Toda manhã de sábado a cidade range ossos que descansam, privilegiados: trabalhadores comuns não escolhem o dia sagrado. A manhã quente traz cheiro de mar, ou eu é quem o imagino e imaginando me perco vendo o sol nascer, o cheiro do Rio de alguma forma me alcança.
Entre os lençóis que balançam, como seus cabelos quando encontram a brisa nordestina, eu penso na vida que deixei pra trás, nos amigos que não vejo mais, nas cervejas que não bebo mais, nos sorrisos que deixei amarelar, tal qual as fotos envelhecidas na mesa de cabeceira.
Entre os lençóis que balançam com a brisa, eu relembro os olhos da moça que um dia foi minha e agora não é de mais ninguém. O vento bate como se esmurrasse a minha face e esmaga o peito como se cobrasse o que não posso pagar.
Daqui, o céu é quase laranja e a cidade se impõe como ervas daninhas de concreto sob os meus pés. Não tem redentor nem “água de poça” para que ela me diga “sinta o cheiro da maresia”, e nem vai dizer. Porque esta cá só conhece o mar de Ubatuba e Ilhabela. Nunca comeu um sanduíche do Marcelo ou pôs os pés nas areias imundas de Icaraí, esta cá nunca viu a Ponte engarrafada do Seu Jorge.
Eu trataria de tragar um cigarro, mas o deixei na mesma época em que ela me deixou, plantado no meu passado como aquelas violetas que vendem em qualquer supermercado em vasos quase descartáveis, com pouca terra e, como eu, poucas raízes para me lembrar.
As vezes me esqueço de quem eu sou, do que fui e do que eu deveria ser. De tudo o que sonhei, mesmo antes dela. Ela tinha um jeito estranho de dizer que podíamos seguir nossos próprios caminhos e ainda assim estar aqui, como quem espera um amanhã. Eu não vejo bem o futuro, como acreditam prever as astrólogas de plantão. Balela.
Acho que é o mercúrio retrógrado que me faz lembrar das coisas como poderiam ser e não são. O cheiro de café me busca cá em cima porque esta o passa lá embaixo e concluo a prosa interna dizendo que me recuso a acreditar nessas besteiras místicas dos jovens da Geração Z. Me disse “Use vermelho, talvez você reencontre aquele antigo amor”, na página do Satine. Eu digo, balela.
Hoje os lençóis balançam com a brisa quase veraneia que tenho certeza, vem do meu Rio. Com cheiro de mar e lembranças amareladas como as imagens de mercúrio nos livros de ciências do fundamental. E eu? Uso vermelho.