Olindo e Sofronia
Olindo e Sofronia são personagens do segundo canto do poema épico Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, publicado em 1581. A sua história é um episódio lírico e dramático que contrasta com os temas de guerra e heroísmo militar do poema.
O rei muçulmano de Jerusalém, Aladinob, furioso com os cristãos que viviam na cidade, planeia um massacre geral. Um ícone sagrado cristão desaparece de uma mesquita onde tinha sido colocado, e a culpa recai sobre a comunidade cristã.
Sofronia, uma jovem cristã "casta, sábia e gentil", decide acusar-se falsamente do roubo do ícone para salvar o seu povo da fúria do rei. Ela é condenada a ser queimada na fogueira.
Olindo, um jovem secretamente apaixonado por Sofronia, ao vê-la condenada, acusa-se a si próprio do crime para tentar salvá-la, alegando que ele era o verdadeiro ladrão. Cada um tenta salvar o outro, pedindo para morrerem juntos.
Comovida pela coragem e amor do jovem casal, a guerreira pagã Clorinda, que acabara de chegar à cidade, intercede junto do rei Aladino. Ela oferece os seus serviços militares ao rei em troca da libertação dos prisioneiros. Olindo e Sofronia são poupados à execução e libertados.
A história ilustra o amor altruísta e a devoção mútua, com cada um dos amantes disposto a sacrificar a própria vida pelo outro. Este tema de amor versus dever e martírio foi muito popular entre artistas.
A sua história oferece um interlúdio lírico e focado em dilemas pessoais dentro do épico de guerra das Cruzadas.
A cena dos amantes amarrados ao poste, prestes a serem queimados, e a intervenção dramática e heroica de Clorinda, tornou-se um tema favorito para pintores, especialmente no período Barroco. Artistas como Luca Giordano, Mattia Preti e até Edgar Degas representaram este momento de clímax visual e emocional.
A história funciona como uma introdução à personagem Clorinda e prenuncia a sua própria redenção, pois, assim como ela salva o casal cristão, ela própria será salva espiritualmente (através do batismo) no final trágico da sua própria história com Tancredo.
A obra de Mattia Preti sobre Olindo e Sofronia é uma das representações pictóricas mais célebres deste episódio da Jerusalém Libertada de Tasso. Preti, um pintor italiano do período Barroco conhecido como "Il Cavalier Calabrese", abordou este tema em várias ocasiões, destacando-se pelo seu estilo dramático e tenebrista.
Existem pelo menos duas versões importantes pintadas por Mattia Preti:
Uma versão notável, datada de cerca de 1660, está exposta no Getty Museum em Los Angeles.
Outra versão significativa, datada de 1646, encontra-se nos Musei di Genova (Palazzo Rosso) em Génova.
As pinturas de Preti sobre este tema são exemplares do Alto Barroco e refletem a influência dos mestres naturalistas, como Caravaggio, no uso da luz e da sombra.
A cena é capturada no seu momento de maior tensão e clímax narrativo: Clorinda chega a cavalo, vestida com armadura, e intercede junto do rei Aladino e dos seus soldados, momentos antes de Olindo e Sofronia serem queimados na fogueira. O desespero do casal e o heroísmo de Clorinda são transmitidos com grande intensidade emocional.
Preti utiliza contrastes fortes de luz e sombra (chiaroscuro) para focar a atenção nos personagens principais e na ação central. A luz incide dramaticamente sobre os corpos expostos de Olindo e Sofronia e na armadura de Clorinda, enquanto o fundo permanece em grande parte escuro e ameaçador.
A composição é frequentemente complexa e cheia de movimento (stile concitato), com figuras contorcidas, cavalos empinados e gestos teatrais, típicos da estética barroca que procurava envolver emocionalmente o espetador.
Preti capta fielmente a narrativa de Tasso, ilustrando o sacrifício mútuo dos amantes e a intervenção da guerreira que, movida pela compaixão, negoceia a sua liberdade.
Eugène Delacroix, um dos líderes do movimento Romântico francês, pintou o episódio de Olindo e Sofronia em 1856. Esta obra é um excelente exemplo do seu interesse em temas literários exóticos e dramáticos que permitiam a exploração da cor, da emoção e do movimento. A pintura está exposta na Neue Pinakothek (Nova Pinacoteca) em Munique, Alemanha.
A abordagem de Delacroix difere significativamente do tenebrismo de Mattia Preti. Delacroix usou a cena para expressar os ideais do Romantismo. A pintura é caracterizada pelo uso vibrante e expressivo da cor, uma marca registada de Delacroix. A luz incide sobre os amantes e Clorinda, destacando a ação contra um fundo mais sombrio, mas sem o uso de contrastes de sombra tão severos como os dos pintores barrocos.
A composição é altamente dinâmica. A figura de Clorinda a cavalo domina o centro da ação, sugerindo movimento rápido e intervenção imediata. Os corpos dos amantes e as figuras em segundo plano criam uma sensação de caos e drama.
Delacroix tinha um forte interesse no Orientalismo. A descrição de Tasso da cidade de Jerusalém e dos seus habitantes muçulmanos permitiu-lhe explorar este fascínio, visível nos trajes e na arquitetura de fundo.
Paolo de Matteis, um proeminente pintor barroco da escola napolitana, criou várias representações da cena "Clorinda Resgata Olindo e Sofronia". As suas obras destacam-se pelo seu estilo elegante, dramático e pela influência de mestres como Luca Giordano.
Existem pelo menos três versões conhecidas e localizadas publicamente desta cena pintadas por Paolo de Matteis:
No Chrysler Museum of Art (Norfolk, EUA): Uma versão a óleo sobre tela, datada de cerca de 1690-1695. Esta pintura é conhecida pelos seus detalhes ricos e pela composição dinâmica que captura o clímax da narrativa.
Na Durham University (Durham, Reino Unido): Outra versão a óleo sobre tela, também datada de cerca de 1690. Esta obra faz parte da coleção de arte da universidade e é um exemplo do seu estilo barroco maduro.
Na Bayerische Staatsgemäldesammlungen (Pinakothek, Munique, Alemanha): Uma terceira versão, com o título "Clorinda salva Sofronia e Olindo da morte pela fogueira".
Nas suas representações, Paolo de Matteis segue a estética barroca, mas com um toque pessoal que evoluiu do dramatismo para um estilo mais rococó ao longo da sua carreira.
A cena central mostra Olindo e Sofronia amarrados à estaca, no meio de uma multidão agitada, prontos para serem queimados. O foco recai sobre a figura heroica de Clorinda, que chega a cavalo para intervir e salvar o casal.
Ao contrário do tenebrismo intenso de Mattia Preti, as obras de De Matteis tendem a usar uma paleta mais luminosa e cores mais suaves, embora mantenham um forte sentido de drama e movimento. Ele usa a luz para guiar o olhar do espetador através da complexa composição, desde as figuras dos amantes até à salvadora Clorinda.
De Matteis foi aluno e colaborador de Luca Giordano, e isso reflete-se na sua capacidade de criar grandes composições narrativas com fluidez e elegância (o fare presto de Giordano).
A obra de Johann Friedrich Overbeck sobre Olindo e Sofronia é um elemento chave do seu trabalho na Villa Giustiniani Massimo, em Roma. Overbeck foi um dos fundadores do movimento Nazareno, um grupo de pintores alemães que procuravam revitalizar a arte cristã através de um regresso aos mestres italianos do Renascimento (como Rafael) e uma vida comunitária. Executada entre 1819 e 1827 a obra faz parte de um ciclo maior de frescos na "Sala de Tasso" (Tasso Hall) da Villa Massimo, onde vários artistas Nazarenos foram contratados pelo Príncipe Massimo para ilustrar cenas da Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso.
A abordagem de Overbeck ao tema é marcadamente diferente das interpretações dramáticas e tenebristas do Barroco. A pintura reflete o desejo dos Nazarenos de pureza e simplicidade. O estilo é inspirado nos pintores do Quattrocento italiano, com linhas claras, cores luminosas e composições equilibradas, evitando o dramatismo exagerado e o movimento turbulento do Barroco.
A cena foca-se na virtude cristã e no sacrifício. Olindo e Sofronia são retratados com uma dignidade e serenidade quase clássicas, mesmo perante a morte iminente. A intervenção de Clorinda é apresentada como um ato de compaixão e heroísmo moral, e não apenas uma ação de batalha espetacular.
Enquanto Mattia Preti usava a sombra e o movimento, e Delacroix usava a cor vibrante para o drama, Overbeck usa a luz e a composição para realçar a pureza moral e a clareza narrativa do episódio.
O tema de Olindo e Sofronia, da Jerusalém Libertada de Tasso, foi ainda representado por Edgar Degas numa obra específica: Olinde et Sophronie (ou Clorinda Resgata Olindo e Sofronia), executada por volta de 1859-1861, é um pastel sobre papel.
Esta obra pertence ao período inicial da carreira de Degas, uma fase em que o artista ainda explorava temas históricos e literários, antes de se focar no Realismo e no Impressionismo, pelos quais se tornaria famoso.
A obra de Degas parece prestar homenagem e inspiração à composição de Eugène Delacroix sobre o mesmo tema.
Embora o tema seja romântico/histórico, a técnica de Degas já demonstrava inovação. O pastel capta o momento dramático do casal amarrado à estaca, com camadas de cor que evocam o vento e a intensidade da cena. O uso do pastel como meio principal para uma obra finalizada, e não apenas um esboço, foi uma das inovações de Degas.
A representação de Degas é um lembrete fascinante da sua formação clássica e do seu interesse inicial em temas de grande drama emocional e literário, antes de se tornar o cronista da vida moderna e do movimento pelo qual é universalmente conhecido.
O episódio ofereceu aos artistas uma narrativa rica em drama, emoção e potencial visual. A cena do casal amarrado à fogueira, prestes a ser consumido pelas chamas, e o salvamento heroico por Clorinda, permitiram composições dinâmicas e o uso expressivo de luz e sombra, características do estilo Barroco.
A história aborda temas de amor fiel, sacrifício, inocência e a intervenção divina ou heroica, que eram de grande interesse para os mecenas e o público da arte ocidental.
O tema permitiu uma exploração da beleza idealizada e da virtude moral, tornando-se um motivo recorrente na pintura, especialmente em Itália, durante os séculos XVII e XVIII. A sua importância reside, portanto, na sua capacidade de traduzir uma narrativa literária poderosa em imagens visuais cativantes e emotivas, que ilustram ideais culturais e religiosos da época.
3 de Dezembro de 2025















