Entro em minha casa com os olhos cheios de lagrimas, a dor no meu peito é tão densa que eu poderia apalpa-la, mas ao invés disso eu corro para o quarto e pego minha mochila. Um livro, um caderno, uma caneta, coloco tudo dentro dela e na saída de casa passo na cozinha, pego um salgadinho. Não preciso comer, não pretendo voltar, sentir fome é o menos importante, porém ainda sim pego algo tão fútil. Desço a minha rua com passadas largas, olho para cada casa que há nela e percebo que não conheço ninguém, nunca falei com ninguém, meus vizinhos são telas numa exposição cuja o pintor eu nunca tive interesse em conhecer. Entro no primeiro ônibus que passa no ponto e não me interessa o destino, qualquer caminho me serve hoje. Por sorte ou ironia, ele faz o percurso pela orla da cidade, desço na praia mais longe da minha casa e sento na parte mais isolada da mesma. Abro o livro, não o leio, só gosto da sensação de estar segurando algo. O tempo está nublado, não há ninguém na praia, não há ninguém na rua ao fundo, não. há. ninguém. Fico sentada inerte por uma eternidade, não sei ao certo, já perdi a noção de espaço e tempo há anos, entretanto ainda sinto frio e o vento teima em passar rasgando por meu corpo. Sinto meu rosto molhado e percebo que estou chorando, fecho o livro, o guardo e abraço meus próprios braços, independente de quantas pessoas eu conheça ou considere como algo a mais do que simples pessoas, eu ainda me sinto só, porque ninguém nunca esteve no momento exato em que eu preciso, me abraço com mais força e as lagrimas caem com mais intensidade. Minha garganta seca e nesse momento eu me levanto, o vento me deixa morta de frio, mas ignoro, percebo que hoje eu finalmente posso fazer algo que nunca tive liberdade, gritar. Rasgo a garganta num grito doloroso e solitário. Grito por todas às vezes que me calei, por todos os momentos em que eu quis chorar até soluçar e não o fiz, por todos os dias em que vivi querendo não viver. Grito porque estar viva dói e essa dor já não é suportável. Começo a caminhar pela areia fria da praia, as ondas molham os meus pés, calcanhares, joelhos, coxas, cintura, barriga, seios, clavícula. Paro. Meu corpo está tremendo, meus olhos estão embaçados, minha cabeça está explodindo. Tento respirar fundo, dói. Olho para trás, não. há. ninguém. Continuo. Pescoço, boca, nariz. Há água embaixo, em cima, dentro, fora, eu sou feita de água e ela corta como lâminas. Eu não ligo, sempre fui cacos de vidro. Sinto minha vida se esvaindo enquanto me debato e percebo que até no fim eu tentei. Vou embora sem saber se me afoguei dentro ou fora de mim, era idêntico.
14.12.2019













