É muito, muito fácil para mim esquecer que eles eram muito mais novos do que eu sou hoje e já tinham três filhos, com um controle de natalidade precário que eu nem posso sonhar em criticar: tenho acesso a recursos muito melhores e, ainda assim, já cometi meus deslizes.
Tenho dificuldade com teoria da mente. Meu cérebro entra em conflito quando tenta sustentar muitas ambiguidades ao mesmo tempo. Não é que eu não consiga sentir compaixão; é que tenho dificuldade de habitar perspectivas muito diferentes da minha sem reduzi-las a algo mais simples. Prefiro que tudo seja muito mais claro: preto no branco, certo ou errado. Quando não consigo organizar a realidade desse jeito, corro o risco de julgar e ser injusta, porque a vida que eles viveram não cabe nessas categorias.
As cartas do meu pai são doces e ansiosas. Há nelas uma necessidade quase angustiante de comunicar o incomunicável, de transpor distâncias e encontrar uma solução para as adversidades que o meu nascimento parecia ter precipitado. Então por que penso nele como um homem implacável, que me deixava tão apavorada? Até onde minha dificuldade em interpretar as pessoas me impediu de sustentar essas duas versões dele ao mesmo tempo?
Minha mãe já estava grávida do meu irmão antes que eu completasse um ano.













