“Por um grande acaso, o acaso te fez o meu caso eterno.”
— R. Nery
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“Por um grande acaso, o acaso te fez o meu caso eterno.”
— R. Nery

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“Sou fundamentalmente sentimentalista, e julgo isso ser, sentimentalmente, fundamental.”
— R. Nery
“Poesia é a arte de tirar até de uma lágrima um pedaço de canção.”
— R. Nery
“Toda a tarde a cor da cidade é saudade.”
— R. Nery
“Sofro de ‘poetite’ aguda. Tenho que tomar pelo menos uma dose de verso e rima por dia.”
— Mariane Alves.

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“Na minha guerra não tem bombas nucleares, atentados terroristas, nem mesmo radiação. Mas tem mães e pais desesperados ,crianças assustadas, todos por becos, ruas e vielas, com o mesmo medo de homens com armas nas mãos.”
— R. Nery
Entenda que caminhar sozinho nem sempre é sinônimo de solidão. Liberdade não é substantivo composto.
- R. Nery
Lençóis
Toda manhã de sábado a cidade range ossos que descansam, privilegiados: trabalhadores comuns não escolhem o dia sagrado. A manhã quente traz cheiro de mar, ou eu é quem o imagino e imaginando me perco vendo o sol nascer, o cheiro do Rio de alguma forma me alcança.
Entre os lençóis que balançam, como seus cabelos quando encontram a brisa nordestina, eu penso na vida que deixei pra trás, nos amigos que não vejo mais, nas cervejas que não bebo mais, nos sorrisos que deixei amarelar, tal qual as fotos envelhecidas na mesa de cabeceira.
Entre os lençóis que balançam com a brisa, eu relembro os olhos da moça que um dia foi minha e agora não é de mais ninguém. O vento bate como se esmurrasse a minha face e esmaga o peito como se cobrasse o que não posso pagar.
Daqui, o céu é quase laranja e a cidade se impõe como ervas daninhas de concreto sob os meus pés. Não tem redentor nem “água de poça” para que ela me diga “sinta o cheiro da maresia”, e nem vai dizer. Porque esta cá só conhece o mar de Ubatuba e Ilhabela. Nunca comeu um sanduíche do Marcelo ou pôs os pés nas areias imundas de Icaraí, esta cá nunca viu a Ponte engarrafada do Seu Jorge.
Eu trataria de tragar um cigarro, mas o deixei na mesma época em que ela me deixou, plantado no meu passado como aquelas violetas que vendem em qualquer supermercado em vasos quase descartáveis, com pouca terra e, como eu, poucas raízes para me lembrar.
As vezes me esqueço de quem eu sou, do que fui e do que eu deveria ser. De tudo o que sonhei, mesmo antes dela. Ela tinha um jeito estranho de dizer que podíamos seguir nossos próprios caminhos e ainda assim estar aqui, como quem espera um amanhã. Eu não vejo bem o futuro, como acreditam prever as astrólogas de plantão. Balela.
Acho que é o mercúrio retrógrado que me faz lembrar das coisas como poderiam ser e não são. O cheiro de café me busca cá em cima porque esta o passa lá embaixo e concluo a prosa interna dizendo que me recuso a acreditar nessas besteiras místicas dos jovens da Geração Z. Me disse “Use vermelho, talvez você reencontre aquele antigo amor”, na página do Satine. Eu digo, balela.
Hoje os lençóis balançam com a brisa quase veraneia que tenho certeza, vem do meu Rio. Com cheiro de mar e lembranças amareladas como as imagens de mercúrio nos livros de ciências do fundamental. E eu? Uso vermelho.
“Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores”
Adriana Calcanhoto - Esquadros
Em segredo
Eu pinto desejos
Vermelhos, sagrados
Como teus beijos
Em vermelho
Colori segredos
Pintados a dedo
Por meus desejos
Eu deixo
Em segredo
O desejo
De outro beijo
Morar.
. . .
- R. Nery

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Tão “cringe”
Eu sinceramente tenho descoberto que sou um homem mais velho do que consigo me imaginar. Frequentemente ultrapassado nos gostos e desejos, estou em eras outras das quais ninguém pode me acompanhar. Numa rede social qualquer vejo jovens usarem termos estrangeiros para se reportarem à tudo aquilo que não se vê morar na juventude. . . . É “cringe” e crua a poesia da juventude que sofre por amor vagabundo e raso, suponho. Eu sofro pelas revoluções que nunca vieram, pelos boletos que com algum esforço são pagos e pelas garrafas de gim que nunca termino, sempre só é mais difícil, de todo modo. . . . Tão “cringe” é essa geração que mal enxerga o outro lado das coisas, das pessoas, das pontes. Os sentimentos de fim e lamento que corta e sangra a carne e de algum modo ainda nos mantém vivos, como veteranos de todas as guerras universais, dentro de cada um. Estes sofrem por coisa pouca, coisa banal. . . . Eu lá ligo para como esses jovens usam seus estrangeirismos. Cringe mesmo é morrer sem revolucionar.
É coisa de terapia
Ela me pediu para voltar a escrever, como quem precisa deixar uma carta para meu eu futuro enquanto tenho certeza que escrevo para o meu eu passado. Escrevo para este eu como se pudesse corrigir os seus erros e desvios, como se pudesse realizar seus sonhos e planos.
Mas é para ti que escrevo com a mesma intensidade em que se agrava a crise climática e destrói o mundo, que o eu do futuro certamente não verá, nem os filhos que não desejei ter
Escrevo com a mesma paz de quem aprendeu a olhar os próprios medos e abraçá-los sem receios, enquanto as luzes piscam no símbolo menos cristão do Natal de Cristo
Escrevo para o meu eu que um dia avistou aqueles olhos e lábios, para o eu que coleciona secretamente as palavras, fotos e registros daquele amor mal curado, ressacado, que pesa a cabeça e a alma.
Escrevo para o eu que ainda ressente as amizades necessariamente perdidas, e que há de viver as devidamente encontradas com a paz de saber que está em segurança
Ela me pede pra fechar os olhos e imaginar um lugar tranquilo, me vejo naquele mesmo minuto e contexto, quando encontrei o seu cheiro, junto a cem outros na estação, entre cheiro de cigarro e gritaria dos apressados na cidade, eu congelei aquele momento
Ela me diz que Freud vai ajudar, revisitando as memórias que suprimo para não sentir, ela me pede pra visualizar aquilo que mais me dói e é tudo um grande vazio. É um vazio com nome e cheiro. Freud deve ajudar a desengavetar e rasgar os papéis que carrego na memória.
Dos dias de sol, dos dias frios, das madrugadas ouvindo das lamúrias e das vitórias. Das explicações sobre as perdas em investimentos, das canções cantadas com pouco ou nenhum preparo vocal ou noção musical mas com gigante coração, que fora engolido silenciosamente pelo ordinário.
Cinquenta e cinco minutos, posso respirar, fim da sessão.
R. Nery
24200302
Eu te liguei
Ouvi sua respiração do outro lado
Sua voz suave e gentil
“Alô?”
Era a voz que me tomava o peito de luz e alegria
E quanto mais eu te amava mais eu a ouviria
Inundando minha alma.
“Alô?”
“É a Maria?”
“Não, moço. É engano.”
“Desculpe.”
Eu te liguei e não tive coragem de dizer que era eu.
Bom covarde que sou, me contento com coisa pouca.
Um alô seu é uma vida inteira pra morrer vivendo
E por isso eu te liguei…
42022010
São os mesmos versos
Em novos dedos, novos rostos
Tudo exatamente igual e diferente
Muito novo e tudo velho
Poeta que inventa a roda.
A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por- meio;
Guimarães Rosa. Noites do sertão. (1956)

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420103
Ressignifica
Acredita
Que a fé aponta a direção
Ressignifica
E insista
A felicidade é só questão
De quem ressigifica
E acredita
Que ainda dá pra decidir com o coração
Ressignifica
Respira e fica.
Novelas
Na novela que a vida é, a gente vê de tudo um pouco, rostos que amamos, odiamos, sequer lembramos. Rostos que, não demora, vão mudando. Uns morrem para dar espaço a outros novos e de repente, já não há mais nenhum que reconheçamos.
Chega enfim, também a hora do nosso grande fim, a hora que as cortinas se fecham e nós mesmos daremos espaço a outros rostos e falas e cenas.
A vida é o ciclo entre o lembrar e o esquecer. Ou ser lembrado e esquecido.
R. Nery