acho que o desejo mais intenso não nasce do toque. nasce da interrupção.
porque o corpo sabe lidar com aquilo que vive. ele cria lembranças, aprende os contornos, perde a curiosidade, descobre os defeitos. o que nunca aconteceu, não. o que nunca aconteceu permanece perfeito, porque a imaginação não conhece rotina.
talvez seja por isso que algumas pessoas atravessem a nossa vida sem nunca realmente entrar nela. elas ocupam um lugar estranho, onde não existe passado suficiente para chamar de saudade, nem futuro suficiente para chamar de esperança. existe apenas uma pergunta silenciosa que insiste em sobreviver ao tempo: como teria sido?
é curioso como a mente aceita aquilo que a pele nunca conseguiu esquecer. a razão aprende a respeitar distâncias, entende circunstâncias, reconhece limites. mas o desejo parece não falar a mesma língua. ele não desaparece porque seria inconveniente. ele apenas aprende a existir em silêncio.
e é um silêncio perigoso.
porque ele mora justamente nas conversas mais comuns. nas piadas que poderiam durar um segundo a mais. nos olhares que demoram o suficiente para serem percebidos, mas não o bastante para serem confessados. na intimidade de quem sabe exatamente onde deveria parar e, justamente por isso, imagina o que existiria do outro lado da linha.
há quem pense que o desejo precisa ser vivido para ser intenso. eu acho o contrário. alguns desejos sobrevivem justamente porque nunca conheceram a realidade. permanecem intactos, protegidos da decepção, da rotina, do tempo. não envelhecem. não criam cicatrizes. apenas continuam existindo como uma possibilidade que se recusa a morrer.
talvez seja por isso que, às vezes, a memória invente encontros que nunca aconteceram. sonhos, cenas, versões de uma vida que nunca existiu. não porque exista vontade de mudar o presente, mas porque o inconsciente parece odiar histórias interrompidas. ele tenta terminar aquilo que a realidade deixou pela metade.
no fim, talvez o desejo não seja sobre possuir alguém. talvez seja sobre reconhecer uma presença capaz de despertar uma parte de nós que permanece adormecida para o resto do mundo.
e existe uma crueldade bonita nisso. porque algumas pessoas nunca nos pertencem, nunca atravessam o limite, nunca deixam de ser apenas uma hipótese. ainda assim, bastam um olhar, uma lembrança ou uma conversa qualquer para que o corpo se recorde de algo que nunca viveu, como se certas possibilidades fossem fortes o bastante para se transformar em memória.