Um conto escrito por mim durante as aulas da faculdade.
É o horário que marca esse relógio barulhento. Os ponteiros decorados fazem “tec” compassadamente, conforme os segundos se arrastam.
Uma figura baixinha e pomposa se aproxima com uma bandeja nas mãos. Duas xícaras, um açucareiro, um bule e duas colheres. Tudo em tons de azul e branco, como sempre foi.
— E qual o de hoje? — recepciono Dona Marga com um sorriso.
Ela segue com a bandeja até sua mesinha de centro, em frente ao sofá velho que me encontro.
— Manjericão! — Ela me sorri de volta.
Talvez fossem os pés de galinha, que pareciam ficar mais evidentes a cada sorriso. Ou então seus cachinhos grisalhos, quem sabe até pudesse ser sua voz sobrepondo o “tec, tec” chato do relógio.
Mas algo ali sempre me fazia voltar.
— Espero não ter demorado muito hoje — Dona Marga dispõe sua bandeja na mesinha marrom escura, curvando sua postura meio corcunda e servindo o líquido verde, claro e fumegante nas xícaras.
Eu diria que demorou mais que o normal, mas pra alguém nessas condições, não se é de bom tom reclamar.
— Antes tarde do que nunca.
Alguns segundos parecem se arrastar demais antes que sua risada estridente ecoe pelo cômodo.
— É exatamente o que eu costumava dizer, querida.
Meu sorriso se expande quando ela me alcança uma xícara, que pego delicadamente pela alça fina. O chá quase queima meus lábios quando tento bebê-lo antes de esperar esfriar, mas Dona Marga não parece se queixar do dela, bebendo um bom gole antes de suspirar.
— É um dos meus favoritos! — seu mindinho levantado é adorável, me faz imaginar sua sutileza quando mais nova, rodopiando em sapatilhas de ponta e saltando majestosamente, fazendo o tutu da saia levantar.
Todos esses dias (ou madrugadas) visitando essa casa velha me fizeram temer menos as casas de vó, minha avó mesmo era uma bruxa! Ela me colocava pra limpar sua lareira, dar comida aos gatos, lavar suas panelas, engraxar seus sapatos, engomar seus casacos e tudo isso antes até de eu aprender a ler.
Por isso, casas velhas, gatos, novelos de lã, esse barulho irritante de relógio e tábuas de madeira que mais parecem gritar comigo quando piso muito forte, essas coisas não me causam bons sentimentos.
Mas aqui, com Dona Marga, é diferente. É como estar em casa.
— E então? — pergunto — Alguma novidade na família?
— Ah, minha filha, gostaria de saber mais! Mas meus netos não são como você.
— Eles não me escutam, sabe? Eu tento conversar mas eles me ignoram.
Seu tom é tão triste que me faz querer ser da família dela, só pra ouvi-la.
— Mas Dona Marga, você já tentou escrever?
— Não consigo mais segurar a caneta — as sobrancelhas quase invisíveis dela se arqueiam — as únicas coisas que me restaram são estas.
Seu olhar melancólico aponta para as louças na mesinha.
— Sinto muito… — é só o que consigo pensar em falar.
— Está tudo bem — cada novo gole que ela dá no chá faz um barulhinho fofo da água em seus lábios — ao menos tenho uma companhia para dividir o chá.
— Queria poder te ajudar.
— Não se preocupe, minha hora já passou.
— Eu já aproveitei o tempo que tinha com meus familiares, filha. Agora o que posso fazer?
A frustração me faz suspirar fundo.
— E por que continua aqui? — Meus olhos fitavam o chão, mas perifericamente pude ver os de Dona Marga viajarem ao redor da sala de estar.
— O que mais me faria ficar, se não as memórias? As recordações?
Mesmo contra a minha vontade, a curiosidade acaba eventualmente ultrapassando a frustração, fazendo meus olhos acompanharem aquele feixe de lembranças e pararem numa bancada, mais especificamente, num rádio enorme e vermelho em cima dela.
— Este me foi dado pelo meu velho — eu não podia ver seu rosto, mas pelo tom, ela estava sorrindo.
Nostalgia? Era por isso que ela queria ficar? O quão preciosa uma memória tem que ser para segurar alguém aqui nessa casa velha e empoeirada, quando Dona Marga já poderia estar num lugar bem melhor?
— Eu não entendo… — meus olhos voltam a analisar Dona Marga. Sinto que poderia olhar pra ela por dias e sempre encontrar algum novo detalhe.
Porque, agora mesmo, eu encarava um olhar que nunca tinha visto antes, Dona Marga parecia assustada.
— Tive mais um daqueles arrepios — ela diz, ainda com aquela cara de quem viu um fantasma.
— Você tem isso todo o tempo?
— Só quando alguém próximo está…
— Está o quê? — algo dentro de mim se revira.
Dona Marga pisca algumas vezes e volta a sorrir. Mas seu sorriso não afasta meu desconforto.
— Você tem medo da morte, filha? — Confesso que essa não é a melhor pergunta a se fazer com esse sorriso gengival, Dona Marga.
O sofá nem range quando ela se levanta. Seu olhar estranhamente parecia me evitar. Dona Marga vai até a mesinha de centro e pega sua bandeja novamente.
Sempre me perguntei como ela consegue segurar essa bendita bandeja.
– Por favor, não fique com medo – Olhando agora, o azul das xícaras combina bem com ela — Não dói nadinha!
– Não é de dor física que eu digo – Eu olho pra xícara de novo – É a dor da saudade.
Ela parece divagar, parada em frente à mesinha.
– Espero que encontre alguém, assim como eu encontrei você.
– Mas nós ainda podemos continuar nos falando, não?
Finalmente, ela começa a andar na minha direção.
– Hoje é o dia – seus passos silenciosos vêm até mim, até chegar bem perto e me estender sua bandeja ornamentada – quando você ver, eu já terei sumido. Foi assim comigo da outra vez.
É confuso, mas eu pego a bandeja.
– Você não me falou como você morreu.
Eu encaro o bule e as xícaras na bandejinha, e quando resolvo olhar pra cima para questioná-la novamente...
– Dona Marga? – ela não estava mais lá:
O barulho do relógio se torna um ruído branco. Tão branco quanto minhas mãos, agora pálidas e meio transparentes.
Então foi assim que ela morreu.
Essa foi uma história que minha turma de Publicidade e Propaganda teve que escrever individualmente durante duas aulas, sem consulta no celular ou com a professora. Foi bem trabalhoso e divertido de fazer.
Mas fiquei meio frustrada porque o meu conto não foi escolhido pelo meu grupo pra dar continuidade ao trabalho.
Pra não deixar ele morrer, resolvi postar aqui no Tumblr :)))