Eu sempre fui muito forte, sabe? Depois de pequena a vida fodia comigo. Com uns quatro anos meu pai arrumou as coisas dele e foi embora de casa, me deixando sozinha até minha mãe chegar do serviço. Superei e perdoei o desgraçado. Com 7, minha vó teve um infarto na minha frente, no meu quarto. Até hoje minha mãe diz que ela estava viva ao chegar no hospital. Eu sei que é mentira. Eu vi os olhos dela. Vi ela gritando "vai embora, vai embora!" e esmurrando o chão do meu quarto. Não tinha mais vida ali. Depois disso, minha mãe entrou em depressão. Quinze dias sem comer, beber, chorar, falar. Só fumar. Eu fiquei do lado dela todo o tempo. Segurando na mão e esperando a vizinha da frente trazer comida e falar comigo como se nada disso tivesse acontecendo. Eu não chorei nesse tempo todo. Minha mãe superou, eu superei. Com uns 10/11 anos minha casa foi inundada. A água levou metade dos moveis. Vi o desespero no rosto da minha mãe. Vi minhas coisas indo embora. Superei, me reconstruí. Mas com meus fodidos 12 anos, eu regredi. Me deixei abalar por causa de coisas bestas como a opinião alheia. Minhas "amigas" diziam que eu não era boa o suficiente. Eu comecei a ficar deprimida. Minha mãe percebeu. Ela me perguntava, e eu não respondia. E isso acabou com nosso relacionamento. Uma pisciana tentando desvendar o coração de uma taurina? Isso nunca ia dar certo. Foi quando eu comecei a me cortar. Eu já fazia isso desde pequena, sabe? Mas não sabia o que fazia. Por exemplo: eu errava algo, e em punição eu pegava uma pedra e apertava no meu braço até marcar, ou mordia minha língua até sangrar. Eu não consegui esconder por muito tempo. Briguei com minha mãe e me cortei na frente dela, o que foi a gota d'água. Policia, hospital, dramas. Paulo resolveu finalmente ser pai e quis me ajudar. Acabei fazendo um dos maiores erros da minha vida: me apeguei a religião por causa dele. Depois de tantos anos de carência, pensei que se o agradasse ele iria se importar comigo. Mais uma vez, eu criei brigas em casa por isso. Achava minha mãe impura, assim como eu. Nesse meio, nessa confusão, eu quase morria todos as dias. Acordar era como levar um tiro na boca do estomago por ainda estar viva. Até que eu conheci uma pessoa. Uma mineira que tem preguiça até de falar, que não penteia o cabelo e que tem uma voz linda. Começamos a nos conhecer, e ela com um jeito descarado conseguiu conquistar minha confiança, o que é algo quase impossível. Na época, ela sofria por um amor. O mais irônico era que a menina que ela gostava morava na mesma cidade que eu, e se bobiasse já teríamos nos encontrado em encontros de tumblr. Eu fiz de tudo pra ajuda-a com isso; ajudei-a a passar mal bocados quando a menina brincava com o coraçãozinho dela... Ia dormir pensando em como ela estaria, se estava bem ou mal. Ela é a unica pessoa que sabe tudo o que eu sinto. Mesmo. Ela é a unica que sabe todas as minhas razões. Nem mesmo minha mãe, que seria a pessoa mais próxima de mim sabe o quanto a creme -- apelido lindo dela, não? -- sabe. Até que chegou um dia que ela começou a se machucar. Foi o mais profundo dos cortes que eu pude sentir. Uma pessoa que eu amava estava triste ao ponto de se cortar. Ela mandou uma ask "eu me cortei" em anonimo no dia. Eu sabia quem era na hora. Comecei a chorar, coisa que eu nunca tinha feito por ninguém. A menina que tinha salvo minha vida estava se machucando. Só então que eu percebi o que minha mãe sentia. O desespero que é quando você vê alguém que ama nesse fundo de poço. Eu fiz de tudo para ela parar. Ela parou. Ela mudou. Ela cresceu. E agradeço a tudo que considero sagrado por isso. Eu vi ela crescer como pessoa, como mulher. Eu vivencie angustias dela, assim como ela vivenciou as minhas. Eu vi a animação dela quando ficou com a primeira menina, até seu atual amor. Rimos juntas. Briguei varias vezes com a minha mãe só pra ficar um pouquinho mais no computador pra conversar com ela. Briguei, brigo e brigarei com quem for preciso por ela. Mas agora a gente tá distante, não sei. É estranho. Não é como era antes. E isso é ruim. Eu só queria que tu soubesse que eu nunca vou te esquecer. Porque se não fosse você eu não estaria aqui. Te devo minha vida, amiga. Irmã. Eu te amo, porra.
Se eu acreditasse em Deus, diria que foi ele te mandou pra mim...










