A coisa mais estranha e revolucionária que eu descobri recentemente é que sentir alguma coisa não significa, necessariamente, que eu precise fazer algo a respeito.
Parece idiota. Talvez seja. Mas eu passei tempo demais achando que todo sentimento vinha com uma notificação urgente na testa.
Saudade? Manda mensagem.
Raiva? Conversa.
Medo? Se protege.
Tristeza? Abre uma sindicância interna, escreve um tratado, chama Deus e o Procon.
Como se tudo que passasse por mim precisasse sair de algum jeito. Pela boca, pela mão, pelo celular, pela porta. Como se sentir fosse sempre o começo de uma providência.
Só que às vezes eu sinto falta de alguém e continuo ali, escovando os dentes, olhando a pia, pensando que preciso comprar amaciante.
Sinto vontade de voltar para coisas que ainda sabem me chamar, mas continuo quieta. Eu lembro por que fui embora.
Me apaixono e não preciso transformar isso em relacionamento.
Sinto desejo e não preciso entregar um convite.
Sinto raiva e não preciso montar um tribunal no meio da sala.
Não é evolução. Não existe nada de extraordinário nisso. É só uma pequena folga. Um espaço entre sentir e fazer.
É sentimento. E eu tenho tentado não apertar o pescoço das coisas para arrancar delas um destino.
Porque tem sentimento que chega bonito também. Chega leve, aceso, quase bobo. Uma vontade de ver de novo, uma saudade sem tragédia, uma borboleta teimosa nascendo num canto onde eu ainda tenho medo de colocar a mão. E eu, que antes queria saber logo se aquilo ia virar amor ou perda, convite ou vergonha, agora tento deixar existir antes de transformar em pergunta.
Nem tudo que eu sinto precisa me dizer aonde vai.
E isso não é paz, é mais uma permissão. A de sentir sem resolver, sem justificar. Sentir sem dar nome, cargo ou prazo. Sentir sem precisar decidir se aquilo vira corte, conversa ou silêncio definitivo.
Às vezes a vida se encarrega do movimento. Às vezes não. Às vezes o sentimento passa, às vezes muda de forma e nada disso apaga o fato de que ele existiu.
Então eu tenho feito isso: deixo o sentimento ser sentimento.
Não menor. Não inútil. Não perigoso por natureza. Sentimento.
Talvez seja isso que eu esteja chamando de amadurecer: não ter medo de sentir, nem pressa de fazer alguma coisa com o que sinto.
Eu sinto.
Isso já é uma coisa inteira.
O resto, se precisar, encontra caminho.
























