@bloombcnes
O dia seguinte amanheceu sem alívio. A luz cinzenta atravessava o acampamento como um lembrete incômodo de que todos ainda estavam ali, vivos, mas longe de seguros. O cheiro de fumaça persistia no ar, misturado ao de sangue seco, terra revolvida e metal queimado. A enfermaria estava cheia desde antes do sol subir direito; gemidos baixos, passos apressados, vozes cansadas se misturavam num ruído constante que ninguém mais parecia notar. Cassius não foi até lá. Não por descaso. Não por orgulho ferido. Mas porque, quando a adrenalina baixou e a noite deixou de empurrá-lo para frente, veio o espaço para pensar e pensar foi o que mais o colocou em risco. Ele sabia exatamente o que sentira ao lado de Eysan. Sabia o quanto aquilo o desestruturara. O toque dela ainda vinha à memória com facilidade demais. O modo como o tempo parecia ter desacelerado. A vontade clara, quase avassaladora, de puxá-la para perto, de esquecer o mundo por um instante e isso era justamente o problema. Eles não estavam ali para isso. Estavam ali tentando sobreviver, tentando decifrar uma profecia que não prometia finais felizes, tentando manter pessoas vivas num lugar que parecia exigir perdas como pagamento constante. Cassius conhecia bem esse tipo de cenário. Já tinha visto laços nascerem em meio ao caos… e serem usados contra quem os criava. Então ele fez o que sempre fazia quando algo ameaçava fugir do controle. Trabalhou. Passou a manhã inteira ajudando a reorganizar o acampamento: recolhendo animais que haviam se soltado no ataque, levantando estruturas improvisadas, distribuindo tarefas, mantendo a ordem com uma eficiência quase mecânica. O corpo doía com novos cortes, hematomas mal disfarçados sob a armadura mas nenhum deles foi suficiente para fazê-lo voltar à enfermaria. Parte disso era teimosia. Parte era medo. Medo de reencontrá-la e perceber que nada tinha mudado. Ou pior: que tinha mudado demais! Entre o vai-e-vem constante, Cassius a viu antes de perceber que estava procurando por ela.
No meio do caos organizado do acampamento, das vozes sobrepostas, dos passos apressados, do ranger de estruturas improvisadas, Eysan se destacava de um jeito quase cruel. Não porque estivesse chamando atenção de propósito, mas porque tudo nela parecia puxar o olhar de Cassius, como se o resto do mundo tivesse perdido um pouco da nitidez. Cassius sentiu o peito apertar. Por um instante, esqueceu do barulho, da profecia, do peso do dia. Pensou apenas em como tudo nela chamava sua atenção e em como isso era um erro. Ele cerrou o maxilar, respirou fundo e desviou o olhar à força, como se tivesse sido pego fazendo algo proibido. Aquilo não era hora. Não era lugar. E definitivamente não era algo que ele pudesse se permitir. — Merda… — Murmurou baixo, mais para si do que para qualquer um. Ele ficou onde estava por alguns segundos demorados, dividido entre a razão que gritava para manter distância e algo mais silencioso mas insistente que o puxava na direção dela. Cassius, então, respirou fundo, endireitou os ombros e começou a caminhar. Não rápido. Não decidido demais. Cada passo parecia um pequeno acordo consigo mesmo: só vou conversar. Só isso. Quando se aproximou o suficiente para ser notado, parou a uma distância respeitosa, como se ainda estivesse se lembrando de que precisava manter limites. O olhar encontrou o dela por um instante breve demais antes de descer, analisando a movimentação como se aquilo fosse o verdadeiro motivo de estar ali. — Bom dia, Eysan. — Disse, a voz firme quase formal, mas mais baixa do que costumava usar com qualquer outra pessoa. — Eu… — Começou, pigarreando baixo, buscando as palavras certas. Ou pelo menos palavras aceitáveis. A mão foi à lateral do corpo, ajustando a tira da armadura que nem precisava de ajuste. Um gesto automático, quase defensivo. — A reconstrução demorou mais do que o previsto. — Disse, num tom neutro, técnico demais. — Alguns animais se espalharam, as barricadas cederam em dois pontos, e… — Fez um gesto vago com a mão — …Achei melhor resolver isso antes que virasse outro problema. — Pausa. Ele respirou fundo, como se estivesse avaliando se aquilo soava convincente até para si mesmo. — Além disso, alguns campistas precisaram de escolta ao longo do dia. — Acrescentou rapidamente, reforçando a desculpa. — Nada grave. Só… logística. — Cassius levantou o olhar outra vez, dessa vez mantendo-o por um segundo a mais. — Não achei apropriado interromper você aqui por algo que podia esperar. — Completou, firme, quase correto demais. — Você com certeza tinha trabalho mais importante. — Era uma desculpa limpa. Funcional. E completamente incompleta. Por um breve momento, algo vacilou no olhar dele. Não culpa explícita, mas a consciência incômoda de que havia prometido algo e falhado em cumprir no tempo que desejava. — Mas agora… — Concluiu, endireitando-se um pouco mais — …Eu estou aqui. Vivo. Como prometi.




















