Texto da professora Jacqueline Sinhoretto:
Falo pra você que está desanimado, com muito medo.
Tenho amigues e alunes que estão na linha de frente da nossa luta, pessoas cujos familiares e amigos estão votando na extrema direita e que não querem ouvir nossos argumentos. Vocês são vistos como os soldados inimigos numa guerra que nem começou no Brasil.
É preciso compreender que, além de uma tática de violência direta e riscos de processos judiciais, existe em curso um ataque às nossas subjetividades. Existe uma oposição às nossas opções de vida: ser gay, ser de esquerda, ser professor, ser sociólogo, ser mulher, ser pacifista, acreditar no coletivo. Ontem o coisa ruim disse: "vou acabar com todos o ativismo no Brasil".
Quando alguém fere nossa subjetividade e nossas escolhas de vida, isso desanima, choca, suga nossa energia.
Veja, bem, não é você que está triste e desanimado, há uma estratégia discursiva que cria esse sentimento em você. Entenda isso. Entenda que não é dentro de você o conflito. Entenda que está sendo alvo de um ataque sobre sua forma de ser sujeito, suas escolhas de vida.
Entenda que há várias formas de destruir um sujeito. Uma delas é fazendo acreditar que não vale a pena ser assim, que é melhor desistir.
Se precisar descansar um dia, descanse. Se precisar sair da linha de frente uns momentos, saia. Mas lembre o que esse é o jogo que temos para jogar agora.
Meu marido saiu de casa e foi falar com o vizinho esta manhã. Deu certo. É um a um.
Cuide-se. Cuide das compas e dos parças.
Lembre que o Durkheim explicou que o suicídio aumenta quando nossas formas de existência ficam impedidas de se realizar na prática? Vamos nos proteger, nos cuidar, vamos espalhar amor, acolhimento e compreensão. Vamos sobreviver.
Se estiver muito difícil, se seus parceiros estão muito desanimados e pra baixo, procure alguém que está mais firme, procure energia boa.
É sério, não é bobagem de auto-ajuda. É sociologia dos processos de subjetivação. É ciência e eu estudo isso.