As quantidades excessivas de álcool que havia consumido não deixavam apenas os sentidos de Narcissa anuviados, como também sua capacidade de percepção. Por isso, se havia ironia na fala de Valerion, ela falhou em entendê-la, olhando-o com desprezo ao ouvir a confirmação de que, sim, ele adorava torturá-la. Não que algum dia tivesse duvidado disso. Olhou-o com todo o desprezo que conseguia reunir em seu corpo pequeno apertado naquelas roupas desconfortáveis. — Você é um porco. — cuspiu as palavras com o que esperava ser um ódio fervente, mas a língua enrolada pela embriaguez provavelmente removia grande parte do peso da fala. Estendeu a mão para uma copeira que passava com uma jarra de vinho e a ordenou que enchesse sua taça novamente até a borda, dando um longo gole enquanto revirava os olhos diante da resposta estúpida de Valerion ao que ela tinha dito. — É claro, por um instante me esqueci de com quem falava. Foi tolice de minha parte achar que levaria a sério qualquer coisa que eu dissesse. — sua voz era sarcástica e quase desinteressada, mas o ressentimento e indignação em seu peito a deixavam tão furiosa que sabia que estava falando mais alto que o normal, até mesmo notou algumas cabeças se virando momentaneamente em sua direção, mas desviando-se rapidamente ao perceber que se tratava de uma das princesas.
Normalmente, ser tratada como uma garotinha estúpida que só dizia coisas sem sentido era uma parte tão essencial de sua rotina que ela já não se afetava mais. Mas o cansaço pela noite e o estado avançado de embriaguez fazia até mesmo aquela ferida se abrir, se é que algum dia tivesse sido fechada. Especialmente quando aquele tratamento vinha de Valerion, que a havia feito se sentir inferior e estúpida durante toda a sua vida. Ao menos, tinha conseguido fazê-lo calar a boca por meio segundo que fosse com sua fala velada sobre as agressões do pai. Saboreou o momento o máximo que pôde ao vê-lo perder a compostura, sabendo que ele passaria tão rápido quanto aconteceu. E foi esse pequeno pedaço de satisfação mínima que a ajudou a recobrar a compostura, quando antes se sentia muito perto de perder o controle e começar a chorar, sentindo-se segura o suficiente para voltar a se virar para ele sabendo que seu breve momento de fragilidade não tinha deixado nenhuma evidência em seu rosto quando abriu um sorriso cínico. — Se apenas acha isso, caro noivo, é porque não presta atenção o suficiente. Esta Fortaleza foi erguida sobre a podridão e nunca foi coisa alguma além disso. — fez um gesto largo como se sinalizasse a Fortaleza inteira e, ao fazê-lo, derrubou algumas gotas de vinho em sua mão, mas não percebeu. Também não percebeu que tinha aumentado a voz mais alguns tons e agora as pessoas a encaravam mais abertamente.
Mas então, a raiva e o ressentimento que ela se esforçou para enterrar, voltaram com força quando ouviu sua proposta. Por um momento paralizou, completamente indignada que ele realmente teve a coragem de lhe dizer aquilo. — O quê? Agora quer agir como um cavaleiro da armadura brilhante salvando uma pobre donzela? Se coloca em um pedestal de integridade tão superior a mim que acredita que eu necessito que você me salve de alguma coisa? — agora ela estava, definitivamente, fazendo uma cena, e percebeu que as pessoas paravam para observar enquanto Narcissa apontava o dedo para Valerion furiosamente. — Eu não preciso de você. Me deixe em paz. — disse, terminando de beber o que havia sobrado de vinho em sua taça, o que não era muito, pois havia derramado quase tudo em sua mão e no chão enquanto gesticulava. Então começou a olhar ao redor a procura de alguém que voltasse a lhe encher a taça, andando de forma ligeiramente cambaleante ao fazê-lo.
Fosse n'outro momento — um em que Narcissa não lhe tivesse confidenciado as agressões de Aemond — Valerion teria rido diante do insulto e da presente incapacidade da princesa de ler suas ironias e brincadeiras. Conhecia a si mesmo o suficiente para saber que, com certeza, daria continuidade às provocações sarcásticas e às tentativas de descontração com piadas nada apropriadas, tudo para ver exatamente até onde ia o desprezo de Narcissa por ele e, talvez, em algum momento entre tudo isso, encontrar um momento apropriado para fazer um pedido de desculpas genuíno por sua postura desagradável quando adolescente. Contudo, naquele momento, tudo o que via era, em iguais medidas, a força e fragilidade de sua prima, e suas ironias e brincadeiras já não tinham lugar naquela conversa.
Não havia, porém, razões para discutir ou argumentar com ela. Ainda que sua postura nunca fosse exatamente exemplar, fosse dentro ou fora da Fortaleza, era óbvio que suas reações eram pautadas pela influência do vinho em seu organismo. Sabia que Narcissa não hesitaria em dar continuidade à cena que causava e seu objetivo era justamente evitar que qualquer escândalo que ela estivesse planejando se concretizasse. Seu olhar apologético para as pessoas que se viravam para observar o rompante em sua conversa foi o suficiente para que os menos curiosos deixassem de olhá-los, distraindo-se com as muitas outras atrações da celebração, mas Valerion sabia que nada era tão interessante quanto uma princesa transtornada para alimentar quaisquer conversas e rumores. Notou, então, o olhar de seu pai sobre si, observando com discrição ao lado do rei que permanecia diligentemente com as costas viradas para eles, sem dúvida mantendo o ato de ignorar a filha que lhe era motivo de embaraço. Valerion odiou o tio mais intensamente naquele momento. — Não ofereço ajuda porque acho que precisa, Narcissa. — Justificou-se em voz baixa, dando alguns passos em sua direção e voltando a colocar-se ao seu lado, de prontidão para segurá-la caso seu cambalear se tornasse demais. — Ainda carrego a cicatriz que me prova que sabe muito bem se virar sozinha, portanto, dificilmente a descreveria como uma "pobre donzela". — Desta vez, colocou-se à sua frente, protegendo-a do olhar curioso dos convidados e gentilmente tirou a taça de suas mãos. — Desejo apenas poupá-la da crueldade de seu pai. Nem que seja somente por esta noite. — Após um gesto seu, uma das copeiras prontamente encheu a taça de vinho e Valerion segurou-a por um momento, ponderando as consequências de entregá-la novamente à princesa. — Uma oferta de paz. — Estendeu o vinho na direção dela, apenas para voltar a afastá-lo antes de falar. — A não ser que planeje me encharcar com ela.
















