A reação dela à sua presença tornou irresistível respondê-la com uma provocação. — Ora, mas é claro, não sabia disso? Adoro vê-la irritada. Seu tormento é o motivo pelo qual sigo vivendo e respirando. — Apesar do sorriso, intencional em sua postura tipicamente irreverente em relação a mais nova, a ironia em sua voz era palpável. Talvez sua fala tivesse sido verdade um dia; anos atrás, quando ainda um adolescente imaturo, mas agora aquilo não podia estar mais longe da verdade. Imaginou que, após sua contribuição à conversa, Narcissa teria se afastado, mas quando ela não o fez, Valerion deu-se por satisfeito com o fato da princesa não tê-lo deixado falando sozinho e decidiu escutá-la, guardando suas respostas ácidas e provocações para outro momento que não aquele.
Seguiu o olhar dela até Rhagael, mas não sem antes observá-la com atenção: o ressentimento brilhava em seus olhos e, ao ouvi-la, soube também escorrer de seus lábios. Então, aceitando o risco de ser estapeado em público, decidiu tentar aliviar a tensão alheia com uma brincadeira tola. — Não acho que vi seu pai usar saias alguma vez em minha vida, mas consigo entender o que quer dizer com isso. De qualquer forma, seu irmão ainda é o herdeiro ao trono. — Sabe-se lá por quanto tempo, pegou-se completando, pesaroso. Ainda que fosse membro ativo do grupo que secretamente orquestrava a ascensão de seu pai ao trono, Valerion não conseguia deixar de sentir certa culpa por privar Rhagael do futuro para o qual ele vinha sendo duramente preparado. Aliviava-se somente ao pensar que, ao menos, concederiam-lhe liberdade da crueldade do pai.
A risada dela, ainda que obviamente falsa e encenada, o arrancou de seus pensamentos e o fez sorrir brevemente, mas o que o pegou de surpresa mesmo foi a proximidade repentina entre eles. Os nobres ao seu redor certamente imaginariam obscenidades sendo sussurradas ao pé de seu ouvido, de tão chocada que foi a sua expressão ao ouvir o que ela lhe dizia, e Valerion esforçou-se a não deixar a pena transparecer em seu olhar ao que Narcissa se afastava novamente.
Por alguns momentos, não soube o que dizer, e baixou o olhar para o cálice em sua mão, tentando conter a indignação que borbulhava dentro dele; seu tio não era um homem honrado como se fazia parecer. E, embora soubesse do que acontecia por trás das paredes da Fortaleza, ouvir diretamente de Narcissa era diferente, real, e chegava a lhe embrulhar o estômago. — Às vezes penso que esta Fortaleza apodrece de dentro para fora. — Foi o que conseguiu dizer, em voz baixa, para que apenas ela o escutasse. — Se quiser ir embora, posso ir com você. Ser seu álibi. Estamos noivos, afinal de contas. Ninguém se surpreenderia. Nem mesmo seu pai.