CONTO DE CONCHAS: Hitagi Grampeador
Conto: Hitagi Stapler — Karamonogatari Fonte: Karamonogatari — PAPERCLIP Tradução: Kiilo — Monogatari BR
001 Eu amo Hitagi Senjougahara.
Por quê? É simples, na verdade — eu a amo porque ela é a Hitagi Senjougahara.
Eu sei que isso soa tautológico, mas a Senjougahara não é alguém que você possa resumir em uma única frase, então isso é o melhor que consigo fazer.
Eu amo Hitagi Senjougahara, porque ela é a Hitagi Senjougahara.
Me pergunto se isso é o bastante para uma nota de aprovação?
Um A pelo esforço?
Um B também já estaria bom... É uma tarefa difícil.
Claro, reduzir alguém a poucas palavras assim já seria exigente independentemente de quem fosse o assunto, mas quando se trata da Senjougahara, em particular......
É categoricamente impossível.
Esqueça tentar fazer isso em uma frase — um parágrafo inteiro mal arranharia a superfície. Seria preciso um livro inteiro só para alcançar uma breve visão geral, e mesmo assim... não sei por onde começar.
Talvez... Talvez, no mínimo, eu possa começar pela única coisa da qual tenho certeza.
A verdade mais fundamental que aprendi.
Um fato, pode-se dizer.
Algo que eu sei.
Hitagi Senjougahara... vive uma vida ideal.
Sim, isso mesmo.
Pode parecer contraintuitivo começar com uma afirmação tão impossível assim, e não duvido que tenha levantado algumas sobrancelhas eu dizer isso com tanta convicção.
E talvez seja um pouco presunçoso — e até meio desagradável — falar da vida de outra pessoa desse jeito. Para deixar claro, se existe algo em que acredito firmemente, é que a vida dos outros... quando se trata da vida de alguém, não importa o quanto ela se cruze com a sua ou o quanto de responsabilidade você sinta por ela — a vida de uma pessoa deve pertencer apenas a ela mesma.
Essa é uma linha que simplesmente não se pode cruzar — ninguém pode. Eu acredito nisso do fundo do coração.
No entanto, estou abrindo uma exceção.
Porque Hitagi Senjougahara não é qualquer pessoa — se fosse para dizer, eu diria até que demonstrar um pouco de exagero faz parte da assinatura dela.
Então... considere isso uma homenagem, por assim dizer.
Para colocar em perspectiva: aparentemente, ao longo da vida, estima-se que uma pessoa comum conheça cerca de 1.500 pessoas.
Se estivermos falando apenas de interações básicas, o número sobe para algo próximo de 80.000. Oitenta mil. É muita gente, mais do que nossas pequenas mentes humanas conseguem imaginar realisticamente, e ainda assim... você poderia viver múltiplas vidas sem encontrar alguém tão absurdamente confiante quanto Senjougahara nesse aspecto.
Ela é realmente única.
Poucas pessoas poderiam declarar com tanta ousadia que sua própria vida é ideal, e embora isso não seja exatamente uma observação que a própria Senjougahara tenha feito — pelo menos não diretamente — ela não deixa margem para dúvidas.
Então, imagino que você pergunte: por quê? Quando, e como?
São todas ótimas perguntas.
Não é incomum que pessoas não familiarizadas com a Senjougahara assumam que sua atitude direta venha de uma trajetória pessoal igualmente direta. Naturalmente, você poderia argumentar, nenhum caminho pela vida é completamente reto. Por mais privilegiada que uma pessoa seja, todo mundo enfrenta alguns obstáculos no caminho, e talvez fosse simplesmente que a estrada em que Senjougahara se encontrou era incomumente plana. Se algum tipo de tribulação faz parte do percurso, alguns pensariam — Senjougahara deve ter acertado uma tacada perfeita.
Faria certo sentido.
Isto é — se fosse verdade.
Eu já me sinto um pouco sujo por colocar palavras na boca dela, e seria deselegante contar a história em seu lugar, mas acredito que a maioria dos meus leitores já esteja familiarizada. Essa história já foi contada antes — e de maneira mais competente do que eu jamais conseguiria, inclusive. A situação terrível em que ela se encontrou ainda no ginásio, o estado miserável em que ficou conforme sua família se despedaçava, e o intenso tumulto emocional trazido pelas consequências disso. Situações que aconteceram, circunstâncias pelas quais crianças jamais deveriam passar, desfechos que iam muito além das dores normais do crescimento.
Quando Senjougahara entrou no ensino médio, depois de ter precisado afastar sucessivas tentativas de vigaristas inescrupulosos tentando explorar sua vulnerabilidade, ela acabou recorrendo a um desejo feito a um caranguejo. Apenas para obter um pequeno alívio para seus sofrimentos, ela precisou depender de superstição.
Ela se envolveu com uma monstruosidade.
E embora receber a bênção de um deus tenha lhe concedido alguma paz de espírito, ela também veio envolta numa maldição. Isolamento, enfermidade, apatia — basta dizer que até mesmo conseguir pontuar com uma tacada a menos parecia algo impossível de antemão. Enquanto seus colegas podiam tacar de uma grama bem aparada, Senjougahara foi colocada diretamente fora do campo.
Mas isso não a impediu.
Ela sofreu bastante, às vezes através de uma dor desmedida, mas quaisquer provações que enfrentasse nunca foram — para ela — algo tão dramático a ponto de se tornarem um obstáculo fundamental à sua sobrevivência. Na verdade, até eu chamando isso de “provações” é algo que ela acharia absurdamente pretensioso (desculpe, Hitagi).
Ela é incrivelmente forte.
Pelo menos, aos meus olhos.
Aos olhos da própria Senjougahara, não era nada demais.
Embora muitas pessoas em seu lugar tivessem parado para recuperar o fôlego, seguir em frente era algo natural para ela. Não era uma demonstração particular de força, nem uma prova de sua inteligência. Não. Simplificando — da maneira como ela enxergava as coisas, Hitagi Senjougahara nunca teve outra escolha. Enquanto se mantinha ocupada vivendo, certas coisas aconteciam — e, ao continuar vivendo, outras coisas também aconteciam. No geral, embora pudesse se orgulhar de aspectos da própria vida nos quais havia feito progressos inquestionáveis, ela não se dava ao trabalho de se responsabilizar por coisas que estavam fora de seu controle — os acontecimentos que recaíam sobre ela, fossem eles bons ou ruins.
E...
Assim, quando a faculdade já despontava no horizonte, suas circunstâncias haviam melhorado. Se isso era fruto de sua silenciosa perseverança ou apenas um feliz acaso do destino, essa diferença tinha pouca importância para ela.
Ela era grata.
As férias de primavera chegaram, e ela pôde viver uma vida pacífica e despreocupada. Um semblante de calor havia retornado ao seu lar nos Apartamentos Tamikura, ela conseguiu se reconectar com uma companheira dos velhos tempos, aproximou-se um pouco mais de seus colegas de classe (bom, de apenas dois deles, na verdade), e até se viu como a heroína de sua própria aventura romântica. Uma de verdade, desta vez.
Uma verdadeira história de amor.
Tudo isso já era mais do que suficiente.
Objetivamente falando, não era muita coisa — mas era felicidade de sobra para ela, e ela era mais do que grata por isso. Era a única coisa que, independentemente da impassibilidade com que encarava o mundo, ela fazia questão de nunca esquecer. Mesmo que ainda existissem coisas não resolvidas, ou imperfeitas — Senjougahara seguiu em frente com convicção.
“O que aconteceu, aconteceu, e o que acontecerá, acontecerá.”
Hah — eu pareço meio ridículo dizendo isso, não pareço?
Como se ela fosse dizer algo tão vergonhoso assim.
Imitação não é a forma mais sincera de admiração? Senjougahara me ensinou tantas coisas... então pensei em tentar imitá-la um pouco. Mesmo que não seja exatamente uma lição que aprendi com ela, ainda assim foi uma lição que ela me ensinou.
É por isso que ela tem minha admiração infinita. Meu amor infinito.
Francamente, os dois são a mesma coisa.
Ou pelo menos se tornaram a mesma coisa em algum momento do caminho.
É difícil apontar exatamente quando sentimentos de admiração criam raízes e se transformam naquela árvore florescente que gostamos de chamar de “amor” (uma cerejeira, essa é a mais romântica), mas se eu tivesse que escolher um momento... se alguma cena pudesse simbolizar o instante em que me apaixonei por Senjougahara — teria que ser naquela noite. Naquela noite, dentro daquele cursinho abandonado e fracamente iluminado, onde ela ficou cara a cara com um ocultista de camisa havaiana mal-educado (espirituoso, ele diria), seu caranguejo que roubava peso, e um garoto que supostamente deveria apenas observá-la salvar a si mesma.
Para Senjougahara, ele era seu salvador.
Ela insistia nisso.
E eu, um completo estranho — por mais patético que seja admitir, me apaixonei por ela quase imediatamente.
Não acho que se apaixonar seja algo de que se deva sentir vergonha, mas ainda assim vou me permitir ficar sem graça por ser tão fácil de conquistar. Eu poderia até dizer — com não pouca quantidade de orgulho — que, em mais de um sentido, sou o maior fã dela.
Se eu não fosse tão consciente do meu histórico impecavelmente limpo como um respeitável membro da sociedade, sem dúvida você me encontraria chegando em casa todos os dias para um quarto abarrotado de produtos temáticos da Senjougahara. Otakus recebem uma má fama, mas eu acho que é preciso bastante coragem para colocar sua posição social em risco desse jeito por alguém que você ama. As pessoas adoram reclamar dizendo “É só uma personagem!” como se fosse tão ridículo assim valorizar algo que você não pode abraçar.
Seja honesto — você amaria sua namorada se ela fosse uma minhoca?
Espero que sim.
É isso, vou vestir minha camiseta “I ♥ GAHARA” agora mesmo, não me importo se ela desaprovar.
...Ainda assim.
Ainda assim, apesar de ser o maior fã dela, existe uma certa pergunta à qual sempre volto — ou melhor... talvez seja exatamente porque me apaixonei tão desesperadamente pela Hitagi Senjougahara que acabo preso nisso.
Uma dúvida barata, daquelas que às vezes fazem meu coração vacilar:
Se essa felicidade modesta é suficiente para que ela considere sua vida ideal, se sua decisão de seguir em frente não deixou espaço algum para arrependimentos, então eu me pergunto —
Senjougahara alguma vez olha por cima do ombro?
Por todas as palavras atribuídas à sua personalidade, e pelas raras reminiscências que ela compartilha em um tom distante, mergulhado em meias-verdades e mentiras brincalhonas...
Será que ela sente nostalgia?
Eu frequentemente penso nisso —
É um pouco feio lançar dúvidas sobre justamente aquilo que acabei de dizer ser o que melhor a define, mas — por mais desumana que sua coragem pareça ser, por mais inabalável que sua determinação seja, deve haver alguma coisa da qual ela ainda se arrependa, certo?
Ao menos uma pequena coisa.
Seres humanos — não, até mesmo monstruosidades — ainda que vivam orgulhosamente a vida mais feliz e satisfatória que consigam imaginar, deveria existir uma pergunta que nos une a todos:
“E se tivesse sido diferente?”
Poderia ter sido diferente?
É um hipotético inevitável, algo que você poderia muito bem chamar de fundamento da nossa imaginação. O primeiro ato da narrativa — como ela responderia a isso?
Talvez ela argumentasse que não há razão para ser tão gananciosa, e que não adianta se preocupar com hipóteses — especialmente hipóteses sobre o passado.
Talvez ela tivesse razão.
Racionalmente falando — se você quisesse ser eficiente. Uma pergunta como “E se tivesse sido diferente?” pode ser respondida de um milhão de maneiras diferentes, e se uma pergunta possui um milhão de respostas indistinguíveis, até que ponto você pode dizer com confiança que existe algum propósito em fazê-la?
“Poderia ter sido melhor, mas também poderia ter sido pior”, ela declararia, acrescentando que “O que quer que aconteça no futuro pode ser bom, ou pode ser ruim. Vai acontecer de qualquer jeito, não é? Não existe uma boa razão para ficar remoendo o passado — e quando se trata de sofrer antecipadamente pelo futuro, menos ainda.”
Ahaha...
Desculpe, estou me empolgando de novo.
Ela provavelmente não diria isso — pelo menos, não exatamente com essas palavras. Ainda assim, gosto de pensar que ela diria algo igualmente absurdo. Uma afirmação descaradamente direta enquanto olha você bem nos olhos, sem deixar qualquer maneira de saber se suas palavras eram uma verdade genuína, um disfarce descarado para seus pensamentos mais íntimos, ou apenas sua inevitável marca registrada de humor seco.
Era tudo isso ao mesmo tempo? Quem poderia saber?
Ninguém além dela mesma saberia a verdade.
Ninguém, nem agora nem nunca, porque esse tipo de verdade existe apenas dentro da mente de uma única pessoa — seja ela quem for.
Ainda assim —
A vida dela já é ideal. Ela não deseja particularmente mudanças...
Isso é incrivelmente forte da parte dela, sim. É admirável, desejável, inspirador, e é a razão pela qual eu a amo, mas — sinto um leve traço de tristeza ao pensar nisso. Às vezes, existe um ar melancólico nela. Às vezes, é como se ela se recusasse a olhar para qualquer coisa além do presente — a deixar seus olhos vagarem.
Para lugar algum.
Quando você se recusa tão completamente a sofrer pelo futuro, como poderia sequer olhar em direção a ele? Logicamente falando, não se pode ter uma coisa sem a outra. Por toda lógica possível, ou você contempla as possibilidades, ou desvia o olhar delas.
Em seu instinto de seguir em frente... talvez o futuro seja algo que Senjougahara tenha, na verdade, deixado para trás.
Ela se comprometeu com isso, mas depois que tudo foi resolvido, agora que conseguiu seguir em frente com sucesso — o que vai vir depois? Ela continuará andando cegamente, sem saber se está avançando ou retrocedendo? Ou melhor, será que ela chegou a um impasse?
Este é realmente o ponto final de Hitagi Senjogahara?
No fim das contas, eu sou apenas um estranho em sua vida, e não tenho o direito de julgá-la… mas será que precisa ser tão agridoce assim? Se ela realmente é feliz demais, satisfeita demais com a vida para desejar isso por si mesma — seria errado desejar isso em seu lugar?
É apenas um pequeno desejo, embora profundamente egoísta.
Existem desejos grandiosos que as pessoas possuem, coisas que mudariam fundamentalmente o mundo para melhor, ou pelo menos mudariam fundamentalmente suas vidas — esse não é o meu desejo. Sua realização não faria diferença. O mundo permaneceria o mesmo.
Mas não consigo evitar pensar, talvez —
Se as coisas fossem um pouco diferentes…
Não outro mundo, nem outra vida.
Só talvez —
Numa vida mais ideal, Hitagi voltaria a seguir em frente?











