𝐓𝐀𝐒𝐊 𝐈𝐈𝐈. despertar dos poderes.
trigger warning: violência contra menores
a sensação da terra molhada contra sua pele era incômoda, tornando impossível a tentativa de esquertar o próprio corpo. já estava ali há horas, escondido da chuva sob uma saliência do telhado de sua casa. a bochecha ainda doía pelo soco que levara, e o estômago vazio parecia se contorcer em si mesmo. conhecia aquela sensação havia anos, e entendia que passaria alguns dias com aquele incômodo visceral que consumia grande parte de seus pensamentos.
sabia exatamente o que fizera para merecer aquilo—e, se não soubesse, seu padrasto havia se encarregado de deixar claro com as palavras rudes lançadas em sua direção. era uma missão simples: distrair o público para que seus irmãos postiços roubassem o máximo de pessoas possíveis. mas sota havia se distraído por tempo demais, e a janela de oportunidade se fechara. a culpa era realmente dele.
conseguia escutar as vozes de sua família no interior do casabre que dividiam, mas sabia que seria ainda pior se tentasse se esgueirar para dentro para se esconder da chuva e do frio. era melhor obedecer a punição que levava e aprender com os erros.
os olhos se abriram lentamente, o frio que se fazia presente no sonho parecia algo concreto agora que despertava lentamente, tremores leves percorrendo todo o seu corpo. não era novidade nenhuma para sota acordar daquela forma, as memórias vindo para si em formato de sonhos, o atormentando noite sim noite não. sempre faziam o dia se arrastar de forma incômoda.
a mão esfregou o rosto vagarosamente, como se tentasse afastar o fantasma que o perseguiria pelo resto do dia. mas nada seria útil contra aquilo—e tentar dormir novamente seria apenas desperdício de tempo. não demorou para jogar suas pernas para fora da cama, sabendo ser de maior valor comerçar os treinos mais cedo.
apesar da mente sobrecarregada pela lembrença, o esforço físico certamente ajudava. conseguia escutar o ruído ao redor—o clink agudo das espadas se chocando, os grunhidos de esforço ecoando pelo espaço, o burburinho constante das conversas. nada daquilo era capaz de desviar sua atenção, não quando já eram barulhos tão comuns quanto o som da própria respiração. seus olhos não se desviavam de taghd, como se aquilo ajudasse a antecipar os movimentos que viriam. não queria ser o alvo de mais um soco, não quando o do sonho ainda parecia tão real.
aquilo geralmente não era o suficiente para que conseguisse prever o próximo golpe. nunca era, quando eram tão bem treinados a tantos anos—sempre eram capazes de passar pelas defesas um dos outros. o ataque veio no momento esperado, sim, mas não da forma que previu. a postura dele mudou no último segundo, e sota se preparou para o impacto iminente.
mas entendeu o que vinha como se algo se desenhasse no ar antes que ele completasse o movimento. não era o ataque esperado, como já tinha entendido, mas, no instante antes do golpe se concluir, sota viu o que precisava fazer para evitá-lo. viu a tensão dos músculos, o equilíbrio nato, a intenção que o outro colocava em seu movimento. não durou mais de meio segundo, mas seu corpo reagiu antes que seu cérebro processasse tudo.
piscou—e havia esquivado por completo. o choque estava estampado em seu rosto, mas não o suficiente para interromper o treinamento dos dois. golpe atrás de golpe, sota conseguia ler as mais imperceptíveis mudanças no corpo do melhor amigo. e se desviava de cada um com perfeição. seu corpo se movimentava mais rápido do que jamais deveria.
de fora, parecia uma constante perseguição. tadhg avançava e sota recuava, de novo e de novo. o suor corria por todo o seu corpo, como se o que estivesse acontecendo demandasse mais do que estava costumava conceder.
e, como o que acontecia até então, em uma piscada se viu no chão, os olhos agora encarando o teto. sabia que não tinha sido resultado da luta—não, tropeçara em si mesmo, a exaustão superando os reflexos incomparáveis. sua visão ficou turva, o som abafado. tudo que antes parecia evidente, agora estava turvo, completamente confuso.
ergueu as mãos acima de sua cabeça, tentando usá-las como âncora de sua visão, mas a tarefa parecia demandar mais do que o seu corpo era capaz de executar. — que porra foi essa? — dirigia a pergunta ao universo, a qualquer um que lhe escutasse, precisando de alguma confirmação que não havia delirado os últimos minutos.
combate precognitivo
o poder de prever e antecipar os movimentos e ações de um oponente durante o combate, garantindo reflexos inigualáveis e uma vantagem estratégica
with: @tadhgbarakat










