RAINY DAYS – CapĂtulo Quatro: “Echos & Pure Blood - Parte 1″
RAINY DAYS - Chapter Four: “Echos & Pure Blood - Parte 1”.
Escrito por Locke.
“Seus gritos ecoavam na vastidão de sua mente e ninguém podia ouvir. Ele estava preso em sua solidão novamente e ninguém conseguia achá-lo. O sangue correndo em suas veias havia deixado de ser puro e sua inocência havia evaporado.”
Ele sentiu-se sozinho. De novo. Como se a solidĂŁo que sempre sentiu nĂŁo fosse suficiente.
Ele havia deixando sua raiva gritar mais alto.
E agora seu arrependimento escorria pelo rosto que refletia a luz da Lua.
Enquanto observava as estrelas inertes deslumbrantes a milhões de anos luz de sua mĂsera e inĂştil existĂŞncia, ele se lembrava de Taylor incontáveis vezes. Um ato involuntário, mas ao mesmo tempo voluntário. Ele se recusava esquecer-se do rosto mais lindo que seus olhos já tiveram o privilĂ©gio de contemplar. Mas se recusava a lembrar da discussĂŁo mais tensa entre os dois desde o dia em que se conheceram. Naquela vasta solidĂŁo, seu coração batia mais forte a cada pensamento desejando o toque do amigo, a pele macia dele sobre a sua e seus cachos escuros perfeitamente caĂdos sobre seu rosto. Cogitou voltar para casa, mas repensou a ideia e decidiu descer do terraço do prĂ©dio em que estava há mais de vinte minutos.
As nuvens apareceram novamente e ameaçaram cobrir todo o brilho que aquela cidade medĂocre já pĂ´de enxergar. Kyle limpou o que pensou ser a Ăşltima lágrima que escorreria pelo seu rosto naquela noite, dirigiu-se atĂ© as escadas ao lado do prĂ©dio e antes que começasse a descer os longos lances de escadas, suspirou fundo, tĂŁo profundamente que se sentiu desconfortável com o ar pesado invadindo seus pulmões. Â
Perambulou pelas ruas da cidade procurando um lugar aonde pudesse ficar. Sua busca pareceu eterna. Ele esbarrava nas pessoas, andava torto como se estivesse bĂŞbado. NĂŁo havia nenhum lugar que quisesse ficar, por onde passava sĂł via angustia e desconforto. Nada e ninguĂ©m o deixavam confortável naquela cidade, sĂł existia uma honrosa exceção chamada Taylor, mas infelizmente ele nĂŁo estava com Kyle. Seus passos pareciam lentos demais, a casa esquina sentia a sensação terrĂvel da solidĂŁo ficando mais forte.
Não era o tipo de solidão que sempre o assombrou desde pequeno, causada pela ausência das pessoas que amava, principalmente quando a mãe atravessou uma bala contra a própria cabeça. Mas a solidão que o deixava desequilibrado era com certeza causada por Taylor. Tão rara como as estrelas brilhando sob Oldsttock, e ao mesmo tão destruidora quanto um terremoto. Kyle não conseguiu admitir, nem para ele mesmo, que havia sido aquela sensação de solidão que o fez sair do ônibus quando tentou abandonar a cidade. Não havia como ir embora e sentir para sempre aquela solidão desoladora.
Seu vacilo o fez quase ir ao chão ao não ver uma parte da calçada quebrada. Ele desequilibrou e se apoiou em um poste. Xingou em alta voz e se desequilibrou novamente encontrando a parede de um estabelecimento fechado.
Pingos de chuva começaram a cair sobre seu rosto e Kyle logo colocou seu capuz. Procurou um lugar que pudesse ficar para fugir da chuva. Entrou em um bar qualquer, no fundo de um beco úmido. Ao abrir a porta do bar, o cheiro de nicotina entrou nas narinas de Kyle. Sentou-se em um dos bancos do balcão amadeirado e apoiou a cabeça em sua mão direita, soltando um leve suspiro. Um barman – de barba negra e olhos castanhos expressivos, que aparentava estar preso ali há muito tempo – se aproximou e, como de costume, perguntou o que ele iria querer.
— Nada… — respondeu Kyle. Percebeu o olhar do barman que dizia claramente: “Se não vai beber nada, vaza daqui!” — Por enquanto.
O barman assentiu e foi para outro lado do bar.
Havia mulheres dançando no centro do bar, Ă frente delas havia um palco onde uma cantora descabelada cantava sobre desilusões e garrafas de uĂsque vazias. Isso soou tĂŁo familiar para o garoto em silĂŞncio apoiado no balcĂŁo. Se sua mĂŁe nĂŁo estivesse morta, ele acreditaria que aquela mulher no palco fosse ela.
Havia homens que fingiam dançar com as mulheres sĂł para aproveitar de suas fragilidades emocionais. Eles apertavam os seios delas violentamente causando um desconforto visĂvel, mas eles continuavam sem pudor algum e por completo controle sob a vulnerabilidade delas. Maquiagens borradas com lágrimas que tinham gosto de vinagre queimavam enquanto corriam pelos rostos das mesmas. O clima no bar era pesado, desesperador, caĂłtico, porĂ©m era silencioso.
“I was filled with pain and whiskey.
But I still filled with hope that keeps burning inside my destroyed heart.”
Cantava a mulher no palco que era acompanhada por uma guitarra.
Kyle, por mais estranho que pareça, pôde entender as lágrimas derramadas por algumas almas isoladas nos cantos escuros do bar, mas ele já estava se afogando em suas próprias lágrimas, além de não fazer sentido algum para ele se importar com pessoas que não durariam mais de duas semanas.
 O garoto passou mais alguns minutos observando a dor quase palpável do lugar, e ele sentiu-se pior a observar cada detalhe assombroso. Aquele bar se assemelhava a um livro – Kyle, pela primeira vez, lembrou-se de um livro que havia lido no último ano do ensino médio. – “Inferno” de Dante Alighieri, dado por um professor em depressão de meia idade. O livro, primeiro de outros dois livros, descrevia os cantos do inferno narrado por Dante, desde o mais raso e torturante ao mais profundo e perturbador.
Oldsttock se assemelhava ao prĂłprio inferno para Kyle: As pessoas eram atormentadas por seus pecados e nĂŁo conseguiam se desprender de seus pensamentos conturbados. A dor persistia correndo nas veias e os demĂ´nios estavam em qualquer esquina para lembrá-los de cada sentimento desolador. A cidade – tambĂ©m. – poderia ser uma representação da selva escura, a perdição do pecado. Ao entrar na selva, apenas aquele que usava a razĂŁo e se conciliava com seus pecados sairia de lá. EntĂŁo ele raciocinou desta maneira para tentar assemelhar perfeitamente cada centĂmetro e cada alma daquele lugar ao livro.
O letreiro em rosa neon era o portal do inferno, advertindo claramente aos miseráveis ao cruzarem os portões: “Uma vez dentro, deve-se abandonar toda a esperança de rever o céu, pois de lá não se pode voltar”.
Kyle observou o lugar novamente… E entĂŁo mais uma vez com calma. Assemelhou cuidadosamente cada pessoa com um canto do inferno. Cada parte significava o motivo pelas pessoas estarem ali. As mulheres dançando no centro do bar em frente ao palco representavam a luxĂşria, almas desfeitas pelo amor, aquelas almas que viveram para saciar suas necessidades sexuais. Os homens, muito deles já bĂŞbados, eram os demĂ´nios que as atormentavam por terem desejado unicamente relações carnais. Aquela dor iria acompanhá-las pelo resto de seus dias – que para Kyle nĂŁo seriam muitos. – Elas nĂŁo aguentariam por muito tempo os assĂ©dios constantes e a falta de voz para denunciá-los. O que mais doĂa era nĂŁo ter ninguĂ©m para ouvi-las gritar.
As pessoas isoladas nos cantos do bar podiam significar muitos cantos do Inferno. Era possĂvel saber o porquĂŞ de cada pessoa isolada estar ali. SolidĂŁo e a covardia, a dura covardia daqueles que nunca conseguiram assumir algo inteiramente verdadeiro ou sempre estiveram Ă s estreitas. Eles estavam destinados a uma corrida eterna – ou, como nessa representação de Kyle, incontáveis copos de cerveja barata ou uĂsque –, os violentos, tambĂ©m nos cantos escuros do bar, sofriam da sensação que Kyle detestava sentir: SolidĂŁo. Mas aqueles mereciam. Mereciam ser assombrados pela escuridĂŁo e pelo silĂŞncio ensurdecedor. Ouviam seus gritos e viam suas falhas, seus pecados diante de seus olhos e nada podiam fazer para se redimirem com as pessoas que machucaram.
Os gananciosos, atĂ© agora os preferidos de Kyle, aqueles que jamais seriam capazes de esbanjar nada, pois estĂŁo contando os poucos centavos para ter mais um copo de cerveja, e nĂŁo podiam esbanjar suas dores, pois eram egoĂstas demais para isso.
— Ei! — Kyle chamou a atenção do barman. Ele caminhou até o garoto e arqueou as sobrancelhas.
— Parece muito pensativo esta noite, garoto. — observou o barman.
— É meio estranho dizer o que sinto em relação a este bar. Parece-me familiar demais. Como se eu já tivesse…
— Vindo aqui? — interrompeu o barman. — Bem, se você for mais um qualquer nessa cidade, hm, com certeza já esteve aqui em algum momento da sua curta e, posso dizer, inútil existência. Digamos que cada um nesse bar, ou qualquer um em qualquer bar dessa cidade, está traçando o próprio caminho para o inferno.
— Algumas já estão no inferno. E não precisaram morrer para estarem aqui. — disse Kyle olhando de relance para os lados.
— Então eu sou o Caronte. — o barman riu e Kyle deu um sorriso ao perceber a clara referência ao livro que acabara de assemelhar com o estabelecimento.
— Acho que estou destinado a acabar como eles. — conformou-se o garoto. O barman olhou fixamente para Kyle.
— Pare de cavar o próprio túmulo quando se há muito para viver. — falou em um tom firme — Eu vejo em seus olhos que você pertence à outra alma.
— Me traga uma garrafa de uĂsque. — ordenou tentando ignorar o que o barman dizia.
O barman suspirou e deu cinco passos pelo pequeno espaço que usava para se locomover. Esticou o braço e pegou uma garrafa de uĂsque do fundo de uma prateleira. Uma empoeirada e com o lĂquido mais escuro que o comum para uma bebida tĂŁo requisitada pelos clientes… Pecadores.
— Não se preocupe. — disse Kyle — Eu sei o que estou fazendo.
— Eu estive esperando a minha vida toda para dar essa garrafa a alguém.
Kyle encarou o lĂquido escuro e questionou-se se era aquilo que queria fazer. O barman lhe entregou um copo e se afastou. Encheu o copo atĂ© o topo e engoliu seco antes de colocar a bebida em sua boca. Ele nunca havia provado nenhuma bebida alcoĂłlica ou qualquer droga por completo rancor que tinha pela mĂŁe. Mas ele precisava sentir sua garganta queimar. Tentou nĂŁo pensar em nada. Mas ao virar o copo em seus lábios rosados, deixando o lĂquido tomar forma em sua boca, Kyle lembrou de Taylor e imediatamente cuspiu a bebida.
Kyle limpou a boca e correu para fora do estabelecimento.
O barman pegou a garrafa e a colocou no lugar que estava minutos atrás.
Kyle sentiu-se péssimo ao sair do bar. Se arrependeu por ter entrado em um lugar tão infeliz como este.
Assim como alguém que entra na selva escura e consegue sair, Kyle havia usado a razão para sair de lá e sua única razão era Taylor. O garoto ajoelhou-se no chão já molhado e olhou para as nuvens que cobriam as estrelas. As gotas da chuva limparam seu corpo de toda a impureza externa que tal local lhe deu. Curvou a cabeça e fechou os olhos. Não havia motivos para olhar para um céu cinza que cobria todo o brilho que realmente importava.
Decidiu ir para casa. Era tĂŁo perturbante como o lugar que havia saĂdo, mas ele já estava acostumado com o silĂŞncio e a escuridĂŁo dos cĂ´modos. Era seu lar apesar de tudo. Rezava em suspiros para Taylor estar lá a sua espera. O que seria improvável, mas ele mantinha uma faĂsca de esperança, a esperança – que nĂŁo usava a tanto tempo que ele já havia esquecido que tinha uma –, em revĂŞ-lo. Kyle estava imaginando em como pedir desculpas ao amigo, diversas maneiras e sendo tĂŁo sincero como sempre tentou ser.
Ao entrar na casa, tudo estava escuro como havia deixado ao sair. O silêncio era o mesmo. Suspirou ao se conformar com a ausência já esperada de Taylor. Deitou-se no sofá e de todas as formas as memórias com o amigo de cachos vieram em sua mente. Uma lágrima transbordou de seus olhos claros. Permaneceu em silêncio.
Acordou de um sonho normalmente estranho. Sonhos são estranhos. Principalmente se você está em uma estrada e há um revolver manchado de batom em suas mãos ensanguentadas. Ele soube o que aquele sonho queria lhe trazer memórias tristes sobre sua mãe e todo o sofrimento que o acompanhou durante esses anos. Ele apenas esfregou os olhos e levantou-se do sofá certificando-se que não iria mais pensar no sonho. Estava um pouco desequilibrado e cambaleou entre os móveis. Chutou a mesinha de centro com força por ela estar em seu caminho. Chutou o sofá por ele também estar em seu caminho. Chutou o abajur por ele ser fragilmente belo e velho… E estar em seu caminho.
Ele mesmo estranhou sua fúria naquele começo de tarde. Encostou sua cabeça na parede ao lado da escada e tentou se recompor. Tirou a roupa ainda molhada e a jogou no carpete de seu quarto. Abriu o armário, pegou uma camiseta preta que pertencia a Taylor e a cheirou profundamente para sentir a fragrância do amigo e então a vestiu. Kyle passou mais alguns segundos cheirando a camiseta de tecido fino. Era como se Taylor estivesse agarrado a ele, pois o cheiro ainda estava fortemente presente no tecido.
Kyle não conseguiu parar de cheirar a camiseta de Taylor e sentiu um desejo ainda maior pelo garoto. Tocou em seu membro já excitado e o estimulou enquanto a imagem do garoto se passava em sua mente. Seu coração batia mais forte enquanto se masturbava. Sentia a respiração ficar ofegante. Até que gozou e soltou um suspirou profundo e sentiu um prazer maior.
— Eu gostaria que não tivesse que fazer isso sozinho. — disse.
Ao final da tarde, quando o sol se escondeu atrás das árvores do bosque, Kyle respirou a brisa fina que passava pela janela. Não havia parado de lembrar-se de Taylor por um minuto sequer. Foi quando a brisa parou que Kyle decidiu ir atrás do amigo. Kyle precisava de Taylor como o inferno precisava de pecadores.
Kyle ainda se lembrava vagamente onde o amigo morava, apesar de ter ido lá apenas uma vez. Enxergou uma luz vinda do apartamento e entrou no prĂ©dio. O elevador nĂŁo funcionava há um bom tempo e Kyle se viu obrigado a encarar as escadas que pareciam ser uma subida eterna ao cĂ©u! Mas aceitou o desafio. Ele subiu os lances de escadas no escuro porque o sensor de luz tambĂ©m nĂŁo estava funcionando, o que o deixou mais irritado. Ele tentou nĂŁo importar com os fatores que o deixavam irritado, eles nĂŁo eram suficientes para fazĂŞ-lo desistir de chegar ao ParaĂso.
E mais doze degraus foram suficientes para Kyle encostar-se à porta de emergência e respirar um pouco. Respirou e expirou o ar como sugou o cheiro de Taylor daquela camiseta. Deu dois passos largos até a porta de madeira velha do apartamento de Taylor, o 33, e bateu três vezes. A última batida demonstrou a ansiedade de Kyle para ver o amigo e pedir desculpas pela discussão da noite passada. Ele ainda estava com a camiseta do garoto de cachos que se recusou a tirar.
Ouviu passos se aproximarem da porta e a maçaneta virar após alguns segundos.
A porta se abriu. Kyle encarou o garoto que havia aberto a porta. Ele sorriu, mas não teve a reação esperada de Taylor. Kyle se aproximou do garoto de cachos que ainda o olhava fixamente escondendo o corpo atrás da porta. Sua mão segurava a porta na altura do pescoço e elas suavam.
— Eu precisava de você. — sussurrou Kyle tocando na mão de Taylor.
Taylor continuou calado como se ele não estivesse feliz com a presença de Kyle,porém seus olhos diziam o contrário. Apesar de estar chateado com Kyle, Taylor precisava da presença do amigo, mas se recusou a voltar para a casa dele. Ele não queria ficar sozinho no silêncio e na escuridão sem que Kyle estivesse lá.
Kyle estranhou o silêncio de Taylor, ele mordeu o lábio e franziu a testa esperando alguma reação do garoto. E nada. Aquele nada o destruiu.
— Taylor? — Kyle se aproximou mais de Taylor e não existia nenhuma distância entre eles. Só as palavras os separavam – ou a falta delas.
E não hesitou de trazer os lábios do amigo aos seus, e Taylor não hesitou em aceitar o beijo de Kyle. Ele puxou o garoto para fora e o encostou contra a parede. Kyle deixou que Taylor controlasse seu desejo por ele de uma forma prazerosa e aliviadora.
O garoto de cabelo castanho claro sugou a pele do pescoço de Taylor enquanto ele respirava ofegante.
— Eu precisava da sua alma. — sussurrou Taylor e continuou o beijo. — Por que eu aprendi a tê-la como minha.
— Você sempre soube me acalmar.
— E você sempre soube me amar.
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