ENTREVISTA: Nisio Isin ⚯ Hirohiko Araki (2006)
Fonte: Nisio Isin and Araki Hirohiko Interview (2006)
Nisio Isin e Hirohiko Araki conversam sobre JoJo's Bizarre Adventure, mangås shounen, inspiraçÔes e as diferenças entre escrever e desenhar.
Esta entrevista foi publicada na revista especial Nisio Isin Chronicle, de 30 de janeiro de 2006, dedicada Ă s obras do autor.
Contém alguns spoilers de JoJo's Bizarre Adventure.
Nisio Isin: Autor da série Monogatari, Katanagatari, entre outras. Na época da entrevista, ele havia acabado de concluir a série Zaregoto. Os primeiros arcos de Bakemonogatari jå haviam sido publicados em revista, mas ainda não tinham sido lançados como volumes encadernados.
Hirohiko Araki: Criador de JoJo's Bizarre Adventure. No momento da entrevista, ele estava no meio da Parte 7: Steel Ball Run.
PONTOS EM COMUM ENTRE AS OBRAS DE ARAKI E NISIO
Entrevistador: Aparentemente, Araki-sensei estreou como mangakĂĄ no mesmo ano em que Nisio-san nasceu.
Araki: Eu estreei na edição de Ano Novo de 1981 da Weekly Shounen Jump.
Nisio: Parece destino... se Ă© que dĂĄ pra chamar assim, haha.
Araki: Isso Ă© incrĂvel. Com 24 anos, vocĂȘ jĂĄ escreveu tanto em apenas 4 ou 5 anos.
Nisio: NĂŁo sei por quanto tempo ainda vou conseguir continuar escrevendo, mas por enquanto, vou escrever o mĂĄximo que puder. Estou no meu 15Âș livro agora.
Entrevistador: Araki-sensei, depois da sua estreia, as coisas fluĂram tĂŁo bem?
Araki: Nada disso. Sinto que só comecei a lapidar minhas habilidades depois de estrear. Me deixaram estrear antes mesmo de eu ter um estilo ou originalidade como mangakå. Tive que aprender muita coisa naquela época, e só fui realmente começar de verdade com JoJo's Bizarre Adventure.
Nisio: Eu tambĂ©m adorava seus mangĂĄs antes de JoJo, como Mashounen B.T., GorgeousâIrene e Baoh Raihousha. Seus mangĂĄs sĂŁo como as minhas raĂzes â aprendi muita coisa com eles.
Araki: Ah, sim. Seus romances realmente parecem ter alguns pontos em comum. Eu comecei a ler a partir de Kubikiri Cycle [primeiro livro da sĂ©rie Zaregoto] e ainda nĂŁo cheguei nos mais recentes, mas seus personagens sĂŁo bem modernos. Talvez seja porque muitos deles sĂŁo gĂȘnios, mas todos parecem se achar superiores e nĂŁo respeitam os outros. Achei interessante como o protagonista tenta enfrentar esses gĂȘnios mesmo se sentindo inferior. Os diĂĄlogos deles soam como slogans publicitĂĄrios. Eu gosto disso. Tipo aquelas frases no começo de cada capĂtulo. O protagonista vive soltando esse tipo de frase. Achei isso bem original e interessante.
Nisio: Muito obrigado. Minhas mĂŁos estĂŁo atĂ© tremendo. Fico realmente feliz por saber que vocĂȘ leu meus livros. Acho JoJo um mangĂĄ maravilhoso, e queria que toda a humanidade pudesse lĂȘ-lo. Ă tĂŁo bom que me dĂĄ vontade de sair recomendando pra todo mundo... de alguma forma, sinto que preciso fazer questĂŁo de dizer o quanto eu gosto.
FAZER OS PERSONAGENS PARECEREM PODEROSOS USANDO FALAS IMPACTANTES
Nisio: VocĂȘ disse antes que eu escrevo frases que parecem slogans publicitĂĄrios, mas acho que isso Ă© em parte por sua influĂȘncia. NĂŁo Ă© sĂł um vĂcio de linguagem, Ă© uma frase Ășnica que resume o personagem. Uma frase que sĂł aquele personagem poderia dizer...
Araki: Eu tento colocar na fala do personagem a filosofia pessoal dele. A forma Ășnica como ele pensa.
Nisio: Talvez seja por isso que vocĂȘ Ă© diferente. Mesmo em outra histĂłria, ninguĂ©m mais poderia falar aquelas frases. Se alguĂ©m usasse suas falas, elas nĂŁo se tornariam citaçÔes famosas. O âOLHA O ROLO COMPRESSOR!â sĂł causa impacto porque Ă© o Dio quem fala.
Araki: VocĂȘ tem Ăłtimas frases tambĂ©m. Tipo âSempre tem alguĂ©m melhor que vocĂȘ, mas quando no topo todos ficam baixoâ, e muitas outras. SĂŁo realmente boas. Fazem a gente pensar. Acho que todo mundo gosta dessas frases, porque elas fazem a gente parar e pensar: âĂ verdade mesmo.â
Entrevistador: Elas são legais, prendem a atenção e soam convincentes.
Araki: Frases assim fazem os personagens parecerem mais poderosos. Faz vocĂȘ pensar no que aconteceria se aquele personagem fosse o culpado da histĂłria. Fica difĂcil parar de ler.
Nisio: JoJo teve grande influĂȘncia nisso. Os inimigos tĂȘm muita profundidade.
Araki: Sim, era exatamente essa a minha intenção.
Nisio: NĂŁo existem personagens descartĂĄveis. Especialmente depois que os Stands entram na histĂłria, hĂĄ Stands que parecem fracos, mas podem ser muito fortes dependendo de como sĂŁo usados. Tipo o stand Bad Company, tem sĂł 10 centĂmetros, mas sĂŁo 500 soldadinhos! Pode ser atĂ© o mais forte.
Araki: Ă isso aĂ, haha. Bem, nos mangĂĄs dos anos 80, os inimigos sempre ficavam mais fortes e mais fortes. Mas chega uma hora que tem que ter um limite, e isso acaba ficando tremendamente cansativo.
Nisio: Tipo quando falam âo que vocĂȘ acabou de derrotar foi o mais fraco de nĂłsâ.
Araki: Para quebrar isso, eu tentei criar personagens que fossem fortes de um ponto de vista alternativo, ou que fossem fortes em apenas um aspecto.
Nisio: EntĂŁo, tipo âNĂŁo existe isso de forte ou fraco.â
Araki: Ă exaustivo escrever mangĂĄ onde os inimigos ficam cada vez mais fortes. Ă como se dissesse, âeles jĂĄ sĂŁo tĂŁo fortes, e ainda estĂŁo ficando mais fortes!?â E toda semana vocĂȘ fica preocupado com o que vai fazer. AĂ vocĂȘ chega no auge da âbolhaâ e fica pensando, o que fazer agora? Ă uma forma de escrever bem assustadora. Pode atĂ© ser legal se vocĂȘ fizer isso uma vez. Quando o inimigo mais forte Ă© introduzido, vocĂȘ fica tĂŁo popular que a editora te diz para nĂŁo parar. Mas, como escritor, vocĂȘ nĂŁo consegue ir mais longe do que isso.
Nisio: Fico imaginando quem foi que começou essa inflação de poder. Deve ter sido uma ideia realmente maluca no começo... Quem quer que tenha sido, usar essa tĂ©cnica Ă© como chegar em um beco sem saĂda ou fazer agricultura de corte e queima. Acho que JoJo foi uma revolução nesse aspecto.
Araki: Foi mais como uma rota de fuga do que uma revolução, haha. Mas eu acho que é assim que as pessoas funcionam. à como aquela ideia de que um bom soco não é necessariamente um soco forte.
Nisio: AlguĂ©m que vocĂȘ poderia vencer dependendo da sua estratĂ©gia, acho.
Entrevistador: Se vocĂȘ estivesse lutando contra o Bush e ele tivesse mĂsseis nucleares, ainda assim vocĂȘ poderia vencĂȘ-lo com um bastĂŁo. Por exemplo, Hara Tetsuo escreveu Hokuto no Ken de maneira que quem disser as falas mais poderosas vence.
Araki: Parece algo que vocĂȘ conhece bem.
Nisio: Afinal, romances sĂŁo apenas palavras. O principal Ă© o diĂĄlogo. EntĂŁo, personagens que dizem frases poderosas realmente se tornam mais fortes.
Araki: Eu tambĂ©m notei algo Ășnico nos seus personagens. Eles sĂŁo mentalmente fortes de alguma forma. SĂŁo gĂȘnios completos, mas tambĂ©m tĂȘm lacunas ou estĂŁo em busca de algo. Isso Ă© algo refrescante, e torna o mundo da histĂłria interessante.
Nisio: Obrigado. NĂŁo sei nem o que dizer. Falando em personagens, eu gosto muito da Parte 4 porque tem tantos personagens Ășnicos. Eu gosto mais do Tonio, mas realmente Ă© um elenco todo de estrelas.
Araki: Obrigado. Ouvi dizer que o escritor Otsuichi-san [autor de mistério/terror] também gosta mais da Parte 4. Fico pensando se isso é algo geracional.
A ATRAĂĂO DE JOJO'S BIZARRE ADVENTURE E SEU IMPACTO EM NISIO ISIN QUANDO ELE ERA AINDA UM ESTUDANTE
Nisio: Quando li seu mangĂĄ pela primeira vez, foi quando o Ebony Devil, aquela boneca da Parte 3, corta o rosto de um trabalhador do hotel com uma lĂąmina. Eu me lembro de ter achado aquilo realmente assustador.
Araki: Aquilo deve ter sido difĂcil de ler quando criança.
Nisio: Claro, eu não entendia o que eram os Stands, e isso tornava tudo ainda mais assustador. Eu ficava assustado com aquele guerreiro blindado esquisito, mas achava o Jotaro muito legal. Eu não entendia a lógica ou o estilo daquilo, então era completamente misterioso, mas dava pra perceber que era algo diferente dos outros mangås publicados na época. Até hoje, JoJo não ficou para trås em relação aos imitadores. Hoje em dia, a Shounen Jump tem mais mangås com habilidades parecidas com os stands, mas JoJo ainda se destaca. Não por ser o original, mas por ter algo claramente diferente nele.
POR QUE NISIO ISIN SE TORNOU ESCRITOR
Araki: O que te fez decidir ser escritor? Como vocĂȘ começou a escrever?
Nisio: Para ser honesto, eu originalmente queria ser mangakå. Mas logo percebi que eu não sabia desenhar. Não importava o quanto eu praticasse, eu não melhorava. Aà pensei que, jå que escrever é impresso, não importa se minha caligrafia é ruim ou algo do tipo. Então, de certa forma, eu escrevo a novelização de mangås que estão na minha cabeça.
Araki: EntĂŁo vocĂȘ gostaria de ter seus romances adaptados para mangĂĄ?
Nisio: Ă verdade. HĂĄ muitas cenas na minha cabeça que eu consigo visualizar. Como alguĂ©m ficando de pĂ© na frente da onomatopeia âăŽăŽăŽăŽăŽ.â Acho que o Kouhei Kadono-sensei jĂĄ disse algo parecido uma vez. [autor, mais conhecido pela sĂ©rie Boogiepop]
Araki: EntĂŁo vocĂȘ começa com imagens e as substitui por palavras. O desejo de escrever parece algo que vem de dentro, mas eu me pergunto como isso funciona.
Nisio: Quando vocĂȘ lĂȘ algo bom, dĂĄ vontade de tentar. Claro, ler o seu mangĂĄ me dĂĄ motivação. Ă algo assim.
Araki: Tipo, "Eu poderia fazer um pouco melhor também."
Nisio: Quando vocĂȘ vĂȘ algo maravilhoso, nĂŁo consegue evitar de querer tentar fazer tambĂ©m.
Araki: Isso Ă© verdade. Desenhar Ă© assim para mim, como quando vejo um desenho e fico me perguntando como foi feito. Ă como um enigma que dĂĄ vontade de resolver. Por exemplo, hĂĄ mangakĂĄs que conseguem desenhar linhas em direçÔes inacreditĂĄveis. Normalmente, vocĂȘ vai de cima para baixo ou da direita para a esquerda, mas eles claramente fazem de maneira diferente. Como o Tetsuo Hara. Eu nĂŁo sei como ele desenha aquelas linhas, se ele faz de cabeça para baixo ou o quĂȘ. E na pintura tambĂ©m, fico pensando sobre como alguĂ©m consegue criar tal cor. Isso de alguma forma me anima.
Entrevistador: VocĂȘ resolveu o enigma do Hara?
Araki: NĂŁo exatamente. Eu tentei desenhar linhas bonitas e suaves como as dele, mas nĂŁo ficou igual.
Nisio: Eu pensei algo semelhante ao ler seu mangĂĄ. Quando li Janken Kozou, por exemplo, fiquei surpreso com como vocĂȘ conseguiu retratar o pedra, papel e tesoura. Eu pensei que nĂŁo conseguiria mais jogar pedra, papel e tesoura de forma casual. Para mim, vocĂȘ nĂŁo Ă© sĂł um mangakĂĄ, vocĂȘ Ă© um legĂtimo artista.
Araki: Eu realmente nĂŁo enxergo assim, haha. Sempre senti que sou falho de alguma forma como pessoa, e quero me tornar uma pessoa completa. NĂŁo sei exatamente o que Ă© ser completo, mas sempre quis me tornar desde jovem.
Entrevistador: Nisio-san, quando vocĂȘ terminou sua sĂ©rie Zaregoto depois de 9 volumes, vocĂȘ disse que "depois de terminar essa obra, nĂŁo sou mais um iniciante". Araki-sensei, com qual mangĂĄ vocĂȘ sentiu que terminou o seu trabalho?
Araki: Eu não acho que tenha um. Meu editor vive me dizendo para escrever algo novo além de JoJo, mas parece estranho começar algo novo antes de terminar JoJo. Então, eu vou continuar escrevendo.
Nisio: Por toda a sua vida?
Nisio: Pelo menos enquanto houver histĂłrias de JoJo.
Araki: Isso é verdade. Mas eu escrevo sobre relacionamentos humanos, então nunca acaba. Até a humanidade se extinguir.
Entrevistador: E quanto a quando vocĂȘ parou de se sentir um iniciante?
Araki: Isso foi quando vi novos mangakĂĄs surgirem. Antes que eu percebesse, o Ășnico que estava hĂĄ mais tempo na Jump era o Akimoto Osamu [autor de KochiKame, a sĂ©rie mais longa da Weekly Shonen Jump, de 1976 a 2016], e eu pensei, "Ah, sĂł tem o Akimoto-sensei?", entĂŁo definitivamente eu nĂŁo podia mais me ver como um iniciante.
Entrevistador: JĂĄ faz bastante tempo desde a sua estreia. [8 anos?]
Araki: Sim. Eu estava tentando escrever com uma sensação de juventude. Mas aĂ, em festas, quando olhava ao redor, todo mundo era mais jovem que eu, e eu pensava "O quĂȘ?". Eles diziam "nĂŁo podemos começar atĂ© vocĂȘ beber", e eu pensava "Ah, isso Ă© ruim". Nisio-san, um dia esse momento vai chegar para vocĂȘ tambĂ©m. Ă uma sensação solitĂĄria. Realmente Ă© bom ter alguns mais velhos por perto.
DERROTANDO INIMIGOS SEM INFLAR NĂVEIS DE PODER
Nisio: Antes, eu disse que a Parte 4 era minha favorita, mas Ă s vezes Ă© a Parte 1 ou a Parte 2...
Entrevistador: VocĂȘ gosta de todas, haha.
Nisio: Eu gosto de como os inimigos foram derrotados na Parte 1 e Parte 2, antes dos stands serem introduzidos. Eram batalhas mentais, tåticas, e pode ser só porque eu gosto de livros de mistério, mas eu adoro esse tipo de truque estratégico. Mesmo depois que os stands entraram na história, as batalhas mentais ainda eram as mais cativantes.
Araki: Ah, sim. Em mangĂĄs shounen, hĂĄ esse padrĂŁo de derrotar inimigos usando força de vontade. Eu nĂŁo conseguia aceitar isso. Eu pensava, "VocĂȘ realmente vai usar força de vontade aqui?". Existe aquela incrĂvel força que as pessoas tĂȘm durante incĂȘndios. Isso faz sentido, mas ainda assim nĂŁo consegui aceitar. Tipo, "Se vocĂȘ vai fazer isso com força de vontade, mostre isso na sua atitude". Eu queria algum tipo de lĂłgica por trĂĄs disso. HĂĄ muito tempo, o Sanpei Shirato costumava escrever mangĂĄs de ninja (como Sasuke, Ninja Bugei-chou e Ninpuu Kamui Gaiden), e eles nĂŁo derrotavam os inimigos com ninjutsu ou magia nessas histĂłrias. Eles usavam esse tipo de truque, coisas com lĂłgica por trĂĄs. Como cavar um buraco no chĂŁo e usar pĂłlvora. Isso me fez pensar "uau". Isso me influenciou.
Nisio: Tipo, coisas que vocĂȘ tem que parar para explicar.
Araki: NĂŁo vai parecer interessante a menos que haja algum tipo de razĂŁo.
Nisio: Na Parte 2, vocĂȘ simplesmente teve a ideia de que a batalha com o Wamuu seria em carruagens?
Araki: NĂŁo, eu acho que fui inspirado. Em mangĂĄ shounen, gosto quando as batalhas sĂŁo um a um, em algum tipo de arena. Essa arena poderia ser o topo de um penhasco estreito, ou uma onde vocĂȘ perde se sair dela, e Ă© divertido criar muitas regras. Eu acho que a ideia para aquela batalha no carrinho veio disso. Ter algumas restriçÔes, para que nĂŁo seja um "vale tudo".
Nisio: Em Jojo, as lutas sĂŁo um a um, ou no mĂĄximo dois a dois, nĂŁo sĂŁo?
Araki: Isso é verdade. Se houver muitas pessoas, vai acabar ficando como aqueles mangås antigos de guerra. Isso parece cansativo até de escrever, então dois a dois é o måximo para mim.
CenĂĄrios em mangĂĄs vs. a necessidade de descrever em romances
Entrevistador: Como escritor, tem algo pelo qual vocĂȘ tem inveja do Araki-sensei?
Nisio: Tenho muita inveja de que, ao contrĂĄrio dos romances, vocĂȘ pode desenhar os cenĂĄrios no mangĂĄ. Ă difĂcil retratar os cenĂĄrios em romances.
Araki: Mas, mesmo que vocĂȘ nĂŁo escreva nada, o leitor pode imaginar algo.
Nisio: Desenhos tĂȘm um poder de persuasĂŁo incrĂvel. Existem coisas que vocĂȘ pode desenhar, mas quando vocĂȘ escreve sobre elas, elas se transformam em uma explicação. E entĂŁo, vocĂȘ pensa, âah, eu escrevi uma explicaçãoâ e sente um arrependimento intenso... NĂŁo vai mais ser um slogan. Eu tenho essa obsessĂŁo de que, uma vez que eu escrevo uma explicação, jĂĄ era, e Ă© difĂcil lidar com isso. EntĂŁo, quando eu coloco ilustraçÔes nos meus livros, sinto que nĂŁo consigo corresponder Ă força da informação visual.
Araki: Eu li uma vez uma histĂłria sobre uma imagem bonita. NĂŁo havia nenhuma descrição sobre a imagem. Mas os leitores podiam imaginar algo. Se vocĂȘ escrevesse um mangĂĄ com aquela histĂłria, teria que desenhar a imagem. Mesmo que fosse a Mona Lisa de Da Vinci, seria apenas uma cĂłpia. Ă algo que se estraga se vocĂȘ desenhar. Mas, se vocĂȘ nĂŁo descrever a imagem como aquela histĂłria fez, se vocĂȘ apenas disser que Ă© incrĂvel, entĂŁo o leitor vai acreditar.
Nisio: Escrever de propĂłsito algo que nĂŁo se pode visualizar.
Araki: Acho que Ă© melhor nĂŁo escrever sobre.
Nisio: Eu usei essa tĂ©cnica de escrever algo impossĂvel de visualizar algumas vezes. Acho que Ă© a Ășnica maneira de explicar algo que nĂŁo estĂĄ lĂĄ... VocĂȘ pode escrever sobre coisas que nem se pode desenhar. Ah, sim, eu usei essa tĂ©cnica em Shin Honkaku Mahou Shoujo Risuka, que Ă© ilustrado pelo Nishimura Kinu-sensei. Eu escrevi sobre uma "jaqueta parecida com um alfinete de segurança ". Era para ser uma roupa de um mundo fantĂĄstico, e entĂŁo o Nishimura-sensei acabou desenhando. Eu pensei "ah, foi desenhado".
Araki: Isso Ă© impressionante. Eu tambĂ©m jĂĄ desenhei algumas ilustraçÔes de inserção. Havia um personagem que estava com um ferimento no braço durante o livro. EntĂŁo, eu desenhei o braço machucado, mas no final dizia que o ferimento estava no braço esquerdo, e eu o desenhei no braço direito. Eu pensei: "SerĂĄ que eu tenho que refazer tudo?" VocĂȘ realmente tem que ler com atenção. IlustraçÔes de inserção tambĂ©m sĂŁo difĂceis de desenhar. Ă por isso que Ă© impressionante. Tentar imaginar como seria uma jaqueta que parece um alfinete de segurança...
Nisio: Quando eu sei que haverå ilustraçÔes de inserção, tento tornar mais fåcil para meus ilustradores desenhå-las.
Araki: As ilustraçÔes da sĂ©rie Zaregoto tambĂ©m tĂȘm uma atmosfera prĂłpria.
Nisio: O Take-san Ă© quem as desenha. Lembro que, no começo, quando estava conversando com meu editor, pedi para que fossem "no estilo JoJo", haha. Isso era para ser sobre o nĂvel de realismo ou veracidade nas ilustraçÔes... e entĂŁo elas saĂram assim.
Araki: Ă bom ver que o estilo JoJo apareceu. Quando vocĂȘ coloca os 9 volumes assim, dĂĄ para ver claramente uma melhoria na habilidade. Eu tambĂ©m gosto desses fundos em estilo pop.
QUAL ESCRITOR Ă O MAIOR FĂ DE JOJO?
Araki: Nisio-san, quais autores vocĂȘ gosta?
Nisio: Eu diria Kouhei Kadono-sensei. Ele Ă© famoso por ser fĂŁ de JoJo. Ă o maior fĂŁ de JoJo entre os escritores.
Editor do Nisio: HĂĄ pouco tempo, quando eu disse a ele que vocĂȘ ia se encontrar com o Araki-sensei, ele ficou em silĂȘncio por alguns segundos e disse friamente: âAh, entĂŁo Ă© assimâ, haha.
Nisio: Muito tempo atrĂĄs, quando li uma entrevista entre vocĂȘ e o Otsuichi-sensei na Yomu Jump [revista associada Ă Weekly Shounen Jump], fiquei com tanta inveja de ele ter te conhecido.
Araki: O Otsuichi-san estava escrevendo para a Shueisha [editora que publica a Jump], afinal.
Entrevistador: Nisio-san, se vocĂȘ fosse escrever uma novelização de JoJo, como ela seria?
Nisio: Eu escreveria sobre a Parte 2, ou talvez a Parte 1. Onde os inimigos sĂŁo vampiros e formas de vida supremas.
Nisio: Eu escolheria não usar stands. Assim não teria nada em comum com o que o Otsuichi-sensei estå fazendo. [A novelização de JoJo do Otsuichi se passa na Parte 4]
Araki: VocĂȘ nĂŁo quer fazer a mesma coisa que ele?
Nisio: Eu realmente nĂŁo quero fazer a mesma coisa que ninguĂ©m. Se eu fizesse, acabaria virando uma disputa com o Otsuichi-sensei. E se eu perdesse? E se a vitĂłria te tornasse o maior fĂŁ de JoJo, isso seria terrĂvel.
Entrevistador: VocĂȘ nĂŁo suporta perder â nĂŁo como autor, mas como fĂŁ?
Nisio: E se dissessem âvocĂȘ se diz fĂŁ, mas Ă© sĂł isso que consegue escrever?â ou âvocĂȘ nĂŁo ama JoJo o bastanteâ, e tirassem sarro de mim, haha. EntĂŁo, se isso acontecer, eu vou dizer âah, minha parte favorita Ă© a Parte 1â pra escapar.
Entrevistador: Para as Partes 1 e 2, tem a questĂŁo da perspectiva. De quem seria o ponto de vista?
Nisio: Na Parte 4 o Kouichi-kun. Para a Parte 1, seria o Speedwagon. A Parte 2⊠ele tinha nome? Aquele garoto batedor de carteira no começo⊠ah, não consigo lembrar. Que droga.
Araki: O nome estava lĂĄ, haha.
Nisio: Otsuichi-sensei e Kadano-sensei devem estar rindo agora, haha.
Entrevistador: Quando vocĂȘ entendeu como os stands funcionavam?
Nisio: Eu meio que fui entendendo conforme lia. Tipo, quando os stands se machucam, seus usuårios também se machucam. Tinha uma explicação sobre o que eram os stands no começo de um dos volumes, e tudo fez sentido depois disso. Aquilo ajudou bastante.
Araki: EntĂŁo, que bom que eu escrevi aquilo, haha. A maioria das pessoas diziam nĂŁo ter entendido.
Nisio: Eu gostei das batalhas com os irmĂŁos DâArby. Foi assim que aprendi a jogar poker. Eu estava no ensino fundamental e nĂŁo sabia as regras do poker, entĂŁo nem entendia que tipo de batalha era aquela, haha. AĂ fui atĂ© uma livraria e folheei um livro de regras.
Araki: Sério? Quando escrevi aquilo, achei que todo mundo sabia jogar poker. Que todo mundo ao menos conhecia.
Nisio: Eu estava no ensino fundamental, afinal. Depois disso, fiquei morrendo de vontade de jogar, haha. Queria dizer coisas tipo, âAposto todas as minhas fichas!â.
Entrevistador: VocĂȘ aprendeu muito com JoJo.
Nisio: Com certeza. Quero continuar aprendendo cada vez mais.
Araki: Obrigado. DĂĄ pra sentir o quanto isso significa pra vocĂȘ.
[Nota: Alguns dos escritores mencionados depois escreveram novelizaçÔes de JoJo. Nisio Isin escreveu JoJoâs Bizarre Adventure: Over Heaven, Kadano Kouhei escreveu Purple Haze Feedback, e Otsuichi escreveu The Book: JoJoâs Bizarre Adventure 4th Another Day.]