Era bonita, cabelo curto, seios fartos, bunda boa, redondinha.. Olhos grandes e boca carnuda, sorriso sincero e voz estridente... Quando a conheci achei que era simples, e talvez queria que eu achasse isso mesmo. Ela era cheia de convicçÔes e segurança, pregava independĂȘncia e desamor, dizia que tinha aprendido muito sobre o amor, mas nunca a amar, e por isso preferia nem tentar, nĂŁo que fosse dispensĂĄvel, mas no fim nĂŁo compensava a energia gasta... Tinha um louco anseio de deixar tudo pra trĂĄs e ver o que os cinco continentes poderiam lhe oferecer, de esquecer todos a fim de conhecer todo mundo, emanava um desejo incomum de aproveitar a juventude com insanidades.
Mas aĂ, naqueles corredores, passei a conhecĂȘ-la melhor... Ela tinha um plano, ela planejara quando seria espontĂąnea e quando se aventuraria, lia livros mais que comia pra viver em outro plano mais interessante, sabia o quanto era bonita e tinha medo disso, sabia o quanto era inteligente e nĂŁo usava ao seu favor... Vi-a vĂĄrias vezes mendigando um "Eu te amo" e um "NĂŁo vou te deixar", vi tambĂ©m quando chorou, se debulhou em lĂĄgrimas pra nĂŁo se afogar em incertezas... Se esforçava por fim, a ser leve, mas pra isso, ninguĂ©m lhe ensinou que era preciso relevar... Pra nĂŁo carregar o mundo nas costas, guardo-o no peito, enterrou no fundo de seu Ăąmago suas feiuras, seus medos, inseguranças, disse a si mesma que lidaria com aquilo quando chegasse a hora de ser responsĂĄvel, mas que antes disso, mesmo que tivesse que pular pra atingir as alturas, ela seria leve, feito pena, que o vento leva, se Deus quiser, pra um lugar de condiçÔes mais favorĂĄveis.
Foi assim que da menina com os olhos desafiadores, surgiu a mulher, dona de duas grandes avelĂŁs, contrastando perfeitamente com a pele pĂĄlida, que liam-me atĂ© a alma... Vi dos seus desejos brotarem realizaçÔes, da irresponsabilidade brotar juventude, e dessa tal juventude tĂŁo falava vi aflorar-lhe mediocridade; a sabedoria de viver em meio termo, equilĂbrio, sem extremos consumistas... Mostrou ela pra mim no final, que era o ser mais complexo com que jĂĄ havia me deparado e me disse: "Acha mesmo que sou Ășnica? Claro que nĂŁo paixĂŁo... Tenho minhas excentricidades, mas paradoxos como eu existem outros mil, cada mulher ao seu redor Ă© um exemplo disso. E sabe qual a diferença, que parece a vocĂȘ tĂŁo exorbitante, entre eu e elas? VocĂȘ tirou seu tempo pra me conhecer. Me deu seu coração em troca de ver minha alma. E saiba, se eu nĂŁo fosse assim, tĂŁo desconsertada, quebrada, te daria o meu tambĂ©m, e nem precisaria entendĂȘ-lo melhor para isso, pois o que vejo, jĂĄ cativa meu profundo apresso... Enfim, Ă© uma pena nĂŁo Ă©? Sei tanto sobre o amor, e nunca aprendi a amar..."
Ela me ensinou muito enquanto perambulou naqueles corredores, e ainda mais quando se foi... Achava-me sabido, e mal sabia eu o universo que existia naquela mulher. Espero encontrĂĄ-la ainda, um dia quem sabe, sĂł pra saber se encontrou equilibro interno, ou se sucumbiu aos seus lados conflitantes. Ou entĂŁo sĂł queria vĂȘ-la mesmo, seu sorriso, seus olhos, cabelo curto e rebelde, e aquela bunda boa que eu tanto admirava.