TEM LIBERDADE NESSA MINHA LIBERTINAGEM
Tive a honra de participar de um debate sobre sexo que me obrigou a pensar duas vezes sobre o que eu achava que sabia sobre os meus prazeres e a minha sexualidade como um todo.
Prazeres qual(quais) é(são) o(s) meu(s)?
Eu sempre digo que primeiro conheci o sexo e depois o prazer. Talvez por ter crescido numa cidade onde as únicas bichas que existiam eram (eu) um menino gay e uma menina trans. Naquela altura não tinha como ter uma conversa franca sobre prazeres sexuais visto que até os heteros – eles que supostamente faziam o sexo convencional – estavam as escuras, esperavam para conhecer os seus próprios órgãos nas últimas páginas do livro de ciências naturas da quinta classe. Em segredo um passava para o outro. Um comboio de cochichos, curiosidade e desinformação. “já viste?” “Sabes o que é isso?”. Aguardando pela aula que nunca mais chegava, para depois, ver o professor a dar uma explicação cheia de nuances e metáforas que dava um terceiro nó em suas cabeças.
A pornografia entrou na minha vida através de contos eróticos. Eu lia religiosamente estórias de estranhos nos mais loucos cenários. Um dia atrevi-me mais um pouco e fui ler os contos da secção gay. Aquilo incendiou-me! A maneira como eles descreviam os peitorais peludos dos seus amantes, o toque na pele quente, os beijos, mordidas e chupões, dava-me a entender que aquela era uma sensação suprema. Fazia-me desejar aquilo para mim, querer sentir a virilidade de um homem.
Finalmente o sexo começava a fazer algum sentido. Eu queria ter alguém que me provocasse aquela sensação que era descrita como extasiante.
Mas quando eu acabava de ler, tinha de sair da internet e voltar para um mundo que ignorava a possibilidade de existir prazer entre dois homens. Um mundo que fazia piada dos meus sentimentos. Era conflituante e extremamente solitário estar entre esses dois mundos. Eu morria de vontade de contar as minhas amigas sobre o meu segredinho, mas estava fora de cogitação.
Como sabemos a pornográfica só mostra um lado da história e por muito tempo eu, sobre o sexo, tinha uma visão heteronormativa e cristã de que alguém mete algo em alguém e isso por si só já bastava. Essa visão minimalista punha-me numa posição passiva e dependente. Condicionava o meu prazer a presença de outrem, fazia-me acreditar que o meu corpo era um meio para que outros homens obtivessem prazer e isso impedia-me de “enjoyar” o momento por estar muito ocupado a servir alguém.
Eu fazia o que tinha que fazer, não gostava muito mas tinha curiosidade de fazer mais. Sentia como se não tivesse terminado quando terminávamos, como se todas aquelas vezes fossem a preparação de algo que ainda não tinha acontecido, uma preliminar interminável.
E aí o feminismo entrou na minha vida com mais força que as testemunhas de Jeová numa manhã de sábado, tinha algo na maneira como as mulheres reivindicavam o direito a ter prazer. Elas exigiam, demandavam. Exalavam um tipo de poder – amor-próprio – que só possui aquele que se conhece profundamente. As escondidas, eu perdia-me nos monólogos das vaginas, elas davam os nomes as coisas. Nada de pipi, tata, pupu. Elas tinham uma vagina gloriosa que impunha respeito. Eu queria um pouco daquilo, queria sentir-me vibrante e confiante no meu prazer mas para tal teria que em primeiro lugar descobrir o que é que prazer significava para mim.
Até aquele momento eu já tinha permitido que homens de todos tipos beijassem, lambessem e chupassem-me mas nunca tinha me atrevido a olhar-me nem a tocar-me. Mas aos poucos crescia em mim um desejo de explorar o meu corpo. Esses desejos foram logo censurados “tu és passivo não podes fazer isso” “eu sou activo o meu papel não é esse”. Estas experiencias de culpa e vergonha impediam-me de expressar-me livremente quando o assunto era o meu sexo, os meus sentimentos e o meu prazer. Mas uma vez eu me vi forçado a reprimir-me e coabitar entre dois mundos. Num onde as regras estavam pré-estabelecidas e num outro onde incentivavam-me a desafiar os meus limites.
Certas mudanças nas nossas vidas não acontecem de um dia para a noite, mas quando começamos a abrir os olhos não tem como voltar para trás. Um dia perguntei a um parceiro meu “o que mais desejas em mim?” ele não precisou pensar ou piscar os olhos disse “o teu cú”. Devo confessar que a crueza da verdade chocou-me. Já ouvi dizer que os meus olhos são bonitos, os meus lábios são apetecíveis, acreditava que ele estava ali comigo por eu ser este conjunto de atributos não por causa de um órgão específico. Aquela revelação despertou em mim a vontade de saber mais.
Descobri que um outro gostava de pés, desejava senti-los a passar pelo seu corpo, massagear o seu pénis com eles. Um outro achava umbigos muitos sensuais, quando ele via umbigos fundos imaginava-se a pôr a sua língua dentro do buraquinho ou até mesmo a esporar ali dentro.
Eu ouvia aquilo tudo, fascinado com a ideia de que eles sabiam exactamente o que lhes levava a loucura mas quando perguntavam-me “e tu do que gostas” a conversa ficava constrangedora porque eu queria dizer “não sei, não faço ideia” mas respondia “eu gosto de dar prazer, sinto me feliz por realizar as tuas fantasias” essas palavras rasgavam a minha garganta mas era a saída mais rápida que eu tinha encontrado.
Não que eu não tivesse prazer sexual, pelo contrário ver um homem a delirar pelo meu corpo dava-me muito prazer, o problema é que eu nunca tinha atingido o clímax, mas como poderia? Até então eu conhecia o meu corpo somente através do olhar de desejo das outras pessoas. Eu esperava que uma pessoa que estava preocupada com o seu próprio prazer adivinhasse o que me levaria às alturas e frustrava-me quando eles despachavam a parte deles e bazavam.
Tudo começou com um toque, uma olhada de perto na casa de banho com um espelho entre as pernas. “Este é o meu cú esse é o meu pénis” eu disse para mim mesmo com uma voz sussurrada. Todos temos que começar de algum lado por isso toquei-me num ritual de apresentação. Estes são os meus braços. Essas são as minhas pernas. Estes são os meus mamilos. Esta é a minha boca. Esses são os meus dedos. Esses são os meus cabelos.
Estes são os meus olhos. Esta é a minha pele. Estas são as minhas cicatrizes. Não acho que exista ainda uma resposta definitiva para a pergunta “o que você gosta/deseja?” pois descolonizar-me de anos de vassalagem sexual é um processo lento de tentativa e erro. E muito frustrante também. Mas está cada vez mais gostoso descobrir coisas novas sobre mim, diferentes maneiras de me conhecer. Sinto-me um pouco mais confiante menos passivo e mais no controlo do meu prazer.
















