The Heart Break Hotel: Palm Dreams, by (npc) Theodora “Theo” Water. Earth four, college line.
Song: Palm Dreams, Hayley Kiyoko.
Quando se mora no berço oficial onde histórias icônicas e clichês nascem e são criados todos os dias, é impossível não acabar se encontrando vivendo um deles. E, não muito diferente da maior parte das pessoas que nasceram e moram em Los Angeles, a minha vida também parecia ser algum tipo de roteiro de filme barato que ia acabar sendo aclamado pela mídia depois de uns anos, tipo Crepúsculo ou Um Sonho de Liberdade.
Eu sou fruto de um clássico, daqueles que sempre enche a sala de cinema numa terça a noite com adolescentes histéricas e mães que curtem um romance meio dramático. Garoto conhece garota no ensino médio, garoto se torna aquilo que os pais querem, se casa com a garota contra a vontade deles, garoto ajuda garota a realizar os sonhos dela, o casal jovem então tem uma filha - eu, eu, eu! -, casal amadurece e alcança coisas, constroem uma casa, garoto começa a se perder nele mesmo, garota acha melhor que ele vá embora pra proteger o que ainda restou do amor dela e a pequena eu, garoto some e começa a enviar um cartão de aniversário e uma nota de cem dólares todos os anos com um único endereço, garota começa a se perder nas contas e não consegue lidar sozinha, garota conhece o bad boy e ele parecia ser a solução de tudo, mas só por uns dez anos.
Foi quando o meu pesadelo começou e quando, provavelmente, o publico começou a deixar a sala de cinema aos prantos, chocados com a reviravolta ou o quanto a protagonista estava prestes a se quebrar e soluçar de medo e dor a cada dois segundos de tela com o rosto de boneca dela.
É claro que, talvez por estarmos em Los Angeles, eu talvez esteja soando um pouco dramática, talvez melindrosa, mas posso afirmar com todas as minhas forças e partes do meu corpo que o dia que ele chegou, foi como se a peste negra tivesse se alastrado na nossa casa e na única fonte de renda que a minha mãe tinha.
Meus irmãos caçulas... Eram um alivio, tipo um brinde de um Mc Lanche Feliz cheio de radiação e mofo. O brinquedinho novo, colorido e inofensivo que não tinha culpa de absolutamente nada, principalmente se o que tinha gerado eles era podre e ruim. Eles me inspiravam a continuar. E a não acertar uma pá de jardim na cabeça do pai deles.
E... Então, quando eu me formar, vou ser boa e capaz o suficiente pra projetar as casas mais caras e bonitas dessa cidade, e depois do país e depois do mundo. - Eu precisava ser paciente, as vezes me fingir de surda e sonsa, mas eles valiam a pena. Tanto a pena. - Mas, antes, vou construir um castelo para você e um forte para o George. - Eles eram únicos, preciosos, um milagre no meio de um apocalipse pessoal e que só se tornava meu e real quando eu entrava do portão pra dentro de casa. - E não vai existir nada que possa alcançar ou ferir vocês, porque eu sou esperta, e vou inventar portões mágicos e super altos onde os monstros nem vão tentar passar, porque sabem que é um trabalho meu e ninguém pode comigo. - E não existia nada que eu não pudesse fazer por eles. Nada que eu não pudesse esperar por eles.
E quanto a nossa casa dos sonhos? - Observei a menor se encolher nos cobertores, podia sentir a cabeça do outro surgindo na beliche de cima e nem precisei me voltar a ele pra saber que nos olhava agora um tanto curioso e esperando uma resposta pela mesma pergunta, apesar de não tê-la feito.
É a minha promessa pra mamãe. - Respondi como se fosse óbvio, dando de ombros, ignorando as vozes começando a ficar mais altas no andar de baixo. - Ela ainda vai ter janelas altas e um jardim maravilhoso, vou me certificar de ter um campo enorme por perto, porque nós sabemos que ela ama flores e... Ah, é, precisa ser enorme, pra ela poder encher de bichinhos, como se fosse a Branca de Neve. - Pontuei, gesticulando com as mãos como se analisasse um projeto, um tanto séria, mas só pra eles terem alguma certeza que estávamos falando de um negócio real ali, e eu tinha certeza que eles nem tinha notado o som do vidro quebrar, só alguns degraus nos separando daquilo. - Um dia vou conseguir construir ela e tirar todos nós daqui e eu prometo que não vou deixar o bicho papão entrar.
E, como todo drama digno de pelo menos 80% de crítica positiva, tinha um vilão. O Bicho Papão. O cara pai dos gêmeos, o cara que prometeu um mundo pra minha mãe, mesmo que eu estivesse sempre lá e fosse filha de outra pessoa, o cara que espancava ela todas as noites sob as luzes de neon do nosso café e se certificava que nenhum de nós três teria coragem o suficiente pra mudar isso, só medo de ser o próximo.
E, aqui, começa o meu filme de verdade, a porra da minha vida horrível e com mais problemas do que uma universitária da UCLA poderia dizer.
Aqui, um chá verde com doze gotas de adoçante e leite desnatado, acompanhado do pedaço mais bonito de bolo de nozes sem lactose e sem gordura, porque foi o que o médico receitou e a senhora não tem mais idade pra brincar fora da linha. - Garçonete gentil e a melhor barista da região durante a maior parte do dia, mas eu nunca reclamei. Afinal, todo mundo começa de algum lugar, eu meio que sentia orgulho de sair dali. Nem todo mundo começa a porra da história ganhando uma herança milionária ou o coração do crush, meus caros. - E cuidado pra não se queimar, não consertaram a maquina das bebidas quentes e parece que o próprio satã tem fervido a água.
E um simples obrigada e um sorriso eram o suficiente pra suportar a maneira suspeita e nojenta que ele me olhava do outro lado do salão atrás do caixa, fingindo, como sempre, ser o cara legal, mas, eu tenho certeza que vocês espectadores, sabem bem que tipo de pessoa ele é. E eu sei que estão muito decididos a deixar a sala também, mas eu prometo, a minha vida é melhor do que vocês podem imaginar.
Pelo menos na parte em que sou a melhor aluna na UCLA, no curso de arquitetura, em cima de uma bolsa. E ninguém nunca desconfiou que meus projetos com caixas de leite e coisas do lixo não eram bem atividade limpa, mas porque eu não tenho e nunca vou ter, até me formar, condições de bancar as coisas certas. Eu tenho amigos legais e que me levam pra todos os lugares; sejam festas, dias na praia, universos paralelos dentro de conversas complexas onde eu não sou eu e não faço as coisas como eu faço e pra longe de toda a tortura que é ser eu, as vezes. Se eles sabem...? Acredito que eles tem certeza que nem o mais persistente dos bandidos atormentaria a mesma pobre alma e deixaria hematomas nela tantas vezes, mas nunca perguntaram, eu também nunca comentei. Deixar eles saberem significa problemas pra eles também e não sei se posso ser um escudo desse tamanho, uma vez que aquilo era só o resultado de proteger os gêmeos e, quando eu conseguia, a minha mãe.
Quase no meio da nossa história, eu preciso informar, pra que continuem interessados. Eu sou uma garota boa. Legal, sim, mas sou uma pessoa boa. Minha mãe me ensinou isso. A ser gentil, boa, nunca abaixar a minha cabeça e ser uma mulher direita e dona de mim mesma. Era isso que ela sempre me dizia, quando o leite acabava ou ela tinha que fazer outras coisas pra pagar a escola do outro lado da cidade porque não queria que eu ficasse na infernal nos arredores do nosso subúrbio. A minha vida toda, fui uma pessoa boa, e ela sempre garantiu que eu continuasse sendo uma; me escondendo dele, tomando a minha frente, fingindo que ela não se importava, e continuando com aquilo, porque precisava me criar, e agora aos gêmeos, e garantir que eles não ficariam com tanto medo e sozinhos como eu tinha ficado milhares de vezes quando tinha a idade deles. Eu sou uma pessoa boa, mesmo que pense em matar aquele cara todo santo dia e fugir com o que restou da minha família. Eu sou uma pessoa boa, mesmo que as vezes me envolva em um trabalho ou outro de entregar drogas ilícitas dentro da faculdade porque minha irmanzinha precisa de um tênis novo. Eu sou uma pessoa boa, mesmo que pense que não sou o suficiente e que as coisas ruins só estejam acontecendo porque eu não sou tão boa assim. Eu sou uma pessoa boa, e gostaria que não desistisse de mim agora, quando estamos prestes a terminar o filme. Não a minha vida, mas essa pequena introdução dela. Quando eu não sou nenhuma das garotas que eu citei lá em cima e ninguém me acha muito especial, mas a coisa que deixa ele com mais raiva, sempre.
Eu tinha meus fones nos meus ouvidos, repetindo todo o último álbum do HAIM no meu celular enquanto ele não me abandonava, e a minha vontade era de abandonar aquele projeto também, mas tinha finalmente conseguido fazer com que meu Empire State de caixa de pasta de dente se firmasse na maquete e o corredor do nosso prédio tinha se esvaziado com o passar do tempo, e eu não tinha tido o suficiente. Sabia que o Bicho Papão provavelmente estava jogado em sua poltrona amaldiçoada, com muitas latas de cerveja em volta dele, como um círculo divino, e ele não me incomodaria e nem mais ninguém.
Até ele surgir, uma figura quase diabólica, na porta aberta no final do corredor. Só existia uma escuridão atrás dele, uns flashes de luz da TV pra deixar tudo mais um terror indie, enquanto ele saia daquele ponto lentamente, se arrastando como um zumbi, um dedo apontado na minha direção, a boca entre derramar saliva e gritar alguma coisa que eu não conseguia ouvir, graças ao último volume no pre chorus de Falling.
E mesmo com ele pairando sobre mim, destruindo meu Empire State debaixo de seus pés mais rápido do que o King Kong conseguiu, eu ainda não tinha coragem de tirar a música e ouvir todas as atrocidades e porcarias que ele estava dizendo enquanto destruía três meses do meu melhor trabalho da faculdade com todo o seu ódio, fúria e raiva. Vaca, vaca, vaca, vaca. Uma vadia como a sua mãe. Uma drogada como o seu pai. Se acha melhor por andar com as pessoas do outro lado da cidade e ir pra faculdade? Se acha melhor por fazer essas merdas?
Gostaria de não ter aprendido a ler os lábios dele, mas era o meu mecanismo de defesa. Uma palavra após a outra, sempre na mesma sequência e tempo, e ele pausava quando ia terminando o discurso, até chutar a maquete para longe, se calar, ficar imóvel por alguns segundos, e era o meu estopim para correr para qualquer lado e lugar, ou então seria o meu fim ou teria mais uma costela quebrada.
Eu vou pegar você, eu vou pegar você, eu vou pegar você. Eu vejo tudo. E bam.
Sinopse de Theo and The Palm Dreams Part 2: Na segunda-feira, eu vou dizer que meu resto de Ipod foi roubado e o cara queria muito a minha playlist, por isso... O estrago todo.