Grinder
*As aplicações, os encontros clandestinos, fazem parte da viagem mas não são o destino final.* Talvez eu deva começar por dizer que nós membros da comunidade LGBT somos pessoas marginalizadas, que desde cedo nos é ensinado que só podemos existir de noite, nas sombras, que o nosso amor é sujo e só é válido quando clandestino. Apesar de termos energia sexual como todo mundo, de queremos tocar e sentirmo-nos desejados por aqueles que nós desejamos, reprimimos os nossos sentimentos com o trabalho, estudos, orações, rituais tradicionais et cetera.. Houve um tempo onde se marcavam encontros através de um chat que passava depois da meia-noite na TVM, as pessoas mandavam mensagens anónimas (ou não) a procura de parceiros, tinhas que estar disposto a qualquer momento, sair preparado para tudo. Embarcávamos nesses encontros as cegas ignorando todas as nossas incertezas, medos e questões. Queríamos conhecer pessoas que se sentiam como nós, pessoas que quisessem algo a mais, que pessoas que não julgassem, pessoas que pudéssemos desejar, beijar, amassar sem maiores cerimonias ou explicações, as regras eram claras: não sejas complicado, não exijas muito, seja prático, não olhe nos olhos, não respire muito alto, seja discreto, chupe, gema, goste, agradeça. Eventualmente evoluímos para espaços como: o MSN, o FACEBOOK, as festas, o Grinder, o Hornet, o Whatsapp. Espaços estes, te informam quando um potencial parceiro esta próximo, a sua raça, posição e tamanho. Onde todo mundo está conectado e podemos nos sentir seguros e até aqueles de cidades pequenas e famílias muito conservadoras tem a oportunidade de libertar-se e caçar sem comprometer-se. Mas, apesar de grande parte de nós usar esses meios par encontrar pessoas disponíveis, existe em a volta um grande sentimento de vergonha que é imposto àqueles que usam, pois estes, são sempre associados à pessoas promíscuas, que não se respeitam, ávidas por todos os pénis que conseguirem ter, que não querem nada da vida além de fazer sexo com o primeiro que aparecer, o que pode ser verdade, mas não totalmente. O que me leva a questionar: Partindo do principio que as pessoas usam sempre protecção, como é que o numero de parceiros que alguém tem ou teve, influencia na integridade ou dignidade da mesma? E porque é que não me surpreende que as pessoas que perpetuam estereótipos de que gays (principalmente passivos) são essas criaturas míticas e irracionais obcecadas por sexo, são as mesmas que dizem coisa do tipo “Queres namorar com um homem p’ra que? Arranja uma mulher para namorar, homens são só para foder”? Voltando, eu olho este assunto sob uma outra perspectiva, prefiro pensar que essas pessoas estão a passar pela segunda adolescência, deixa-me explicar: sendo adolescência um período de descoberta, onde queremos experimentar de tudo e testar os nossos limites, iludidos de que nada de mal irá nos acontecer. Diz-se que pessoas gays passam pela adolescência duas vezes, a primeira é a cronológica e a segunda quando se descobrem gays, por isso que, na minha opinião essa fase da caça é necessária para alguns, por ser onde muitos aprendem a definir em seus próprios termos o que é aquilo de que gostam e lhes satisfaz. É a nossa segunda adolescência e temos todo o direito sobre ela. Do mesmo jeito que acredito que a procura por parceiros sexuais não deve ser o cerne da nossa existência, talvez seja por isso que simpatizo com a ideia de que essa fase da caça faz parte da viajem, de algo maior que é processo de auto conhecimento e amadurecimento. Mas não é o que nos define, não é onde devemos desarrumar as nossas malas e ficar. Pode até ser onde muitos estão mas não é onde pertencemos. Agrada-me pensar que em algum momento devemos evoluir e sair das aplicações, redes sociais, dos encontros nos becos escuros, e construir uma vida real satisfatória. Não estou a falar que partir de uma certa idade, devemos casar e ter filhos (não necessariamente.), nem daquele momento de reencontro com Jesus (Eu era puta e hoje sou santa). O que quero dizer é que, não me imagino daqui a algum tempo ainda a interagir com perfis sem rosto, marcar encontros em hotéis baratos, ou ter que receber na minha casa desconhecidos que não significam nada para mim e ainda ter que lidar com o fel de ser mal comido. Gosto da ideia de não ter que estar a procura do pénis mais próximo para o resto da minha vida. Enfim, resumindo, terminando este texto que esta a ficar grande de mais, a sexualidade é vasta e cada um decide expressar da sua maneira única. Enquanto uns andam de relações em relações a procura de um amor para toda vida, outros só querem fazer um sexo gostoso, gozar e ser feliz.














