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Era manhã de Quarta e uma semana daquelas que você sente que o tempo para nas pioras horas, enquanto você só quer que ele simplesmente passe.
Kaelm havia faltado a sua aula extra, a última da grade e nem fora treinar, já repetia essa atitude há uns sete dias. Sua cabeça estava vazia e tumultuada ao mesmo tempo, então se fechou do mundo de fora e passou a viver só consigo mesmo, não era boa companhia nem para si, quem dirá para os outros.
Com isso, ergueu preguiçosamente seu corpo da cama, precisava se arrumar para fingir que era um aluno presente. Fingir, pois apesar de estar presente fisicamente, mentalmente estava tão longe que sequer poderia deduzir onde.
Até que seus olhos lhe mostraram algo que estava sob seu chinelo. Olhou ao redor, mas os garotos estavam ocupados. Um estava no banho e o outro totalmente distraído. Decidiu então pegá-lo, seu olhar curioso deu início a leitura de uma carta, sem mais demoras.
“Pare de me procurar Parrish, não sei quem você é ou o que quer comigo. Mas não me interesso em saber. Só pare.”
-Alice
Cada palavra que lera o fizera ficar com o contorno dos olhos avermelhados, como se tivesse se drogado. Mas não. Apesar das palavras carrancudas ele não conseguia explicar como estava feliz em ler Alice no final de tudo. Aquela letra ‘A’ torta era inconfundível, só ela escrevia daquela forma. Seu corpo se enrijeceu todo na posição em que estava: em pé em frente a sua cama, ali permaneceu durante longos minutos. Seus colegas de quarto já haviam saído há um tempo, mas ele não. Permanecia ali. Sem saber qual deveria ser sua próxima ação. Por que, com ele, até as coisas mais simples pareciam complicadas? Ela lhe pediu para parar.
Pare. Ecoava em sua mente. Parar era algo que não se permitia fazer, por mais que quisesse durante todo esse tempo.
I try not to think about the pain I feel inside #POV
Made a wrong turn, once or twice.
Dug my way out, blood and fire.
Bad decisions, that’s alright…
Welcome to my silly life
A noite passada havia sido tão boa… Capitu certamente não havia se divertido tanto em meses, as horas que passara junto das garotas maquiando-as, dançando ou simplesmente conversando trouxeram um sorriso gigante a seu rosto, e esse sorriso perdurou por toda a noite, vindo a desaparecer apenas horas depois de deixar a sala precisa com o fim da festa do pijama. A noite passada havia sido tão boa, que Capitu nunca imaginaria como tudo poderia desabar em frente a seus olhos tão rapidamente.
Tudo começara no momento em que a loira saíra de seu banho, ainda enrolada em uma toalha branca com o cabelo úmido, viu a figura de Minerva McGonagal adentrar em seu dormitório rapidamente. De início, apenas trocou um olhar confuso com suas colegas de quarto, os olhos claros arregalaram-se pois estava certa de que aquilo se tratava da festa na noite anterior. Quando fora informada de que todos estariam em detenção, a loira não se importara muito, afinal, já havia cumprido diversas detenções, mais uma não a perturbaria, porém, sabia que em decorrência de suas condições para entrada naquele colégio, manter a boa postura e conduta era essencial para que fosse permitido sua estadia em Hogwarts. Ela não podia entrar em confusões, e sabia disso, Minerva também sabia disso, e por esse motivo estava parada em frente á Capitu, olhando-a com seus olhos cinzentos. No entanto, o olhar da diretora de modo algum evidenciava desapontamento. Pelo contrário. Parecia preocupado, triste… Apiedado?
“Senhorita Beauregard, poderíamos conversar a sós por um momento?”
E o coração de Capitu pulou em seu peito. Estava indo tudo tão bem que ela não podia acreditar, se esforçara tanto para ser uma aluna melhor, uma pessoa melhor e poder ganhar um recomeço naquela nova escola, e agora apenas uma festa tinha jogado isso por água a baixo… Sentiu-se frustrada e já estava a ponto de implorar para que Minerva não contasse á sua mãe, que não a mandassem embora, porém, sua cara de preocupação e ausência na fala provavelmente deixaram evidente o temor que estava sentindo no momento, pois a bruxa mais velha apenas suspirou, retomando a palavra. “A senhorita não está encrencada, ao menos, não mais do que qualquer outro que esteve noite passada, mas poderia se sentar, por favor? Com licença, garotas.” A voz diretora soou tranquilizadora e ao mesmo tempo autoritária, ela fez apenas um sinal com a cabeça que foi o suficiente para que as colegas do quarto da adolescente as deixassem a sós, e as mesmas o fizeram, trocando apenas um olhar rápido com Capitolina, que parecia não entender o que se passava, porém, apenas decidiu obedecer ao pedido, sentando-se na beirada de sua cama. Algo estava errado. Muito errado.
“Senhorita, você recebeu alguma carta de seus pais nos últimos dias?” Nesse exato momento, o olhar de Capitu voltou-se para a pilha de papéis jogados displicentemente por cima de algumas revistas de fofoca em seu criado mudo, sim, de fato recebera cartas de sua mãe todos os dias durante a última semana, porém, optara por não abrir nenhuma, sabendo que as palavras contidas nessas iriam apenas machucá-la. Então era isso, aquela não era a primeira vez em que sua mãe contactava a direção da escola após suas correspondências á filha serem ignoradas.
“Sim” comentou cautelosamente. “Ai, que vergonha, minha mãe fez de novo, não é? A senhora não entenderia, minha mãe e eu temos uma relação conturbada, tivemos uma discussão semana passada, e eu deixei as cartas dela de lado. Ela falou com vocês? Não acredito. Ah, a senhora não se preocupa não, diretora, eu vou agora mandar uma carta para ela dizendo que estou bem, e pedir para ela nunca mais incomodar vocês com essas coisas sem importân…” como sempre fazia em ocasiões que a deixavam ansiosa, a menina disparou a falar rapidamente, porém, foi interrompida pela voz da professora, seguida por um olhar que parecia tentar ler por detrás de Capitu, e aquilo foi o suficiente para calá-la.
“Senhorita Beauregard. Não é nada disso. Recebemos uma carta de seu padrasto essa manhã. Eles vem tentando te contactar já há pouco mais de três dias e…” a essa altura, Capitu tinha sua atenção inteiramente entregue a cada gesto e palavra da diretora, e portanto pôde perceber que a voz dessa falhou, como se não conseguisse dizer aquilo que precisava. E isso apavorou Capitolina. “Diretora? O que aconteceu?” o corpo e mente da menina estavam agora tomados por completo pela preocupação, seu coração palpitava no peito, e a respiração se apresentava irregular, milhares de coisas passaram por sua cabeça naquele momento, e certamente nem uma delas era boa.
A diretora retirou de suas vestes com as mãos trêmulas um pergaminho de papel pardo com a letra que Capitu logo reconheceu por ser a de seu padrasto, os olhos azulados da loira focaram-se no rosto da professora, como que implorando por uma resposta. "Leia você mesma, senhorita.” não foi preciso mais nenhuma palavra, os dedos finos da lufana tomaram o papel da mão de sua diretora com extrema velocidade, e seus olhos grudaram naquela carta.
"Prezados docentes da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts,
Venho por meio dessa introduzir a mim e minha situação, pedindo a ajuda e compreensão dos senhores. Meu nome é Pablo Cristoph Constantine Pistelle, resido em Veneza, Itália, e minha enteada, Capitolina Aimee Beauregard Chermont, está cursando o sétimo ano em sua escola.
Minha esposa, Avril Pistelle, e Capitolina tiveram um desentendimento, e Capitolina é uma garota cuja personalidade ainda não está formada, ela nunca conheceu seu pai e cresceu sem a figura paterna desse, e portanto sofre de uma patológica necessidade de atenção, e embora eu já tenha alertado minha esposa por diversas vezes, ela não tem a coragem de demonstrar autoridade, e permite que a filha a desrespeite e responda. Minha enteada não sabe dar valor á mãe dedicada e á vida privilegiada que tem, ela possui dificuldade em preocupar-se com alguém além de si mesma, e por esse motivo, teve a atitude imatura de deixar de responder sua mãe por mais de uma semana, e então, isso ocasionou no que ocasionou.
Três dias atrás, minha esposa estava levando nosso filho Pierre Chermont Constantine Pistelle, de apenas seis anos, ao supermercado quando um imbecil irresponsável colidiu seu carro no deles. Minha esposa cometera o deslize de não trazer sua identidade, portanto só fui informado horas mais tarde quando ela acordou desnorteada em um hospital. E sabe qual foi a primeira coisa sobre a qual perguntou? Capitolina. Minha esposa possui um coração privilegiado, e em um momento como esse não conseguiu sossegar até ter escrito uma carta á filha relatando tudo o que houve, ela ainda rebaixava-se ao implorar por notícias sobre o estar de Capitolina, e essa garota nem teve a decência de responder sua própria mãe. Graças á Deus, Avril está bem, e embora tenha sofrido algumas fraturas superficiais, os médicos diariamente fazem exames em seu corpo e mente, porém o estresse da preocupação com o nosso filho a afetam significativamente, e nesse momento, ela precisava do apoio de sua filha primogênita.
Não sei como funcionam essas escolas bruxas, e nem o que vocês ensinam, mas esses não são os valores perturbados que a menina deveria aprender.
Peço desculpas, mas imagino que vocês compreendam a gravidade da situação e a aflição que eu, como pai, sinto nesse momento. Estou escrevendo esse relato apenas pois minha esposa encontra-se em exames constantes e a preocupação com a menina é algo que não pode de modo algum lhe causar estresse nesse período crucial. Portanto, espero que compreendam meu pedido e contatem imediatamente Capitolina, digam para que ela crie juízo e responsabilidade, mandem que pare de olhar um pouco para o próprio umbigo e tenha a maturidade e decência de minimamente escrever algo para sua mãe internada. Imaginem só, a mãe sofreu um acidente de carro, o irmão está em coma induzido, prestes a passar por uma cirurgia, e tudo o que essa menina consegue pensar é em festinhas? Minha decepção não poderia ser maior.
Grato,
Pablo Cristoph Constantine Pistelle”
Uma lágrima tímida escorreu pelo olho azulado de Capitu, descendo por sua bochecha e tendo por fim seu ponto final o papel que ela segurava em suas mãos. Sentiu um formigamento em seu nariz e logo seus olhos já estavam molhados outras vez, assim não teve escolha senão encarar o teto por vários segundos até que as lágrimas desaparecessem, pois sabia que se começasse agora, não iria parar. E tantas coisas passaram por aquela cabeça loira… Primeiro, sentia vergonha por ter sido exposta de tal forma para a diretora de seu novo colégio, que parecia olhá-la como quem decide se sente decepção ou pena, e Capitu não gostaria que a mulher sentisse nenhum dos dois por ela. Segundo, o coração frágil apertava ao ler as palavras de seu padrasto, pareciam ter sido escritas com tanta raiva e frieza que ela quase conseguia sentir o olhar de desaprovação que ele lhe lançaria. E terceiro, tinha aquela situação, odiou-se por ser tão estúpida e orgulhosa, quis voltar no tempo e nunca ter ignorado aquelas cartas, nunca ter brigado com sua mãe, pois agora, tudo o que podia sentir era o peso na consciência, a pessoa que mais amava no mundo estava deitada em uma maca de hospital, e a última coisa que a filha havia dito, tinha sido algo como desejaria que você jamais tivesse sido minha mãe.
E então, a ficha lhe pareceu cair. Em um momento de raiva, a menina atirou o pergaminho no chão. Um carro havia amassado o carro de sua mãe, quem sabe seu corpo delicado não tivesse atravessado o painel e voado pelos ares? Ou o rosto fino ricocheteado contra a janela de vidro e se coberto de sangue? Aqueles pensamentos eram dolorosos demais. Imaginar sua mãe, sempre tão bonita e forte, agora deitada em um leito de hospital, seu corpo conectado a máquinas e tubos, doía mais do que um coração partido. E quanto a Pierre? Seu irmãozinho, seu anjinho lindo e inocente estava machucado, e nesse exato momento poderia estar lutando por sua vida. Coma induzido? Cirurgia? Daquelas palavras nada entendia, mas agora nada daquilo importava. Tudo o que sabia, é que eles estavam machucados, estavam em perigo, enquanto ela havia passado a noite toda curtindo.
Aquele pensamento a fez tão mal que os olhos se espremeram involuntariamente, levou a mão ao rosto e naquele momento temeu por sua mãe, temeu por seu irmão. Desejou que pudesse ter feito alguma coisa, qualquer coisa para evitar, ou que pudesse naquele exato momento correr para casa e tomá-los em seus braços, pedindo perdão por sua postura e implorando a Deus que os protegesse. Precisava vê-los, precisava saber que estavam bem, precisava saber que ficariam bem. Pierre? Cirurgia? Merde, Pierre passaria por uma cirurgia! E ela precisava, precisava estar lá para segurar sua mão, precisava ve-lo, precisava tocá-lo, precisava de notícias.
Sentiu-se uma filha péssima, uma irmã péssima, uma pessoa péssima. Naquele momento Capitolina se odiou, cometeu um pequeno deslize e então as lágrimas se libertaram, caindo e rolando por seu rosto em uma cascata. Merde, ela não podia. Não podia deixar ninguém vê-la daquela jeito, fraca, abalada e indefesa, precisava continuar sendo a loira estonteante e confiante que conhecia e amava, precisava sorrir e fingir que não se sentia quebrada por dentro, precisava fingir que nada a incomodava, que sua vida era perfeita, e quem sabe assim não convencia a si mesma? Mas aquilo doía tanto…
23 de fevereiro, 2023.
Palácio de Beauxbatons -- Cannes, França.
Rosa mais bela do jardim mais rico,
Essa talvez seja a décima carta que lhe escrevo. Por que ainda o faço? Quem sabe seja para manter o rosto lindo da mulher que me afeiçoei, intacto. Talvez seja porque eu sinto que foi um erro deixá-la, mas você não entenderia de primeira, por isso essa é a última tentativa de mantê-la viva em meus pensamentos. Mais do que isso: é uma tentativa de nos manter vivos.
Não faço ideia do porquê não recebo respostas às minhas respostas, mas não é como se eu escrevesse para um fantasma... Ou é? De qualquer forma, você deve saber isso por mim. Não por minhas irmãs, meus primos, ou qualquer outra pessoa ligada à minha pessoa; mas por mim.
Devo começar pelo dia em que cheguei de Beauxbatons, você foi a primeira a me acolher como um desconhecido conhecido. Não tinha qualquer parentesco comigo, tampouco amizade de infância, mas mesmo assim foi me acolher quando eu precisei de um ombro amigo que há tempos não tinha ou via. Mais do que isso, você foi o suporte quando as coisas com minhas irmãs pareciam desabar. Foi você, também, quem me auxiliou quando eu tornei a me preocupar com quem eu estava sendo, alguém repugnante. Foi esse mesmo você quem me ajudou a conseguir a vaga de goleiro no time, isso eu jamais vou esquecer. Aliás, há várias coisas em você que eu jamais vou ser capaz de esquecer. O seu perfume doce; seu sorriso; a risada; o cabelo, que você teimava em prender em um rabo de cavalo porque achava que estava feio (mas nunca esteve); seu modo de vestir, como quem gosta de receber elogios, e eu nunca os poupei; o modo como você me conhecia mais que a mim mesmo, sempre descobrindo pontos em mim que eu nunca fui capaz de perceber... Tudo o que faz parte de você, eu nunca vou esquecer.
Mas, infelizmente, as minhas responsabilidades tocaram à porta e eu não tive escolha. Eu juro, se pudesse voltar atrás e desfazer tudo o que me faria separar de você, eu o faria, sem pestanejar. Agora, você nunca entenderia isso de uma forma menos dramática, mas espero que, ainda assim, compreenda o que quero dizer. Você se lembra quando descobriu tudo de uma vez? Aposto que sim. Meus pais descobriram que eu fui atacado por um lobisomem, só não sabiam que Vic tinha acobertado tudo. Um colega meu morreu e eu vi com meus próprios olhos, bem na minha frente. Foi minha culpa, eu não deveria tê-lo deixado sair e tampouco tê-lo seguido. Eu não vou ser capaz de esquecer isso nunca. Por culpa minha, eu encorajei o medo em meu pai, pelo simples fato de agora ter traços lupinos. Nunca desejei isso, mas foi o que aconteceu. Me sinto horrível por ver como maman está triste.
Exatamente por isso que meu pai temeu que eu sofresse mais quando descobrissem. Quando ele soube que eu havia lhe contado, prontamente deu um jeito de me colocar de volta para Beauxbatons e, consequentemente, para a França, o quanto antes. Não tive nem tempo de ao menos dizer “até logo”, porque ainda somos jovens e um “adeus” não calharia bem. Não sei o que aconteceu com minha irmã, desde então não falo com ela, mas também não recebo respostas suas e a sensação é a mesma. Por sorte, ainda tenho um pouco de você em mim; seus vestígios me mantém a salvo e minha fera interior acalma. Não acho que possa me transformar, ou pelo menos espero que não, ou então seria meu fim... Mas eu sei que posso confiar em você, Miranda, eu sempre o fiz.
Por isso que eu ainda tenho esperanças ao mandar essa milésima carta. Tenho esperanças porque, mesmo à distância e sem contato, você me faz querer continuar. Eu sinto a sua falta todos os dias... É como se um pedaço faltasse e isso amargasse meus momentos. Acho que já contei várias vezes como me sinto andando por esse castelo. Meus antigos amigos não são mais tão próximos, eu não tenho a quem recorrer. Me sinto impossibilitado e a culpa é toda minha. Se eu seguisse as regras, se eu fosse alguém melhor, talvez não tivesse me metido nessa e, consequentemente, te magoado. Pardon, mon chéri, não sei mais como desfazer tudo isso. Minhas cicatrizes doem por não ter você para cuidá-las. É como se o latejo em meu peito ecoasse por todo meu corpo e me deixasse fraco, mas ao mesmo tempo a lembrança de seu rosto mantém-me forte. Não posso fugir da minha descendência, você deve saber.
Não era inverno, mas seu coração estava frio. A respiração calma era contraditória à sua ansiedade, que excedia as expectativas de horas mais cedo. Antes de pegar o primeiro expresso, Louis teve de mostrar quem realmente era para seus pais, para que então conseguisse a confiança dos mesmos. Ninguém sabia o que tinha acontecido com ele e era melhor assim, pois o francês tinha um dom, dentre tantos outros, em guardar segredos, ainda mais os seus próprios. A determinação dele se fez presente quando, por um dia, voltou para casa, depois de algumas semanas na França. Shell Cottage ainda era o mesmo conjunto de velharias que ele se lembrava, se não fosse pelo interior da casa, que havia melhorado muito. “Maman...” Ele murmurou quando encontrou sua mãe logo na entrada de casa. Os olhos brilharam de saudades, e também pela angústia da culpa anterior. Ainda sentia-se culpado pelo pequeno desespero que causou em sua progenitora, mas ela não parecia lembrar disso quando agarrou o filho em um abraço apertado.
“Mon amour, je rate mon beau bébé!” Ela se afastou, segurando suas bochechas com as duas mãos, enquanto ele mesmo se forçava a sorrir, concentrado no sorriso daquela mulher que não parecia que envelheceria nunca. Pensou em dizer alguma coisa, mas sabia que um simples retruque de abraço bastaria para ela. E foi o que fez, trazendo Fleur para seus braços. A mãe era um pouco menor que ele, por isso seu rosto encostou no topo da cabeça dela, aconchegando-se com aquela proximidade. Era como se tivesse voltado a ser criança de novo. De repente, ela o puxou para a cozinha. “Eu tinha um pressentimento de que viria hoje, cher, por isso fiz sua torta predileta, regardez!” Ela se abaixou, olhando para o fogão, enquanto Louis apenas sorria, despachando a mala na sala. No instante em que abriu a boca para perguntar sobre Bill, o mesmo passou pela porta de entrada que estava aberta e sorriu ao ver o loiro. Deixou sua maleta no chão e foi de encontro ao filho, abraçando-o com leves palmadas nas costas de Louis. “Que bom que veio, filho.” Mesmo depois do que aconteceu, o mais jovem sabia que independente de suas mancadas, aqueles dois estariam sempre ao lado dele, para tudo e qualquer coisa. Aquilo, de certa forma, servia de conforto à ele.
Porém, mesmo aproveitando a hospitalidade da própria casa, ainda sentia-se vazio. Os sorrisos eram forçados e Bill havia notado. Tornou-se mais distante quando, por um acaso, Fleur roubou o filho novamente em um abraço até a cozinha, para que pudesse lhe oferecer água. Ela sorria, enquanto Louis encarava a água sem reação. “O que--” Fora interrompida com o pronunciamento do mais novo. “Hogwarts é onde devo ficar.” O comentário calou ambos superiores e, mais uma vez, Louis pensou se não estava falhando com seu papel de filho. O rosto feliz da mãe esvaeceu aos poucos, enquanto ela mesma buscava palavras em seu marido, que talvez ela não fosse capaz de proferir por medo. “Não vamos entrar nesse assunto, Louis...” O ruivo com a cicatriz em sua bochecha disse, em um tom bem humorado, apesar de sua reação ser séria.
“A questão é que não posso mais continuar em Beauxbatons. Na verdade, meu rendimento caiu mil vezes e não vou nem comentar que--” O loiro teve sua linha de raciocínio cortada pelo pai. “Não quero saber disso, Louis. Já conversamos. Você deve estar ruim de propósito, uma desculpa para sair de Beauxbatons! Mas nós sabemos o que é melhor para você! É melhor se conformar.” Completou, enquanto se virava para apanhar a maleta no chão. “Mon cher, s'il vous plaît, não vamos discutir. Você está aqui, vamos aproveitar! Estou muito feliz de revê-lo!” As mãos da mulher pousavam, mais um vez, nas bochechas alvas de Louis, enquanto ele mesmo se mantinha de cara fechada. “Eu também estava com saudades, maman... Mas não posso mentir para a senhora. Não estou feliz. Eu não posso estar feliz longe das minhas irmãs; dos meus primos... Eu...” Bill se postou à frente do filho, após girá-lo, tocando em seu ombro. “Você precisa entender que nada é como queremos. Se eu fosse louco, deixaria você em Hogwarts, e sabe-se-lá quem descobriria sobre o acontecido e trataria de você o quanto antes. Eu não suportaria perder meu filho, meu único filho, por um descuido bobo! Então, por favor, não toque mais no assunto!” Louis pigarreou sobre o comentário do pai, logo balançando a cabeça negativamente. “Mas o senhor sofreu do mesmo! Claro, não estava estudando, mas isso não muda o fato de que seus amigos ficaram ao seu lado. Maman esteve ao seu lado, não esteve? Eu não tenho ninguém em Beauxbatons. Vic não pode me confortar, não tem Doms para discutir, sinto falta de um ombro amigo, do Albus, do Hugo... Eu não os vejo há meses! Afinal: de que adiantaria me botar em Beauxbatons para me ‘proteger', se eu poderia muito bem machucar alguém em qualquer lugar que eu for? Não sou um monstro! Fui atacado por um, mas não sou!”
Parou um momento para que o superior digerisse as informações, e antes que desse conta, já estava tocando as mãos do mesmo. Sentia Fleur em suas costas chorando, mas se virasse agora, perderia o raciocínio. “Não adianta me mudar de lugar, na verdade isso só arrancaria mais dúvidas sobre o por quê de me tirarem de Hogwarts. O senhor pode me ajudar! Por que não pensou nisso antes? Poderia muito bem me ensinar a controlar os instintos, assim como o fez antigamente. Seria como me ensinar a voar na vassoura novamente! Eu sei que o senhor pode, papa, só, por favor... me deixe voltar para Hogwarts. Não posso suportar estar longe da família, e nem consigo suportar o clima da França!” Aquilo arrancou-lhe um riso baixo e breve, enquanto o rapaz mesmo fitava os olhos do pai, que segurava as lágrimas como quem segura o dragão pelas rédeas. Sem saber exatamente o que dizer, Bill relaxou os ombros e puxou Louis novamente de encontro a um abraço. “Eu tive saudades de você...” Comentou à meia voz, e Louis podia sentir as mãos de Fleur em suas costas, massageando-lhe a pele contra a blusa.
Um dia foi o que bastou para que ele entrasse no expresso e se encontrasse com a testa apoiada na vidraça do trem. O balançar da locomotiva não foi empecilho para que ele pudesse tirar um cochilo e, logo em seguida, acordar para ver um enorme castelo se estendendo pelo horizonte. Um pequeno sorriso brotou no canto de sua boca, mas ao mesmo tempo teve receio da vez que o trem fora atacado por Dementadores. Em seu bolso, o loiro levava a lembrança de sua mãe para Victoire e Dominique. Mais do que vê-las, queria saber como elas estavam, principalmente Vic, a qual tinha contado durante todos os semestres, até mesmo quando ele se recusava a ser ajudado pela mesma. Sua irmã era sua vida, e assim como ela, tinha outra pessoa igualmente importante com que se preocupar. A paisagem passava devagar, mas o coração do francês palpitava com uma intensidade fora do comum. A primeira coisa que queria ver quando passasse pelo portão era Miranda e aquele seu conjunto, pronta para ser esmagada por um abraço dele, assim como Louis foi por Fleur.
Infelizmente, o castelo parecia vazio. Uma única alma feminina ali seria muito, mas dentre os murmurinhos dos colegas e algumas especulações, o Weasley logo deu-se conta de que se tratava de uma festa do pijama para garotas. Não seria difícil -- pelo menos para ele, que conhecia muito bem a peça -- desvendar quem estava por trás daqueles planos.
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Don't let the bastards get you down // Callum e Addie
“People will do anything to avoid pain. And you, my dear, have been chasing it.”
Já era noite e havia passado, há muito, do toque de recolher, portanto, Callum tentava fazer o mínimo barulho possível. Normalmente, tentava se manter dentro das regras, pois sabia que não ganharia nada além de detenções e palavras frias de seu pai. Além de que, bem, ainda era o seu segundo ano, então não tinha muita coisa que ele pudesse fazer que fosse contra as regras, a não ser invadir a ala proibida da biblioteca, mas isso já era outra história. Naquele momento, ele estava mais concentrado em chegar a sala precisa para ensinar a garota nova, como entender inglês e a se comunicar daquela forma.
Me lembre, por que você está fazendo isso mesmo? Seu cérebro resmungou irritado. Callum nunca fora conhecido pela sua paciência, até mesmo as pessoas do terceiro e quarto ano sabiam que era melhor se manter afastadas do corvino de cabelos castanhos e olhos azuis que vivia mal humorado. Entretanto, a garota nova era um caso à parte que Callum, estupidamente, levou para o lado pessoal.
Mas como ele não levaria?
Alguns poucos sonserinos do primeiro ano destrataram Addie da pior forma possível. Jogaram seus livros no chão, brincaram com a cara dela e a xingaram de surda. Não que ela tivesse entendido qualquer coisa daquelas, afinal, ela não conseguia escutar, mas Callum sim, e apesar de ele não fazer a menor ideia de quem era aquela pequena garota encolhida no chão, ele tinha noção que ela era da Corvinal pelo uniforme. E apesar de não serem irmãos de sangue, eram irmãos de casa e Callum não deixaria ninguém a tratar daquela forma. Por isso, depois que conseguiu expulsar os garotos, prometeu a ela que a ensinaria inglês. Quando ela chegasse no final do ano, já estaria aprendendo a se comunicar com as pessoas que não entendiam língua dos sinais.
Agora, ao chegar na frente da porta da sala precisa, Callum nunca se sentiu tão agradecido por Meggie, sua governanta, ter-lhe obrigado a fazer aulas de sinais. Iria ser uma tarefa extremamente mais difícil e cansativa se ele não tivessem um código em comum com Addie.
"Espero que você esteja preparada para virar essa noite comigo, porque eu não vou perder o meu precioso tempo por uma pessoa não interessada em aprender." Callum resmungou tanto falando, quanto em sinais, para que a garota negra a sua frente pudesse entendê-lo. Já era muita coisa ele estar fazendo aquilo por ela, não iria se esforçar também em ser simpático. Era pedir demais do pequeno corvino. "Eu trouxe essas imagens de materiais básicos para você aprender. Lápis, borracha, caneta, tarefa, caderno...essas coisas. Nas outras aulas podemos passar para comidas, roupas e bem depois, para os verbos. Tudo bem para você dessa forma, ou quer dar alguma sugestão?"
Ele direcionou seus grandes olhos azuis para a pequena menina, que parecia bastante assustada com a atitude dele. Não a culpava, a maioria das pessoas se sentiam assim quando estava perto dele. Callum queria apenas saber como ela ficaria se soubesse quem ele era.
Balançou a cabeça, tentando conter um pequeno sorriso. Ele não era o tipo de pessoa que sorria e com certeza não iria sorrir para alguém que havia acabado de conhecer, mesmo que fossem da mesma casa.
"E então?" perguntou novamente, esperando por alguma resposta de Addie. "Alguma sugestão?"
Olá... Okay, definitivamente até hoje não sei começar cartas, mas acho que tudo bem... Entramos em Hogwarts juntos e nunca tive a oportunidade de conversar com você, tirando alguns esbarrões nos corredores.
Acho que coeçar com uma apresentação é melhor... Bem, meu nome é Molly Weasley, tenho 17 anos, estou no sétimo ano de Hogwarts e sou da Sonserina (nossa é sério Molly?) , sou de uma família tradicional de bruxos sangues puros, mas não tenho nada contra nascidos-trouxas e mestiços, acho até legal, ou não, depende das circunstâncias. Nasci e cresci em Londres, meu pai trabalha no ministério e minha mãe também, tenho uma irmã mais nova chamada Lucy e ela está no quinto ano.
Merlin, to me sentindo uma idiota falando essas coisas bestas sobre mim, mas enfim, como é ser um Grifino? Miha família é de grande parte dessa casa, mas sempre tem as exceções... Como foi no baile? Parece que não te vi lá, eu tive que cantar um solo por causa do clube de música, mas você provavelmente deve saber disso. Bom, você gosta de alguma criatura mágica? Sou fascinada por dragões, quando eu sair daqui eu quero ir trabalhar na Romênia com meu tio Charlie e fazer várias pesquisas, publicar livros e várias coisas que ajudem a saber mais sobre eles. Sabia que tem um dragão de ouro puro na China? Ele é raramente visto, sai pelo menos 3 vezes por ano para buscar alimento para ele e os filhotes.
Vou parar de falar de dragões, você deve achar isso entediante, mas me fale um pouco sobre você, gosto de conhecer pessoas, socialização às vezes é legal.
Esoero que responda brevemente, e despculpe por mandar a carta uma horas dessas, mas é o único horário que tenho livre.
Molly Weasley II.
Ps: Cuidado, Salém é ciumenta e pode bicar às vezes, se ela bicar, mil perdões.
But it wont make it that much easier, it might make it worse – POV
first year, House Sorting – 2 0 1 7
Desconfortável, por definição algo que se caracteriza por não oferece conforto. Não poderia descrever com palavras melhor a sensação de incomodo que sentia desde que embarcara em um dos barcos designados aos alunos do primeiro ano até aquele exato momento. Os olhares de outrem provocavam tamanho mal-estar que levava Albus a se questionar se iria algum dia se adaptar a vida em Hogwarts. Seu nome fora anunciado com um tom de autoridade que indicava a urgência que ele se apresentasse a frente o mais rápido possível. Detestava seu nome, mas por ser uma inacreditavelmente desconexo, do que por serem nomes de pessoas falecidas, mas odiava o silencio que acompanhava a enunciação de Albus Severus Potter. Um passo a pós o outro, concentrou-se somente em seguir em frente, a distância até o banco e o chapéu seletor devia ser incrivelmente curta, mas para sua percepção deturpada estava andando havia longos minutos, com os globos oculares fitou demoradamente a mesa dos professores quando finalmente alcançou o objetivo sentou-se de frente para todos os rostos dos alunos. A privação d ruídos era quebrado eventualmente por comentários aleatórios, por vezes conseguia ouvir seu sobrenome sendo sussurrado.
Se impressionou por não sentir peso algum quando o chapéu fora prostrado sobre o topo do crânio. Em sua mente um pequeno filme estava em exibição, viu James dizendo - implicando - que ele seria selecionado para a Sonserina, em seguida o pai oferecendo palavras de conforto e encorajamento, mesmo se ele fosse selecionado para a casa com má fama nunca perderia o amor do pai, em sequência, lembrou-se que sua primeira viagem em direção a escola fora mal aproveitada por causa do temor que sentia. De súbito uma agitação em seus cabelos o trouxe a realidade, apenas alguns segundos tinham se passado, mas o burburinho de conversas dançava por todo o salão principal. O chapéu certamente sabia se tratar de uma celebridade - embora Albus não se considerasse uma - porque a demora em decidir qual casa o jovem pertenceria devia ser uma pausa dramática. “O que temos aqui? Mais um Potter. Me recordo de quando selecionei seu pai, mesmo hoje, continuo achando que ele teria se dado melhor na Sonserina.” Teve a impressão das palavras estarem sendo pronunciadas dentro de sua cabeça, porque não havia reação por parte dos outros. Recordou-se do que o pai havia dito na plataforma 9 ¾ em King's Cross, sobre o chapéu levar em consideração a opinião daquele o qual a casa seria escolhida, mas não trocou nenhuma palavra com o objeto mágico sobre sua cabeça, dessa forma finalmente um forte “Sonserina” repercutiu por toda acústica do âmbito, fazendo cessar todo e qualquer som, nem mesmo a respiração chegava a audição do Potter, mesmo ele se esqueceu de inspirar e expirar, viu diversas bocas se abrirem e os olhares de curiosidade deram lugar para o espanto.
Certamente o momento mais constrangedor de sua vida até então se instalara, o chapéu fora retirado de sua cabeça contra sua vontade, ainda tinha vãs esperanças que ele reconsiderasse e o realocasse para a Grifinória como seu irmão mais velho e seus pais, tios e primos. A professora de pé ao seu lado fez com que ele saltasse do banco, o filho do meio de Harry e Ginny encarou a mesa no da casa de Salazar, as expressões que o encaravam de volta eram menos de surpresa e mais de desgosto. Teve certeza que seu coração sairia pelo o esôfago - se aquilo fosse possível - tamanha a velocidade do pulsar de seu coração. Fora somente quando suas primas Molly e Dominique se levantaram e soltaram um grito de “Uhuuul” que o coração do Albus encontrou um pouco de alívio, em seguida uma grande parte dos sonserinos também aplaudiam, isto serviu muito além do que um simples incentivo, fora a força motora que direcionou o moreno em linha reta para a mesa da casa a qual pertencia de agora em diante, o fez sem abaixar a cabeça, podia ser um primeiranista, mas não iria demonstrar hesitação. A cada passo uma certeza crescia em si, agora não viveria mais as sombras de seu pai ou do irmão mais velho, não seria apenas mais um Potter ou um Weasley na Grifinória, seguiria seu próprio destino, não era o que os demais esperavam, mas era quem Albus queria ser.