BOA NOITE
Dir.: Clarice Saliby
Quando os créditos iniciais acabam, o primeiro frame que vemos é de Cid Moreira em frente ao espelho. O apresentador surge bem mais velho que a imagem mental que temos ao lembrar de seu famoso "boa noite". Cid é conhecido por sua vaidade - então o plano no espelho parece emblemático. Corta. O jornalista aparece sentado em seu sofá, vestido com roupas simples, um celular em mãos. Claramente sendo dirigido, tenta perguntar à inteligência artificial se ela conhece o Cid Moreira, mas acaba se atrapalhando com a tecnologia, em uma divertida cena que quebra todas pretensões de encenação - e se torna melhor do que qualquer roteiro poderia prever.
Entrando na rotina de Cid Moreira e de sua esposa e, mais do que isso, convidando o jornalista para participar de seu processo criativo, a diretora Clarice Saliby transforma a cinebiografia de um ícone sisudo em uma deliciosa quebra de expectativas. Cid quer falar de sua vida simples - os banhos de sauna, as anotações prosaicas em sua agenda diária, as idas ao cabeleireiro. Porém, o homem comum convive lado a lado com o profissional incansável e perfeccionista; em um estúdio caseiro, Cid ainda grava seus projetos pessoais, e também se empenha em criar uma narração e cenas para o documentário. Mesmo aos 93 anos, o locutor mantém o vigor da voz: alcança desde o R arrastado dos antigos spots de rádio ao tom intimista de quem conta um causo.
O grande acerto da diretora Clarice Saliby - em seu longa de estreia - é fugir de entrevistas e depoimentos que atestem a importância de Cid Moreira; sua intimidade é favorecida, em detrimento de seus grandes momentos na TV. A famosa vaidade de Cid não dá as caras por aqui. Não vemos uma cinebiografia pomposa sobre um gigante da comunicação, mas sim um filme simples, divertido e humano sobre um homem que já viu - e narrou - muita coisa.
Em um texto para a Folha sobre o documentário, Cid Moreira foi chamado de "desinteressante" e raso por sua vida simples e por nunca ter sido editor do jornal que apresentava. Sua busca era pela entonação perfeita, desde os tempos em que narrava quase todos cinejornais do país, às gravações de mensagens religiosas que o ocupam atualmente. Faltou lembrar que os tempos eram outros. As pessoas descobriam suas carreiras com base no talento e de maneira autodidata - e não em cursos de faculdade. Mais fascinado pelo poder da voz que pelo conteúdo do discurso, o jornalista se diz apolítico, e rechaça críticas de quem o considerava alinhado ao regime militar - "eu só lia as notícias, não escrevia". Em tempos de Brasil 2020, arrisco dizer que não ser obrigado a conhecer as opiniões políticas de uma figura pública - e simpatizar ou cancelar essa pessoa com base nisso - é quase uma benção.













