Ester
Ainda de frente para a tela brilhante do notebook, ela encarou o branco da ausência de palavras. Frustração, seria uma palavra possível, ao menos para começar. Estava prometendo para si mesma que, assim que começassem suas férias, empenharia-se em escrever. Mas, escrever o quê? Nada lhe vinha! Ela sentia sempre que tinha um potencial, uma possível história grandiosa ou um pequeno esboço de uma personagem carismática e complexa. Em seu âmago, sentia-se especial, com muito para contar. Mas nada se desenvolvia.
Já havia tomado quase toda a garrafa de café, mais pela força do hábito. Era uma forma de ocupar-se, para se sentir menos improdutiva. Já havia dado várias voltas pela sala, pela casa, verificou a caixa de e-mail. Mas que bela escritora! Sem ideias, sem conteúdo algum. Uma casca oca, onde apenas havia ecos de uns pensamentos rasos. O que poderia escrever? Tudo lhe parecia tão clichê. Ela tinha muito medo de parecer brega ou repetitiva, de apresentar “mais do mesmo” e cair em esquecimento. Seu maior pesadelo era apresentar algo medíocre. E nesses momentos de bloqueio criativo, sentia que era apenas mais uma. Não possuía nada de especial e, de fato, não teria nada de incrível para escrever sobre.
Nessas ocasiões, nenhum esforço mais valeria a pena. Todo seu mundo já havia perdido o encanto. Sua vida era enfadonha, sem grandes personagens, e ela mesma, constantemente, assumia o papel de coadjuvante. Nada de novo sob o sol, dia após dia, em sua rotina monótona de trabalho. Havia tempo que sentia sede de algo diferente, mal podia esperar por suas férias, para que pudesse, finalmente, sentir-se. Mas quando passou a ter tempo, faltou-lhe experiências. Sempre sonhou em ser escritora, mas tudo parecia agora uma grande ilusão. “Não sirvo pra isso. Não é minha vocação”. Parava para analisar sua vida, pensando o que serviria de material para uma boa história. Quem se interessaria por ela? Por aqueles dias quentes e lentos atrás de um balcão de um bar caído? Quem compraria um livro sobre uma mulher comum do interior?
Passadas mais algumas poucas horas, ela já estava absorta em outros devaneios. Por fim, começou a pensar em uma velha amiga, com quem já não batia papo havia um bom tempo. Era muito simpática e muito determinada, e uma de suas frases favoritas era “A parte mais difícil sempre é o começo”. Quando ouviu em sua cabeça a voz alegre de sua amiga lhe dizendo isso, sentiu uma leve pontada no peito. Onde andaria aquela mulher? O que estaria fazendo? Sentiu uma imensa vontade de falar com ela, convidá-la para sua casa para fazer-lhe companhia. Imaginou como seria ter a amiga para rir juntas nas férias, tomar um café enquanto conversariam sobre assuntos banais ou pitorescos.
Deitada no sofá, voltou a olhar para o notebook que estava na escrivaninha, um escritório improvisado. Agradeceu mentalmente à amiga pelo conselho, logo procuraria seu contato. Sentou-se novamente para escrever, repetindo para si mesma “a parte mais difícil sempre é o começo”, quase como um mantra. Se é a parte mais difícil, teria que superá-la. Talvez sua vida não fosse tão rasa, por mais trivial que poderia parecer. Decidiu narrar seus dias, começando por seu nome: Ester.

















