Lousada, Torno, Santuário de Nossa Senhora da Aparecida
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Lousada, Torno, Santuário de Nossa Senhora da Aparecida

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Com aquela senhora piedosa. Diário 15.
Na véspera de Nossa Senhora dos Anjos. Diário 17.
A Menina do Monte
O Funchal, no ocaso do século XV, era uma ferida aberta de civilização numa encosta de vegetação primitiva. Não era apenas o entreposto açucareiro que os mapas descreviam; era uma catedral natural de basalto e clorofila, onde o Atlântico, de um azul profundo e faminto, fustigava as rochas com a cadência de um coração antigo. Acima da vila fortificada e do burburinho dos mercadores flamengos, a montanha erguia-se como um titã adormecido, coroada por nuvens que nunca se dissipavam totalmente.
O Terreiro da Luta, situado a uma légua vertical da costa, era o domÃnio do nevoeiro. Ali, as árvores — tis, vinháticos e densos pinhais introduzidos pelos primeiros exploradores — não apenas cresciam; elas conspiravam. O ar era espesso, saturado pelo cheiro a terra vulcânica húmida, resina fresca e o aroma adocicado, quase fúnebre, das flores silvestres que brotavam entre as fendas das rochas. Era um lugar de beleza opressiva, onde o silêncio era interrompido apenas pelo gotejar melancólico da neblina condensada nas folhas, um som que os colonos comparavam a passos de alguém que nunca chegava a aparecer.
Neste cenário de isolamento surreal, a lenda da Senhora do Monte não nasceu sob o ouro dos altares, mas na solidão de uma criança que o mundo esquecera.
Mariana era uma pastorinha de oito anos, mas o seu rosto carregava a fadiga de uma linhagem de sobreviventes. Filha de colonos vindos do Alentejo, a sua existência era um ciclo de carências e névoa. Tinha olhos grandes e extraordinariamente claros, que pareciam poços de água estagnada, refletindo um mundo que os adultos, ocupados com a sobrevivência, já não conseguiam ver. Mariana não brincava; ela observava o crescimento do musgo e o movimento das sombras.
Numa tarde de outono, quando o céu se tingia de um roxo hematoma, Mariana conduzia o seu pequeno rebanho por uma clareira que os locais evitavam. Chamavam-lhe "o lugar do deserto", um enclave de rochas cinzentas onde o vento parecia perder o sentido da direção. Foi ali que ela a viu.
Sentada numa pedra antiga, uma laje de basalto que parecia emergir das entranhas da ilha, estava uma menina.
A figura era de uma palidez sobrenatural, como se tivesse sido esculpida em mármore de Carrara e deixada à mercê dos elementos. Trajava um manto de um azul tão profundo que parecia feito de pedaços do céu noturno, e a sua imobilidade era absoluta. Mariana, cuja vida era despida de artifÃcios, não sentiu medo. O medo é uma construção social, e Mariana era uma criatura do ermo.
Aproximou-se com a naturalidade de quem encontra uma ave ferida. Da sua algibeira de burel, retirou a sua única riqueza: um pedaço de pão de milho, duro e escuro, e um figo seco, enrugado como a pele de um ancião.
— Tens fome? — perguntou a pastorinha.
A menina pálida não respondeu com voz. O seu olhar, contudo, comunicava uma tristeza abissal, uma saudade de algo que não pertencia ao tempo. Com um gesto de uma graça que desafiava a gravidade, a figura aceitou a oferenda. As suas mãos não tocaram o pão; pareceram absorver a sua essência. O alimento permaneceu na pedra, mas a sua cor e vigor desvaneceram, como se a vida tivesse sido drenada dele.
Ao regressar à cabana familiar — uma construção de pedra tosca e teto de colmo que cheirava a fumo e pobreza —, Mariana contou o ocorrido. O seu pai, Gilberto, era um homem de ossos largos e alma endurecida pelo trabalho nas levadas. Para ele, a ilha era uma besta que precisava de ser chicoteada para produzir.
— Meninas na mata? — riu ele, a voz rascante como pedra sobre pedra. — Mariana, o nevoeiro entrou-te nos pulmões e apodreceu-te o juÃzo. Lá em cima só há sombras e o eco da tua própria voz. Não voltes a falar nessas fantasias, ou a tua mãe dar-te-á razão para chorares de verdade.
A mãe, uma mulher consumida pela lida doméstica e pelo medo de Deus, apenas benzeu o peito. Mas Mariana não se deixou demover. No dia seguinte, e no outro, a cena repetiu-se. A menina de mármore estava sempre lá, esperando na mesma pedra, aceitando o pão e o fruto com a mesma dignidade espectral.
No terceiro dia, a curiosidade de Gilberto, temperada por uma crescente inquietação supersticiosa, sobrepôs-se à sua negação. "Se há alguém na minha terra a receber o pão da minha filha, eu quero saber quem é", pensou.
Escondeu-se atrás de um arbusto de urze-molar, o coração a martelar contra as costelas com uma violência que o envergonhava. Viu a filha chegar. Viu-a falar para o vazio. Viu-a estender a mão para a pedra. No entanto, onde Mariana via uma companheira de brincadeiras, os olhos de Gilberto, embaciados pelo pecado e pela realidade, viram algo diferente.
Sobre a pedra, no preciso momento em que o sol se escondia atrás do pico, ocorreu uma transfiguração gótica. A figura pálida estremeceu e contraiu-se. O mármore tornou-se madeira de dragoeiro escurecida; o manto azul fixou-se em pigmentos de lápis-lazúli. Ali, onde antes estava uma criança, jazia agora uma pequena imagem de Maria SantÃssima, com pouco mais de um palmo de altura, cujo rosto exibia uma expressão de dor tão contida e eterna que Gilberto caiu de joelhos, o rosto banhado por um suor frio.
— É esta a menina, pai — disse Mariana, com a simplicidade de quem nunca duvidou.
A notÃcia do achado correu o Funchal como fogo em palha seca. A imagem foi levada em procissão para a Capela da Encarnação, um edifÃcio de pedra fria onde o musgo subia pelas paredes como dedos verdes. O clero declarou-a milagrosa, mas a sua presença parecia ter despertado algo adormecido nas entranhas vulcânicas da ilha.
Coincidindo com a entronização da imagem, uma sombra social começou a cobrir a colónia. Um senhor de terras influente, Afonso de Ornelas, movido por uma avareza que rivalizava com a profundidade do oceano, decidiu que a água da ribeira principal, que alimentava as hortas da Almagreira e dos arrabaldes, era sua por direito de linhagem.
Afonso ordenou que os seus servos construÃssem barragens de pedra e canais de desvio, conduzindo o "ouro lÃquido" exclusivamente para as suas plantações de cana-de-açúcar. Em poucas semanas, o leito da ribeira, outrora generoso e ruidoso, transformou-se num rasto de pedras secas e lodo moribundo.
A fome e a sede tornaram-se os novos habitantes do Funchal. As plantações dos pequenos colonos murcharam; o gado morria de lÃngua de fora; a poeira cobria as fachadas das igrejas. O sol, que antes era uma benção, tornou-se um olho implacável que vigiava a agonia da população.
O povo, desesperado e sentindo-se abandonado pela coroa e pelo clero, lembrou-se da "Menina do Monte". Se ela tinha vindo do nevoeiro, talvez pudesse trazer a chuva.
A procissão que se seguiu foi uma manifestação do gótico social. Homens e mulheres de rostos cavados, crianças com o ventre inchado pela fome, subiram a encosta em direção à capela. Levavam a pequena imagem de madeira escura num andor improvisado. O cântico não era um hino de louvor, mas um lamento fúnebre que ecoava nas falésias.
— Valha-nos, Senhora! A água é o sangue da terra! — gritavam, as vozes roucas pela desidratação.
Chegados ao Terreiro da Luta, colocaram a imagem sobre a mesma pedra onde Mariana a encontrara. O céu, até então de um azul cruel, começou a sofrer uma mutação cromática. O horizonte tornou-se cor de chumbo; o ar ficou eletrizado.
O castigo de Afonso de Ornelas não veio através de um tribunal humano. Veio do céu. Uma chuva torrencial, de uma violência inaudita, desabou sobre a montanha. Não era uma chuva que nutria, era uma chuva que limpava. As águas desceram das faldas com o som de mil galopes. Na propriedade de Afonso, as canalizações de pedra, sÃmbolos da sua arrogância, rebentaram como cascas de ovo. A lama e a água destruÃram os seus canaviais preciosos, devolvendo a ribeira ao seu curso original.
Quando a tempestade cessou, a paisagem estava transformada. A água voltara a correr, mas os colonos tinham aprendido uma lição gravada no terror. Perceberam que a água, se não fosse partilhada, tornar-se-ia a sua perdição.
Inspirados pela forma como a chuva abrira novos caminhos na rocha, os habitantes da Ribeira começaram a construir um sistema complexo de cales — pequenos canais de rega que serpenteavam a montanha. Este sistema, embora tenha trazido a fertilidade de volta, criou uma nova ordem social: a teia de dependência e controle sobre a água, onde cada gota era contada e cada desvio era motivo de contenda. A ribeira passou a chamar-se Ribeira dos Cales, um monumento à engenhosidade nascida do desespero.
A imagem da Virgem foi finalmente transferida para a Igreja do Monte, tornando-se o centro de um culto que misturava a devoção cristã com o misticismo da ilha. Mas o que aconteceu a Mariana?
Diz a lenda que, após a grande tempestade, a pastorinha nunca mais foi vista. Alguns dizem que foi levada pela enxurrada; outros, mais dados às sombras do gótico, sussurram que ela regressou à pedra. Dizem que, em noites de nevoeiro intenso no Terreiro da Luta, se pode ver uma pequena figura de manto azul-noite sentada no basalto, esperando por um pedaço de pão de quem se atreva a subir à montanha.
Os seus olhos claros e vazios permanecem como o primeiro contacto entre a fragilidade humana dos colonos e o mistério insondável da Madeira — uma ilha onde o paraÃso e o abismo partilham a mesma margem, e onde as lendas, tal como as raÃzes dos vinháticos, se enterram tão fundo na terra que se tornam impossÃveis de distinguir da própria verdade.
Quando fui ter com essa senhora, ela me recebeu com grande afabilidade. Diário 13.

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Fenda de Nossa Senhora - Arraial do Cabo, RJ (26/01/2002)