Eu sou como um caranguejo, escondo tudo que há dentro de mim e só deixo a casca a mostra.
Fragmentos de uma análise com Deusa Candelaria.
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Eu sou como um caranguejo, escondo tudo que há dentro de mim e só deixo a casca a mostra.
Fragmentos de uma análise com Deusa Candelaria.

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Mais uma sessão que você consegue mostrar sempre a beleza das coisas, mas por mais que eu me esforce eu não consigo enxergar nada bom em mim. Queria poder vê beleza nos retalhos, queria acreditar que é através das rachaduras que a luz entra, queria conseguir me levantar, mas sou pesada demais pra mim mesma e duvido que outras pessoas consigam me segurar. Posso até parecer iluminada, mas são apenas meus cacos brilhando pelo chão, e quando chega a noite e cada músculo do meu corpo geme de dor, que me encontro comigo mesma e me enxergo na escuridão o que é estranhamente acolhedor onde não preciso sentir dor na mandÃbula de tanto fingir sorriso durante o dia e me familiarizo com o gosto salgado das lágrimas até ser tomada pelo sono e esperar a travessia do inferno em mais um dia que chega.
Fragmentos de uma análise com Deusa Candelária.
Isso não é uma carta suicida, é um pós suicÃdio que claramente não deu certo, novamente. O vazio parece três vezes maior, a frustração então nem se fala, afinal por quê a vida insiste em me impedir de sair dela? É algo tão simples. Pior de tudo é a realidade voltando com tudo pra você, como um tiro na cabeça no free fire. Tudo pesa e sinceramente, me sinto mais perdida do que nunca, mas preciso colocar um sorriso no rosto e fingir que está tudo bem enquanto desmorono mais uma vez, eu preciso responder que sim, eu estou, por ficar cansada só de pensar em precisar explicar o motivo de não estar, e correr o risco de escutar "logo passa", "é fase", "poxa... sinto muito", "é drama, para com isso", "sério mesmo? não é pra chamar atenção?". Se eu quisesse chamar atenção colocaria uma melancia na cabeça. Eu continuo sentada no chão, meio zonza pela intensidade dos pensamentos e chorando feito um bebê. Tudo tem sido motivo pra eu me chatear, me fechar e tentar mais uma vez. Mas ainda não achei o motivo que faz tudo dar errado. E é assim que funciona de mês em mês, eu vejo, ouço, sinto, acumulo tudo, extravaso e não dá certo. É um ciclo sem fim, e apesar de eu não conseguir tirar a minha vida, eu sinto que ela já foi tirada de mim aos poucos, em cada crise de ansiedade, de choro, de pânico, a sensação de não saber o que fazer só aumenta, mas a vontade de de descobrir o que fazer não existe mais. No fundo eu sei que eu preciso de ajuda, mas é exaustivo, porque sempre procuro no lugar errado e isso me desgasta totalmente, forças pra me recompor não tem mais no estoque. Minha mente é um campo minado, eu mesma preciso tomar cuidado com a forma que eu vou reagir as coisas, só pra manter o pouco de sanidade que me resta. Eu não precisava contar sobre mais uma dessas experiências, mas foi o último recurso para aliviar tudo isso. Nem sempre as pessoas demonstram seus problemas, então não usem isso como motivo para tratar as pessoas como vocês bem entendem, ás vezes tudo é muito mais intenso do que você pensa.
Fragmentos de uma análise com Deusa Candelaria
Uma garota se jogou de um prédio hoje a tarde. Ninguém sabe nada sobre ela, o nome, a idade ou o que fazia. Mas todo mundo quer opinar sobre o porquê. De repente, todo mundo acha que conhece a garota do prédio. De repente, ela se jogou por atenção, era burra, lésbica, negra, branca, pobre, perdida. Fraca. Indefesa. Sem ninguém para defende-la em vida, agora em morte. Ninguém para entender o real porquê. Eu sinto muito por eles querida. Eu sinto muito. Eu sei que o coração foi traiçoeiro e posso imaginar o que sentiu ao se aproximar daquela janela e olhar para baixo. Eu sei que pareceu ser a única saÃda. Eu não culpo você meu anjo, eu evito olhar a varanda da minha psicóloga pelo mesmo motivo que o seu. Olhando seu corpo sem vida, podia ser o meu. Podia ser de mim que estariam falando agora. Poderia ser eu sendo julgada, sem nome. Eu queria estar passando por lá, antes, pra poder te puxar e abraçar e dizer pra tentar mais um pouco, que eu podia ajudar a catar os caquinhos. Eu queria dar um final diferente para sua história. Mas você abriu suas asas e voou. Eu queria que o mundo fosse confortável pra você. Queria tornar o mundo confortável para todos nós. Então quem quer que você seja, onde quer que esteja, eu te perdoo por desistir. O fato é que somos todos suicidas em potencial. Coisas simples como dar bom dia ou sorrir, pode mudar o dia de alguém. Não perca oportunidades se perceber que uma vida corre risco. Nunca. Não queremos mais borboletas voando, não essas. É nossa culpa. Abra os olhos, o mundo está ficando podre porque pessoas boas estão se matando.
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"Por que ser mulher é doloroso?" Assim terminamos mais um sessão, queria poder ter uma resposta clara pra essa questão, mas não importa o gênero, viver dói, respirar dói, ter medo dói, as incertezas dói, o passado dói, as dúvidas de como será o futuro também dói. Como ser uma pessoa sem dores, como amar sem dor, como viver sem dor? Mesmo sem saber as respostas vou me refazendo nos retalhos das dores, ora da menina, ora da mulher.
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Quem sou eu?
A pergunta que ecoa na mente, onde nem um anestesia geral conseguiria silenciar.
Sou eu a garota de asa partida, que destrói tudo que toca.
Que afasta tudo que chega.
Que sorri pra tudo e todos, porque tenta esconder o vazio que carrega na alma, isso se ainda possuir alma.
Ninguém pode consertar minha asa.
Não posso me encontrar, também não posso fugir, as sombras sempre me perseguem.
Eu ouço e vejo, mas não absorvo.
A vida passa por mim eu não sinto nada .
Não sinto paz ou desespero.
Não sinta falta de quem eu fui.
Não sei quem sou hoje.
E não consigo enxergar quem serei amanhã.
A verdade é que eu sou frágil.
De certo modo, sou de vidro; quando me jogam no chão, eu quebro, mas se pisarem eu corto.
A verdade é que eu quebro diariamente, e isso já faz tempo.
Eu virei pó, eu virei uma carne moÃda mastigada e vomitada.
sim, não nego, doeu, mas as pessoas só vêem o que eu deixo, então elas não sabem se eu sofro, porque eu não me queixo.
Fragmentos de uma análise com Deusa Candelaria.
A minha parte que mais se aproxima de mim me assusta. Aà eu me visto em várias camadas, tal como um cebola.
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