Confessional Sete
Domnu é a deusa irlandesa das profundezas abissais, tudo que vem dela é turvo, complexo e multifacetado. Inclusive a água. Especialmente a água. Porque a água onde Domnu existe não é um lugar tranquilo. É um mar profundo, com seres desconhecidos, mas não mal. Domnu é anterior ao julgamento, ainda mais ao julgamento humano. E há uma ética muito simples, mas muito séria no mar de Domnu: o repouso. Tudo que existe no fundo mais profundo do mar é próximo ao solo. É onde o corpo - com vida ou não - encontra descanso. E isso é humano.
Humano porque, apesar de falar de uma deusa, o solo marinho é sobre descanso, e o ser humano não descansa. É o mal da espécie. Sempre criar, produzir, almejar, crescer, render, fazer, merecer... E o repouso vem forçado, quando o corpo material não aguenta mais a pressão. Ele cede e desmonta.
Há uma ideia de que existem monstros, de que o monstruoso é real. E eu concordo, só não concordo com a definição. Monstruoso, ao meu ver, é tudo aquilo que nos faz fugir da humanidade. Se te torna menos humano, é monstruoso. E isso nem se aplicaria a um ser sobrenatural, por exemplo: se ele encarasse o próprio medo, sentisse a própria sombra, ele não seria monstro para mim. Seria humano. O monstro é o que distorce, o que invalida, o que não vê humanidade, não vê ternura, e ativamente se coloca contra a calma e a integridade dos outros seres.
Às vezes sinto como se a sociedade tivesse invertido valores, e o que mais nos torna humanos - precisar uns dos outros - fosse visto como errado, monstruoso. E esse é um problema da sociedade, do sistema, não da necessidade.
Não somos ilhas. Muito menos territórios em guerra. Competir é inútil e contraproducente. Ajudar e ser ajudado, precisar e ser necessário, são fatores de humanidade, não desqualificação.
E veja que coisa curiosa: decidi descer ao mar profundo de Domnu, para repousar e me ouvir melhor, e me vi necessitando de outros.
Ao repousar no colo de Domnu, me descobri mais humana. - 15 de fevereiro de 2026


















