Cloudy
Lembra-se de quando víamos as nuvens? Não eram apenas nódoas brancas, borradas pela velocidade dos transportes, amorfas, pálidas, lúgubres e sufocantes. Não, não eram as paredes maciças que hoje muram nossos céus, confinando-nos em um mundo sem escapatória. Animais fantásticos, metamorfos, espiralando pelos céus, brincando – ou ainda atacando! – uns aos outros. O espanto nos tomava, boquiabertos, com tais criaturas gigantescas. A diversão do imaginar era tingida pelo assombro, a ponto de nos fazer engolir em seco, bloqueando nossas gargantas. Ainda assim, não era melhor que esta apatia? Qualquer coisa não seria melhor que o eterno balançar do gado a ser transportado nos caminhões, sempre até um destino inexorável, inescapável? O titereiro ri ao retorcer a marionete, mas o que ela sente nunca é considerado. Está ali para cumprir seu papel, para entreter quem assiste ao show – quem nos assiste, eu me pergunto? Há alguma espécie de Deus sádico por trás das luzes dançantes e da música alegre? Engraçado como sinto novamente aquela “bola de tênis”, como costumávamos dizer, em minha garganta, mas agora... Nada mais me vem. Enquanto meus olhos ardem, as lágrimas correm de mim, escondendo-se em algum lugar de meu corpo. Meus lábios tremem, mas não produzem qualquer som, como se me afogasse em terra firme. Quando foi que me tornei tão entorpecido? Talvez no momento em que deixei de ver as nuvens.








