INCĂGNITO (Herobrine x Leitora)
Avisos: Nenhum, apenas piadas de tiozão e provocaçÔes sem fim.
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CAPĂTULO V - OLHOS BRANCOS
â Criaturas com olhos brancosâŠ
Repetiu consigo mesma enquanto observava o alvorecer do sol. O clima estava ameno, um calor ainda fraco se infiltrando junto ao tom alaranjado que pincelava esparsamente o céu.
Postada diante do portĂŁo da vila, vocĂȘ acompanhou deleitosamente como sua figura começou a ser banhada pelo brilho da manhĂŁ; estaria em perfeita paz agora, se nĂŁo fosse pelo ocorrido de mais cedo.
O mesmo aldeĂŁo de ontem havia te abordado no caminho, ele ainda parecia assustado, dizia ter visto criaturas com olhos brancos.
Isso te deixou com uma pulga atrĂĄs da orelha.
Soltou um murmĂșrio baixo, pensativa. O que ele disse nĂŁo era comum, mas tambĂ©m nĂŁo dava para dizer exatamente que era incomum.
Existiam boatos de que era um prelĂșdio que antecedia as apariçÔes de Herobrine, se era verdade ou nĂŁo, nĂŁo dava para ter certeza, assim como tudo que envolvia a lenda. Mas algo na forma como o homem falouâŠ
Um grunhido repentino tirou-lhe de seus devaneios.
Praxis te saudou com um aceno, os movimentos acompanhados pelo ranger metĂĄlico de seu corpo.
â Para mim? â perguntou, ligeiramente surpresa ao vĂȘ-lo te oferecer uma rosa. â Obrigada.
Ele soltou um ruĂdo satisfeito e se afastou para ir ao encontro de uma criança, que o chamava animadamente Ă distĂąncia. VocĂȘ o observou por um instante, depois olhou para a flor e a girou distraidamente em seus dedos. Aquele gesto era uma forma de Praxis desejar âboa sorteâ, um guardiĂŁo reconhecia o esforço de outro.
â AlĂ©m de dar nome para o golem, vocĂȘs tambĂ©m ensinam ele a flertar?
â Andarilho! HĂĄ quanto tempo estĂĄ aĂ?
â Acabei de chegar. â Descruzou os braços, aproximando-se. â Sabe, Ă© meio estranho que vocĂȘ continue me chamando de âAndarilhoâ.
â VocĂȘ nĂŁo me deu seu nome.
â Eu te dei meu apelido.
â NĂŁo somos Ăntimos para que eu possa chamĂĄ-lo por apelidos.
Ele ficou em silĂȘncio, te analisando por baixo da venda.
â CadĂȘ a sua bagagem? â questionou, reparando confusamente que ele nĂŁo trazia nada consigo.
â Ă. Suas mochilas, seus pertences, vocĂȘ nĂŁo vai levar nada para a viagem?
â Eu sou um andarilho, senhorita guerreira, eu nĂŁo levo e nem trago nada comigo. O que preciso, conquisto no caminho.
â Isso nĂŁo parece muito seguroâŠ
Ele virou a cabeça em direção ao horizonte que se estendia pelos portĂ”es abertos da vila, o vasto mar de ĂĄrvores que esperavam do outro lado.Â
â Pronta para a viagem?
VocĂȘ tambĂ©m olhou, contemplou a vista brevemente, e entĂŁo anuiu.
Andarilho deu inĂcio oficialmente Ă sua missĂŁo no momento em que pĂŽs os pĂ©s no gramado fora dos limites de Roosevelt, vocĂȘ o seguiu logo em seguida, deixando-o liderar o caminho.
Ele passou por entre as ĂĄrvores e troncos caĂdos que encontrara no caminho com uma facilidade louvĂĄvel, era como se jĂĄ conhecesse o lugar com a palma da mĂŁo.
Na orientação de mais uma curva, vocĂȘ finalmente reconheceu para onde estavam indo.
â Ă sĂ©rio que vocĂȘ decidiu seguir por aqui? â Olhou incrĂ©dula para a tĂŁo temida, o começo dela estava um pouco distante, mas jĂĄ era visĂvel.
O sorriso zombeteiro que ele deu revelou caninos afiados.
â Vai que o Herobrine aparece.
â EntĂŁo vocĂȘ jĂĄ ouviu os rumores⊠â reparou em um murmĂșrio que era mais para vocĂȘ do que para ele.
O homem te fitou atentamente, sem o seu conhecimento, estudando sua reação. Ao adentrarem por aquelas bandas, o fantasma de um calafrio deslizou pela sua pele enquanto vocĂȘ olhava para a floresta. Durante a luz do dia, ela era bem diferente do que vocĂȘ lembrava; uma espĂ©cie de nostalgia misturada com assombro se enraizou em seu peito.
Andaram por um tempo, embalados no canto dos pĂĄssaros; nĂŁo trocaram nenhuma palavra, atĂ© vocĂȘ decidir puxar assunto, carregada pelas lembranças daquele dia.
â A Ășltima vez que estive aqui foi aos meus 15 anos.
Ele parou por um instante, como se estivesse considerando algo.
â HĂĄ tanto tempo assim? Teve algum acontecimento traumĂĄtico na adolescĂȘncia que te fez evitar esse lugar? â disse com um tom brincalhĂŁo. Apesar da postura relaxada, Hero parecia definitivamente interessado no que vocĂȘ tinha a dizer.
â A academia de guerreiros noturnos de Roosevelt tem uma âtradiçãoâ peculiar. â Coçou a nuca e observou um passarinho que pousara em um galho prĂłximo. â Todo novato deve passar por um teste, que consiste em ficar 10 minutos na floresta apĂłs o anoitecer e sobreviver aos possĂveis perigos que surgirem, sobreviver ao Herobrine. VocĂȘ sabe sobre a floresta da morte, entĂŁo jĂĄ deve ter ouvido falar nesse teste tambĂ©m.
O andarilho cantarolou, ainda te fitando.
â A primeira e Ășltima vez que entrei aqui foi durante o teste⊠Eu realmente nĂŁo achei que o Herobrine fosse aparecer, estava mais preocupada com os mobs, mas aĂ⊠â VocĂȘ fez uma pausa, gesticulando para o ar, como se repescasse a memĂłria. O homem inclinou a cabeça para o lado. â Ele apareceu na minha frente e⊠foi tĂŁo estranho.
â Bom⊠eu pensei que fosse morrer. â VocĂȘ desviou o olhar do cenĂĄrio Ă sua volta para a figura do moreno. â Ele poderia me matar facilmente, sĂł que nĂŁo matou; o que Ă© um alĂvio, Ă© claro, mas me faz pensar que, em nenhum momento, Herobrine realmente teve o intuito de me matar, porque, se tivesse, conseguiria em um piscar de olhos.Â
â Talvez ele sĂł quisesse te assustar.
â O que, para mim, nĂŁo faz sentido. Se fosse esse o caso, seria como se ele estivesse apenas se divertindo ali. Eu sei que algumas pessoas relatam que ele sente um prazer perverso em brincar com as vĂtimas e que tem alguma espĂ©cie de humor malicioso, contudo⊠nunca consegui pensar nele como alguĂ©m âbrincalhĂŁoâ, entre vĂĄrias aspas. NĂŁo parece ser assim.
â VocĂȘ acha que Herobrine Ă© um cara sĂ©rio?
â NĂŁo vejo como um homem que Ă© temido entre naçÔes seria do tipo que gosta de pregar peças, quero dizer, ele Ă© rei do Nether, deve ser bem ocupado.
As sobrancelhas de Hero se ergueram quase que exageradamente. Seus låbios se reprimiram quando uma risada fantasma ameaçou escapar.
â Pfff. Essa Ă© a sua visĂŁo?
â Sim, eu⊠Por que vocĂȘ estĂĄ rindo?
â Por nada, apenas⊠â exalando fundo, meneando a cabeça â estou apenas surpreso com a sua opiniĂŁo, eu nĂŁo esperava ouvir algo do tipo.
â Surpreso? NĂŁo devo ser a Ășnica pessoa a nutrir essa opiniĂŁo, creio que a maioria pensa assim â ponderou, genuinamente confusa com a resposta recebida.
â Eu sei, mas vindo de vocĂȘ parece⊠â parou, mirando a floresta por um instante. â NĂŁo sei.
VocĂȘs se encaram em silĂȘncio, como se existisse algo mais a ser dito, mas nenhum dos dois soubesse exatamente o quĂȘ.
Por um curto momento, vocĂȘ repara no fato de que seu companheiro nĂŁo parecia nem um pouco surpreso ao ouvir-te afirmar ter visto Herobrine; mas antes que o pensamento conseguisse se firmar na sua mente, sua concentração Ă© quebrada pelo relinchar repentino de um cavalo.
Quando avistou a criatura esbelta e de pelos flavos mordiscando capins de maneira etĂ©rea, encantou-se, sua distração destruindo qualquer linha de raciocĂnio que pensava em se formar.
Ambos pararam, mas nĂŁo antes de serem notados pelo cavalo logo Ă frente, que agitou as orelhas, atento. Ele resplandecia na luz, como se fosse um raio perdido do sol. A julgar pela falta de equipamentos, tratava-se de um selvagem.
â Veja sĂł o que temos aquiâŠ
â Que lindo⊠â vocĂȘ afirmou em um murmĂșrio.
O homem coçou a própria barba, pensativo.
Fitou-o, incrédula com a mera ideia. Ele, no entanto, jå estava se direcionando para o equino.
â EstĂĄ falando sĂ©rio? Se queria ir a cavalo, poderia ter alugado um antes de partirmos.
â NĂŁo estava nos planos, mas mudanças sĂŁo sempre bem-vindas! â Abriu um sorriso largo e arrojado.Â
Céus, ele estava falando sério.
â Nesse caso, Ă© mais viĂĄvel conseguirmos um em alguma vila no caminho.
Hero gesticulou com indiferença, como se estivesse empurrando o ar para longe.
â NĂŁo. Vou fazer Ă moda antiga.
O cavalo parou de mastigar e ergueu a cabeça, ficando hirto, orelhas apontadas na direção de vocĂȘs, parecia atĂ© que sentia o que estava prestes a acontecer.
Os dois se encaram com intensidade, completamente estĂĄticos, concentrados.
VocĂȘ pensou em protestar, o andarilho, porĂ©m, foi mais ĂĄgil e se jogou em cima do animal com uma velocidade impressionante.
Assustado, o cavalo guinchou e começou a corcovear violentamente. Hero lutou para se segurar durante os pinotes, mas seu corpo foi lançado bruscamente no chão em poucos segundos.
VocĂȘ assistiu Ă cena, embasbacada. Antes que pudesse expressar preocupação, o encapuzado jĂĄ havia se levantado.
Ele tentou de novo⊠e caiu. Tentou mais uma vez, foi arremessado longe, tentou outra vez e continuou caindo.
Bufando de maneira aborrecida, o equino fustigou o rabo, sua bela crina desgrenhada por conta da comoção.
Em algum momento entre a terceira e a quarta queda, uma onda de gargalhadas te acometeu, deixando-lhe lufando.
Enxugando o suor que se acumulava na testa, agora livre do capuz azulado, Hero virou a cabeça na sua direção como se estivesse particularmente ofendido; seu cabelo tão desgrenhado quanto o da pobre criatura.
â Precisa de maçã para domesticĂĄ-lo â afirmou, como se estivesse defendendo alguma tese.
Suas orbes varrem ironicamente os arredores por um breve instante.Â
â NĂŁo estou vendo nenhuma macieira por aqui.
Ele aponta para algo atrĂĄs de ti. Curiosa, vocĂȘ segue com o olhar e procura.
â ⊠NĂŁo tem nada ali.
Quando voltou-se para ele, Hero jĂĄ girava uma maçã na mĂŁo, seus caninos brancos visĂveis em meio a um sorriso torto.
â Onde foi que vocĂȘ arranjou essa maçã?! â inquiriu, boquiaberta.
â Eu tenho meus meios â respondeu, convencido.
O animal farejou o ar e fisgou os olhos na fruta avermelhada, seu casco raspando o chão. Com cuidado, o andarilho se aproximou e esticou o braço, deixando-o cheirar o alimento, antes de capturå-lo com os dentes.
Aproveitando a oportunidade, acariciou com esmero o pescoço do equĂdeo, que apenas mastigava, jĂĄ em completa mansidĂŁo. Quando percebeu que era seguro, tentou montar de novo, dessa vez tendo ĂȘxito.
â Pronto! â exclamou confiantemente apĂłs se firmar no dorso do cavalo. â VĂȘ? Sei o que faço!
VocĂȘ coçou a cabeça, ainda chocada, e acercou-se de maneira quase desconfiada.
â Planeja mesmo ir atĂ© Cantaria nele?
O andarilho aquiesceu, animado, e penteou o cabelo para trås, antes de puxar o capuz da capa para cima e ajustå-lo sobre sua cabeça.
Com um suspiro, vocĂȘ olhou para frente. Nesse caso, terei que alugar um cavalo na vila mais prĂłxima o quanto antes, para nĂŁo atrasar a viagem.
Hero lhe ofereceu a mĂŁo, tirando-a de seus pensamentos. VocĂȘ piscou, demorando para perceber o que ele queria.Â
â Ah, nĂŁo, nĂŁo. Eu posso seguir a pĂ©, obrigada.
â O quĂȘ? De jeito nenhum! Sobe aĂ.
â NĂŁo precisa, sĂ©rio. Sou acostumada a caminhar por longos percursos.
â Se vocĂȘ Ă© acostumada, imagine eu, que sou um andarilho. Sobe logo.
â Mas⊠nĂłs dois no mesmo cavalo é⊠â O moreno nĂŁo te deixou terminar, segurando seu pulso e solevantando uma sobrancelha questionadora.Â
VocĂȘ prendeu as orbes onde os globos oculares dele estavam por baixo daquela venda, uma espĂ©cie de guerra de olhares nĂŁo convencional se iniciando. Nenhum cedeu por longos segundos, atĂ© que vocĂȘ desistiu e, resignada, deixou-o te ajudar a montar.
A primeira coisa que te invadiu quando vocĂȘ se acomodou foi seu perfume inebriante, a segunda foi sua presença avassaladora, que parecia te envolver por completo em um abraço caloroso, a terceira foi a forma como seus corpos se roçavam de forma involuntĂĄria, o que tornava cada parte da sua pele dolorosamente consciente; desse ponto em diante, a lista sĂł aumentava.
Aquela situação era um perigoâŠ
VocĂȘ observa as costas dele, perdida em um misto incerto de sensaçÔes desconcertantes que faziam seu estĂŽmago revirar de um jeito incomum, uma fina camada de nervosismo infundado começando a nascer em seu peito.
Hero estava estranhamente quieto enquanto fitava o animal, seus dedos traçando padrÔes no pelo dele, como se estivesse tentando se acostumar com a sensação.
â JĂĄ faz tanto tempo que nĂŁo ando a cavalo⊠â ciciou em um tom nostĂĄlgico.
Seus olhos se arregalaram ligeiramente, agora sim havia um motivo para ficar nervosa â e como havia ficado depois daquela afirmação.
â Hein?!... Por que nĂŁo avisou antes?! EntĂŁo, deixa que eu conduzo elâŠÂ
O cavalo começou a galopar sem aviso prévio, empurrando seu corpo para trås. Uma rajada de vento feroz atingiu seu rosto e fez seu cabelo voar desordenadamente, o grito morreu na sua garganta enquanto seus dedos se enrolavam inconscientemente na cintura do andarilho.
A risada dele preencheu seus ouvidos, espontùnea, livre e radiante; te lembrava a de uma criança.
â âTĂĄ muito rĂĄpido! â exclamou, apertando-o com os olhos fechados. Fios da sua madeixa acertando sua cara.
O animal diminuiu a velocidade conforme a orientação de Hero, que ainda ria entre um suspiro e outro.
â Para quem nĂŁo andava hĂĄ muito tempo, vocĂȘ ainda tem um Ăłtimo controle â afirmou, voz meio trĂȘmula da adrenalina.
Aprumando-se, ele te espiou por cima dos ombros. Um segundo se passou atĂ© vocĂȘ finalmente perceber que ainda estava agarrada Ă sua cintura; o embaraço te acometeu enquanto, lentamente, o soltava e tentava disfarçar.Â
â Eu gostava de cavalgar quando era mais novo â explicou em um tom suave. VocĂȘ cantarolou para demonstrar que ouvia.
O cavalo adotou um ritmo constante, nem tĂŁo rĂĄpido, nem tĂŁo devagar, trazendo uma sensação de paz para o passeio. A conversa morre pouco tempo depois e vocĂȘs sĂŁo banhados pelo murmurejar da natureza.
â E vocĂȘ, jĂĄ viu o Herobrine? â perguntou, apĂłs um intervalo prolongado de silĂȘncio, orbes voltadas para as ĂĄrvores que rutilavam contra o sol.
De fato, a assombrosa floresta da morte nĂŁo parecia nada fĂșnebre quando iluminada.
â De onde veio essa pergunta?
â Ă que algo sobre ele ser ou nĂŁo sĂ©rio deu a impressĂŁo de que vocĂȘ o conhecia.
O andarilho ficou calado por um instante, então lançou-lhe um sorriso ladino.
â Claro, jĂĄ nos encontramos um par de vezes. Somos amigos Ăntimos, sabia? Tomamos chĂĄ e compartilhamos nossos segredos mais profundos um com o outro enquanto passeamos pelo Nether.
Uma gargalhada incrédula recheou seus låbios, aquela resposta te pegou desprevenida.
Quando chegaram, o céu jå se manchava em matizes alaranjadas de uma tarde que se despedia. A pé, aquela viagem duraria um ou dois dias, ir a cavalo acelerou bastante o trajeto.
Quando passaram pelos portĂ”es, Hero desceu do cavalo e fez menção de te ajudar, vocĂȘ prontamente recusou e saltou no chĂŁo por conta prĂłpria.
Ele abriu a boca, parecia querer dizer algo, mas entĂŁo deixou para lĂĄ.
VocĂȘ deu uma boa olhada na vila, ela era considerada a rainha da arquitetura pĂ©trea, conhecida pelos grandes profissionais cultivados em seu solo. NĂŁo era Ă toa que havia tantas estruturas bem elaboradas que adornavam desde o seu centro atĂ© a entrada e laterais. Era um lugar consideravelmente avançado em termos de construção.
â Chegamos â afirmou com placidez, Ăris colada na enorme estĂĄtua detalhada de um dos fundadores Ă distĂąncia.
â A vila dos canteiros â Hero concordou, dando tapinhas amigĂĄveis na garupa do mais novo companheiro de vocĂȘs.
â O que pretende fazer aqui, afinal? Uma escultura sua de pedra?
â Hah! Ă uma boa ideia! â Assoprou ar pelas narinas em divertimento, antes de ficar um pouco mais sĂ©rio. â Eu vim ver um canteiro.
VocĂȘ faz uma expressĂŁo zombeteira para a informação Ăłbvia.
â ⊠à um velho amigo â acrescentou depois de um tempo, começando a conduzir o animal. â Se nĂŁo me falha a memĂłria, hĂĄ um estĂĄbulo por aqui perto.
VocĂȘ o seguiu, nĂŁo era familiarizada com a vila, porĂ©m, era notĂłrio que seu parceiro sim.
â Hm. Estranho. â Coça o queixo depois de um tempo, despertando sua concentração hĂĄ muito dispersa.
â Ironicamente, nĂŁo vejo nenhuma cantaria por aqui.
Seus pés travam brevemente.
Nossa, que trocadilho péssimo.
â VocĂȘ sabe que o nome da vila se refere a talhamento de pedras e nĂŁo a cantar, nĂ©?
â Ă claro que sei. VocĂȘ estĂĄ estragando a piada!
â Se vocĂȘ fosse um bobo da corte, eu teria pena do seu reiâŠ
â Ow, assim vocĂȘ me ofende.
Momentos depois, vocĂȘs estavam em frente ao estĂĄbulo pĂșblico, o andarilho pagou um tratador para cuidar do equino enquanto resolvia seus assuntos. VocĂȘs o acompanharam atĂ© uma baia limpa, o cidadĂŁo conversava animadamente sobre a vila, puxando assuntos que vocĂȘ nĂŁo se importou o suficiente para prestar atenção.
â A propĂłsito, vocĂȘs tambĂ©m vendem apetrechos para montaria? â perguntou, apĂłs guiar o animal para a baia.
â Vendemos! SĂł um segundo, senhor, vou buscĂĄ-los!
O rapaz sumiu no corredor.
â VocĂȘ vai comprar equipamentos para ele?Â
Hero aquiesceu, fitando o cavalo com cuidado, como se absorvesse sua aparĂȘncia.
â Estou pensando em ficar com ele â ponderou, inclinando-se por um instante, antes de te lançar um olhar de revelação. â ⊠Ela, na verdade.
Curiosa, vocĂȘ se aproximou e averiguou tambĂ©m.
Um sopro escapou da criatura â que agora comia feno â, dada as circunstĂąncias, parecia uma cĂŽmica demonstração de indignação.
â DĂȘ um nome para ela.
â Eu? Por que eu? A Ă©gua Ă© sua!
â NĂŁo sou bom com nomes.
Crispou os lĂĄbios, considerando, antes de analisĂĄ-la. Sua pelagem ocre era o que mais se destacava para vocĂȘ.
â Ou⊠Cacau. â Inclinou a cabeça para o lado. â Quando olho para ela, sĂł me lembro desses doisâŠ
â Olhar para ela te lembra a doces? â Ele ergueu uma sobrancelha brincalhona. â EstĂĄ com fome?
Suas bochechas esquentaram.
â N-nĂŁo Ă© bem assimâŠ
Embora, sim, estivesse com fome.
â Ok, vamos pensar em um nome melhâŠ
Ele te interrompeu, cruzando os braços e balançando a cabeça como se tivesse tomado uma decisão.
â NĂŁo, deixa Cacau mesmo. Eu gostei, achei bem mĂĄsculo. NĂŁo Ă© mesmo, Cacau? â A Ă©gua apenas piscou, mais preocupada em mastigar. â Ela concordou.
Por algum motivo, aquela afirmação não aliviou nada o constrangimento que sentia.
Acho que falhei miseravelmente em alguma coisa aqui, sĂł nĂŁo sei dizer o quĂȘ.
O cavalariço retornou com as mãos cheias pouco tempo depois e começou a apresentar os equipamentos para Hero, que se aproximou do mesmo, iniciando um diålogo sobre preços, peças e qualidade.
VocĂȘ continuou parada no lugar por alguns minutos, apenas absorvendo a conversa e os assistindo de longe, atĂ© finalmente decidir sair da baia.
Fechou a parte inferior da porta com cuidado â temendo deixĂĄ-la entreaberta por engano â, e espiou a parte superior em um gesto impensado, antes de se virar para frente.
âVocĂȘ tem que acreditar em mim, elas tinham olhos brancos.â
âAs vacas! As galinhas⊠os porcos! Quando olhei para eles, nĂŁo vi nada, nĂŁo tinha pupila, nĂŁo tinha Ăris, nada!â
Foi råpido, seu cérebro mal assimilou, tão råpido que, quando percebeu, suas orbes nem mais estavam na criatura.
Voltou-se prontamente para trĂĄs. A agora nomeada Cacau estava parada, cabeça erguida, te observando; suas Ăris possuĂam um tom escuro de marrom, mas vocĂȘ podia jurar que, atĂ© poucos segundos atrĂĄs, elas estavam brancas.
A palma da tua mĂŁo encontrou caminho para o teu rosto, vocĂȘ esfregou a ponte do nariz com as orbes ainda coladas no rosto dela, como se duvidasse do que via.
Uau⊠O que aquele senhor me falou mais cedo realmente ficou preso na minha cabeça. Pensou, com certo espanto e incredulidade. Fiquei cansada da viagem a ponto de estar imaginando coisas, francamente. Recomponha-se, (Nome)!
Cacau soprou pelas narinas, produzindo um barulho baixo. Ela estava concentrada em vocĂȘ e te seguiu com o olhar mesmo quando vocĂȘ nĂŁo estava mais vendo; isto Ă©, atĂ© ela decidir que o feno era mais interessante e retornar a atenção para ele.
Hero pagou pelos apetrechos e vocĂȘs se retiraram do estĂĄbulo, tornando-se novamente vulnerĂĄveis Ă brisa amena que rondava pela vila, agora jĂĄ quase que completamente banhada no anoitecer. As estrelas começavam a brilhar timidamente no cĂ©u e a lua, apoteĂłtica, serena, resplandecente, parecia dar um meio sorriso, como se os cumprimentasse ao mesmo tempo em que os iluminava. O cantar de cigarras e sapos ecoou de algum lugar prĂłximo, embalando-os em uma doce canção.
O andarilho perguntou mais uma vez se estava com fome, informou que iriam fazer uma pausa para comer em uma taverna. VocĂȘ apenas concordou e o deixou te guiar pelas ruas pouco movimentadas.
Um cheiro de pĂŁo fresco e carne assada invadiu suas narinas quando adentraram o estabelecimento, risadas e burburinhos amistosos eram abafados pela mĂșsica que um bardo tocava alegremente, ditando o ritmo dos movimentos de quem dançava no centro.
VocĂȘs se sentaram em uma mesa prĂłxima ao balcĂŁo, corpos rodopiavam energeticamente prĂłximo de onde estavam. Um taberneiro os recepcionou e anotou seus pedidos.
â O pessoal daqui Ă© bem animado â comentou, vendo um casal gargalhar enquanto girava.
â Eles estĂŁo comemorando.
â NĂŁo sei, eles estĂŁo sempre comemorando.
Tuas sobrancelhas se ergueram. NĂŁo que em Roosevelt nĂŁo tivesse isso, mas as pessoas eram bem menos⊠barulhentas? Bem, essa nĂŁo era exatamente a palavra que queria usar, mas era a Ășnica que vinha Ă mente no momento.
Com um suspiro, vocĂȘ puxou a bolsa que carregou consigo durante toda a viagem e a apoiou em seus pĂ©s, abrindo o zĂper.
â Vai tentar resolver seus assuntos ainda hoje?Â
â Hm? NĂŁo. JĂĄ estĂĄ ficando tarde, amanhĂŁ eu resolvo.
Enquanto ele falava, vocĂȘ puxou o livro que havia guardado mais cedo e o dispĂŽs na sua frente, despertando a atenção de seu parceiro, que encarou curiosamente a capa grossa.
Seus lĂĄbios se contraem inevitavelmente para a pergunta; vocĂȘ folheia algumas pĂĄginas, arrastando as orbes pelo conteĂșdo.
â Uma forma que encontrei de passar o tempo com todos os possĂveis nomes que vocĂȘ pode ter. â Para por um momento, analisando uma lista em particular, alguns nomes ali lhe eram familiares, outros vocĂȘ jĂĄ atĂ© mesmo havia palpitado anteriormente. â Na realidade, eu trouxe pensando em usar durante o tĂ©dio da viagem⊠mas a Cacau tornou tudo bem mais rĂĄpido.
Uma pequena risada surpresa escapou dele, que se recostou sobre o tampo.
â Uau, estĂĄ tĂŁo interessada assim em mim?
Teus movimentos param por um segundo.
â ⊠Eu nĂŁo⊠nego um desafio. Stefan?
O andarilho gesticula, negando silenciosamente.
â VocĂȘ quer mesmo saber meu nome, hein?~
â Bom, vocĂȘ Ă© quem insiste que preciso adivinhar. Noah?
Ele balançou a cabeça, descartando mais um.
â Verdade, mas⊠eu nĂŁo imaginei que iria se esforçar tanto, senhorita guerreira. â Inclinou-se mais perto, apoiando a bochecha no punho.
Ignorou-o, avançando as påginas e recitando vårios nomes.
â Lorenzo? Murilo? Vicente? Isaac? ThĂ©o? Rafael? Ă sĂ©rio, nenhum? â Bufou ao receber a confirmação. â NĂŁo Ă© nada fĂĄcil adivinhar o nome de alguĂ©m⊠Ah, qual Ă©, me dĂĄ pelo menos uma dica!
â Eu acredito no seu potencial.
Massageando as tĂȘmporas, o fitou com incredulidade.
â AlguĂ©m jĂĄ te falou que vocĂȘ Ă© insuportĂĄvel?
â E alguĂ©m jĂĄ te falou que fica adorĂĄvel frustrada?
Seus dedos vacilaram no papel. Céus, ele estava fazendo de novo.
O que ele quer exatamente com isso?!
Um pequeno calor que gostaria muitĂssimo de aniquilar começou a se alastrar sem permissĂŁo por suas bochechas, vocĂȘ tentou falhamente escondĂȘ-lo abaixando mais o rosto. NĂŁo estava acostumada a ser chamada por adjetivos fofos, afinal, era uma guerreira noturna, vocĂȘ nĂŁo era exatamente âadorĂĄvelâ.
â Ah, vocĂȘ ficou envergonhada, que graça⊠â Ele estava obviamente, claramente, certamente e indubitavelmente te provocando naquele momento, e se deleitando disso. â Mas, respondendo sua pergunta: nĂŁo.
Tuas sobrancelhas se enrugam, vocĂȘ nĂŁo se deixa abalar.
Ele nĂŁo respondeu, optando por te assistir com diversĂŁo. VocĂȘ estudou o Ăndice do livro por um momento, antes de pular metade das pĂĄginas.
â Kotaro? â Hero sacudiu a cabeça.Â
â Vamos deixar essa brincadeira mais divertida. Que tal fazermos uma aposta?
â Aposta? Vamos apostar o quĂȘ?
Apoiando o queixo na mĂŁo, Hero sorriu de maneira sapeca.
â Se vocĂȘ acertar meu nome, eu te dou um prĂȘmio.
â Fica a seu critĂ©rio.
A oferta te pegou desprevenida. Ele acabara de te dar uma liberdade de escolha perigosamente grande para uma mera aposta; ou estava confiante de que vocĂȘ nĂŁo conseguiria, ou realmente nĂŁo se importava com o rumo que aquilo poderia tomar.
VocĂȘ o fitou, desconfiada.
â Estou sentindo um tom muito convencido nessa proposta.
â Tudo bem, nesse caso quero que vocĂȘ tire essa venda.
Sua postura despreocupada quebrou instantaneamente, seus lĂĄbios se entreabriram e, por bons segundos, ele parecia verdadeiramente atordoado.
â Oh? JĂĄ estĂĄ pedindo para eu me despir? Nossa, senhorita guerreira, nĂŁo imaginei que vocĂȘ fosse tĂŁo pervertida â falou, voltando ao estado arrojado de sempre, como se nada tivesse acontecido.
â O quĂȘ?! NĂŁo foi isso que eu⊠â parou de se explicar quando o percebeu segurar a risada, um som de descontentamento fez sua garganta vibrar. â VocĂȘ Ă© o Ășnico que estĂĄ levando essa conversa para um rumo indevido.
â E vocĂȘ nĂŁo estĂĄ me impedindo.
Abriu a boca para responder e fechou-a logo em seguida, analisando o rosto dele, buscando uma resposta que ali nĂŁo estava.
â VocĂȘ Ă© uma alma incorrigĂvel â disse, por fim, negando com a cabeça.
Como resposta, ele soprou ar jocosamente.
â Percebeu isso em tĂŁo poucos dias? Uau, Ă© realmente uma boa observadora.
Se vocĂȘ ganhasse uma esmeralda por cada vez que ele Ă© sarcĂĄsticoâŠ
â E se eu perder a aposta? â questionou, depois de ponderar um pouco mais.
â O quĂȘ? JĂĄ estĂĄ pensando em perder?
â NĂŁo foi isso que quis dizerâŠ
â Acha que nĂŁo consegue descobrir meu nome?Â
â VocĂȘ sabe quantos nomes existem no mundo?
Poupou uma espiada no volume de påginas que o livro tinha⊠aquilo não devia ter nem metade. Hero subiu os ombros de maneira brincalhona.
Respirou fundo, o aroma de carne penetrando ainda mais suas narinas, então o imitou e também se inclinou para frente, semicerrando as pålpebras.
â ⊠à algum fetiche seu?
â Essa coisa de ser todo misterioso e fazer suspense sobre si mesmo.
Ele quase parecia contrariado enquanto visivelmente buscava palavras para responder.
â NĂŁo é⊠NĂŁo Ă© questĂŁo de fetiche.
A pergunta era genuĂna, mas, a partir daquela resposta, deixou de ser. Algo se iluminou na sua cabeça quando vocĂȘ percebeu que era a chance perfeita para provocĂĄ-lo de volta.
Ele, que estava sempre flertando e prosperando com suas reaçÔes confusas. VocĂȘ nĂŁo podia deixar a oportunidade escapar.
Esticando os lĂĄbios em um gesto consciente de astĂșcia, apoiou a cabeça nas costas da mĂŁo e o estudou.
â Tem certeza? porque âtĂĄ começando a parecer que vocĂȘ estĂĄ saboreando a precipitação.
â Quer tanto assim me ouvir chamando seu nomeâŠ?
O taberneiro se atrapalhou com os pratos, um copo quase caiu.
O mais puro e completo silĂȘncio.
Que pĂ©ssimo momento para o atendente chegar. A vergonha começou a arranhar suas entranhas, tentando desesperadamente consumir todo o seu ser, mas vocĂȘ permaneceu imutĂĄvel, nĂŁo deixando transparecer nada em seu rosto.
Para o seu espanto, a reação do andarilho foi algo completamente inesperado. Sem comentĂĄrios sarcĂĄsticos, sem respostas na ponta da lĂngua, ele ficou calado e, lentamente, se endireitou na cadeira. Parecia perplexo, envergonhado.
â Eu nĂŁo- Eu⊠â balbuciou, se atrapalhando. VocĂȘ notou como suas bochechas bronzeadas lentamente começavam a escurecer.
Embora estivesse deleitosamente surpresa, esperou pacientemente o taberneiro se retirar para prosseguir, em prol da sua dignidade.
â VocĂȘ estĂĄ corado â uma curta risada nasalada te escapou.
â N-nĂŁo â gaguejou, puxando o capuz para baixo e escondendo o rosto.
Cachorro que muito late nĂŁo morde.
Preparou-se, entĂŁo, para comer. Suas Ăris varreram o ambiente de maneira breve e puramente inconsciente.
Foi quando vocĂȘ viu, mais uma vez.
Um homem de estatura baixa, encostado no balcĂŁo, tinha suas orbes fixas na mesa de vocĂȘs, ele fitava Hero atentamente com uma expressĂŁo indecifrĂĄvel. Seus globos oculares eram como dois farĂłis, algo impossĂvel de nĂŁo perceber, mas, ainda assim, mais ninguĂ©m ali parecia ter percebido alĂ©m de vocĂȘ.
O observou, horrorizada. Estava acontecendo de novo.
O sujeito nĂŁo tardou a notar que vocĂȘ olhava quase que grosseiramente, sua cabeça se inclinou levemente para cima e, por um Ășnico momento, aquele oco vazio se redirecionou na sua direção.
Quando vocĂȘ piscou de novo, nĂŁo estavam mais vazios, nem brilhavam, tampouco eram brancos.
Eram castanhos, normais como os de qualquer outra pessoa naquela taverna, e te encaravam curiosamente.
Ele deu um pequeno sorriso, como se te cumprimentasse, e se retirou.
Seu coração palpitava tĂŁo forte no peito que vocĂȘ conseguia sentir aquela regiĂŁo da sua pele pulsar. Sugou ar para dentro da boca com uma força alĂ©m do necessĂĄrio, soltando a respiração que havia prendido sem se dar conta.
Derrubando as Ăris no seu prato de comida, vocĂȘ se escorou e apoiou a mĂŁo na testa.
Definitivamente nĂŁo estou no meu juĂzo perfeito.