ℝ𝔼𝔻 𝐢𝐬 𝐭𝐡𝐞 𝐜𝐨𝐥𝐨𝐫 𝐨𝐟 𝕃𝕆𝕊𝕀ℕ𝔾. (ᴘᴏᴠ)
Algumas coisas, por mais impraticáveis que parecessem, martelavam no subconsciente de Eden de tempos em tempos: Conhecer os pais biológicos, iniciar uma plantação discreta de maconha na estufa de Beauxbatons, conseguir um “ótimo” em Aritmancia...
Outras, ainda que constituíssem possibilidades bastante palpáveis, sequer passavam pela cabeça do De Marseille.
E a frase proferida por Robin certamente se encaixava na última categoria.
--- Está atrasada.
Eden demorou alguns segundos para compreender sobre o que se referia, demonstrando expressão e sorriso confusos na face. Então notou o semblante preocupado, a tonalidade séria da voz dela. Um aceno para baixo e foi o que bastou para acender a lâmpada sobre a cabeça do bruxo. Para que entendesse, de uma vez por todas, o peso que a frase carregava.
Está atrasada.
O sorriso morreu no mesmo instante. A respiração tornou-se falha. Os ombros, sempre eretos numa postura confiante, caíram.
Atrasada.
--- Você... --- Eden piscou. Procurou as palavras. Piscou novamente. --- Grávida?
Descrença. Choque. Mas a pergunta era baixa e suave, íntima. Robin era bonita e decidida, dotada de um fogo interior que o atraia de maneira puramente carnal. Não havia nada sério entre eles. Nunca houvera.
Ainda assim.
--- Tem certeza... --- que é meu?, quis completar. Era precavido, na maioria das vezes. Na maioria delas. Conhecia-se bem o suficiente para saber que a combinação entre álcool e sexo nem sempre acabava da maneira mais prudente. E ainda que não tivesse dito as palavras, algo em seu rosto deveria ter denunciado a intenção.
Porque Robin não pareceu gostar nem um pouco.
[...]
Durante os dezoito anos de sua vida, reprodução jamais havia conquistado espaço na lista de planos. O garoto do lixo, cujos pais tinham abandonado para a morte, possuía traumas demais para ser capaz de lidar com tamanha responsabilidade. O coração era negro, egoísta, machucado. Era peludo, como contava uma das histórias de Beedle, o bardo.
Ou assim ele acreditava.
Os primeiros dias após a notícia foram estranhos. O sorriso que normalmente marcava a face não estava lá, iluminando os corredores do castelo; Tampouco o próprio Eden, que, quando não se trancava no dormitório pelo resto da tarde, parecia tão aéreo que era como se o corpo estivesse desprendido da mente. Pensava em tudo: No passado, no futuro, no presente. Em como seus pais adotivos receberiam a notícia, em como seriam seus dias dali para frente. Pensava também no vermelho-liberdade que agora o cobria de cima a baixo naquele uniforme, que sempre lhe fora tão valioso.
E em meio a tudo aquilo que acreditava que perderia, à angustia, à raiva e a incerteza, percebeu que nem por um segundo havia cogitado não assumir a criança.
Porque, se uma coisa faria -- e faria com toda a certeza --, seria quebrar aquela porcaria de ciclo. Menino ou menina, a criatura no ventre de Robin teria amor, nem que fosse a última coisa que se comprometeria na terra. Teria um sobrenome e saberia exatamente onde encontrar os pais a cada hora do dia, porque estariam lá quando precisasse. Porque se recusava a ser para o filho o que os genitores tinham sido para si. Porque sabia o quanto o abandono doía.
Não tinha consciência de quando exatamente havia acontecido; mas, por volta do quarto dia, já estava completamente apegado à ideia da paternidade. Tinha na mente nomes possíveis e planejava discutí-los com Robin assim que a visse -- mostrá-la que estava disposto a passar por todo o processo, ir a exames, ser presente. Quem sabe poderiam até tentar um relacionamento, por mais inexperiente que fosse no tópico. Química não seria o problema.
[...]
--- Desceu. --- Foi a primeira coisa que ela disse ao vê-lo, antes que Eden sequer pudesse abrir a boca. Robin parecia brilhar de tanta felicidade. --- O meu período, Eden. Ele desceu.
Ele engoliu em seco.
--- Eu não estou grávida, foi um alarme falso. Isso não é maravilhoso? --- Um sorriso largo pintou a expressão feminina. Foi como se tivessem tirado o chão de baixo de seus pés sem qualquer tipo de aviso. E ele caiu, metaforicamente falando. Sentiu um peso no peito, forte, apertado. O ar faltou nos pulmões.
Alarme falso.
Aquilo era ótimo, não era?
--- Sim... É m-maravilhoso. --- Ele respondeu, a voz trêmula enquanto sentia o úmido da lágrima ao escorrer pela bochecha. Após segundos de hesitação, trouxe a bruxa para um abraço apertado, durante o qual se permitiu descansar o queixo sobre o ombro dela. Triste. Completamente desolado. --- Eu estou tão feliz. --- Ele mentiu baixinho. Uma risada seca, claramente afetada pelas lágrimas, escapou enquanto fechava os olhos e sentia o calor do corpo dela contra o próprio. Enquanto tentava se recompor.
Não era?
Ao se afastar, as mãos foram às bochechas alheias. Eden olhou o verde dos olhos de Robin fixamente pouco antes de inclinar o tronco para beijá-la na testa. Lá, não se demorou. --- Fica bem, tá legal? --- Disse por fim, sorrindo-lhe de maneira terna. Então, girou nos calcanhares e foi embora.
Vazio.













