sER.á.linha_do: a trama do corpo por Fernanda Fatureto
sER.á.linha_do: a trama do corpo
“Não há de modo algum absolutos onde se trata de seres humanos, nenhum absoluto bom futuro, nenhuma absoluta inevitabilidade de qualquer espécie, seja física ou metafísica”
É possível apreender a duração do gesto? De que maneira poderíamos calculá-lo? Ressignificá-lo? Quando se trata da Performance, deparamo-nos em uma charada parecida com a qual Teseu encontrou-se na boca do Labirinto. Sendo um espaço fortificado, construído para ser habitado pelo Minotauro –metade homem, metade touro – o herói grego teria de assassiná-lo para expiar a culpa pela morte de tantos atenienses.
A gênesis da Performance está ligada irredutivelmente à impossibilidade do retorno à sua duração. Há uma espécie de duelo entre o tempo e corpo – relação discutida a partir do final da década de 1950 e a desmaterialização da arte. O ato inaugural da ação do corpo no espaço é único. Se replicássemos mil vezes um acontecimento – happening – no corpo do mesmo artista, falaríamos de mil ações empreendidas em tempos distintos. E por que não em outro corpo?
Para Henri Bergson, o tempo real constitui-se de continuidade, mudança, memória e criação. Aspectos intimamente relacionados ao conceito de duração. Para o filósofo, não há estabilidade. Os acontecimentos encadeados, mesmo a tentativa de repetição de cada cena, inaugura nova linguagem. Não somos o mesmo. O artista e sua ação no espaço também não o são. É nesse embricamento que as artistas Eliana Moeckel e Tamara Faifman realizam o trabalho sER.á.linha_do.Jogo performático no qual o corpo da artista serve de suporte para as tramas narrativas de Tamara Faifman, na qual borda vagarosamente o rastro de uma linguagem difusa, poética.
O encontro entre o corpo, enquanto suporte, e as palavras nascidas em pequenos cadernos que se expandem em linhas, ultrapassam o papel enquanto se materializa no encontro de duas artistas. O corpo enquanto poesia, concreta, ao deparar-se com o Outro, repleto de historicidade e tempo. Todo corpo, toda a escrita, carrega seu rastro de historia . Contada a partir da performance que inaugura o espaço.
Nessa teia, vemos um duplo: o feminino transborda (em) a linguagem. O corpo da artista aos poucos se descobre – no sentido literal. No sentido metafórico. Torna-se nú à medida que não cabe à Tamara Faifman reter o jogo da escrita frente ao público. As artistas ressignificam o duelo de Teseu, por meio do sentido amoroso ao texto. (Por que não Roland Barthes e seu Fragmentos de um Discurso Amoroso?). Foi Ariadne, filha do Rei Minos, apaixonada pelo herói, quem o ajudou a percorrer o Labirinto: por meio de um novelo que se desenrolava à medida que o corpo de Teseu chegava até o centro da fortificação habitada pelo Minotauro.
O novelo, a linha, representa a chegada ao epicentro da trama. O discurso amoroso do gesto que personifica a ação e tece outros corpos.
Não podemos desconsiderar a questão de gênero ali presente. São duas mulheres na mise-en-scéne. Corpos transformados em espetáculo. Reposicionados em um espaço institucional – o museu de arte; o espaço expositivo. Requerindo seu lugar, sua historicidade. Andrea Nye, cátedra da Universidade de Wisconsin, escreveu em Teoria Feminista e as Filosofias do Homem, revisitando Jean Paul Sartre, que “o homem se torna o que ele escolhe ser, e o que ele escolhe não decorre automaticamente da hereditariedade, do meio, de traços da personalidade preestabelecidos nem da estrutura social. O que ele vem a ser depende de suas decisões livremente tomadas (…)”.
Em cena, há um corpo desvelando-se. Um corpo que voltará ao seu estado original.
Há o nú. Há mais. Um corpo de mulher nú. Na História da Arte, o corpo de mulher nú é tema e suporte desde a Renascença. Primeiro, os pintores o idealizaram. Com o cubismo, Picasso utilizou suas Les Demoiselles d’Avignon para romper não apenas com a perspectiva pictórica, mas com o espaço do corpo da mulher em cena – todos sabemos de que forma (e em que contexto) elas foram pintadas… Nos anos de 1960, Marina Abramovic institui o corpo feminino enquanto suporte para uma ação até então nova. Reposicionou o feminino, seu gesto e sua duração. Em entrevista concedida a Ana Bernstein, Abramovic revela: “No começo do meu trabalho, ser feminina era como uma fraqueza, pois você tem sempre que ser forte e masculina, também na aparência…[Depois de percorrer a Muralha da China, no trabalho The Lovers – The Great Wall Walk, 1988] (…) eu queria mostrar minha vergonha, as situações que me deixavam sem graça e as coisas que tenho medo de mostrar ao público e só meus amigos podem saber. Foi libertador. (…) E daí eu pude realmente ser feminina”1.
Por si, a linguagem poética criada por Tamara Faifman e recebida por Eliana Moeckel também recorre ao feminino. Ela desloca o sentido original do significado para desdobrar-se em significantes. Linhas e dobras geradoras, matrizes. Linhas-mãe. A escrita enquanto atividade carnal reclama sua posição. Não à toa, o bordar é uma atividade milenar destinada às mulheres.
No início da ação, enquanto a artista adia – como em um jogo – o uso da linha no corpo de sua parceira, em uma intimidade dilacerante que se desdobra aos olhos dos espectadores, elas sentam frente-a-frente em um duelo de palavras profanadas. O textual é o personagem central. Ele pede passagem em toda a ação performática até atingir outro status: o da imagem. Segundo as artistas, “os textos nascem em pequenos cadernos e se expandem em cadernos maiores. Algumas vezes a mensagem escrita consegue ser lida, algumas vezes se transforma em um código visual, um desenho a ser desvendado ou não. Assim como o corpo, que está no mundo carregado de vivencias (poder ser lido, entendido ou não) basta o interesse do outro em se aprofundar nesse conhecimento, nessa leitura”.Textos mesmos que estarão borrados, signos sem distinção.
A proposta do trabalho se dá em linguagem híbrida entre a fisicalidade do corpo e a escrita. Tamara Faifman inicia sua poesia em linha nos cadernos de papel. A transmutação do suporte – passagem – revela o desafio de acolher a matéria poética no sensível. É no sensível que decorre a ação. Local este em que se encontra o público. Local em que serão deixados restos da escrita; como testemunhas da “obra-encontro e o corpo instalado, apresentando como um convite a ser decifrado”, nas palavras da artista Eliana Moeckel.
O desvelamento acontece pela via textual. Por meio da escritura, parte efetiva da construção de Tamara Faifman, acontece o desnudamento. A artista se revela em entrelinhas. A performance se sustenta na medida que não objetiva provocar choque, e sim sutilezas. O reencontro com a sensibilidade perdida nos tempos atuais; ao expor a fragilidade das artistas. Suas fissuras e (des)cobertas.
A ação acaba por confluir em uma trama na qual a cumplicidade das duas artistas é ponto-chave: por quanto tempo o corpo aguentará o gesto impreciso? A duração do gesto, a mão que borda a linha em outro corpo, tensiona o espectador. Captura-o. “Transmuta a linha e encontra uma superfície que a acolhe em um ser texto vivo, que se alinha, que chama o outro para a leitura. Enfim uma leitura sensível do corpo em linha no espaço”, afirmam as artistas.
À procura de um espaço sensível para a ação.
[1. Marina Abramovic conversa com Ana Bernstein em Nova Iorque – 11 de fevereiro de 2005 (Caderno Videobrasil - Performance)]
Fernanda Fatureto é jornalista. Investiga a relação entre Crítica e História da Arte. Entre 2009 e 2011 cursou Arte: Crítica e Curadoria na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Performance: sER.á.linha_do
Artistas: Eliana Moeckel (com textos e performance)
Tamara Faifman (textos e escrita performática)
Texto crítico: Fernanda Fatureto
Produção: Eliana Moeckel e Tamara Faifman