“Eu os vi ao longe, marchando sob o sol com suas capas tingidas. Carregavam lanças, arcos nas costas e uma lâmina curva em sua cintura. Mas nĂŁo eram as armas que os tornavam temĂveis — era o olhar. O olhar de quem nĂŁo teme a morte. E eu rezo para nunca estar do lado errado de sua justiça.”
Relato de Samir al-Harith, mercador viajante.
Em Quéxe, os Quesari (Khesari), cujo nome significa algo como "protetores" no idioma comum, formam uma corporação militar dedicada à segurança e à manutenção da ordem nas regiões desérticas. Esses guerreiros protegem as fronteiras, patrulham as cidades e garantem o cumprimento das leis. Além disso, são convocados para enfrentar inimigos em campo aberto durante guerras, reprimir insurgências e combater tribos hostis caso necessário.
Os Quesari passam por um treinamento rigoroso nas artes da guerra e da sobrevivĂŞncia no deserto, tornando-se capazes de operar durante meses em ambientes hostis, valendo-se exclusivamente de suas habilidades. SĂŁo mestres em rastreamento, capazes de localizar alvos, presas ou fontes de água com facilidade. No combate, utilizam armas tĂpicas, como o copĂ©s, lanças e arcos recurvos. AlĂ©m disso, sempre carregam consigo um distintivo de sua ordem, o "Sol BĂ©lico" ou Raharu, representado por um sol nascente acima de uma espada curva.
A corporação dos Quesari Ă© organizada em quatro nĂveis distintos e segue a máxima meritocrática, em detrimento de privilĂ©gios hereditários ou raciais, aceitando membros de qualquer espĂ©cie desde que sejam livres e tenham origem quĂ©xita:
Pad-khes: no nĂvel mais baixo da hierarquia encontram-se os pad-khesw, ou “iniciados na vigia”, recrutas em fase de treinamento que sĂŁo submetidos a provações extenuantes que testam nĂŁo apenas sua resistĂŞncia fĂsica e mental, mas tambĂ©m sua capacidade de sobrevivĂŞncia e sua lealdade Ă corporação acima de si mesmos. A maioria dos aspirantes nĂŁo consegue suportar o rigor desse processo e acaba desistindo, para muitos, o peso do fracasso Ă© insuportável, e para nĂŁo carregarem este fardo, optam por tirarem suas prĂłprias vidas. Diz-se que esses suicidas recebem uma segunda chance no alĂ©m, unindo-se Ă s falanges de Caabe, o deus-cĂŁo.
Sar-khes: Depois de concluir com êxito seu árduo treinamento, um Quesari pode se considerar um membro pleno da corporação, sendo promovido a patente de sar-khes, ou “patrulheiro de vigia”. Ocupando a base da hierarquia, os sar-khesw são os soldados mais numerosos da ordem, responsáveis por patrulhar cidades e fronteiras, proteger rotas comerciais, garantir a ordem pública e executar qualquer missão que lhes seja designada, prontos para derramar sangue em nome de Quéxe.
Nesh-khes: acima dos sar-khesw estĂŁo os nesh-khesw, ou "senhores da vigia". Estes sĂŁo oficiais veteranos que exercem funções de comando, liderando destacamentos regionais e coordenando as operações da ordem, seja nas cidades, nas fronteiras ou em expedições militares, alĂ©m de muitas vezes atuarem como juĂzes em disputas locais.
Qaliph-khes: Os qaliph-khesw, ou "chefes de vigia", ocupam a posição mais alta dentro da corporação e atuam como generais, sendo os responsáveis pela estratégia e comando das forças Quesari. Eles respondem apenas ao seu respectivo nomarca e à própria nesubasta. Sua ascensão ao cargo ocorre por meio de votação em assembleia entre os nesh-khesw, e o posto é exercido até o fim de sua vida.
Os Quesari seguem um código de conduta muito antigo, que, segundo as lendas, teria sido entregue pelos próprios deuses no Alvorecer do Mundo. Cada um dos grandes deuses da Enéade contribuiu com uma cláusula e este código existe na forma de um juramento, que é feito da seguinte maneira:
01. Eu juro em nome de Latum, o falcão que vê a verdade nos corações dos homens, servir com honra e lealdade, colocando o bem de minha pátria acima de meus interesses pessoais.
02. Eu juro em nome de Neitemés, a leoa que infunde o sangue dos homens com bravura, servir com coragem no dever e jamais recuar diante do perigo.
03. Eu juro em nome de Caabe, o senhor dos exércitos, que prestarei serviço com disciplina e obediência, reconhecendo apenas os deuses acima de meus superiores.
04. Eu juro em nome da grande esfinge, Anquenom, que zelarei pelo conhecimento e honrarei as tradições de Quéxe.
05. Eu juro em nome do grande leĂŁo solar, Marrazade, que honrarei meus compromissos e a palavra dada, assim como o Sol nasce todas as manhĂŁs.
06. Eu juro em nome de Materá, a deusa mãe que nutre sua prole com leite sagrado, que protegerei os inocentes com espada, arco e lança e não me calarei diante das injustiças.
07. Eu juro em nome de Quéxe, aquele que sopra a vida nos mortais, que jamais brandirei minha lâmina sem necessidade, para que o sangue dos mortais não seja derramado em vão.
08. Eu juro em nome de Bast, a senhora dos mistĂ©rios, que, quando o destino assim exigir, me oferecerei de bom grado em sacrifĂcio pelo bem maior, entregando corpo e alma Ă s causas justas.
09. Eu juro em nome de Maut, aquela que zela pelos mortos, que prestarei o devido respeito aos caĂdos, garantindo que sua passagem para as terras do alĂ©m nĂŁo seja maculada pela desonra.
A histĂłria dos Quesari remonta a tempos imemoriais do Antigo ImpĂ©rio, com os quĂ©xitas afirmando que a ordem teve seu inĂcio no Alvorecer do Mundo, quando os deuses ainda caminhavam entre os homens. Acredita-se que os Quesari foram criados como uma forma de preparar a humanidade para o retorno dos deuses Ă sua morada celestial. Oque se sabe com certeza, no entanto Ă© que durante o Antigo ImpĂ©rio a ordem nĂŁo admitia inumanos e nem mulheres entre suas fileiras, fato que foi alterado com a conquista bastita.
Com a ascensão do Novo Império, as mudanças na estrutura da ordem causaram grandes divisões. Muitos membros, ofendidos com a transformação, abandonaram a corporação, criando companhias mercenárias ou se envolvendo em atividades criminosas nas vastas areias do deserto. Aos poucos, as divergências foram se acalmando, e os revoltosos foram, em grande parte, caçados e eliminados. No entanto, há quem diga que um dos mais notáveis bandos de mercenários, a Companhia da Lâmina Solar, ainda ativa nos dias de hoje, foi fundada por esses desertores Quesari. Segundo a lenda, seus fundadores eram tão habilidosos que, mesmo sendo perseguidos pelos Quesari remanescentes, conseguiram escapar e, como se não bastasse, estabeleceram uma companhia mercenária de grande sucesso. Embora os Quesari afirmem que essa história é mentira, alegando que os desertores apenas se aproveitam de sua influência para se promover, a lenda persiste.