No topo de uma montanha, bem perto do céu...
-No que você acredita? (Disse, jogando pequenas pedras no além)
- Sabe que a muito tempo eu não sei. (Respondeu, repetindo a mesma ação.)
- Mas já acreditou em alguma coisa alguma vez?
- Em muitas, (pensou) Passei boa parte da minha vida acreditando.
- Boa pergunta. O que me fez mudar? Consegue fazer a mesma pergunta pra si?
- Eu perguntei primeiro. (disse sorrindo).
- Acho que as decepções, as coisas que não deram certo, tudo que eu comecei e não consegui terminar, ações, pessoas, acontecimentos.
- E você acha que a culpa foi sua?
- pra falar a verdade eu não sei, acho que dei o meu melhor na maioria das situações, em outras já não tive a mesma disposição .
- E por isso acha que nada mais faz sentido ou que você não tem pelo que lutar ou querer continuar de uma forma que você não apenas exista?
- Se eu te pedir pra resgatar uma lembrança, acha que consegue?
- Vou criar uma situação e você vai vivê-la, ok?
(Balançou a cabeça com os olhos fechados e um sorriso bobo) - você é louca
- Eu sei (sorriu) agora só me escuta!
- Era uma vez... alguém que queria mudar o mundo, ela tinha uma sensibilidade admirável e adorava compartilhar com as pessoas a sua visão.
- Tá falando de você? (Disse ainda com os olhos fechados).
- Não, me deixa continuar.
- Ela lutava por igualdade social, política, meio ambiente e estava sempre tentando conscientizar as pessoas sobre as coisas que elas se negavam a ver.
- E quem se importa com isso nos dias de hoje?
- Eu? (Disse, com os olhos já bem abertos e arregalados).
- Sim, você. E é isso que te torna diferente da maioria das pessoas, você ainda se importa e eu admiro tanto isso. Você ainda é uma em um milhão. A sua forma de amar acolhe o mundo inteiro com tudo o que nele há.
- Mas isso dói e eu to cansada, ninguém liga. (Disse, olhando pra baixo)
- ei... (levantei o seu rosto com a ponta dos dedos e virei em minha direção) você liga! E a dor te faz sentir humana, assim como todo o amor que você deposita na vida.
- É, talvez eu nunca tenha parado pra pensar nisso, ou só não queira mesmo. É mais fácil viver dessa maneira.
- Olha quem fala, estamos no mesmo barco.
- Depois sou eu que sempre tenho uma desculpa pra tudo né? Vem comigo.
- Não importa, levanta...
- Se eu te pedir, você pula comigo ?
- Tá louca ? É muito fundo, vamos morrer obviamente.
- Não foi você que me disse que sente zero vontade de viver? Então não tem nada a perder.
- Eu to falando sério. Você confia em mim?
- É claro que eu confio né, idiota.
(Respirou fundo) - Tá, um...
- Me sinto livre, é confortável mas ao mesmo tempo, sinto que posso cair a qualquer momento.
- Bom, enquanto estivermos de mãos dadas, isso não vai acontecer.
- Como pode ter tanta certeza?
- Percebeu que paramos no meio do nada? A nossa ligação anula a queda e por mais perto que estejamos do chão, não corremos o risco de cair.
- E como isso é possível?
- Porque estamos na mesma sintonia, percebe que enquanto eu estou ligada à você, se eu der um passo, você automaticamente se move na mesma direção? (Disse, dando voltas pelo ar.)
- Uouuu, é verdade. E o que acontece se eu soltar a sua mão?
- Eu caio obviamente, nossas frequências mudam e seguimos caminhos opostos.
- Não no sentido literal. Mas boa parte sim.
- Mas talvez a minha queda seja maior, talvez não. Não da pra saber, até acontecer .
- E o que você quer me mostrar com tudo isso?
- Que é possível se reconstituir depois da queda. Você já caiu antes, certo?
- Sim, você também, nem vem .
- Sim amor, eu também (risos)
- Mas eu não quero me tornar dependente de ninguém de novo.
- Nem eu, então solta a minha mão.
- Algumas coisas estão além do que queremos sentir. E tudo bem.
- É... (disse fechando os olhos)
- Eu amo você (Disse a abraçando bem forte enquanto começava a chover)
- Eu amo você. (Encostou a cabeça no meu peito enquanto me abraçava)