Estação Engenheiro Goulart
Cheguei em casa, tomei um banho demorado, jantei e cĂĄ estou.
Queria te contar que andei no piloto automĂĄtico o dia todo. Talvez por ter acordado de sobressalto atrasada. Ou talvez pela minha agenda do dia, que me levou a um lugar que a muito tempo nĂŁo ia.Â
Queria te contar que hoje andei pelo nosso bairro. Andei pela nossa avenida. Aquela em que tantas vezes caminhamos juntos. Aquela em que eu passei no boteco e comprei algumas latas de cerveja, sĂł pra te fazer uma surpresa ao entrar na ponta na ponta dos pĂ©s e te ver abrir aquele sorriso que sĂł vocĂȘ tem. A avenida em que suas mĂŁos seguraram as minhas, em que seus pĂ©s guiaram os meus, em que seus lĂĄbios se despediram dos meus depois de dizerem entre sorrisos um âme avisa quando chegarâ e em que seus olhos me viram partir no ĂŽnibus tantas e tantas vezes.
Queria te contar que hoje andei pela nossa estação e nĂŁo senti medo. Na verdade, eu quase nĂŁo a reconheci. Aquela escada que eu demorava tanto para subir e que as vezes vocĂȘ tinha que me ajudar a passar por ela, rindo da minha cara dizendo sempre que meu medo dela era bobo... Aquela escada nĂŁo existe mais. Eu nĂŁo precisei me preocupar com o fato de ter que passar por ela sem vocĂȘ do meu lado. Agora existem muitas escadas de concreto, estreitas, com corrimĂŁo. Agora a estação Ă© coberta, nĂŁo da pra sentir a chuva gelada nas costas e nem ver o cigarro se apagando a cada gota.Â
Queria te contar que o nosso bairro parecia diferente sem vocĂȘ. Que nĂŁo sĂł a nossa estação mudou. SĂŁo Paulo mudou sem vocĂȘ. Eu mudei sem vocĂȘ.
Queria te contar que essa semana me perguntaram de vocĂȘ e eu tive que explicar porque fiquei tantos minutos em silĂȘncio antes de conseguir responder alguma coisa.Â
Queria te contar que no meu aniversĂĄrio eu senti falta de vocĂȘ dizendo que era sĂł mais um dia qualquer, e que eu sempre seria a sua menininha com cara de boba e all star do PJ.Â
Queria te contar que todas as vezes que passo em frente ao PJ, que ando pelo nosso parque ou sĂł o vejo de longe, de dentro de um vagĂŁo do metrĂŽ, eu lembro de vocĂȘ vindo na minha direção, de nĂłs dois deitados no puff da biblioteca ou no palco de madeira, lembro atĂ© mesmo de vocĂȘ pedindo pra te deixarem jogar basquete, sĂł para me mostrar que vocĂȘ ainda sabia como fazer uma bela cesta.Â
Queria te contar que ainda tenho suas fotos e que ainda te acho a criança mais fofinha e o homem do sorriso mais lindo do mundo.
Queria te contar que eu sinto sua falta. Todos os dias. Em todos os lugares que eu vou. Em tudo o que eu conquisto e nĂŁo posso mais compartilhar com vocĂȘ.
Queria te contar que hoje, conversando com a lua, eu pedi para ela te iluminar e embelezar sua noite da mesma maneira que faz com a minha todos os dias. Ă bom saber que do outro lado do estado, vocĂȘ vĂȘ a mesma lua que eu. Espero que tambĂ©m pense em mim e em todas as vezes em que vivemos o contrĂĄrio. VocĂȘ aqui e eu ai, separados por 240km. A diferença Ă© que eu voltava pros seus braços e, agora, a cada novo dia vocĂȘ se vai para mais longe dos meus.
Queria te contar que eu espero que vocĂȘ esteja bem e feliz. E que eu sempre vou estar aqui, te amando em segredo e sonhando com dia te encontrar por aĂ, numa noite de lua nova e com as ondas do mar nos mostrando que o que Ă© verdadeiro nunca se vai para sempre.