao encontrar um novo de Hamilton, eu assistia milhares de vezes quando colocava as mĂŁos em uma versĂŁo a qual nĂŁo pude ter o privilĂ©gio de assistir, mas isso se devia ao meu trauma de perder a escalação de King George para aquele garotinho sorridente demais. PorĂ©m o ponto era que Ă quela altura, as pessoas saberiam quais eram as mĂșsicas que compunham Jane Austen Sings e qualquer alteração nova seria amplamente comentado no meio musical. Ătimo. Era exatamente o que queria.
Conseguimos pagar nosso investimento em torno de cinco meses depois de abrirmos em off-Broadway, toda noite assinavamos playbills e tiravamos selfies com diversos teatro-fĂŁs e sabia que as coisas estavam indo para o caminho certo. E eu sabia que nĂŁo sentiria toda aquela felicidade e sentimento de dever cumprido se nĂŁo tivesse Rachel o tempo todo ao meu lado. Em dois anos de off-Broadway, sempre que conseguiamos conquistar mais uma meta, levava minha namorada para jantar em um lugar caro, celebrando o que tĂnhamos alcançado, e sempre fazia questĂŁo de lhe dizer o quanto que ela era importante para mim, para meu amadurecimento, para a minha vida. Todo dia era uma chance de confessar meu amor a ela, porque Rachel merecia todo o amor e devoção.
E entre devoçÔes, o grande ato se aproximava. Sabia que tinha que ir fundo para conseguir o meu objetivo, por isso comecei a estudar Sondheim com afinco. Apenas o criador de West Side Story seria capaz de me guiar para o caminho que eu precisava. Escutei por meses suas composiçÔes, observando como ele construĂa seus versos e melodias, e como elas representavam as urgĂȘncias de um amor tĂŁo puro e sincero. Divagava demais pensando em modos como poderia fazer minhas prĂłprias composiçÔes e montar aquele ato que era mais importante atĂ© que ter meu nome sendo chamado no palco mais uma vez para me entregarem um prĂȘmio. Recebemos o sinal verde para levar nossa produção para teatros maiores, finalmente chegando a Broadway. Ăramos grandes! E para celebrar algo grande, eu tinha a maior das declaraçÔes a ser feita.
PassĂĄvamos o texto no teatro, todos os atores circulando o palco, ao contrĂĄrio de todos os nossos outros ensaios que aconteciam no New 42nd Street Studios. A abertura estava chegando, terĂamos o ritual da manta no dia seguinte, mas pedi como uma superstição e exigĂȘncia que aquele Ășltimo ensaio fosse feito ali. NĂŁo entenderam a urgĂȘncia do meu pedido, Ă© claro, entĂŁo tive que colocar em pratos limpos o que queria fazer e entĂŁo me deram o passe. Aparentemente, artistas sĂŁo sensĂveis em algum nĂvel em sua totalidade. E entĂŁo chegamos a uma cena nova, um devaneio sobre Mr Darcy, onde o co-protagonista encarnava o personagem e falava sobre seus sentimentos sobre Elizabeth. NinguĂ©m entendeu bem porque nĂŁo ensaiamos antes essa parte durante as seis semanas anteriores, mas eu batia o pĂ© que tinha que acontecer ali, o primeiro e Ășnico momento.
Respirei fundo, subindo no palco, o roteiro em minhas mĂŁos.
â EntĂŁo, Jonathan, eu sei que vocĂȘ estĂĄ ansioso por essa parte, mas acredite em mim, eu estou mais ainda. E por isso, se me permite, eu vou demonstrar exatamente como essa cena irĂĄ funcionar, okay? â Me dirigi entĂŁo a Rachel, esticando minha mĂŁo em sua direção e dobrando um dos meus joelhos para que a cortejasse no ato. Assim que seus delicados dedos tocaram os meus, a guiei para o centro daquela roda, com gentileza, balançando a minha cabeça em sua direção. â Primeiro vocĂȘ irĂĄ olhĂĄ-la nos olhos, com todo o amor e carinho do mundo. Porque ela Ă© digna de todo afeto possĂvel. Afinal, ela Ă© uma mulher incrĂvel, vencedora de seus medos e traumas, forte, independente e que soube fazer de seus erros ensinamentos para si e para os outros. Ela Ă© a mulher que vocĂȘ ama e admira e nada no mundo pode desfazer o impacto que ela tem em sua vida. â Abri um sorriso para Rachel, entrelaçando nossos dedos, enquanto as luzes eram ligeiramente modificadas, deixando apenas um halo sobre nĂłs dois de maneira natural e progressiva. â Depois disso, vocĂȘ irĂĄ abrir um sorriso para ela, e ela vai sorrir de volta, lhe abençoando com a imagem mais linda no mundo inteiro e vocĂȘ pode atĂ© mesmo pensar âUau, eu estou completamente enfeitiçado por esse sorriso, e como ele consegue ser assim tĂŁo brilhante?â. E mesmo que fique completamente embasbacado, vocĂȘ vai dizer⊠â E entĂŁo me abaixei, um joelho no chĂŁo e outro dobrado em exatos noventa graus, a coluna ereta e a cabeça levemente posta para trĂĄs, fitando os olhos da mulher que sempre amei. â VocĂȘ Ă© a razĂŁo pela qual meus pensamentos tortos se transformaram em uma noção mais clara. Todos os meus julgamentos e preceitos foram alterados a partir do momento em que tive a honra de ouvir suas palavras e elas me trouxeram luz, inteligĂȘncia, compreensĂŁo, alĂ©m de despertar em mim sentimentos que por muito tempo imaginei que nĂŁo seria capaz de permitir que tomassem conta de minha racionalidade. Amor Ă© uma palavra muito utilizada e muito subestimada, mas compreendo o fascĂnio por ela uma vez que depois de vocĂȘ, experimentei a sua verdadeira forma. â Fiz uma pausa, pressionando gentilmente seus dedos nos meus, sorrindo abertamente e sentindo cada batida de meu coração contra as minhas costelas, reverberando por cada cĂ©lula de meu corpo emocionado. Abandonei o roteiro que ainda segurava em uma de minhas mĂŁos, buscando em meu bolso pela caixinha azul Tiffanyâs que continha o anel de noivado vistoso e delicado, exatamente como eu via a mulher que tomou meu coração no primeiro olĂĄ. â Eu amo vocĂȘ, Rachel, e sempre irei amar. E se o teatro Ă© nossa igreja, o palco Ă© o nosso altar, este Ă© o local certo para esta pergunta. E neste altar, eu te pergunto, com todos os meus verdadeiros e profundos sentimentos expostos: VocĂȘ quer casar comigo?
High Hopes presents: The newbies heirs
Uriah Lynn, filho de Ryder Lynn e Marley Rose;
Kathleen âKatyâ Traynor, filha de Marley Rose e Charles Traynor;
Eliza Traynor, filha de Marley Rose e Charles Traynor;
Elio Lynn, filho de Ryder Lynn e uma mulher desconhecida;
Cyrus Duval, filho de Kitty Wilde e Nick Duval;
Leah Duval, filha de Kitty Wilde e Nick Duval.
Todos sediados em New York City.
Jonathan Groff on Jimmy Kimmel Live! along with the cast of Frozen (video)
Q's: MĂŁe/Pai de duas cĂłpias suas que nada tem a ver um com o outro.

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Jonathan Groff attends the world premiere of Disneyâs âFrozen 2â at Hollywoodâs Dolby Theatre on Thursday, November 7, 2019 in Hollywood, California.
Por 15 anos, eu tive uma mĂŁe. Talvez nĂŁo exatamente uma mĂŁe, mas a convivĂȘncia com uma mulher que tinha me dado a luz, me ensinado como me portar frente a imprensa e enchido a minha cabeça com histĂłrias sobre o glamour de ser modelo e que era tudo uma questĂŁo de ser confiante em si mesma atĂ© nas piores horas. TambĂ©m convivi com a mulher que lutava todo dia por um pingo de atenção de seu marido 25 anos mais velho, que a traĂa com mulheres ainda mais novas do que ela, se mantendo naquela rotina de rockstar mesmo jĂĄ nĂŁo estando mais a frente de uma banda por anos. E entĂŁo um dia ela nĂŁo aguentou mais a melancolia de ter dado de si e ser ignorada e colocou um fim naquilo tudo de uma maneira trĂĄgica. Demorou tempo demais para que eu entendesse seus motivos, que eu perdoasse meu pai por permitir que aquilo acontecesse, que colocasse em minha cabeça de que nada tinha a ver comigo.
Mas sĂł fui entender de fato que ela me amava quando as contraçÔes começaram, depois de um jantar beneficente, com meu pai arranhando seu Royce ao arrancar de qualquer jeito para me levar ao hospital. Vestindo aquela roupa horrorosa e com os cabelos embolados em um coque e amarrados para cima, eu reclamava e xingava todo mundo naquele lugar, chamando de incompetente e que era sĂł me abrir e arrancar a criança para fora jĂĄ que minha carreira tinha ido pelo ralo por ela e que eu nĂŁo tinha mais nada para oferecer ao mundo. Eu chorava muito, demais, naqueles Ășltimos meses, pensando que nĂŁo era mais nada, nem mesmo a garota que minha mĂŁe tinha ensinado tudo que sabia para seguir com seu legado. Eu caguei em seu legado.
â Okay, garoto, jĂĄ deu. VocĂȘ precisa sair daĂ de dentro. â Falei para a minha barriga, depois de passar por mais uma longa contração e receber a notĂcia de que minha dilatação era o suficiente para que ele viesse ao mundo, entĂŁo começando os procedimentos para o parto. â A gente jĂĄ entrou em incompatibilidade e vocĂȘ precisa se virar sozinho. Seu avĂŽ disse que eu posso ficar com vocĂȘ, mas nĂŁo acho que vai rolar. VocĂȘ estĂĄ me dando essas dores todas desde agora, imagina mais tarde, quando crescer. â E entĂŁo algumas lĂĄgrimas começaram a se formar no canto dos meus olhos e as sequei com as pontas dos dedos. â E entĂŁo vocĂȘ vai se meter com pessoas erradas e vai acreditar em palavras fĂĄceis. E mesmo que eu passe uma vida inteira dizendo para vocĂȘ que a confiança vem dentro de vocĂȘ, vocĂȘ vai procurĂĄ-la em aprovação de algum idiota mais velho, de uma porção de outros modelos que cheiram pĂł para perder o apetite, em aplausos e apalpadelas de desconhecidos. E tudo que eu te ensinei vai pelos ares quando vocĂȘ menos perceber. E talvez eu nĂŁo esteja prĂłxima o suficiente para te ajudar a sair dos seus problemas. â E entĂŁo coloquei dois dedos entre meus dentes para conter um soluço, sentindo que iria gritar a qualquer momento. â E vocĂȘ deveria ser o amor da minha vida e eu deveria dedicar tudo que sou e tenho a vocĂȘ, mas talvez seja tarde demais. Talvez nĂŁo tenha me sobrado mais nada pra isso.
â Senhorita Jones? â A enfermeira me chamou, me fazendo erguer a cabeça em sua direção. â Pronta para colocar esse meninĂŁo no mundo?
Apenas confirmei com a cabeça, em meio às lågrimas, me sentindo incapaz de dizer que sim com sinceridade.
Meu pai esteve ao meu lado, o tempo todo, inclusive quando o desespero começou na sala de parto porque Owen nĂŁo chorava. Aqueles segundos de silĂȘncio, e entĂŁo correria, me fizeram arregalar os olhos e encarar a Ășnica pessoa que me apoiava naquele momento de baixa em minha vida.
â Por que ele nĂŁo tĂĄ chorando? PAI, POR QUE ELE NĂO TĂ CHORANDO? â Comecei a me desesperar, querendo avançar para ver o que estava acontecendo, atĂ© que precisaram me conter com anestesia, enquanto levavam meu bebĂȘ para outro lugar, numa pressa e desespero sem fim. â Owen. Meu bebĂȘ...
Acordei um tempo depois, agitada. Me pediram por calma, e quando percebi estava amarrada a cama. Aparentemente eu me desesperei e esperneei atĂ© apagar. Me explicaram que Owen tinha se enrolado em seu cordĂŁo umbilical, que nĂŁo estava respirando direito e seu coração parou por alguns segundos, mas que estava bem. Ficaria em observação, mas que isso acontecia e na maioria dos casos tudo terminava bem. Um novo choro desesperado e aliviado saiu de meus lĂĄbios, me fazendo soluçar com o rosto em mĂŁos. A Ășnica coisa que me fez parar de chorar foi a promessa da enfermeira de que me traria o meu filho para ver por alguns minutos. Ele foi trazido a mim em sua mantinha com as suas iniciais bordadas. Imediatamente eu comecei a rir de nervosa, principalmente porque ele bocejava. Havia escapado da morte e agora bocejava!
â Okay, primeiramente esqueça tudo que eu te disse antes. â Falei assim que Owen veio para os meus braços. Ele me olhava sonolento, como se perguntasse do que diabos eu estava me referindo. â VocĂȘ nunca mais vĂĄ para lugar algum, okay? Seu coração parou, seu moleque, e o meu tambĂ©m. E eu nĂŁo poderia mais fazĂȘ-lo bater se vocĂȘ nĂŁo estivesse mais aqui nesse mundo. â E pela milĂ©sima vez uma lĂĄgrima escorreu por meu rosto. â E talvez eu tenha pensado que nĂŁo havia mais vida depois que sua avĂł me deixou, mas ela existe. Especialmente agora que vocĂȘ estĂĄ aqui, nos meus braços. E se ela sentiu ao menos o mĂnimo que estou sentindo por vocĂȘ nesse instante, entĂŁo eu posso ter certeza de que tudo o que ela me ensinou era para chegar em algum lugar. NĂŁo sei exatamente onde, e talvez ela tambĂ©m nĂŁo soubesse. Mas existe algum lugar para ir. Para irmos. â Engoli em seco enquanto Owen fazia um bando de boinhas de baba, me encarando e rindo. Ele era simplesmente perfeito. â Ainda nĂŁo sei bem o que fazer com a minha vida. NĂŁo sei como recomeçar do zero, porque eu nunca estive assim tĂŁo perto do zero. Mas eu prometo a vocĂȘ que irei tentar. E sempre que precisar começar do zero, eu vou tentar de novo. Todos os dias. Porque vocĂȘ Ă© meu filho e eu sou sua mĂŁe, e esse sentimento Ă© insubstituĂvel. Isso Ă© uma promessa, Owen, e eu juro que ela vai durar atĂ© depois que eu esteja em um caixĂŁo. VocĂȘ Ă© o amor da minha vida, e tudo que eu tenho e que sou Ă© seu. Para sempre.
E entĂŁo dei um beijinho em sua testa, o fazendo soltar mais bolinhas de babas enquanto ria, e eu consegui sorrir de volta, sabendo que Owen era o que me faria levantar todos os dias e nunca me deixar ser consumida pela mesma melancolia que minha mĂŁe. Faria isso por mim e por ele, custasse o que fosse me custar.
Sendo bem sincera, eu nĂŁo esperava muita coisa de alguĂ©m para me envolver com ele. Bastava entender de teatro, saber que minha carreira Ă© a coisa mais importante do mundo, a melhor ganhadora de Oscars era a minha mĂŁe e de Tonys era a minha tia, Idina Menzel era Deus, junto com Barbra e AnaĂŻs Mitchell, que baseball poderia ser um esporte chato, mas minha famĂlia valorizava mais do que qualquer coisa, nĂŁo existe melhor rainha na Disney que a Elsa e que um dia eu iria batizar uma legiĂŁo de crianças com nomes de Frozen jĂĄ que minha irmĂŁ nĂŁo deu a mĂnima para a minha sugestĂŁo de nomear Morgan como Olaf. TambĂ©m teria que entender que eu tenho a necessidade de viver o drama, sentir em cada vibração do meu corpo, que choro com uma facilidade extrema, que se tiver uma oportunidade de fazer uma cena, eu irei, que se tiver uma oportunidade de eu me vestir de uma das princesas Disney, eu vou me vestir, a mesma coisa Ă© vĂĄlida para figurinos de personagens da Broadway que eu ame muito. E se alguĂ©m falar mal de Hadestown acabou o mundo pra mim.
Viu? Sou uma pessoa de gostos muito simples e não é nada absurdo demais para pedir de alguém com quem iria encenar cenas romùnticas, mas na vida real.
Mas misteriosamente, nĂŁo tinha acontecido de me alguĂ©m conseguir preencher todas as exigĂȘncias da minha lista. O que estava tudo bem, sabe. Era como Aurora dizia, Ă©ramos princesas e merecĂamos o melhor. Okay, ela acrescentava um "podemos nos dar ao luxo de apoiar o apocalipse e a epidemia de sapinho entre as outras pessoas, mas nĂŁo nos deixar contaminar", mas essa parte eu nĂŁo achava assim muito adequada. Em todo caso, estava confortĂĄvel em viver em meu pequeno mundo de atriz promissora com agenda corrida, fugindo uma vez ou outra da presença de Laura Porter e todo o seu ar de diva e de Gemma Motta e sua certeza de que Ă© preciosa demais para esse mundo, mesmo que nas audiçÔes da vida acabĂĄssemos esbarrando. E entĂŁo aconteceu.
Naquele ano, irĂamos encenar no teatro da escola Casablanca, apenas um dos clĂĄssicos insuperĂĄveis e imbatĂveis. Obviamente que me inscrevi para protagonista e acompanhei as audiçÔes para o papel de protagonista masculino com atenção, afinal seria com quem iria contracenar. E minha nossa⊠Que vergonha alheia eu senti.
â Mas serĂĄ que Ă© possĂvel com Hollywood aqui do lado e nĂŁo tem uma alma viva nessa escola capaz de protagonizar uma peça de escola? â Murmurei aborrecida ao professor que cuidava da peça, que estava me ignorando deliberadamente desde a segunda vez que comentei sem perder o fĂŽlego como o segundo candidato tinha que ter vergonha de aparecer para a audição sem ter o texto decorado previamente.
â Obrigado pela sua presença. Os nomes dos selecionados estarĂŁo no mural de avisos no pĂĄtio entre as duas escolas. â Ele dispensou o desafinado, me fazendo bater o pĂ© impaciente pelo prĂłximo. Mas o professor começou a recolher os papĂ©is em cima da mesa, pronto para ir embora. â Por hoje, Ă© sĂł.
â Espera, o quĂȘ? â Perguntei com a voz puxando um agudo em surpresa. â Mas ninguĂ©m foi bom o suficiente.
â Senhorita Sterling, isso Ă© teatro de escola, nĂŁo uma montagem off-Broadway. Quem conseguir decorar o texto melhor, vence. â Ele me disse, se levantando e saindo do auditĂłrio. O fuzilei com os olhos antes de sair muito ofendida atrĂĄs dele, parando no meio de uma confusĂŁo no corredor dos meninos da St. Jude's.
Holy shit. Holy shit. Holy shit.  Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit!
Era uma cena que sĂł nĂŁo me assustava mais porque eu era uma Cravalho-Sterling e estava acostumada com brigas Ă©picas com direito a gritaria, dedo na cara e alguĂ©m com a mĂŁo no coração dizendo que iria infarta â geralmente era eu e meus avĂłs quem fazĂamos isso. Andei vagarosamente em direção do som, pensando que era algo que Aurora iria amar ver e me perguntei se eu filmasse e mandasse para ela iria contar como um presente. Quando estava a uma distĂąncia segura, me esforcei para entender o que estava acontecendo.
â RETIRA, RETIRA O QUE VOCĂ DISSE, SACO DE LIXO. â O mais forte dos dois gritava para o outro garoto. Ele tinha olhos azuis e a expressĂŁo de quem poderia acabar com alguĂ©m sĂł com o olhar.
â TĂĄ ofendido porque, Fitzwilliam? Mexi com teu macho, foi? â O garoto menor debochava, mas ao mesmo tempo recuava, como se soubesse que iria perder feio para o garoto de olhos azuis. â Ou esse show todo Ă© porque tu quer comer a piranha da irmĂŁ dele?
Lennon Fitzwilliam era conhecido como o capitĂŁo da equipe de natação. Fora isso, tambĂ©m tinha umas medalhas por fora por ser excelente em soletração, fora todo o currĂculo por serviços prestados a comunidade. E apesar de sua cara de durĂŁo, todo mundo sabia que era um rapaz pacĂfico e que sĂł se erguia quando achava que as coisas estavam muito erradas. EntĂŁo era compreensĂvel quando ele simplesmente parou, olhou para a cara do garoto, arqueando uma sobrancelha antes de respirar fundo e dizer:
â Olha só⊠vocĂȘ jĂĄ era um babaca por ter chamado de viadinho uma pessoa que nem estĂĄ mais nessa escola para se defender, fora o comportamento completamente homofĂłbico, que Ă© inaceitĂĄvel em plenos anos 40. â Ele esclareceu, como se estivesse dando instruçÔes e satisfaçÔes do que estava por vir. â DaĂ para completar vocĂȘ foi lĂĄ e cometeu slutshamming contra Valkyrie, que alĂ©m de ser a irmĂŁ de um dos meus melhores amigos, tambĂ©m nĂŁo estĂĄ presente para poder dizer na sua cara que merece respeito e que vocĂȘ nĂŁo tem o direito de dizer o que ela tem que fazer ou nĂŁo. â EntĂŁo suspirou, lançando um Ășltimo olhar para o garoto. â NĂŁo tenho outra saĂda que nĂŁo encher sua cara de porrada.
E assim que anunciou, Lennon meteu um soco de baixo para cima no queixo do outro garoto, fazendo um som alto de osso contra isso. Todo mundo no corredor gritou, é claro. Meu grito foi o mais afinado e dramåtico, preciso ressaltar, enquanto colocava as duas mãos sobre o peito e armava a minha melhor expressão de chocada. Mesmo que na minha cabeça se desenrolasse outro cenårio, completamente diferente.
â Why when you see boys fight does it look so horrible, yet... Feel so right? I shouldn't watch this crap, thatâs not who I am, but with this kid⊠Damn! â AtĂ© mesmo o instrumental estava rolando na minha cabeça, enquanto os versos de Fight For Me saĂam em um leve murmĂșrio de meus lĂĄbios, vivendo a terceira cena de Heathers com toda a precisĂŁo e atualização possĂvel. â Hey, mister no-name kid, so who might you be? And could you fight for me? Hey, could you face the crowd, could you be seen with me and still act proud? â Sim, estava sendo atacada por todos os anos de meus hormĂŽnios sendo reprimidos porque nĂŁo encontrava a pessoa certa, mas naquele momento eles se renderam para o fato de que o garoto estava lutando, literalmente, por uma causa nobre. E se todos os âfoi porque mereceuâ que Hope emitia quando bateu em garotos babacas em sua vida me ensinaram algo foi que algumas vezes as pessoas podiam sim meter uns pontapĂ©s e socos em gente que nĂŁo era legal e nunca tinha ouvido falar de ser bom e gentil. O garoto que apanhava de Lennon nĂŁo sabia mesmo ser minimamente civilizado, entĂŁo merecia. E, minha Elphaba do cĂ©u, ele estava mesmo aprendendo uma lição pelas mĂŁos de Fitzwilliam. Minhas pernas bambeavam sĂł de assistir. â Hey, could you hold my hand and could you carry me through no man's land? It's fine if you don't agree, but I would fight for you, if you would fight for me. â NĂŁo lutar literalmente. Eu era mais do tipo que gritava, corria e subia em algo que me deixasse mais alta do que o normal. Se Hope estivesse em casa, gritaria e choraria atĂ© ela fazer alguma coisa, fosse por arrombamento ou apenas uma barata na sala. Mas era um mero detalhe e eu estava muito emocionada em como os socos eram sincronizados com minha cantoria. â Let them drive us underground. I don't care how far. You can set my broken bones and I know cpr. â E nessa hora eu pude jurar que Fitzwilliam ergueu a cabeça em minha direção e me olhou como se perguntasse o que eu estava fazendo, mas entĂŁo era a brecha que o garoto esperava e foi acertado em cheio no nariz. Fiz uma careta de dor, me encolhendo como se tivesse alguma chance do sangue chegar atĂ© mim e meu conjunto rosa-salmĂŁo. â Well, whoa, you can punch real good. You've lasted longer than I thought you would. So hey, mister no-name kid, if some night you're free, wanna fight for me? If you're still alive. I would fight for you, if you would fight for me. â A briga virou uma confusĂŁo de braços, atĂ© que um inspetor chegou e separou os garotos. Eu era a Ășnica garota naquele corredor inteiro, vestida de rosa ainda por cima, mesmo que o uniforme fosse azul e branco, com um passe que jĂĄ estava vencido. Me mandaram seguir para meu caminho logo e que nĂŁo tinha mais nada para ser visto ali.
Holy shit. Holy shit. Holy shit. Holy shit!
Todo o barraco se disseminou, os corredores se esvaziando. E eu deveria ir para a minha ala, atravessando o påtio e entrando na Constance Billard para o resto das minhas aulas. Mas o que eu fiz mesmo foi esperar do lado de fora da secretaria, dizendo que poderia depor a favor de Fitzwilliam se fosse necessårio, mas apenas olharam para a minha cara e me perguntaram se eu não tinha mais nada para fazer. Ao dizer que não, rolaram os olhos, me ofereceram café e então fiquei sentada esperando por Lennon. Quando ele apareceu, ajustei minha saia dando alguns tapinhas para desamassar.
â Lennon Fitzwilliam, meu nome Ă© Angelina Belle Cravalho-Steling, nome artĂstico Angie Sterling, e gostaria de dizer que o que precisar de apoio para sua defesa quanto ao caso do corredor, eu sou uma testemunha ocular favorĂĄvel para o seu caso, alĂ©m de que super admirei a forma sincronizada dos seus movimentos, aposto que veio de seus anos de natação, e que Ă© algo muito difĂcil de se realizar levando em conta as condiçÔes e o uniforme com blazer de vocĂȘs. â Disparei tudo de uma vez, o fazendo piscar algumas tantas vezes, como se estivesse assimilando aquelas informaçÔes todas.
â Espera⊠Eu lembro. VocĂȘ era a garota cantando Heathers enquanto eu estava brigando. â Ele me disse, apertando um lenço contra o nariz, ainda, franzindo levemente a sobrancelha enquanto fazia as contas.
â Ah⊠Eu sempre canto quando estou nervosa. â Admiti, ao mesmo tempo em que ocultava o fato de que eu cantava sempre que achava que estava vivendo algo digno de um palco, e nĂŁo perdia a chance de treinar um pouco do meu talento nato. E entĂŁo algo me atingiu diretamente no cĂ©rebro, fazendo tudo brilhar como uma manhĂŁ de primavera. â Espera, vocĂȘ conhece esse musical?
â Ahn⊠Meu pai produziu a versĂŁo ao vivo que foi filmada para o canal da nossa famĂlia. â Ele admitiu, tirando o lenço do nariz, com cuidado, checando para ver se tinha estancado o sangramento. â E apesar de todo o contexto absurdo, acho um bom entretenimento. Tirando as partes de morte gratuita. â Ele acrescentou de Ășltima hora, como se estivesse julgando a trama.
Meu coração até bateu mais forte por ele saber mesmo do que estava falando.
â VocĂȘ gosta de musicais! â Exclamei, animada.
â Gosto de tudo que envolva teatro⊠SĂł nĂŁo sou bom em atuação. â Ele confessou, sorrindo sem graça, o que eu achei extremamente adorĂĄvel.
â Ah, mas tudo Ă© possĂvel com empenho. Se vocĂȘ tivesse incentivo, convĂvio e ajuda de alguĂ©m que se dedica a anos a isso, poderia ter um resultado muito positivo. â Afirmei, me balançando em meus pĂ©s, querendo contar que eu atuava desde que tinha dois anos e me balançava na janela de casa cantando a mĂșsica da Cinderella. EntĂŁo uma ideia passou pela minha cabeça. â Por que nĂŁo se inscreve para a peça da escola? Casablanca pode ser seu primeiro estudo em atuação.
â Eu nĂŁo sei⊠â Lennon me respondeu, me olhando com curiosidade. â Por que gostaria tanto que eu atuasse?
â Porque eu sinto que vocĂȘ pode ser uma descoberta promissora. E eu geralmente nĂŁo falho com meus instintos. â Afirmei, emanando toda a minha sensatez.
O garoto me olhou desconfiado por alguns segundos, antes de menear a cabeça.
â Tudo bem, posso pensar no caso. Quais os papĂ©is que estĂŁo procurando?
â Rick Blaine.
â Mas Ă© o protagonista!
â Eu sei, nĂŁo Ă©? â Comentei, agitando o ar com uma das mĂŁos. â Mas vai ser moleza. E eu posso ajudar se quiser, eu vou ser parte do elenco. Em um papel importante. â Nem tinha tido a confirmação ainda, mas de certo seria a Ilsa Lund.
Lennon pareceu refletir, antes de me dizer:
â Se eu nĂŁo tomar uma suspensĂŁo, eu irei me inscrever. Mas agora meio que preciso passar na enfermaria. Sabe⊠â E entĂŁo apontou para o prĂłprio nariz, me fazendo balançar a cabeça em concordĂąncia.
â Okay, okay. Mas qualquer coisa, eu estou sempre no clube de teatro. E no glee club. â Afirmei, antes de vĂȘ-lo fazer menção a se afastar, antes de oferecer a mĂŁo para mim e apertar com suavidade meus dedos.
â Foi um prazer conhecĂȘ-la, Angie Sterling. E obrigado pelos elogios e⊠Ideias. â Ele me disse, antes de fazer um gesto curto com a cabeça em minha direção.
â SĂł fiz o que meus instintos disseram. â Respondi em voz baixa, sentindo que estava derretendo por dentro quando aqueles olhos azuis se viraram em minha direção uma Ășltima vez.
E então ele foi embora cuidar de seus ferimentos, e fiquei rindo comigo mesma, nas nuvens, pensando que talvez tivesse encontrado uma nova chance de um bom co-estrela. E alguém que fizesse meu coração palpitar com a possibilidade de ser a minha primeira paixão. E estava jå completamente apaixonada pela ideia de me apaixonar. Quanto tempo seria o suficiente para perguntar se ele era solteiro e gostava de meninas?
Me lembrava a primeira vez que peguei em minhas mĂŁos a saga Senhor dos AnĂ©is. O modo de criar mundos dentro de mundos, idiomas inteiros e tramas complexas de Eras inteiras me fez, alĂ©m de virar um fĂŁ de Tolkien, acreditar que aquela era a obra mais perfeita existente no mundo. Por muito tempo, sustentei a crença, atĂ© que, em um bar prĂłximo do campus da UCLA, Diana Duval entrou em minha vida e disse que estava desacompanhada quando a abordei. Aqueles preciosos segundos onde fui imediatamente absorvido por sua beleza, eu soube que tinha que fazer meu melhor para conquistar a atenção daquela mulher. E posteriormente o melhor para conquistar seu coração. Nada no mundo poderia substituir a felicidade que tinha em dividir minha vida com Diana; eu a admirava por diversos pontos, primeiro por ela nĂŁo sair correndo quando falei sobre a facilidade com que explodia robĂŽs nos laboratĂłrios, depois por nĂŁo me achar um anormal por ter mais de 15 anos e ainda organizar campanhas de RPG e gastar um domingo inteiro jogando com um bando de outros nerds adultos, e entĂŁo por me permitir entrar em sua vida, conhecer sua famĂlia e nĂŁo me expulsar apesar de minhas excentricidades. Meu coração era seu desde a primeira referĂȘncia ao mundo nerd, mas minha vida inteira estava a sua disposição conforme eu aprendia mais sobre ela. A saga dâO Anel nĂŁo era a obra mais perfeita do mundo, afinal, e sim a mulher para quem eu estendia meu braço para acompanhĂĄ-la, exatamente como uma bela dama como ela merecia.
Tendo a certeza de que nĂŁo poderia mais viver sem a presença de Diana, me reuni com meus amigos mais antigos e, como se estivessemos projetando uma campanha de RPG magistral, passamos a tarde debatendo o que eu poderia fazer que fosse grande o suficiente para conseguir demonstrar o quanto a amava e o quanto me comprometia a continuar a amando a cada dia. Depois que fizemos atĂ© a estimativa de quanto custaria comprar uma ilha e batizar com o nome dela, me joguei no sofĂĄ, me sentindo exausto e longe de conseguir achar a exata forma de me declarar para ela. De olhos fechados, tateei o mĂłvel ao lado atrĂĄs de um copo de cafĂ©, mas o que consegui foi derrubar um dos colecionĂĄveis da Liga da Justiça que adornava aquela pequena estante. Me levantei de um salto para recuperar o objeto e impedir que o âbonequinhoâ se despedaçasse em milhares de cacos, quando olhando para o Batman em minha mĂŁo, percebi qual era a minha resposta.
â Senhores. Preciso imediatamente da lista de contatos de vocĂȘs. Realizaremos algo Ă©pico. â Anunciei, me sentindo completamente empolgado.
Depois de milhares de ligaçÔes, negociaçÔes, horas implorando para estranhos colaborarem comigo porque era algo extremamente importante e que poderia pagar pelas despesas e talvez possĂveis danos a estrutura, consegui reunir tudo que precisava, ficando para mim a função de controlar minha ansiedade e nĂŁo estragar tudo contando o plano antes da hora. E esperando que aquilo nĂŁo fosse o auge da excentricidade e que ela respondesse a minha pergunta antes de me internar em um hospital psicolĂłgico.
Alguns dias antes da data, lhe disse que teria que comparecer a um evento de robĂłtica em San Diego, e que gostaria que ela me acompanhasse, afinal era apenas um fim de semana e poderĂamos aproveitar o momento como umas fĂ©rias de mĂnima duração. Agradeci aliviado quando ela disse sim, e entĂŁo as coisas começaram a se encaminhar conforme o planejado.
Naquela sexta-feira, San Diego estava fervendo e eu podia fingir que o suor em minha testa era por causa do calor e nĂŁo porque estava nervoso pelo que ela iria achar de tudo aquilo. Sorria e comentava coisas amenas, calculando quanto tempo iria levar atĂ© Diana perceber que estĂĄvamos a caminho do Centro de ConvençÔes de San Diego, um lugar atĂpico para as demonstraçÔes das novidades no ramo da tecnologia associada a medicina. Chegando lĂĄ, respirei fundo, desci do carro e abri a porta do mesmo para ela, estendendo minha mĂŁo para ela com um sorriso trĂȘmulo em meu rosto.
â Senhorita Duval, sei que esperava ficar terrivelmente entediada em meio a diversos nerds tentando criar robĂŽs-cirurgiĂ”es perfeitos, porĂ©m tenho que admitir que lhe faltei com a verdade. â Quando seus pĂ©s tocaram o asfalto e seus olhos focaram a frente do Centro de ConvençÔes, expliquei afinal do que se tratava. â Gostaria de, nessa tarde, lhe acompanhar a primeira DDC. Diana Duval Convention.
Adentrei o prĂ©dio segurando sua mĂŁo. A primeira ideia era alugar o Centro inteiro por aquela tarde, mas foi alĂ©m das minhas propostas mais altas. EntĂŁo consegui um espaço amplo, no qual enfiei diversos estandes onde momentos da vida de minha namorada eram apresentados, como se estivessem mesmo apresentando novidades sobre uma personalidade do mundo geek. Caminhamos por todo aquele corredor que falava desde sua infĂąncia atĂ© suas conquistas como a excelente advogada que era, atĂ© chegar no lugar onde costumavam ocorrer painĂ©is, subindo no palco enquanto que de plateia estavam todos os Duvals, incluindo Ariel que tinha negociado com os seus enteados que iria dar free-pass na Disney caso nenhum dos dois destruĂsse nada durante a viagem, e Abernathys e amigos nossos. Em frente todas aquelas pessoas, engoli em seco, segurando suas mĂŁos.
â Todas as vezes que pensava sobre como demonstrar o quanto vocĂȘ Ă© importante em minha vida, eu nĂŁo conseguia pensar em um cenĂĄrio grandioso o suficiente. Nem mesmo se conseguisse uma viagem a Marte para dizer que meu amor era do tamanho da distĂąncia da Terra ao Espaço, seria o suficiente, e eu jĂĄ estava em negociaçÔes com a Nasa quando percebi isso. EntĂŁo... Percebi que teria que haver um evento somente seu para comportar o tamanho de sua importĂąncia e graciosidade. â Soltei o ar pesadamente, olhando em seus olhos, o que me fazia me curvar ligeiramente para a frente, jĂĄ que o nosso tamanho era bastante dispare, mas era um dos diversos detalhes que me fazia pensar com todo carinho em nossa relação. â Diana Duval, para mim vocĂȘ Ă© uma heroĂna. Todos os dias vocĂȘ luta contra o mundo e o vence com habilidade e maestria e constantemente me sinto orgulhoso por vocĂȘ ser essa mulher e advogada incrĂvel. Me sinto tambĂ©m o homem mais sortudo do mundo por ter conseguido conquistĂĄ-la mesmo tendo os dois pĂ©s afundados no mundo da lua e da fantasia. E em diversos momentos do dia me pego pensando que eu seria tolo se algum momento nĂŁo lembrasse que vocĂȘ Ă© mais do que qualquer sonho alucinado que eu poderia ter sobre uma vida perfeita. Como sabe, a primeira vez que nos encontramos, estava planejando uma partida de RPG com alguns colegas. O que talvez nĂŁo saiba Ă© que o momento em que nossos caminhos se cruzaram, os dados foram rolados e sua presença causou um double damage em qualquer chances de eu nĂŁo saber o que Ă© ser imensamente feliz e compreendido e apaixonado por alguĂ©m. VocĂȘ Ă© a heroĂna de level alto, com carisma, inteligĂȘncia e beleza 20 que nunca pensei que poderia existir. E todo ano deveria haver mesmo uma convenção dedicada a homenagear seus feitos e a pessoa incrĂvel que vocĂȘ Ă©. â EntĂŁo me ajoelhei em sua frente, meus dedos tremendo na mĂŁo esquerda, enquanto a direita revirava meu bolso atrĂĄs da caixinha de veludo azul, que abri e ergui em sua direção, o diamante de 24k brilhando ali dentro. â Eu sou apenas um tolo de level principiante perto de vocĂȘ, mas ficaria honrado se me permitisse continuar ao seu lado, pelo resto de nossas vidas. Eu amo vocĂȘ, Diana, como nunca achei que seria capaz de amar alguĂ©m em minha vida. E neste momento, gostaria de perguntar a vocĂȘ se me daria a alegria infinita de poder chamĂĄ-la de esposa?
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