~~ Desculpa pela demora!~~
Depois de repassar a conversa com Chuck na minha cabeça e pensar em tudo que senti na hora mais de dez vezes, não consegui acreditar que podia achar que estava apaixonada por ele. Tudo que pude pensar naquela hora era que eu ansiava para que nossa amizade voltasse e o quanto eu sou burra quando se trata de sentimentos.
Eu enrolava o colar de Ben entre meus dedos deitada na minha cama depois de me despedir de Chuck, que foi procurar um hotel. Não havia comentado a aparição dele para Lori, só balancei a cabeça na hora que cheguei e vi ela sentada no sofá do lado do Derek, dizendo que não tive coragem de falar com Alden.
Ah, Alden. Eu sabia que não poderia ficar bem sabendo que havia um mal entendido entre nós dois, sabia que teria que ir atrás dele em algum momento, mas eu precisava daquele tempo pra colocar meus pensamentos em ordem. O que não deu muito certo, quanto mais eu pensava, mas ficava perdida e então… acabei dormindo.
***
Lori: Ashy, porra! Tu vai perder teus exames! - Ela me sacudiu.
Eu levantei bruscamente.
Eu: O quê? - Ofeguei. Dei de cara com Lori ainda de pijama me olhando feio.
Lori: Gary acabou de ligar e mandou tu correr que os exames vão ser de manhã. - Ela puxou minha coberta até o pé. - Tu dormiu com a mesma roupa que chegou? - Ela bufou. - Não, não e não. Vai tomar um banho e te arrumar logo.
Eu: Pra que tantas ordens? - Me levantei e peguei umas roupas no guarda-roupa.
Lori: Não quero te ver desanimada, e tu vai falar com a porcaria do Alden hoje mesmo, quero nem saber. - Ela atirou um par de meias pra mim e apontou pro meu tênis em baixo da penteadeira. - Anda.
Eu peguei o tênis e saí do quarto rindo. Tomei um banho rápido, vesti uma calça jeans preta e uma blusa qualquer, coloquei uma jaqueta jeans, meu tênis e saí de casa. Parei na porta e olhei na direção da rua da casa de Alden, prometendo-me mentalmente que iria falar com ele depois da aula.
Caminhei a passos apressados até a escola, torcendo que desse tempo. Cheguei quando estavam fechando o portão, passando como louca por ele. Gary estava do lado de dentro no térreo, certamente me esperando. Vestia uma blusa de banda, um colete jeans rasgado, uma calça preta com rasgos nos joelhos e um tênis vermelho. Quando me viu, sorriu.
Gary: Dá pra tu ser menos atrasada, pelo amor? - Ele deu um murro de brincadeira no meu braço.
Eu: Dá pra você ser menos chato? - Eu o abracei, apertando-o com vontade, fazendo-o reclamar com um gemido. - Afinal de contas, por que tão fazendo os exames de manhã? - Eu disse, separando o abraço.
Gary: Eu sei lá, mas se tu tivesse estado espiritualmente presente nas últimas aulas, teria ouvido o aviso. - Ele me puxou, fazendo com que eu acompanhasse seus passos até a sala.
Eu: Sei que to avoada, é que tanta coisa aconteceu. - Eu bufei, sentando na minha cadeira de costume, no canto.
Gary: Depois do negócio do Alden? - Ele virou pra mim, abrindo a mochila e tirando um estojo velho de lá.
Eu confirmei com a cabeça e contei sobre a visita de Chuck, minha descoberta de que não sentia nada demais por ele, minha aflição em relação ao Alden, o desespero de conversar com ele. Ele escutou tudo sem se manifestar, o que acontecia sempre que eu desabafava com ele - o que vinha acontecendo muito.
Gary: Tu não sabe escolher amigos mesmo, viu. - Ele estalou a língua.
Eu: “Tu” é meu amigo, sabe disso, né? Ele balançou a cabeça e abriu a boca pra dizer alguma coisa mas a professora o interrompeu, entrando na sala com uma pilha de provas, mais conhecidas como meu inferno particular.
Depois de ter dado as mesmas recomendações do mês anterior, a professora sentou em sua mesa e deu os exames como começados. Eu não tinha nem escrito meu nome quando Théo irrompeu pela porta, ofegante e claramente cansado, usava um moletom preto largo e uma calça roxa também de moletom.
A professora o lançou um olhar frio e apontou a cadeira vaga à minha frente. Eu o segui com os olhos, espantada por vê-lo. Ele havia faltado nas aulas desde a festa no Rocus, tentei ligar mas ele nunca atendia. E então aparece de repente, parecendo ter vindo direto de uma casa mal-assombrada.
Depois que todos estavam em silêncio e a respiração de Théo havia acalmado, eu o cutuquei.
Eu: Tá tudo bem? - Eu sussurrei.
Théo: Me espera na saída e a gente conversa. - Ele sussurrou de volta sem tirar os olhos da prova.
Voltei-me para minha prova, afim de acabar com aquilo logo e ansiando a conversa com Théo, que, pelo tom de voz estava bastante alarmado.
***
Acabei os exames e saí da sala. Fiquei encostada na mureta do lado de fora da escola esperando Théo e conversando com Gary.
Gary: O que eu ia falar antes da Mary interromper a gente - Então aquele era o nome da professora. - era que mesmo depois desses caras mostrarem pra ti que eles são babacas, tu aceita as desculpas deles. - Ele bufou, pegando um cigarro no bolso e o acendendo.
Eu: Se eu não aceitar, quem vai? - Eu suspirei, pegando o cigarro quando ele ofereceu e tragando. - Não sei o que há de tão insano nisso. - Eu soltei a fumaça.
Gary: Nada, na verdade. Tu deve ter o teus motivos. - Ele pegou o cigarro de volta.
Eu: Tenho sim. - Eu concordei com a cabeça. - Mas eu não sou burra, deixei claro pro Chuck que não confiava nele e qualquer passo que ele der fora da linha, já era, me perde pra sempre.
Gary: Se tu tá dizendo. - Ele deu uma longa tragada, soltando a fumaça pro alto.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até Théo chegar.
Théo: Eai, Ashy? - Ele sorria tristemente. Eu: Théo, esse é o Gary. - Eu apontei pra ele.
Eles trocaram uma balançada de cabeça, dizendo oi.
Gary: Vou nessa, fiquem na paz. - Ele jogou a bituca do cigarro na rua, seguindo em passos largos até o outro lado e desaparecendo na esquina.
Théo: Acho que ele não gosta muito de mim. - Ele recostou na mureta do meu lado.
Eu: Eu o pedi que me deixasse falar com você à sós. - Eu sorri. - E então, por que sumiu da terra desde a festa?
Théo: Meus pais. - Ele olhou para frente, seu tom era angustiado.
Ele demorou pra voltar a falar e eu esperei pacientemente.
Théo: Eles brigaram de novo e dessa vez minha mãe esfaqueou meu pai. - Ele falou rápido, como se estivesse prendendo aquilo por muito tempo. Demorei alguns segundos para superar o choque.
Percebendo o que tinha que fazer, me posicionei na frente de Théo até ele me alcançar com os olhos. Larguei minha mochila no chão e estendi os dois braços em sua direção, dando dois passos.
Ele recebeu meu abraço e recostou seu queixo no topo da minha cabeça por eu ser bem mais baixa que ele.
Théo: Estava no hospital com ele até agora a pouco, por isso to usando essas roupas horríveis. - Ele falou, bagunçando meu cabelo enquanto seu queixo mexia.
Eu: Foi tão grave assim? - Eu afastei-me do abraço para o encarar.
Théo: Sim, ele teve uma hemorragia, a faca acertou um órgão importante. - Ele fungou.
Eu: Mas ele tá bem agora, né? - Eu o encarei.
Théo: Tá sim, teve alta hoje de madrugada. - Ele limpou uma lágrima que fugia pela bochecha.
Eu: Tenho certeza de que já já eles voltam a ficar de bem.
Théo: Isso não pode acontecer, eles vão se separar. - Ele desviou o olhar para o chão.
Eu: Então talvez isso seja a melhor opção, não é? - Eu busquei seu olhar.
Théo: Sim. - Ele não olhou para mim, ficou encarando o chão, como se esperasse que a solução de todos os problemas da humanidade fossem brotar dele de alguma forma.
Eu desisti de tentar fazer com que ele prestasse atenção em mim, acendi um cigarro e me apoiei na mureta mais uma vez, tentando discernir todas as informações e decidir o que fazer em seguida.