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9 de Dezembro de 2019
Estou exausto fisica e mentalmente falando. Mas á essa altura do campeonato, quem é que não está, não é mesmo?
Amor é agradecimento
Vendo você esperar o ônibus comigo e me abraçando pra proteger da chuva, enquanto me encorajava a persistir eu pensei que naquele momento eu era a pessoa que mais te amava no mundo e que nunca mais poderia amar assim. Vendo você limpar os óculos cheio de gotas de chuva na blusa me fez pensar que aquela era a visão que eu gostaria de ter pelo resto dos meus dias e que nada poderia ser tão bonito assim.
Vendo você apontando para os lugares que víamos pela janela, contando histórias e me conduzindo, eu pensei que não queria que mais ninguém segurasse minha mão e me levasse para conhecer o mundo. E enquanto eu te abraçava forte no caminho, eu também soube que queria morar naquele abraço até o fim dos meus dias.
Vendo você existir e ser você, vendo você cuidar de mim com tanta naturalidade, vendo você guardar -tantas vezes- sua dor na caixinha para ouvir as minhas, vendo você beijar minha cabeça como se eu fosse algo muito valioso, vendo você dar sua opinião sobre as coisas, vendo seu jeito de lidar com os problemas com calmaria, vendo você acariciar meus dedos e sorrir gentilmente; eu soube, instantaneamente, que era amor.
E ver você partilhar a vida comigo é entender muitas coisas. É entender que coisas pequenas têm muito significado e que é importante percebê-las, que eu não preciso fazer grandes gestos para falar de amor. É entender que relacionamento romântico não é separado de amizade, na verdade é exatamente uma amizade profunda, é fazer gargalhar até que falte o fôlego, mas fazer um cafuné quando as coisas não vão bem. É entender que tudo deve ser leve e deixar que as coisas tomem forma com o tempo.
Ver você é se apaixonar de súbito, é se encantar com a grandeza que vem de você, é se abandonar em amor profundo, terno, gentil. Ver você é perceber que sempre se deve dizer “eu te amo” como agradecimento e nunca como pedido de desculpas.
De alguma forma ele tem mexido comigo, e isso me incomoda. É bom o sentimento, mas a ideia de ter ele não me parece assim tão boa.
Brenda Nogueira
como nossos pais
Nós romantizamos a família, mas é dentro da própria casa que vivemos um relacionamento abusivo as vezes. Acontece sem querer e você vive isso sem se dar conta também. E quando finalmente percebe, você tenta rebater, mas não adianta. São seus pais, seus filhos, seus irmãos.
Por que, pai, você não percebe? Por sua culpa eu cresci sem segurança de mim, sempre me senti menos capaz, menos inteligente, menos tudo. Eu não consigo acreditar no meu potencial e desconfio que assim será para sempre. E eu sempre me senti muito menos bonita que as outras garotas e indigna de viver um relacionamento porque você sempre fez com que eu me sentisse culpada por ter um corpo assim, me fez sentir nojo da minha aparência. E por mais que eu coloque sorrisos no meu rosto e demonstre força excepcional em lidar com as críticas, algo em mim vai morrendo a cada palavra sua. Elas raramente são congeniais. Não vê, pai, que tantas exigências fizeram da sua filha alguém infeliz? Por mais que eu tente eu não alcanço seus padrões. E cada vez mais eu me sinto insuficiente, me sinto infeliz.
Você está me matando, pai! E eu vou matar você do mesmo modo. Nós vivemos nos ferindo. Fingindo. Nós decepcionamos um ao outro diversas vezes. Você me faz ter crises de ansiedade e eu te faço surgir mais alguns cabelos brancos. Muitos cabelos brancos.
Contudo, eu te amo tanto! Passei anos aceitando vontades que não são minhas para te deixar orgulhoso, mas eu não posso me sujeitar assim, não posso deixar meus braços tão expostos ao corte. Viver pelas suas expectativas é uma morte lenta e dolorosa. Eu preciso soltar o que está preso na garganta. Não me chame de egoísta, não diga que só quero do meu jeito.
Mas não adianta gritar. Por mais que eu grite você mais uma vez me faz sentir culpada, você vive calando minha voz porque “é preciso ter respeito”. Eu gostaria de ser respeitada também.
Eu te amo, pai. Só que esse amor, por muitas vezes, me sufoca.
Eu preciso respirar.
-HEMILLY SARA-

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intimidade
Eu tenho perdido o gosto ultimamente, perdido o gosto por mim mesma. Tudo em mim parece distante, é como se eu morasse muitos anos em uma casa e sempre pedisse ajuda para encontrar meu próprio quarto e como se ele estivesse sempre bagunçado e nessa bagunça eu vivesse perdendo as coisas que eu preciso. Um emaranhado de mim.
Ao passo que eu vou perdendo o gosto, esse quarto parece ficar cada vez mais cheio. Cheio de coisas desconhecidas. Os moradores dessa casa dizem que são minhas, que eu não posso jogá-las fora, eles me convencem que cada uma daquelas coisas formam minha personalidade, que a bagunça do meu quarto é sobre minha identidade e eu devo deixar assim. Mas como eu posso ser possuidora de tantas coisas e não conhecer nada sobre elas? Como podem ser minhas se eu nunca as trouxe?
Meu quarto deveria ter meu gosto, o gosto de casa, mas ele é um lar que me expulsa. Não consigo adentrar. Toda vez que abro a porta e dou o primeiro passo algo me sufoca, então eu tenho que recuar. Fico observando o quarto sem nunca entrar, vendo os móveis empoeirados tão diferentes dos que eu queria de fato, posters de bandas que nem conheço, livros que eu nunca li, roupas espalhadas por todos os lados que eu nunca vesti, uma decoração que eu nunca fiz. Meu quarto não é meu, embora todos os moradores digam que sim.
Tem os dias que eu me sinto cansada demais e queria entrar no meu quarto, tirar esses sapatos de anos que apertam meus pés e deitar na minha cama, descansar e me sentir revigorada, sentir que pertenço a este quarto e me sinto bem nele. E eu preciso tanto entrar, porque meus pés estão cheios de calos e meus olhos pesados demais implorando por uma noite de sono.
Preciso tanto ultrapassar a porta, colocar roupas novas nas gavetas, pintá-lo de azul e fazer nuvens no teto. Preciso porque só assim não perderia o gosto por mim, só assim não teria que conviver tão longe de mim mesma, não precisaria viver no limbo, eu conheceria meu quarto e conhecendo-o bem os outros moradores não mais enfeitariam meu quarto do jeito que eles queriam que fosse, nem encheriam de tralhas que na verdade são deles.
Porque é tão difícil entrar no próprio quarto?
-HEMILLY SARA-
Porque a vida, ela é um sopro e logo logo você estará vivendo momentos incríveis que nunca imaginou. Não vai nem olhar para trás e refletir, porque não terá tempo de pensar no passado, de tão bom que o presente estará sendo.
-Brenda Nogueira
Sobrevivente de um mundo sem chão.
Sirley Saraiva