Guerra 4.0 e os cibermercenários
No último artigo nós dissemos que, hoje em dia, informação é um bem mais valioso que terras. Na antiguidade as guerras objetivavam ganhos territoriais. As invasões associadas à barbárie, matança e escravização eram as formas mais comuns de se fazer guerra e a ocupação do território inimigo era naturalmente o objetivo final. As guerras eram parecidas com projetos, pois se baseavam em um esforço temporário, tinham início e fim e eram voltadas para se alcançar um resultado exclusivo.
“Um projeto é um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo. Os projetos e as operações diferem, principalmente, no fato de que os projetos são temporários e exclusivos, enquanto as operações são contínuas e repetitivas.”
PMBOK - Project Management Body of Knowledge
O cenário global dos dias de hoje é extremamente diferente. A maioria das guerras são irregulares e, por que não dizer, perpétuas. Em 1993, logo após a Guerra do Golfo, Alvin Toffler publicou um livro chamado Guerra e Antiguerra. O mesmo autor vinha, por intermédio de uma série de outra publicações, sendo a A Terceira Onda a mais direcionada, expondo a ideia de que o mundo estava passando pela terceira grande onda de transformações. A primeira teria sido a Revolução Agrícola, a segunda a Revolução Industrial e terceira caracterizada pela Era da Informação. Então, em Guerra e Antiguerra, Toffler destaca o emprego das armas inteligentes, dos ataques cirúrgicos e de uma espécie de guerra sem sangue (título de um dos capítulos do livro).
Porém, de acordo com o título do artigo, ousamos em cunhar o termo Guerra 4.0, fazendo referência a uma quarta onda e prosseguindo com a linha de raciocínio dos artigos anteriores ("Onde estão as fronteiras?" e "A Internet não tem fronteiras, mas existe uma geografia?"). O livro A Quarta Revolução Industrial, de Klaus Shwab, define muito bem este novo cenário, apresentando diversas características do mundo atual em diversos campos. Como contexto diretamente usado para este artigo destacamos a seguinte frase:
"Vivemos a quarta revolução industrial caracterizada por uma internet mais ubíqua e móvel, por sensores menores e mais poderosos que se tornaram mais baratos e pela inteligência artificial e aprendizado de máquina."
Klaus Shwab, A Quarta Revolução Industrial
É seguindo este viés que ousamos cunhar o termo "guerra 4.0", considerando a mudança de paradigma trazida por esta quarta revolução industrial e suas facilidades tecnológicas[1].
A evolução da dinâmica dos conflitos segue algumas características típicas. Na Era Industrial possuíam clara delimitação geográfica do campo de batalha e do teatro de operações, conforme demonstrações históricas das I e II grandes guerras. Na Era da Informação, eram disputados com ações dentro de territórios, ainda que de forma mais inteligente e com menos derramamento de sangue, conforme defendido por Alvin Toffler em exemplos como o da Guerra do Golfo. Os mais atuais incorporam cada vez mais a dimensão psicossocial como essência, o espaço cibernético como campo e o domínio da informação como objetivo.
Se antes a autonomia dos transportes militares e o alcance do armamento definiam o volume espacial da guerra, hoje se torna impossível caracterizá-la apenas em um espaço de 3 dimensões. Os conflitos já não são entre nações com fronteiras nítidas, agências de Estado, frentes de exércitos convencionais, comunicados oficias, bandeiras e hinos nacionais.
Nos dias de hoje, existe uma assimetria de poder muito grande. Empresas com "ciberarmas" podem ter tanto ou mais poder que muitos governos. Como exemplo citamos um relatório da Citizen Lab do Canadá, um instituto de pesquisa da Universidade de Toronto especializado em direitos humanos e segurança na Internet. Publicaram certa vez a descoberta de um ataque ao iPhone, o qual os próprio pesquisadores comentaram: "não temos conhecimento de nenhuma ocorrência anterior de um jailbreak remoto do iPhone utilizado como parte de uma campanha de ataque direcionado." Passemos um resumo do caso para que se entenda o termo "ataque direcionado" e que possamos sustentar o nosso raciocínio de que algumas empresas estão mais poderosas que certas Nações neste cenário extremamente assimétrico que a Internet propicia.
Ahmed Mansoor, um famoso ativista dos Emirados Árabes, recebeu em seu aparelho celular uma suposta mensagem de outro ativista, passando informações e um link sobre segredos de torturas naquele país. Mansoor, desconfiado e devidamente orientado, enviou o link para o Citizen Lab e os pesquisadores identificaram um sofisticado spyware criado especificamente para ele como alvo. Explicação dada sobre o termo "ataque direcionado, vamos ao restante.
A partir do rastreamento realizado pelos pesquisadores do laboratório chegou-se a uma empresa privada, a Israelense NSO Group. Israel detém um destaque no mercado de segurança cibernética com um pequeno grupo de empresas capaz de cobrir todo o espectro defensivo em mercados como o bancário ou as infraestruturas críticas de um alguns países. Porém, o domínio de tecnologias defensivas passa pelo conhecimento sobre técnicas ofensivas e o espaço estreito entre elas torna estas empresas capazes de oferecer serviços "lado B".
O título do relatório é "The Million Dollar Dissident: NSO Group’s iPhone Zero-Days used against a UAE Human Rights Defender", numa referência à ordem de grandeza do custo de desenvolvimento de uma ferramenta ofensiva desta natureza. Mais do que uma pista sobre os interessados pela pretensa espionagem, o poder financeiro demonstra o tamanho da organização que pode estar por trás de um ato como este. Será o tamanho tão grande como Países ou estamos falando justamente deles?
Os tais mercenários sempre existiram, é histórico. Aliás há pouco tempo, numa visão moderna, serviram de inspiração para alguns filmes do Stallone inclusive, porém, em tempos de Guerra 4.0, numa visão "moderníssima", podemos dizer que se ascendeu uma nova categoria, a dos cibermercenários.
[1] A título de curiosidade: segundo Toffler, a quarta onda será relacionada à sustentabilidade e ao meio ambiente.