❝ ESPELHO DE OJESED — rise and rise again until lambs become lions...
“Most people are sheep
and sheep don't eat meat.”
— Mr. Mercedes, Stephen King.
DICA: Leia ao som disto aqui (obviamente, não é necessário ouvir tudo, mas a música auxilia na criação da atmosfera indicada).
TRIGGER WARNING: violência explícita; gore; assassinato (de familiares); tortura (de familiares)... Basicamente desgraça bem gráfica (mas com simbolismo, se você conseguir limpar todo o sangue da sua tela).
Era uma curiosidade quase infantil aquela que o acometia ao perceber a intrigante presença na sala escura. Dizia "presença", embora o objeto fosse inanimado, porque emanava tal energia capaz de enganar qualquer um sobre seu estado de consciência. Magia corria por cada arabesco dourado que compunha sua moldura, e a lâmina de vidro refletindo a imagem do jovem Rasputin parecia respirar, aspirando e expirando misticidade. Em meio ao breu, a única luz advinha das íris esverdeadas, agindo como lanternas de jade para guiar a aproximação do rapaz.
Ao alcançar a exótica peça, estendeu a mão para tocá-la. A ponta dos dedos pálidos ameaçaram fundir-se ao material do espelho, pintando as feições do soviético com surpresa e fazendo-o se afastar por mero instinto de sobrevivência. Seu toque pareceu agir como gatilho e aos poucos modificou a imagem. A cena moldou-se aos arredores em seu próprio tempo. Candeeiros apagados foram subitamente acesos por forças ocultas, iluminando paredes repletas de tapeçarias antigas com o brasão de corvos em fundo preto e vermelho; existiam olhos e ouvidos espalhados por cada trançado dos tecidos, Oleg sabia. Também sabia que ocupava posição central em um dos cômodos mais pomposos da nobre mansão pertencente ao seu clã: o Arsenal.
Embora nomeado Arsenal, o âmbito não limitava-se a guardar apenas armas. Abrigava relíquias amaldiçoadas e peças de grande valor para o sobrenome Rasputin, pequenos tesouros recuperados de uma fortuna que outrora ocupara salões inteiros. Agora eram apenas os restos da riqueza esquecida de um velho dragão. Cada qual contava um pedaço de um longo e desgastante histórico familiar permeado por hábitos cruéis e duras penas. Mas não cabia a Oleg analisar a hediondez dos objetos presentes em cena, adornando cada prateleira e preenchendo cada armário atrás de si. Ainda mais quando seu reflexo tomava vida própria e decidia brincar com os pensamentos mais frequentes de sua mente.
A sensação era estranha e o assombraria por dias. Mesmo que a imagem do espelho possuísse sua face — incluindo o sorriso matreiro guardado no canto dos lábios e a malícia dos olhos —, não obedecia seus comandos... Até porque Oleg não conseguia mover nem um dedo. Paralisado, não havia opção se não observar o ser defronte a si retirar das costas dois khanjali, arma típica da região do Cáucaso. Os cabos ornamentados em marfim e esmeralda exibiam suntuosidade ímpar, encimados por lâminas afiadas de metal entremeado por fios dourados, formando complexos desenhos que remetiam aos esquemas anteriormente vistos pelo jovem em livros sobre cultura caucasiana. Eram obviamente moldados à mão, ainda que fossem exatamente iguais em todas as suas medidas e contornos. Um trabalho primoroso executado pelas mãos de seu povo.
Um suave e traiçoeiro arco formou-se nos lábios rosáceos, gêmeos aos seus, assim como as khanjali em seus dedos de pianista. Silhuetas escuras moviam-se de maneira errática às suas costas, parecendo andar a esmo de um lado para o outro. Não eram nada mais do que vultos etéreos, sem formas concretas, mas conforme o reflexo diminuía distância com a mais próximas, os traços ganharam maior clareza.
Estavam ali os clarissímos olhos de sua mãe, de um tempestuoso azul capaz de enregelar a alma dos mais bravos homens; cabelos escuros enrolados em grossas tranças presas em um coque alto; pele pálida como a de um fantasma e pequenas rugas surgindo ao longo das feições rígidas. Era uma mulher bonita no auge de seus cinquenta anos, uma dama da alta sociedade puro sangue, tudo o que as outras senhoras desejavam ser. Quando desconfiada, enfileirava os filhos e os escrutinia um à um de forma a encontrar o que ansiava. Poderiam jurar que aqueles olhos reviravam almas e sabiam tudo o que ocorria em cada canto da casa. Aqueles olhos... Subitamente, as lâminas cravaram-se nos orbes celestes, arrancando-os do crânio com facilidade sobrehumana. O som que deixou a garganta dela não era humano. Acompanhando os rios vermelhos deixados para trás, ajoelhou-se com mãos em forma de garras, agarrando as bochechas em pânico.
Oleg, que assistia tudo fora de seu reflexo, quis gritar. Mas não conseguia. Como um sádico espectador, observou os nervos oculares cravados na ponta das adagas, as escleras vermelhas pelas veias rompidas. Por mais grotesco que a cena pudesse parecer, não conseguia afastar os olhos da lunática expressão de sua própria face ao segurar as armas ensanguentadas. Havia morte em cada linha, cada distinção, cada aspecto. Era apenas morte. Como se o espírito da própria Olga houvesse adentrado seu corpo e feito de sua mente a morada da psicopatia desenvolvida ainda em infância.
❝ — Por ser uma testemunha oculta, com o poder de salvá-lo. Ela escolheu não utilizá-lo. Que receba então olho por olho. E nós não nos importamos se acabar cega. ❞ Ao passo que as palavras deixavam seus lábios, o corpo nocauteado da mulher que anteriormente fora sua mãe derretia. A algidez da tez foi substituída por tons áureos, ouro líquido aos seus pés. O reflexo pisou nos restos dela e as solas douradas deixaram pegadas no assoalho conforme avançava para a próxima sombra. Pintou um caminho de amarelo no chão, e seus estranhos passos pareciam como os de quem sobe degraus, ainda que não houvesse escada alguma ali, apenas madeira úmida e barulhenta.
A próxima sombra era bastante parecida com a anterior, tendo apenas anos a menos em suas costas. Reconheceu-a como uma de suas irmãs. Assim como a mãe, teve alguma parte de si mutilada. Assim por diante, o show de horrores seguiu-se. Línguas pelo que não foi contado, orelhas pelo que foi ouvido e nunca relatado, lábios e dentes pelo que foi fingido, mãos pelo que não foi curado. Os espectros assumiam formas e ajoelhavam-se para receber a sentença das mãos de seu juiz e algoz, como se aceitassem o destino que os levara até ali, uma rendição muda ante o pagamento por seus pecados. Os corpos dissolviam-se em matérias preciosas — prata, estilhaços de rubi, lascas de ametista, partículas de safira. Cada qual pintava alguma parte do corpo gêmeo de Oleg, formando linhas multicoloridas de imensurável valor na pele de seu sanguinário reflexo.
Completando seu caminho de ruína, a distinta figura possuía as mangas da camisa negra puxadas na altura dos cotovelos, onde terminava o tecido e iniciava um fluxo de carmesim advindo da seiva vital roubada de familiares. Embora as pontas dos dígitos fossem prateadas, os braços estavam vermelhos, tal qual as lâminas sujismundas de suas armas. Representava uma profunda dicotomia aquela combinação de branco, preto e vermelho: as cores de sua casa, agora expostos em sua própria pele. A última sombra o aguardava, e nela Oleg discerniu o semblante do próprio progenitor.
Visarion ajoelhou-se, mas ainda de joelhos era altivo, como se o desafiasse a fazer qualquer coisa consigo, implicitamente comentando a incapacidade de sua criança. Até o momento o reflexo exibira frieza cirúrgica ao eviscerar e torturar, mas defronte o homem havia alguma coisa em si que acordara. De súbito, Oleg sentiu-se finalmente adentrar o corpo de seu gêmeo psicótico para deixar que a cena fluísse. Não era mais um espectador de fora, mas sim o próprio reflexo, com o homem que mais odiava aos seus pés, esperando por sua punição.
O sorriso mais sincero do mundo espalhou-se pelo rosto maculado de sangue rubro. Oh, como esperara por aquele momento... Quantas noites sonhara com aquele dia. Sabia que Visarion pereceria por suas mãos, mas não tinha certeza de quanta alegria poderia obter do ato. Sentia o coração batendo acelerado no peito, ansioso para descobrir.
E a lâmina baixou sobre Visarion, uma e outra vez. Em uma avaliação clínica, nenhum dos golpes o mataria, mas o fariam sentir dor intensa. ❝ — Pelas minhas lágrimas e pela minha sanidade. Eu não me importo se acabar morto... Aliás, eu vou fazê-lo desejar que assim estivesse. ❞ Quando o corpo caiu, continuou golpeando, rodeando a estrutura para cortar tendões, desfazer ligamentos e quebrar ossos. Conhecimentos anatômicos para tal não lhe faltavam, assim como o prazer atroz em observar o sofrimento de quem tanto o castigara sem motivos. A cena poderia ser classificada como cômica, se não fosse todo o sangue, porque fora a insistência do próprio patriarca Rasputin que levara Oleg a adquirir maior sabedoria sobre o corpo e seus limites. Como diziam os trouxas mesmo? Ah, sim... Visarion havia cavado a própria cova.
Uma catarse agressiva dominou cada músculo do jovem Rasputin, disparando uma carga de adrenalina violenta em seu corpo. Levou a mão escarlate aos lábios, aos estilhaços de rubi presos à boca vermelha, e espalhou sangue através do maxilar e queixo em gestos descontrolados. Barbarizar o corpo paterno em breve não seria suficiente. A devoção inserida em cada corte e pedaço de pele separada indicava o quanto tentava prolongar o momento porque sabia que sua fome era grande demais. Maior que seu próprio corpo, maior que o mundo. Não havia vingança suficiente para sustentá-lo, agora que acabara com sua linhagem de monstros degenerados.
Em algum momento, Visarion já não era mais Visarion. Ele já não era mais nada que pudesse ser reconhecido como humano, apenas uma estrutura vazia. Oleg, de pé ao lado do que um dia fora o tronco do pai, observava o amontoado de tiras de carne e músculo estriado, ofegante e sôfrego. A visão o satisfez por um minuto. Por um minuto apenas. Deixou-se cair ao chão manchado de vermelho, as pernas abertas e os braços apoiados sobre os joelhos. As khajali tombaram junto de si, flutuando no fluxo sanguíneo. Sua missão estava completada. E como ele se sentia?
Livre.
Não havia tanta leveza em seu interior desde seus sete anos, quando Olga ainda estava viva e saudável. Deixou a cabeça recair para trás e, pela primeira vez em muito tempo, riu. As gargalhadas escorreram como mel dos lábios preciosos, preenchendo o breu que o cercava, enchendo de vida o campo maculado pela morte, abrindo brechas para a luz entrar no coração vazio. Ironicamente, um ato de tremenda hediondez lhe trouxera felicidade. Era tão claro, a resposta sempre estivera ao alcance de suas mãos. Estava salvo: a extinção dos Rasputin era a única coisa que poderia salvar aquele sangue maldito.
Levantou-se. O desenrolar da cena parecera durar horas, mas foram apenas alguns longos minutos mentais. No espelho, seu reflexo ensanguentado o observava. Ambos riam de maneira maníaca, uma risada histérica ecoando pela noite. Era isso, estava claro. Tinha de livrar o mundo não apenas de seus parentes, mas também dos que seguiam seus preceitos e haviam aceitado de bom grado envolver-se nos rituais aterradores e confecções bestiais coodernadas pelos Rasputin. Todos os que de bom grado agrediam suas crianças com as pontas das botas e azarações sussurradas. O mundo precisava ser expurgado da raça pútrida.
O tempo todo seu objetivo fora garantir a ascensão dos Rasputin por outro método, outra via, um caminho que nunca havia sido usado. Eles estariam novamente nas histórias como heróis. Mas primeiro, tinha de dar um jeito em seus indesejados membros. Em sua mente ressoavam palavras ditas por seu pai, agora repetidas em sua própria voz, ditadas em um ritmo frenético e louco: "My podnimem." Sua missão na vida. Eles iriam voltar. Eles iriam conquistar. Eles iriam ascender.
My podnimem. My podnimem. My podnimem.
RESUMÃO: Aos que ficaram confusos, o maior desejo do Oleg é a liberdade. Mas essa liberdade só poderia vir com a vingança contra a família e seus membros, responsáveis por oprimi-lo e ostracizá-lo ao longo de toda sua vida. Tendo uma grande raiva dentro de si, ele não conseguiu pensar em nenhuma outra forma de se vingar se não através da violência, um ensinamento que o próprio pai colocou na cabeça dele desde pequeno a partir do comportamento abusivo e punitivo. Isso é o básico.
As sombras negras que marcam cada membro da família representam a falta de significado que os mesmos possuem para Oleg. Ele foi criado em um campo de batalha, então nenhum dos irmãos (com exceção de Svetlana, que não estava entre os mortos -q) ou pais são considerados familiares. São apenas adversários.
Por fim, ele completa sua vingança e consegue a liberdade de tudo que esconde — inclusive sua insânia. Mas conseguindo sua vingança, como iria viver sem um objetivo? Então ele decide estendê-la para vingar todos os filhos de famílias puristas que nunca puderam se erguer contra seus pais, tal qual ele. Sua recém adquirida coragem e fome de matança o cegam para perceber que seu método não é o mais humano possível... E isso é só o começo, pessoal, esperem o bicho papão que está ainda pior e mais traumatizante.
Ainda tem um simbolismo para antropofagia, mas ssssh, vamos deixar essa parte bem quietinha.
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É claro que Aryan já havia lido sobre o espelho de Ojesed. Palavras marcadas a tinta em pergaminhos antigos relatavam sua história e seus efeitos: como aquele pedaço de vidro enfeitiçado havia conduzido à loucura grande parte dos que se atreveram a observá-lo por tempo demais. Entretanto, nehuma descrição chegava aos pés de vê-lo pessoalmente, de observar com olhos nus cada marca talhada em ouro e cada pedra preciosa nele incrustada. Com a ânsia comedida de quem se porta a algo de notório respeito, Nott deu um passo a frente, deixando a luz capturar e refletir no objeto a própria silhueta.
O que, no âmago de seu ser, mais desejava? Reconhecimento? Poder? Enquanto olhava fixamente para as pupilas enegrecidas que a observavam na mesma intensidade, a visão periférica capturou um movimento. Olhou para trás de imediato, esquadrinhando a retaguarda em desconfiança; mas nada vira. Quando voltou a fitar o espelho, o coração vacilou antes de retomar à toda velocidade.
Havia alguém atrás de si.
O capuz espesso blindava-lhe parcialmente a vista da face, mas a Wasser não precisava daquilo para reconhecê-lo. Não quando havia ouvido tantas histórias a seu respeito. Não quando o rubro de suas íris em fenda brilhavam ante a iluminação parva daquele recinto.
A figura do Lorde das Trevas era imponente, exatamente como havia imaginado. O observou erguer as mãos e deslizar para trás o tecido, revelando o rosto ofídico em toda a sua gotesquidade, e, quando as palmas tocaram-lhe os ombros, a imaculada Carrow quase pode sentir o calor do afago. Aryan não sabia o que falar ou o que pensar; seu corpo ardendo em adrenalina. Ainda assim, seduziu-se a acreditar que o que via no gesto era orgulho, era confiança; Que por meio de um encarar silencioso e intenso, o próprio Voldemort delegava-lhe a missão de perpetuar o seu legado.
Aryan sorriu.
--- Meu mestre… --- Descansou as pálpebras ao mesmo tempo em que curvava o tronco numa mesura; todo o respeito demonstrado a ele jamais seria o suficiente. Voltando a atenção para a superfície reflexiva, notou, com sobressalto, a mesma marca que um dia fora confidenciada a si estampada bem ali, em seu antebraço direito. Diferente da de Alecto, contudo, aquela movia-se num ritmo lento e infindável. Crânio e serpente; entrelace.
Pôs a mão no próprio braço e a ponta do indicador passou a contornar os traços do desenho. Queria arranhá-lo, perpetuá-lo ali ela mesma. O Lorde das Trevas ainda a olhava, agora inclinando-se vagarosamente na direção de seu ouvido. Quando estava a centímetros de distância, tão perto que deveria ter sido capaz de escutar sua respiração, Nott sentiu o corpo estremecer naquela mistura anestésica de excitamento e medo.
--- Mate todos eles. --- A voz grave e rouca, aos moldes da imaginação obsessiva, ecoou em sua mente.
Dentre os descendentes mais novos dos Kaisekamp, Lutz era considerado o mais responsável. Isto é, quando você relevava que Erik Kaisekamp II sempre seria o garoto de ouro da família, e que Eden Kaisekamp lutava diariamente pra sair da sombra do irmão. Enquanto isso, Lutz estava lá, querendo distância daquele tipo de drama. Todavia, de alguma forma, ele se viu sugado para isso quando a família começou a tomá-lo como referência acadêmica e de bom comportamento. Quer dizer, não é como se ele fosse um cara responsável, ele não era – mesmo, acredite –, é só que ele tentava não ser pego. Quando não tinha jeito e ele era pego, não havia muito a se fazer a não ser tentar remediar os estragos. Não media consequências ao usar seu carisma para conquistar as pessoas e sair até das situações mais complicadas. Toda a questão residia no fato de que seus melhores amigos eram os primos problema da família: Axel Kaisekamp e Eike Kaisekamp II. Quando se têm amigos como esses, não é necessário muito para ser considerado responsável.
Lutz Kaisekamp não seguiria o negócio da família em Direito e negócios, faria Medibruxaria e trabalharia com os casos que ninguém conseguia resolver. Epidemias inexplicáveis, casos repentinos que logo se tornavam crônicos, doenças que foram extintas há anos mas, de alguma forma, reapareceram. Tinha um futuro brilhante a sua frente.
Mas isso era o que os pais queriam enxergar, um garoto bom demais para ser verdade, e pregavam a palavra para o resto da família. Lutz não se importava, ele era complacente com o teatro dos pais desde que não incomodasse as vontades dele. Bem sinceramente, Lutz não se importava com muitas coisas na vida, e todas elas giravam em torno do próprio ego dele. Sua principal motivação era ter seu intelecto entretido e corpo físico extasiado, ele queria se sentir completo e pleno. Seu comprometimento moral não era muito extenso, mas também, ele era um Kaisekamp. Não era a favor de agressão, tortura, nada que não fosse realmente necessário; e compactuava com todos os esquemas de corrupção com o banco da família. Não havia muito a se fazer sobre isso, se os Kaisekamp não se metessem nesses negócios, outras pessoas se meteriam. O ser humano era inerentemente corrupto. Então que pelo menos fossem os Kaisekamp a fazer isso, pois ele poderia continuar confortável em sua pilha de status social e dinheiro.
Lutz era o garoto que fazia caos com os amigos no corredor, mas de alguma forma, conseguia manter uma reputação de, no fundo, ser um bom garoto. Boys will be boys. Na cultura do patriarcado, que passava a mão na cabeça de qualquer cara com aparência, status e dinheiro, ele estava em uma posição muito confortável, e não tinha a mínima pretensão de ir a lugar algum.
Falar assim faz parecer que ele é invulnerável demais para se submeter a coisas como medos e sentimentos, fraquezas. Novamente, é conveniente fazer as pessoas acreditarem nisso, não leva muito esforço. Como já foi dito aqui, Lutz era um cara que gostava das coisas convenientes a ele — será que isso fazia dele um oportunista covarde? talvez, mas ele tinha instintos de um sobrevivente, sem dúvidas —. O Lutz estava longe de ser invulnerável, apesar do semblante de quem tinha tudo sob controle sempre, e tinha medos, infelizmente.
Seu maior medo girava em torno da morte, tortura, sangue, órgãos expostos e corpos abertos ao ar livre. A figura se borrava muito em suas fronteiras, se ele tinha medo de ser a pessoa a fazer a tortura, ou se ele tinha medo de morrer da mesma forma. Talvez fossem ambos, talvez não fizesse muita diferença. Lutz era uma pessoa com alinhamento moral chaotic neutral, ele só queria o caos, não tinha mesmo vocação para tortura física e aquele tipo de coisa. Você sabe do que eu estou falando. Se todos se submetessem àquilo, o que eles se tornariam? Trouxas? Animais? Não, não senhor. Não havia nada que um bom duelo não resolvesse, e se os danos colaterais feitos fossem brutais e grotescos, era problema de quem perdesse. Duelos e torturas eram coisas diferentes.
Todavia, Lutz não tinha problemas com mexer com o psicológico das pessoas, saber seus piores medos e usá-los contra elas. Torturas só em caso de necessidade, quando ele ou alguém a que ele era leal estava em risco. A faceta de humor e carisma desaparecia em uma cortina de fumaça, e o verdadeiro lado Kaisekamp do alemão surgia. Até certo ponto, ele gostava de ter psicometria e mexer com memórias, dava combustível a curiosidade dele. Saber o que as pessoas faziam e sentiam quando elas achavam que ninguém estava vendo. Isso sim era poder. Saber essa informação, e ver a pessoa se contorcer em desespero, por uma ferida que nunca seria encontrada em cicatrizes da pele. Uma ferida que ainda não tinha cura e que ela levaria por anos a fio, provavelmente pelo resto da vida. Existiam poções para feridas físicas, mas até onde ele sabia, a medibruxaria não havia feito grandes avanços em curar traumas emocionais. Muitas vezes o trauma continuava até com as memórias apagadas porque a sensação, a impressão que o fato deixou na alma do bruxo, isso nunca desapareceria. Você pode até não se lembrar do nome de uma pessoa, mas você certamente se lembra de como ela te fez sentir, certo?
Outro grande medo dele era ridículo para qualquer pessoa que nunca esteve na condição financeira de famílias como a dele: ficar pobre. Você consegue imaginar o terror que seria? Precisar contar moedas para comprar coisas, e até se alimentar? Saber exatamente quanto você pode gastar por mês? Jamais. Ele morreria antes de virar pobre e viver como um trouxa. Não que ele tivesse uma repulsa ativa por trouxas, como muitos amigos dele, que seguiam a ideologia “vamos exterminar todos os trouxas”. Ele odiava trouxas por tudo o que fizeram com os bruxos no passado, e tudo o que fariam se soubessem que o mundo bruxo existia. Ia ser uma nova chacina, porque os trouxas tinham esse instinto de destruir tudo o que desconheciam. Quando Lutz pensava nisso, começava a sentir a calma habitual ser oprimida no seu corpo, substituída por uma fúria intensa que queimava seu bom senso.
Lutz não tinha gosto algum por tortura física, e prezava demais seu bem estar corporal pra se submeter à coisas como o Clube de Duelos secreto --- ele sabia, claro que ele sabia, a fofoca rodava e Durmstrang não era lá um estabelecimento grande. Ele queria ser estimulado por sua mente, queria ter seu intelecto e as barreiras da sua sanidade mental desafiadas diariamente. Por isso, ele sabia onde cada boggart de Durmstrang se encontrava, e fazia questão de tentar identificar quando um novo surgia. E ele ia lá, para enfrentar os boggarts sempre que se sentia ocioso. Nunca era um por vez, geralmente eram três, quatro boggarts de uma vez só. Quanto menos tempo durasse pra derrotar um, melhor --- e ele melhorava sua performance com o tempo, sim.
Segundo sua experiência, seu próprio medo estava relacionado com raiva e desprezo, não com melancolia. Seu boggart nunca assumia uma forma só, ainda mais quando enfrentava múltiplos boggarts ao mesmo tempo. O sentimento de repulsa e pavor se apoderava do corpo do Kaisekamp, toda a classe que ele tanto se orgulhava ia por água abaixo. Cada cena em sua frente virava um alvo, ele pretendia obliterar cada uma delas da forma mais eficaz possível. Uma, duas, três cenas. Três medos diferentes.
Um. Lutz estava deitado no chão, seu corpo aberto e os órgãos expostos, alguns até espalhados pelo chão, pulando para fora. Sangue por todo lado. O coração ainda palpitava exposto no peito, e a dor era algo que ele não conseguia conceber. Em cima do corpo estava uma figura com roupas esfarrapadas e semblante selvagem. Não se via varinha, e sim um facão cego. Ao levantar a cabeça, a figura era ele mesmo.
Dois. Ele estava em uma camisa de força, sobrancelhas e cabelos raspados, suor em excesso e falta de controla das capacidades fisiológicas. Ele havia enlouquecido, perdido completamente a cabeça. Estava vivo, mas aquilo não era vida, ele era só uma carcaça com sangue pulsante. Tudo o que estudou durante anos se perdera em uma mente que pegara uma só passagem no trem da insanidade.
Três. Vivo e são, mas sem prestígio algum. Lutz se via no meio da Berlin bruxa, jogado como um qualquer, um mendigo, um selvagem. As pessoas passavam e o olhavam como se fosse uma criatura, não um bruxo. Ninguém sabia quem ele era. Sem ouro, esquecido e jogado na rua da amargura.
Três cenas desapareciam em uma fumaça dourada, tudo o que restava era um garoto com mãos ensanguentadas e lágrimas que caíam compulsivamente. Porque Lutz sabia que, quanto maior a altura, mais dolosa era a queda. Mas ele não conseguia evitar, porque ele estava sempre nas nuvens, acima de quaisquer problemas e desavenças terrenas.
A diferença entre céu e inferno é uma linha tênue, e ele já não sabia distinguir.