Numa noite comum vocĂȘ me ligou. Tomei um susto com aquele nĂșmero na tela do meu celular, hĂĄ quanto tempo eu nĂŁo lia aquelas letras naquele contexto? Lembro de hesitar nos primeiros toques, mas logo em seguida agir de modo rĂĄpido e impulsivo.
- E aĂ! Como vocĂȘ estĂĄ? Bom ouvir a sua voz.
- Ah... Estou bem e vocĂȘ? Aconteceu algo?
- NĂŁo! Te liguei pra saber se vocĂȘ nĂŁo quer vir tomar um vinho, jogar conversa fora.
Tirei o celular da orelha rapidamente para olhar as horas. 19h00. Um convite inesperado, numa sexta-feira. Senti meu coração acelerar, senti que eu não deveria ir, senti que era um erro.
- Pode ser, claro. SĂł preciso me trocar.
- Tudo bem, eu vou passar no mercado pra comprar vinho e te busco. Vou te avisando.
Levantei do sofĂĄ ainda atordoada, ainda incerta, ainda reflexiva. Tinha anos que nĂŁo bebiamos juntos, na verdade, tinha anos que nĂŁo ficĂĄvamos juntos. Sozinhos. Fui me perdendo nas contas sobre os anos e me arrumando no meio tempo. 20 minutos depois eu estava dentro do seu carro, um belo carro. Me senti desconfortĂĄvel com o quanto vocĂȘ estava prĂłspero em sua vida. Observei a sua segurança ao dirigir, a forma como vocĂȘ demonstrava habilidade e confiança, observei os efeitos que te olhar me causava. VocĂȘ puxou assunto sobre a minha vida, perguntou sobre amizades em comum que tĂnhamos, fui te atualizando acerca do quanto eu estava longe de todos e vocĂȘ riu, pois tambĂ©m se sentia assim. TĂnhamos isso em comum. TĂnhamos muito em comum.
A sua casa era uma gracinha. Tudo tĂŁo simples, organizado, claro e convidativo. Tudo tĂŁo a sua cara. Me senti a vontade no momento em que tirei a sandĂĄlia para entrar.
Foi exatamente o que eu fiz. Fiquei a vontade, na sua casa, na sua presença. VocĂȘ rapidamente me mostrou os cĂŽmodos, era um apartamento relativamente pequeno, integrado, muito bem dividido. Elogiei a sua decoração, a forma como vocĂȘ ornou os tons com muita elegĂąncia. VocĂȘ sempre foi um homem elegante, eu lhe disse. VocĂȘ sorriu para mim. Um sorriso verdadeiro. Eu lhe sorri de volta.
VocĂȘ disse que nĂŁo, que eu poderia sentar na mesa que jĂĄ jĂĄ vocĂȘ se juntaria a mim. Concordei e te obedeci. Fui para a mesa e vocĂȘ foi trazendo os petiscos, as taças, o vinho, a sua presença. Sentamos de frente para o outro e começamos uma das conversas mais bem humoradas, divertidas, Ăntimas e gostosas da minha vida. Estar na sua presença sempre foi tĂŁo simples.
- Ă claro que era bom estar contigo, nunca brigĂĄvamos, vocĂȘ lembra?
- Lembro sim. Era bem legal, né?
Nesse momento, bebemos um longo gole daquele vinho que nĂŁo lembro o nome e que vocĂȘ jurou que eu iria amar. VocĂȘ tinha razĂŁo, ele era perfeito, suave na medida certa, envolvente. Lembro de fechar os olhos para degustar a forma como o ĂĄlcool me abraçava por dentro e fazia o meu corpo afrouxar, me tornando a cada gole um pouco mais leve, um pouco mais solta. Imagino que vocĂȘ tenha ficado me observando nesse instante, pois senti os seus pĂ©s tocando carinhosamente os meus por debaixo da mesa. A textura da meia que vocĂȘ usava me causou um arrepio bom, retribui a carĂcia e quando abri os olhos vocĂȘ estava me encarando com aquele sorriso aberto.
- Fingir que as coisas ainda sĂŁo simples.
Sua mĂŁo repousou sob a minha enquanto eu acariciava a haste da taça. Te olhei mais uma vez antes de abaixar o olhar com timidez quando vocĂȘ encarou meus lĂĄbios sem nenhum pudor. Meu coração estava descompassado, talvez pelo tanto de vinho que jĂĄ tĂnhamos bebido naquela altura, talvez pela certeza que tive naquele momento: eu ainda te queria. Eu ainda queria experimentar ir alĂ©m de onde fomos quando estĂĄvamos juntos. Eu ainda queria sentir o calor da sua pele e a textura do seu corpo inteiro. Eu ainda queria que vocĂȘ me tocasse e me mostrasse como vocĂȘ gostava de fazer as coisas. Eu ainda queria descobrir como era te ter dentro de mim. Eu ainda queria matar toda a minha curiosidade sobre vocĂȘ.
- No que vocĂȘ estĂĄ pensando?
- VocĂȘ nunca imaginaria.
Abri o maior sorriso dentro daquele Ășltimo mĂȘs. Eu sei que meu rosto me entregou. Apesar de ser muito boa em fingir, eu nĂŁo queria fazer isso contigo. Queria que vocĂȘ tivesse total acesso a mim e usufruisse disso. Parece que vocĂȘ leu esse meu pensamento, pois no segundo seguinte vocĂȘ sentou ao meu lado e apoiou a sua mĂŁo na minha coxa, num gesto meio sexy, meio pedindo permissĂŁo, meio encorajando, meio tranquilizando. Senti todos os meus mĂșsculos acenderem, lembro de respirar profundamente e tomar mais um gole de vinho enquanto vocĂȘ me olhava pacientemente.
Balancei a cabeça em uma leve concordĂąncia e vocĂȘ me tomou para si com urgĂȘncia. A urgĂȘncia de quade dez anos sem toque, sem interaçÔes verdadeira, sem sintonia, sem nĂłs. Retribui com a mesma intensidade. E me agradeci internamente por ter atendido aquela ligação. Foi a melhor coisas que eu poderia ter feito daquela sexta.